Lançamos nosso primeiro ebook! Vem conhecer as 25 crises do homem (e como superá-las)

Outrofobia

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Outrofobia. s.f. Rejeição, medo ou aversão ao Outro. Termo genérico utilizado para abarcar diversos tipos de preconceito ao Outro, como machismo, racismo, homofobia, elitismo, transfobia, classismo, gordofobia, capacitismo, intolerância religiosa, etc.

* * *

De repente, percebi que passei os últimos anos escrevendo sobre um conceito que não tinha nome.

Meus textos tinham frases como:

"O fato de os homens serem a maior parte das vítimas da violência não quer dizer que a violência não é machista. Quer dizer que, além de machista, ela é classista, racista, homofóbica, transfóbica."
ou
"Pouco importa o que a gente é (sermos machistas, racistas, homofóbicas, elitistas, transfóbicas, gordofóbicas, capacitistas, etc): o importante é o que a gente faz (termos atitudes machistas, racistas, homofóbicas, elitistas, transfóbicas, gordofóbicas, capacitistas, etc)."

E eu pensava: gente, tem que ter um jeito melhor de falar isso!

Procurei, procurei, não encontrei.

Então, inventei.

Outrofobia.

* * *

No último mês, aproveitei para reescrever todos os meus principais textos sobre outrofobia.

Esclareci pontos obscuros, cortei trechos que não me agradavam, acrescentei parágrafos, extirpei mais um pouco do sexismo na linguagem.

Certamente, estão entre os melhores textos que escrevi.

Manual para uso não-sexista da língua

Talvez a grande contribuição da filosofia durante o último século tenha sido essa:As palavras importam. A linguagem molda o mundo.Vale a pena brigar por isso. Não é uma luta vã.

Leia o texto completo: Manual para uso não-sexista da língua

Uma história de quatro pessoas

Só fui aprender muito depois que brincadeiras apenas são brincadeiras quando o outro tem a liberdade e a intimidade de brincar de volta, ou de te mandar pro inferno. Brincadeira de cima pra baixo tem outro nome: humilhação.

Leia o texto completo: Uma história de quatro pessoas

esmola.

O mal é a falta de atenção

Eu poderia tentar argumentar: perdão, sou tão distraído, minha cabeça está cheia de problemas, não lembrei mesmo…

Mas a distração que me faz esquecer não é o que me justifica: é o que me condena.

Gostaria de poder dizer que sou uma pessoa boa que tem péssima memória e é muito distraída.

Mas não: minha péssima memória e minha extrema distração são sintomas de meu profundo desinteresse por tudo que não diga respeito a mim.

Leia o texto completo: O mal é a falta de atenção

História de um homem ridículo

Estava eu sentado em uma mesa de calçada, tomando meu café da manhã, quando passa por mim um homem ridículo.

Andando pela rua de forma confiante e decidida. Completamente ignorante do fato de ser tão ridículo. De estar tão fora do padrão, da regra, do correto. De ser tão feio, tão mal-vestido, tão tosco.

O homem ridículo estava todo errado.

Leia o texto completo: História de um homem ridículo

Senzalas & campos de concentração

Visto de fora por pessoas não-europeias, que sabem na pele que a civilização europeia se baseia em praticar o barbarismo fora da Europa, o Holocausto não representaria "uma anomalia transcendental no desenvolvimento do Ocidente", mas, pelo contrário, sua singularidade estaria apenas na aplicação do contrato racial contra europeus.

Ao colocar o Holocausto no contínuo cultural de outras políticas exterminatórias colonialistas europeias, Mills não deseja negar o seu horror, mas somente sua singularidade histórica.

Tudo o que o nazismo tinha de operacional já vinha sendo aplicado, legitimado, tolerado, negado e esquecido pelas potências europeias há muitos séculos: a maior transgressão de Hitler, portanto, teria sido aplicar "em casa", na Europa, contra pessoas brancas e europeias, métodos que antes eram aplicados exclusivamente contra pessoas árabes, negras, indígenas.

Leia o texto completo: Senzalas & campos de concentração

escravidão.

Imigrantes sim, mas de que cor?

O Brasil sempre precisou de braços estrangeiros, mas existem braços e braços. Quem até ontem era importada e comprada por muito dinheiro hoje não é desejada nem de graça.

Já em 1890, meros dois anos após a Abolição e no primeiro ano da nova e democrática e cidadã república, o Brasil proibia explicitamente a imigração de pessoas africanas. A lei seria complementada e reforçada em 1920 e 1930, para proibir não apenas as pessoas africanas, mas também qualquer pessoa que se parecesse com elas.

No Brasil, como diz o ditado racista, nunca precisamos de leis de segregação racial porque "os negros sabem o seu lugar". De fato, nosso país sempre foi tão racista que as leis nunca precisaram ser: basta colocar as coisas de forma vaga e confiar no nosso racismo histórico.

Leia o texto completo:  Imigrantes sim, mas de que cor?

haiti.

