Lançamos nosso primeiro ebook! Vem conhecer as 25 crises do homem (e como superá-las)

O mal é a falta de atenção

Minha distração não me justifica: ela me condena.

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Amiga falando do irmão com quem divide um apartamento:

"Ele  é uma pessoa boa, linda, incrível, tolerante, generosa... mas não lava a louça! Sai da mesa e deixa a louça toda lá, como se ela fosse magicamente se lavar sozinha, e quem tem que lavar tudo sou eu! Depois de já ter cozinhado sozinha!”
Maria Helena Vieira da Silva

Não cometer genocídio é facil

No nosso dia a dia, temos poucas oportunidades práticas de ativamente não-estuprar, não-roubar, não-torturar, não-cometer-genocídio, etc.

Não-matar não é uma decisão consciente que tomo todos os dias e da qual posso ter orgulho.

Somente não-estuprar não faz de mim uma pessoa boa.

Maria Helena Vieira da Silva

O mal é a falta de empatia

O mal é a falta de empatia. O mal são os olhos cegos e os ouvidos moucos. O mal é a desatenção e o auto-centramento. O mal é aquilo que sinceramente não me ocorre, que realmente não enxerguei, que juro que não ouvi, que não sei como fui esquecer.

O que é um batedor de carteiras comparado ao honesto pai de família que não enxerga nada a sua volta? Que não vê a esposa insatisfeita e desesperada, as filhas confusas e autodestrutivas, a sócia abrindo a garrafa de uísque cada vez mais cedo?

Maria Helena Vieira da Silva

O mal não é arrancar a Anne Frank do sótão: o mal é cruzar todo dia pelo seu porteiro com o braço engessado e nunca perguntar, nunca se preocupar, nunca nem reparar.

O mal não é ser dona de uma fazenda com duzentas pessoas escravizadas: o mal é ser contra uma nova estação do metrô porque vai destruir as arvorezinhas da sua praça e nunca te ocorrer das centenas de milhares de pessoas trabalhadoras que não têm carro, passam horas e horas em ônibus e terão suas vidas significativamente melhoradas por uma nova estação.

O mal não é a Estrela da Morte explodir Alderã: o mal sou eu relaxar do meu longo dia de trabalho curtindo um filme, depois de um belo jantar feito por minha irmã, e nunca me passar pela cabeça que ela teve um dia igualmente longo de trabalho, ainda por cima fez o jantar e agora está sozinha tirando a mesa e lavando a louça, e ainda perdendo a chance de ver o filme!

Maria Helena Vieira da Silva

O mal é a falta de atenção

Eu poderia tentar argumentar:

“Foi mal, sou tão distraído, minha cabeça está cheia de problemas, não lembrei mesmo...”

Mas a distração que me faz esquecer não é o que me justifica: é o que me condena.

Gostaria de poder dizer que sou uma pessoa boa que tem péssima memória e é muito distraída. Mas não. Minha péssima memória e minha extrema distração são sintomas de meu profundo desinteresse por tudo que não diga respeito a mim.

Maria Helena Vieira da Silva

Eu não esqueço os nomes das editoras com quem tenho que fazer networking, o dinheiro que emprestei para uma amiga, o endereço da nigeriana com quem flertei na praia..

Eu esqueço de lavar louça (“puxa, fiquei aqui distraído do filme, esqueci totalmente da louça, agora ela já lavou, amanhã ajudo!”), de assinar o livro de ouro dos porteiros (“putz, com essa correria de natal, nem lembrei, mas tudo bem, ano que vem dou em dobro!”), de responder o email da amiga que pediu minha ajuda (“caramba, essa mensagem está na minha caixa de entrada há três anos, ela já deve ter resolvido sozinha.”)

É um de tantos paradoxos da vida narcisista: julgo os outros por suas ações, mas quero sempre ser julgado por minhas intenções.

Quando dirijo perigosamente e alguém me xinga, ainda me dou ao direito de me chatear:

Porra, será que ele não vê que estou com pressa? Respeito as leis do trânsito todo dia, mas hoje tenho aquela reunião importantíssima!

Não interessa o que seja: ou agi certo (e o mundo tem que reconhecer e me premiar, senão é muita injustiça) ou agi errado, mas por um motivo totalmente válido (e o mundo tem que reconhecer e me entender, senão é muita injustiça).

Hoje em dia, penso o contrário: qualquer comportamento meu que precise ser justificado ou racionalizado já está por definição errado.

Mais ainda: talvez eu não seja uma pessoa boa.

Maria Helena Vieira da Silva

Então, o que é ser uma pessoa boa?

Ser uma pessoa boa é não é apenas ajudar minha irmã a lavar a louça.

Ser uma pessoa boa é tornar-me uma pessoa para quem seria intolerável sentar para assistir um filme enquanto minha irmã lava toda a louça sozinha.

Maria Helena Vieira da Silva

Três avisos importantes sobre meus textos

Eles falam sempre sobre e para as pessoas privilegiadas, justamente para tentar fazê-las ter consciência de seus enormes privilégios (Leia também Carta aberta às pessoas privilegiadas & Ação de graças pelos privilégios recebidos);

Buscam sempre usar uma linguagem de gênero neutra (Para mais detalhes, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua);

E são sempre todos rigorosamente ficcionais(Ou não: Alex Castro não existesó o texto importa. Em caso de dúvida, consulte minha biografia do meu site pessoal.)

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Maria Helena Vieira da Silva

 

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As ilustrações desse texto são obras da artista portuguesa Maria Helena Vieira da Silva (1908-92).


publicado em 21 de Janeiro de 2013, 22:01
File

Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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