Você deveria pedir demissão

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Eu não tinha um emprego ruim. Era realmente bom. Um salário razoável, uma estabilidade de concurso público e larga flexibilidade nos horários.

"O que mais eu poderia pedir?"

Essa era a pergunta que me fazia todos os dias.

Um belo dia, logo após o almoço, abri meu Outlook e redigi um e-mail. Era oficial. Entrei no site da TAM e comprei uma passagem para o Chile. Eu estava demitido e tinha data para ir morar em outro país pelos próximos meses. Levantei elétrico, respirei fundo, caminhei até a janela e lembrei dos 8 anos que trabalhei ali.

Frio na barriga.

Ao contrário do que você pode pensar, não tenho um trabalho pela frente, nem mesmo um plano para me manter quando voltar do Chile e do programa de desenvolvimento de empreendedores que vou  participar.

O Bootcamp Exosphere é um programa intensivo desenvolvido para capacitar os participantes com habilidade, atitude e visão para iniciar uma vida no empreendedorismo. Aborda tópicos que vão desde a geração de recursos, desenvolvimento de produtos até programação e webdesign. O projeto vai reunir 30 pessoas de todo mundo e vai de 23 de setembro até 13 de dezembro, na cidade de Santiago no Chile. E agora eu estou indo pra lá.

A prisão do trabalho fixo

Nos ensinaram que dinheiro e segurança nos proporcionariam realização pessoal, então a gente tenta ganhar cada vez mais, mesmo que a satisfação nunca chegue.

Na clínica de dependentes químicos que um amigo trabalha, 90% dos pacientes são funcionários públicos do alto-escalão. Gente que ganha muito bem, mas se perdeu ao longo caminho que escolheu em busca da felicidade.

Link Youtube

Minha relação com as pessoas está incrivelmente diferente, principalmente as que mantinha por causa do trabalho. Parece que me libertei de algo que todos tentam e não conseguem.

Todas as pessoas um pouco mais velhas com quem conversei disseram a mesma coisa:

“Queria ter essa coragem.”

Eles não conseguem ver, mas é nítida a expressão de frustração quando dizem isso. Se todas essas pessoas têm vontade de largar seus empregos e chutar o balde, por que não fazem?

O retorno dos meus amigos também me surpreendeu bastante. Vejo agora que a percepção externa da minha relação com meu trabalho era a pior possível. Ouvi coisas fortes de pessoas que comemoraram minha decisão como se eu tivesse ganhado na loteria.

Talvez eles estivessem enxergando algo que eu não conseguia ver, uma trava que o emprego estável trouxe e nunca percebi. Até pessoas que moram bem longe e sabem bem pouco sobre essa minha relação com o trabalho me disseram palavras fortes.

A questão é que, por algum motivo, eu achava que estava feliz no meu emprego. Acreditava que tinha tudo que precisava e que não havia necessidade de mudar.

Era uma armadilha pronta e eu estava caindo direitinho.

O lado bom da demissão

Antes eu acreditava que perder um emprego era o pior cenário possível, mas acabou sendo um portal de oportunidades fantásticas. Sair da empresa foi uma janela mágica para um mundo onde tudo parece ser possível com o devido esforço.

Enquanto você depositar todas suas fichas no salário que pinga no fim do mês, estará condicionado a não fugir dessa realidade.

Esse trecho de um texto do Eduardo Amuri esclarece a ilusão de segurança e o tipo de armadilha que se constrói:

“Nos reservamos o direito de trabalhar quietos, sem palpitar, sem ousar, sem tentar enfiar a bola na gaveta porque temos a crença (muitas vezes correta) de que, se errarmos o chute, ficaremos desempregados. Falidos. Perdemos a chance de propor algo inovador, evitamos bater de frente com o chefe, contemos o questionamento. Muitas vezes, inclusive, deixamos de assumir a postura que a situação pede.
Seria fantástico ir para o trabalho da mesma maneira que um jogador de futebol vai jogar bola com os amigos no final de semana: livre de tantas expectativas. Nosso capitalismo selvagem, porém, nos impõe um pré-requisito bastante crítico para seguir vivendo bem: dinheiro.”

É bem raro assumirmos responsabilidade  pela nossa felicidade.

Você queria ser médico e salvar pessoas, mas reclama que não teve dinheiro. Sua mãe não pagou o cursinho. Gostaria de morar na Califórnia, mas sua mãe não te colocou no inglês. Diz que está velho demais para arriscar, o mundo não te deu oportunidade antes.

