Philip K. Dick e a paranoia gnóstica | WTF #17

Eduardo Pinheiro

por
em às | Artigos e ensaios, Resenhas, WTF


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O “mito da caverna” é aquela alegoria platônica, talvez o mais conhecido experimento de pensamento da cultura ocidental, onde somos confrontados com a possibilidade de que não temos, normalmente, acesso ao que é realmente relevante. Isso que se apresenta no nosso cotidiano seriam simples sombras e distorções de uma realidade subjacente de formas e valores atemporais, perfeitos e puros.

Talvez algo dessas ideias já estivesse presente na tradição judaica, mas quando Platão passa a ser interpretado/usado pelo cristianismo, surgem miríades de derivações interessantes. Não só vivemos um engano em massa e prolongado com relação ao mundo, mas ganhamos esse, nas palavras de Erdős (e, nunca se engane, todo matemático é um platônico), esse Facista Supremo, esse grande outro ora benévolo, ora possivelmente enganador, Deus ou Demiurgo.

Urbi et Orbi

A manifestação popular do neoplatonismo é uma forma de cristianismo que chamamos de “gnóstico”. Porém, a paranoia já começa aqui. Como todos os proponentes de sistemas religiosos, os gnósticos tem como fonte e justificativa de suas ideias algum tipo de lastro mais pesado: a própria divindade ou a realidade. Assim, possivelmente gente como Platão, e Jesus, e etc., são todos decodificados como tocados pela mesma verve de paranoia essencial.

Uma ou outra seita gnóstica vai dizer e usar algum tipo de cálculo numerológico para provar, por exemplo, que o messias que traz a boa nova e salva o mundo é a serpente. Segundo essa gente, o pessoal que lê a bíblia literalmente está, na verdade, sendo ludibriado pelo grande enganador, o cara aquele que tem um nome de quatro letras e que os desavisados acham que é a entidade última. Não! Esse cara que todo mundo cultua, e que fez o “paraíso” (nossa prisão terrena atual) é o ruim da história: bom mesmo é a serpente Nosso Senhor Jesus Cristo. E assim por diante.

Eu achava divertidas essas coisas quando guri.

Pois bem, se você não viveu a onda gnóstica interpretativa do filme Matrix e, por acaso, não veio a conhecer Platão por causa do filme ou de alguém como Baudrillard, você provavelmente está se perguntando o que isso tudo tem a ver com um autor de ficção científica que escreveu dos anos 50 aos 70 e inspirou diretamente vários filmes famosos, tais como Blade Runner e Minority Report, e indiretamente tantos outros, como o próprio Matrix, Inception ou o ótimo Source Code (Contra o Tempo, 2011).

Talvez seja difícil conceber ou imaginar o que a paranoia decodificadora da gnose e interpretações abstrusas do Gênesis tenham a ver com nosso mundo “líquido” de ativismo anticorporação, cypherpunks, identidades construídas em redes sociais, big data, manufatura do consenso, bem como a simples fragmentação, velocidade e incerteza epistêmica de consciências que navegam numa cultura atemporal, filtrada, reificada e onipresente através de Nosso Senhor o Google – que se ainda não é uma entidade consciente provavelmente falta pouco.

O gnosticismo – a forma cristã/religiosa e mais paranoica do platonismo – foi, se olhamos com cuidado, a mais forte ideologia subjacente a todo pensamento popular no século XX. A psicanálise é embasada exatamente no mesmo tipo de paranoia interpretativa, e Jung foi basicamente um Papa Gnóstico (com anel e tudo). Tudo que chamamos de new age, a contracultura e a cultura da droga, as teorias de conspiração: são absolutamente banhados em gnosticismo.

Blade Runner

É tão prevalente que é difícil distinguir exatamente o que estaria livre da desconfiança de que aquilo que está sendo oferecido não é literal. A própria questão da ubiquidade da ironia nos faz viver num mundo, pelo menos no que é cultural e adaptativo, cheio de paranoia e interpretação.

