Cultivar o não-conhecimento | Exercícios de empatia, 5

Ao invés de transformar as histórias dos outros em histórias nossas, podemos começar a abraçar, aceitar e acolher

Mesmo que tenhamos sucesso na hercúlea tarefa de ouvir as outras pessoas com atenção plena, muitas vezes fracassamos no próximo passo: não tratar suas vidas como um problema a ser resolvido.

Ao cultivar o não-conhecimento, perdemos aquela profunda certeza na propriedade dos nossos conselhos.

Então, em vez de julgar e opinar, podemos simplesmente aceitar e acolher.

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Esse é o quinto exercício de empatia. Antes de continuar a ler, ou de fazer o exercício, por favor, leia o primeiro texto dessa série, onde eu contextualizo os exercícios.

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Interagir de forma menos egoica


No encontro "As Prisões", praticamos uma versão do quarto exercício de empatia "Ouvir com atenção plena".

As pessoas contam suas histórias de vida e as outras escutam sem interromper e sem olhar para retângulos luminosos. E, quando uma pessoa termina, as outras se abstém de:

1. Contar um caso equivalente que aconteceu com elas ou com pessoas conhecidas: "menina, meu tio foi assaltado desse mesmo jeito!"

2. Dizer o que a narradora deveria ter feito: "você não devia ter reagido, tá louca!"

3. Dizer que teriam feito no lugar da narradora: "se fosse comigo, eu virava a mão na cara dele!"

Ocasionalmente, alguma das pessoas participantes questiona as regras do exercício:

"Não pode falar nada, é isso?"

Mas contar um caso equivalente, dizer o que a pessoa deveria ter feito ou o que você teria feito não são as únicas maneiras de interação com uma pessoa que acabou de se abrir.

São apenas as maneiras mais comuns, mais rasas, mais egoicas de interagirmos com os relatos de outras pessoas.

São apenas três diferentes maneiras de pegarmos uma história de outra pessoa e transformá-la em uma história... sobre nós, sobre nossa vida, sobre nossos valores, sobre nossos julgamentos, sobre nossas opiniões.

Os exercícios de empatia, para quem quiser praticá-los, têm como objetivo justamente quebrar esse padrão e promover novos tipos de comunicação não-rasa.

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Quando proponho esse exercício, uma outra objeção que costuma surgir é:
 

"Não pode aconselhar? Não pode ajudar? Temos que nos omitir?"


Ou a variante:
 

"E se a pessoa pedir conselho? E se ela quiser saber o que eu faria, o que eu acho que deveria ter feito?"


Não cabe a mim dizer o que ninguém pode ou não pode, deve ou não deve fazer. Os exercícios de empatia são propostos como práticas voluntárias para as pessoas dispostas a encarar o desafio. Para quem acha que os exercícios são insensatos ou impraticáveis, a melhor postura é simplesmente não fazê-los.

Mas, antes que desistam, eu conto uma historinha.
 

Como não aconselhar: a chefa do meu amigo


Uma vez, um amigo veio desabafar comigo:

"Minha chefa tem estado uma pilha de nervos a semana inteira. Por causa disso, todas as pessoas do escritório estão tensas, estressadas. Aí, hoje, de repente, na frente de toda a minha equipe, ela desancou meu último relatório, me chamou de idiota pra baixo. O que acha que devo

Quase toda pergunta já traz em si a resposta desejada


Muitas vezes, pedimos conselhos não para "saber o que devemos fazer", mas para validar as decisões que já tomamos — nem que essa decisão tenha sido tomada apenas em um nível ainda não consciente.

Nesse caso, meu amigo aparentemente queria minha benção para mandar a chefa à merda e se demitir desse emprego.

Caso sua decisão fosse outra, outra teria sido sua história. Digamos que tivesse me contado o seguinte:

"Lembra aquela chefa de quem te contei? Que foi a primeira a me dar uma chance quando eu ainda nem tinha currículo? Que me promoveu várias vezes dentro da empresa? Pois é, descobriu que o marido está com câncer na semana passada e está uma pilha. Dando patada em todo mundo. Hoje, por exemplo, me desancou na frente da minha equipe toda, nunca me senti tão humilhado. O que você acha que devo fazer?"