Tudo isso é besteira.

Pablo Picasso, desempregado e chutando o balde
Pablo Picasso, desempregado e chutando o balde

Se você ainda não morreu, pode dormir 2 horas a menos e estudar para o vestibular. Um amigo que já é formado e trabalha na área de educação física acabou de passar pra medicina, vai seguir o sonho. Você pode aprender qualquer ferramenta para mudar de profissão gratuitamente pela internet, incluindo idiomas. Um amigo que é empresário e tem várias lojas em Brasília largou toda a garantia e foi para os Estados Unidos. Hoje pilota aviões.

Você pode até arriscar e não conseguir, isso é fato.

Mas posso garantir: cada oito horas sentado nessa cadeira culpando a vida pelos seus problemas é um dia de liberdade que perde.

Receber um salário fixo todo mês é confortável, temos a sensação de missão cumprida por ter todas as contas pagas. Enquanto isso, acreditamos que nossos sonhos podem esperar mais um pouco, já que a vida está ganha por mais trinta dias.

Se demitir é o tipo de experiência que desperta um senso de urgência. O impulso para buscar algo novo com todo potencial.

Ao pedir demissão minha cabeça começou a fervilhar de ideias. Tudo o que bato o olho se torna um possível negócio. Gasto um tempo pensando em torno da ideia e depois anoto direitinho dentro do meu Evernote. Agora eu tenho um banco diário de ideias e pretendo testar quase todas, até as mais bobas.

Quando estava empregado minha mente focava apenas em resolver problemas ligados a empresa. Agora parece que posso resolver todos os problemas do mundo, qualquer dificuldade se torna uma oportunidade para melhorar a vida de alguém.

Não me sentia feliz tendo que dirigir um carro até o trabalho, sonhando com a sexta feira. Para mim, ser feliz é pegar um ônibus lotado com a empolgação de quem vai mudar o mundo.

Você está feliz onde está?

Quando estava pensando no que fazer quando voltasse do Chile, pensei comigo mesmo: eu quero morar na praia. Acordar cedo, correr até a praia, dar um mergulho e pegar um sol. Nunca tinha pensado nisso, mas agora estava claro. “Posso morar em qualquer lugar do mundo, a qualquer hora”. Posso recomeçar em qualquer lugar.

Me senti realmente livre.

Não quero dizer para você sair correndo e se demitir de forma inconsequente. Apenas tente pensar se está realmente feliz onde está, fazendo o que faz.

Comecei a fazer terapia em julho e na primeira consulta, sem ao menos falar sobre trabalho, a psicóloga disse:

“Agora você vai pra casa, quero que pense no que pode trabalhar para ser feliz de verdade.”

Pareceu estranho na hora, mas agora sei. Estava claro para todo mundo, menos pra mim.

Um exercício interessante é ler essa tirinha publicada pelo Luciano e pensar como se sente em relação ao personagem central. Acha ele bobo? Ingênuo? Admira sua coragem? Sente uma leve inveja? Isso já pode dizer bastante sobre o caminho a ser tomado. Quando vi essa tirinha, havia 10 dias que estava demitido. Senti um grande alívio por não fazer mais parte daquele ciclo.

Clique pra ver a tirinha completa
tirinha

Se está insatisfeito e pretende fazer algo, leia o texto do Amuri sobre o direito de chutar o balde. Algumas ações são necessárias, mas precisam ser feitas com planejamento. Talvez demore algum tempo.

Mesmo tendo dado o passo em direção ao que aspirava, sei que corro o risco de falhar nessa minha nova empreitada e, de verdade, estou preparado para isso. Um trabalho mental que fiz enquanto decidia pedir demissão foi aceitar o pior dos casos. Pensei na pior coisa que poderia acontecer comigo no futuro.

Se tudo der errado, vou procurar o emprego mais fácil de se conseguir, mesmo que seja o que pague pior. Pensei em algo como chapeiro do McDonald’s, morando de favores na casa de alguém.

A partir daí, tentar minha nova escalada, dessa vez com mais experiência e conhecimento. Assumi esse cenário e estou disposto a viver essa realidade. Daqui pra frente, qualquer outro cenário é lucro.

E aí, já pensou se as garantias e a certeza de ter o seu belo salário no final do mês na verdade não são apenas as prisões que estão te impedindo de fazer o que realmente tem de fazer?


publicado em 11 de Setembro de 2013, 09:04
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.

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