O peso da história: a escravidão e as cotas

Sem esse capital socioeconômico e cultural acumulado pelo meu bisavô em 1888 (para não irmos mais longe), onde teria ido parar a cadeia de acontecimentos que desembocou na minha vida? Estaria eu, nesse momento, sadio e medindo 1,80m, cursando um doutorado no exterior e escrevendo essas linhas? Dentre minhas realizações, quantas são exclusivamente por mérito meu e quantas são consequência direta da vida privilegiada que eu e meus antepassados levamos? Que tipo de dívida eu, pessoalmente, tenho com as pessoas que não tiveram tanta sorte? Será ético simplesmente dizer "sorte minha, azar deles, e foda-se, hoje já nivelou tudo e no vestibular todos têm chances iguais"?

Dado que os efeitos nocivos da escravidão ainda se fazem sentir na pele dos bisnetos e bisnetas das vítimas diretas, não é tarde demais para serem indenizadas pelo Estado.

Leia o texto completo: O peso da história: a escravidão e as cotas

cotas.

Feminismo para homens: um curso básico

Nenhum homem é inocente dos crimes do machismo. 

Mesmo que nunca tenha feito nada de errado, todo homem se beneficia da estrutura de dominação criada pelo machismo. 

Se a vida fosse um videogame, ser homem, branco hétero seria com certeza o nível de dificuldade mais baixo.

Leia o texto completo: Feminismo para homens: um curso básico

feminismo.

A fácil paternidade

A menina tem quatro anos.

Ela chega da escola às quatro da tarde e vai dormir às nove da noite: durante essas cinco horas, domina totalmente a casa. A mãe tem que parar tudo para antecipar suas necessidades. Não consegue completar uma frase. Manter um diálogo se torna impossível. Quando a menina não está pulando em cima dela e interrompendo nossa conversa, está jogando videogames barulhentos, assistindo filmes e gritando junto com os personagens, pedindo comida ou reclamando da vida – são impressionantes as crises existenciais dos quatro anos.

O pai mora em outra cidade, liga quase toda noite, não manda chequinho porque ganha pouco, fica com a filha um fim-de-semana a cada dois meses e se acha o melhor pai do mundo, amoroso e participante.

Eu, que também gosto dele, não tenho coragem de corrigir.

Leia o texto completo: A fácil paternidade

paizão;

Cavalherismo é machismo

Nenhum marido abusivo é abusivo todo dia, o dia todo. O homem que hoje bate na sua cara amanhã traz flores. 

Essas flores são o cavalheirismo.

O cavalheirismo é dizer:

Desculpa eu te dominar há milênios, te impedir acesso ao mercado de trabalho, controlar seu corpo e te estuprar. Mas, ó, estou carregando sua mala, e ainda pago a conta do motel. Com todas essas vantagens, pôxa, você não tem do que reclamar!

Leia o texto completo: Cavalherismo é machismo

cavalheirismo.

O poder do exemplo: sobre homens no feminismo

Nenhuma pessoa — e com certeza nenhum homem, mesmo o mais pró-feminista leitor de Simone de Bouvoir — está acima de fazer comentários machistas ou de ter atitudes transfóbicas. É preciso analisar todo dia nossas ações & nossas palavras. É preciso muita autocrítica. É preciso sempre saber ouvir.

Falar o feminismo é a parte fácil. Agir o feminismo, todos os dias, é que são elas.

Leia o texto completo: O poder do exemplo: sobre homens no feminismo

exemplo.

Carta aberta às pessoas privilegiadas

É comum ouvir as pessoas privilegiadas (homens, brancas, cis, ricas, etc) reclamarem que as militantes de causas marginalizadas (movimento negro, LGBT, trans, feministas, indígenas, ateus, etc) são agressivas, defensivas, estressadas, etc.

Mas é fácil ser uma pessoa calma e tranquila quando se está sentada no topo da pirâmide. Quando se possui todas as vantagens e todos os direitos e todas as seguranças. Quando não se é diariamente encoxada no metrô ou revistada pela polícia. Quando suas comunidades não são invadidas ou remanejadas ou inundadas.

Talvez as militantes estejam mais estressadas que você, ó pessoa privilegiada, porque além de sofrer tudo o que sofrem todas as pessoas marginalizadas, elas também veem.

Veem e gritam.

Leia o texto completo: Carta aberta às pessoas privilegiadas

opressão.

O assunto não é você

Poucos conselhos são mais perversos e canalhas do que o popular "trate as outras pessoas como gostaria de ser tratada".

Não é verdade. Sabe por quê? Porque a outra pessoa é uma outra pessoa. Porque ela teve outra vida, outras experiências. Porque ela tem outros traumas, outras necessidades. Basicamente, porque ela não é você; porque você não é, nem nunca vai ser, nem deve ser, a medida das coisas.