Quem conta essa segunda história está em busca de outro tipo de validação, está esperando que eu responda algo como:

"Fica assim, não. Perdoa sua chefa. Ela está nervosa. Daqui a pouco, com certeza, vai pedir desculpas. Todas as colegas sabem que ela está uma pilha, vão dar um desconto. Pensa em tudo o que ela fez por você e pela sua carreira. Não é fácil encarar um câncer na família. Etc etc."

Não existe mensagem sem contexto


Ao narrar uma história, escolhemos não só os fatos que vamos contar e os que vamos omitir, mas escolhemos também PARA QUEM vamos contar esses fatos.

Empatia:

No meu caso, por exemplo, como já escrevi que o trabalho é uma prisão, as pessoas em geral esperam que o meu conselho seja uma variação de:

"Larga essa vida! Sai desse emprego! Vai fazer o que te faz feliz! Etc."

(Nota: nunca é.)

Então, quando precisam que alguém valide sua decisão de sair de seus empregos, a tendência é escolherem contar suas histórias para mim — e não, por exemplo, para a prima que trabalha para o Banco do Brasil há vinte anos.Muitas vezes, pulamos de amiga em amiga recontando o mesmo conto e aumentando vários pontos até finalmente encontrarmos alguém que valide nossa decisão prévia.

A vida das outras pessoas não é um problema para resolvermos

Em minha vida, tento exercer uma postura de não-conhecimento e de não-opinião.

Mais importante do que determinar qual é a atitude "certa" que meu amigo deve tomar, mais importante do que encarar sua história como um problema a ser resolvido ou como um teste que tem uma resposta certa, lembrando sempre que não leio pensamentos e posso estar errado, minha atitude é simplesmente ajudá-lo a entender ou articular o que ele mesmo já decidiu ou está prestes a decidir.

"Estou aqui, do seu lado, pra te acolher, pra te ouvir, pra te ajudar na decisão que escolher, mas não tenho conhecimento o suficiente para saber o que você deve fazer. Pela história que contou, porém, me parece que está inclinado a pedir demissão."

O verdadeiro conhecimento é mais do que a soma de todos os fatos

Meu amigo não gostou:

"Como assim "não sabe?" Acabei de te contar a história toda!"

Nesse ponto, a pessoa ostensivamente em busca do conselho pode se sentir tentada a empilhar detalhe em cima de detalhe sobre nós, até não podermos mais alegar "falta de conhecimento" para opinar.

O problema é que o somatório de todos os detalhes do universo não seria jamais suficiente para nos fornecer o conhecimento necessário para saber como outra pessoa se sente, para saber o que outra pessoa deveria fazer.

Em relação à história do meu amigo, somente alguns exemplos de coisas que eu não sei e que poderiam influenciar minha opinião sobre o que deveria fazer:

Foi a primeira vez que a chefa foi rude com ele? Ela é rude com outras pessoas ou só com ele? Ela tem outras características positivas? Quais? Que tipo de pessoa ela é fora do trabalho? Há quanto tempo trabalham juntos? Como é sua relação profissional? O tal relatório que desancou estava ruim mesmo? Era um relatório importante? Como está o mercado de trabalho em sua área de atuação? Seria difícil arrumar um novo emprego nessa área? Se saísse desse emprego, aliás, continuaria na mesma área? Ele é conhecido ou renomado em sua área de atuação? Já tem alguma oferta de trabalho engatilhada? Comparado aos outros profissionais dessa área, ele é mais ou menos competente do que a média? Tem dinheiro economizado para os meses sem renda? Tem despesas altas que se acumulariam caso ficasse sem renda? etc etc

Se meu amigo poderia empilhar fatos eternamente para me dar os subsídios para opinar, eu também poderia empilhar perguntas eternamente para demonstrar minha falta de subsídios para opinar.