Quando uso o termo “paranoia” aqui, uso no seu sentido mais geral e laico: é tender ou trabalhar mais com a hipótese de que algo não só está operando sem que você esteja ciente, mas que existe algum nível de ocultação deliberada dessa verdade.

Podem ser os mais óbvios colegas de trabalho maquinando contra você, o “sistema”, ou os Illuminati; mas pode ser também a percepção parcial e filtrada de seus órgãos dos sentidos, a própria estrutura explícita da realidade, quiçá a divindade, ou até mesmo a natureza da consciência. O enfoque é negativo e, por isso, em certo sentido, eu concordaria que é sempre, em todo caso, uma patologia.

Mesmo quando é verdade, como disse Joseph Heller em Catch-22:

“O fato de você ser paranoico não quer dizer que não estão atrás de você”

Quando criança, eu era fascinado por finais inesperados, um viciado em epifanias, ao estilo das que temos ao final do filme Planeta dos Macacos. É claro, epifanias são, no geral, avassaladoras, mas porque vêm da religião, falamos delas como positivas. Na ficção, porém, o choque geralmente é mais marcante quando vem junto do horror. Esse é um momento de “gnose”, do tipo que alguém introduzido à ideia de que o Jeová é o demiurgo e a serpente é, no fundo, nossa amiga, talvez tivesse, lá na era onde a heresia (segundo os Católicos) gnóstica estava na crista da onda.

E confesso que não era nem a má surpresa (o horror) ou um deus ex machina com uma justificação espertinha que me fascinava. O que eu gostava era da Zona do Crepúsculo, o Além da Imaginação, onde muitas vezes o choque era com o novo e o estranho, não com o ruim ou o bom.

Foi isso que me levou a ter, por um longo tempo, Philip K. Dick como autor favorito de ficção científica. Pelo que lembro meu primeiro contato com ele foi por breves descrições dos principais romances nos capítulos sobre universos alternativos e consciências artificiais do livro de Gilberto Schoereder, como esse em Ficção Científica (p. 110):

Flow My Tears The Policeman Said 8 (versão japonesa)

Obs: opa, pera lá! Spoiler alert! Embora eu mesmo tenha lido sobre muitas das reviravoltas das tramas dele antes de ler os livros, se você não quer spoilers, sinto dizer que terá que abandonar o texto a partir de agora!

“Nesse mundo, nessa terra, a Alemanha e o Japão não perderam a guerra, mas sim os Estados Unidos. Dessa forma, os EUA são dominados pelos dois países, principalmente pelo Japão, que mantém um domínio mais sutil que aquele que a Alemanha nazista impôs à África, Rússia e Ásia, causando eliminações raciais.

Nos EUA paralelo, a forma de vida oriental é tida como padrão, e o I Ching é um livro de consultas diárias, utilizado praticamente por todas as pessoas, orientais ou não. Nessa Terra surge um livro, escrito pelo Homem do Castelo Alto, assim chamado porque mora numa fortificação no alto de uma colina, para proteger-se de possíveis atentados nazistas. Este livro conta a historia do mundo como seria, caso a Alemanha e o Japão houvessem perdido a guerra.

O livro é proibido, mas todos o lêem. De certa forma, esse livro refere-se a nosso universo, à nossa Terra, com algumas distorções históricas causadas por alguma falha de entendimento que pode ser considerada normal e aceitável por um escritor que não vive nesse universo.”

E seguia descrevendo O Homem do Castelo Alto, livro de 1962 que ganhou o prêmio Hugo, e que K. Dick, óbvio, para fechar o padrão de estranho loop e recursão de realidades múltiplas, escreveu ele mesmo consultando o I Ching. Finalmente eu tinha descoberto o tipo de Ficção Científica que mais me interessava. Persegui obsessivamente livros de K. Dick nos sebos de Porto Alegre até meados de 1998, então já atrás de versões em português para mostrar para meus amigos anglófobos.