Se você se usa como parâmetro para qualquer coisa, talvez devesse pensar duas vezes. A outra pessoa deve ser tratada não como você gostaria de ser tratada, mas como ela merece e precisa ser tratada."

Leia o texto completo: O assunto não é você 

homofobia.

Ação de graças pelos privilégios recebidos

Nenhuma dessas graças que recebi foi mérito meu. Não posso me orgulhar de nenhuma delas.

A meritocracia é uma mentira. Não existe, nunca existiu, não poderia existir.

Se eu não tivesse recebido qualquer uma dessas graças, minha vida teria sido outra. Quem sabe, nem começasse. Quem sabe, acabasse muito mais cedo. Teria eu conseguido publicar romances ou fazer pós-graduação? Não ser estuprado, encarcerado, linchado? Quem sabe?

Essas graças, cada uma delas, sem exceção, são privilégios.

Talvez você compartilhe alguns dos meus privilégios. Talvez, todos."

Leia o texto completo: Ação de graças pelos privilégios recebidos

privilégio.

Carta aberta às humoristas do Brasil

As pessoas que trabalham com humor são livres para fazer piadas sobre o que quiserem. Mas também são pessoas cidadãs dotadas de consciência. Os números da violência contra a mulher são impressionantes. Somos o país que mais mata gays. Jovens negros são vítimas da maioria desproporcional dos homicídios.

A escolha é nossa, tanto humoristas quanto consumidores e repassadores de humor: queremos ser parte da solução ou parte do problema? Queremos estar do lado de quem mata ou estender a mão à quem está morrendo?

A discussão não é abstrata. Não estamos falando sobre princípios filosóficos. Tem gente morrendo agora.

Os humoristas alemães que faziam piadas de judeu em 1935 não são inocentes de Auschwitz não.

Leia o texto completo: Carta aberta às humoristas do Brasil

O desabafo da moça do crachá

Não me adianta nada esse seu carinho.Não adianta falar meu nome com um sorriso e me tratar como pessoa humana, ao mesmo tempo em que prestigia com as suas compras o mesmo engenho que diariamente me desumaniza. Não adianta se vestir de branco e fazer passeata de mãos dadas contra a violência e contra a corrupção, bichos-papões convenientemente vagos e abstratos (alguém é pró-corrupção ou pró-violência, buana?), ao mesmo tempo em que elege e reelege os mesmos políticos com as mesmas plataformas pró-mercado & pró-indústria, anti-trabalhador & anti-assistência.Eu não quero nem o seu bom-dia, nem o seu sorriso. Não quero seu falso carinho, sua falsa intimidade, sua falsa preocupação. Eu não quero ouvir sua voz pronunciando meu santo nome em vão. Eu quero justiça social, direitos iguais, assistência do estado. Eu quero que as autoridades públicas, que a polícia, que os meus empregadores, que os clientes que eu atendo, que os homens que me assediam na rua, reconheçam em mim a mesma humanidade, a mesma individualidade, a mesma subjetividade que veem em si mesmos. É pedir muito?

Leia o texto completo: O desabafo da moça do crachá

O baralho viciado

Nossa sociedade não se organizou sozinha, nem caiu pronta do céu: foi organizada por muitos homens (ênfase em "homens"), ao longo de muitos séculos, e obedece, em larga medida, aos interesses de quem a organizou – interesses muitas vezes conflitantes e contraditórios, pois a sociedade é fruto não de uma "conspiração a portas fechadas", mas de um longo processo social e político.

No caso do Brasil, nossa sociedade foi engendrada por uma elite machista, classista, hierarquizada, racista, paternalista, hipócrita e autoritária, e continuamos funcionando de acordo com esse paradigma outrofóbico até hoje, mesmo que sob o verniz da democracia e do estado de direito.Então, se todas as pessoas brasileiras magicamente deixarem de ser outrofóbicas mas as estruturas e instituições permanecerem inalteradas, essa nossa hipotética sociedade sem machistas e sem racistas continuará intrinsecamente machista e racista, e marcada pela mais profunda outrofobia, pela mais crônica desigualdade racial e de gênero.

Acredito nos bons sentimentos de todo mundo, mas não deixo de achar incrível que, mesmo ninguém sendo machista ou racista nessa nossa sociedade tão linda, o resultado final é que as pessoas brasileiras do sexo feminino ou de pele mais escura (e gays e trans* e etc e etc) sempre acabam se dando pior. A Outrofobia sempre vence.

O baralho que herdamos já está viciado para beneficiar sempre um tipo específico de jogador. Não basta que os jogadores beneficiados simplesmente não trapaceem – pois, mesmo assim, vão continuar magicamente ganhando todas as partidas.

É necessário trocar de baralho.

Leia o texto completo: O baralho viciado

Outrofobia: textos militantes

A  maioria dos textos acima faz parte do meu livro Outrofobia: Textos Militantes.

Dá uma olhada. Você vai gostar.

Legenda

 


publicado em 11 de Fevereiro de 2014, 07:03
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Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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