Nem todos os fatos do mundo seriam suficiente para me dar acesso à enormidade e à complexidade da experiência de meu amigo consigo mesmo, com seu trabalho, com sua chefa.

Abraçar, aceitar, acolher

A partir de uma postura de não-conhecimento e de não-opinião, eu de fato não tenho como dizer ao meu amigo o que deve fazer, mas isso não quer dizer que eu não posso ajudá-lo.

Caso decida ficar no emprego, posso dar dicas sobre como evitar conflitos com a chefa nessa fase estressante, ou posso aparecer em sua casa com uma garrafa de vinho e fazer um jantar para ele.

Caso decida sair do emprego, posso ajudá-lo a conseguir outra colocação, posso revisar seu currículo, posso hospedá-lo em minha casa, posso lhe emprestar dinheiro.

Decida ele o que decidir, posso continuar me dispondo a ouvi-lo, uma das principais maneiras de ajudar qualquer pessoa.

Sem nunca me colocar na posição de "guru-que-tudo-sabe", eu sempre posso...

Abraçar. Aceitar. Acolher.

Uma prática constante de não-conhecimento

O quinto exercício é menos um exercício e mais uma prática diária e constante. Para muitas de nós, ocupar esse espaço do não-conhecimento pode ser especialmente penoso e, para fugir dessa dor, aproveitamos qualquer oportunidade ("sobre isso, eu sei mesmo!") para outorgar nossa ó-tão-importante opinião, lastreada em nosso ó-tão-profundo conhecimento.

Os monges budistas, quando se sentem tentados a violar seus votos de castidade, apelam para o seguinte truque mental: tentam visualizar seu objeto do desejo não como uma pessoa, mas como um saco de órgãos, coração, fígado, rim, sangue circulando pelas veias, fezes se acumulando no intestino reto, tudo isso lentamente apodrecendo em direção à morte.

Sempre que estivermos tentadas a subir no atraente pedestal do conhecimento, para assim distribuir sábios conselhos à pobre ralé lá debaixo, podemos apelar para um truque mental semelhante:

Listar nossas dúvidas, visualizar nossas lacunas, encarar nosso não-conhecimento sobre aquela questão.

Ao fazer isso mentalmente, vamos talvez erodir nossa certeza em nosso conhecimento e na propriedade de nossos conselhos e, quem sabe, consigamos até ficar caladas.

Ao fazer isso verbalmente, vamos talvez ajudar nossa interlocutora a refletir sobre sua situação e a decidir o que fazer por si só  — sem que sejam necessários nossos ó-tão-adequados conselhos.

E, de qualquer modo, mesmo que consigamos refrear nossos impulsos egoicos, será sempre uma vitória efêmera: na próxima frase, na próxima interação, na próxima pessoa, no próximo pedido de conselho, zera tudo e começamos mais uma vez.

 

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Exercícios de empatia, a série completa

1. Praticar um olhar generoso

2. Dar-se conta das pessoas

3. Ver na sua totalidade

4. Ouvir com atenção plena

5. Cultivar o não-conhecimento

6. Exercer a não-opinião

7. Não ser a constante

8. Colocar-se em outra pessoa

9. Escolher agir com empatia

10. Visualizar o privilégio

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Três avisos importantes sobre meus textos

Eles falam sempre sobre e para as pessoas privilegiadas, justamente para tentar fazê-las ter consciência de seus enormes privilégios. (Leia também Carta aberta às pessoas privilegiadas e Ação de graças pelos privilégios recebidos);

Buscam sempre usar uma linguagem de gênero neutra (Para mais detalhes, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua);

E são sempre todos rigorosamente ficcionais. (Ou não: Alex Castro não existe, só o texto importa. Em caso de dúvida, consulte minha biografia do meu site pessoal.)

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publicado em 28 de Janeiro de 2015, 17:33
File

Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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