O Homem do Castelo Alto, por exemplo, só era disponível (pré-Amazon, óbvio, mas pré-eu-saber-inglês também) numa cara edição portuguesa. É o livro de K. Dick, entre os vinte e poucos que li, mais bem acabado. Muitos têm ótimas ideias, mas foram escritos apressadamente e isso fica evidente. K. Dick algumas vezes escreveu algo bem rápido só para, por exemplo, pagar a conta do supermercado. E sabe-se lá quais eram as exigências comerciais dos editores em revistas de Ficção Científica da época, daí que sua obra seja tão irregular.

Descrevo abaixo alguns de meus favoritos.

Philip K. Dick, por Robert Crumb

Philip K. Dick lutou diretamente com doença mental e abuso de drogas, e muitas das ocorrências em sua vida inspiraram sua obra. A Scanner Darkly, que virou um filme rotoscopado (e meio difícil, com bons momentos) dirigido por Richard Linklater, lida diretamente com a cultura da droga da Califórnia nos anos 60, mas entra em questões de privacidade e identidade muito relevantes hoje. O agente de narcóticos opera disfarçado, usando uma cobertura que transforma totalmente sua aparência, e, é claro, ele precisa usar as drogas com os drogados para manter o disfarce: acaba que ele passa a investigar essa figura que ele vê no vídeo, mas que é ele mesmo.

Flow my Tears the Policeman Said, pelo que lembro, é excelente, mas utiliza tanto e tão bem a técnica do narrador duvidoso e da fragmentação do enredo (e acho que na época que li eu ainda fumava maconha, para complicar), que não consigo descrever nada mais do que a namorada do cara o atacar com um parasita, que o transforma completamente, ao ponto dele não ser reconhecido e passar a ser perseguido pela polícia. É tudo numa versão dos EUA em que houve uma segunda guerra da secessão, não há democracia.

Eu diria que esse livro é do nível de Kafka, com pitadas de Borges – e mais algo de filme policial B dos anos 70.

Ubik é meu favorito. São dois cenários. Num deles as pessoas prestes a morrer no hospital são mantidas em animação suspensa indefinidamente. Elas podem ser ligeiramente acordadas de tempos em tempos, então a família vai lá ter uma conversa com elas de vez em quando. Detalhe: elas vivem nessa animação suspensa em um sonho muito longo, semelhante ao estado de Bardo do Budismo Tibetano, apenas que se prolonga indefinidamente.

Elas recebem os comunicados da família como se fosse publicidade projetada dentro desse sonho. O outro cenário, é claro, se passa dentro de um ou vários desses sonhos, onde os sujeitos estão tentando descobrir o que acontece com eles, e onde a publicidade (que também representa o sistema de animação suspensa e a manutenção do estado de quase morte) aparece vez após vez, na forma de todos os produtos possíveis. Por exemplo, “use a manteiga Ubik! É a mais fácil de passar no pão e o sabor… hmmmm!” Quando eles vivenciam as coisas se desgastarem e ficarem velhas no sonho, isto é a animação suspensa está falhando e eles estão morrendo, basta eles usarem um dos produtos Ubik e tudo se restaura.

E parece que em breve Ubik vai se tornar um filme em Hollywood!

O melhor de todos

Clãs da Lua de Alfa é meu segundo favorito. É extremamente engraçado. O sujeito trabalha programando androides para fazer propaganda anticomunista nos países soviéticos. Ele é tipo o programador da ideologia e das ideias subliminares que esses robôs têm que implantar numa guerrilha lenta e intelectual no outro lado da cortina de ferro… mas ele logo é demitido, e essa ideia toda se torna irrelevante: é só para descrever o que no fundo é considerado subemprego, que então ele perde, o que causa um divórcio dele.

Ela já o achava um perdedor com aquele trabalheco, imagine sem! A ex (entre muitas exes complicadas na obra de K. Dick, talvez a pior) é uma psiquiatra, convidada a trabalhar em Alfa, uma lua-manicômio. O que ocorreu é que os doentes mentais se rebelaram contra os enfermeiros e médicos 20 anos atrás e passaram a administrar o lugar, e ela é encarregada de retomar negociações para reestabelecer o planeta todo como um hospital.

Chegando lá, ela encontra toda uma organização social formada, onde os maníacos são militares, os paranoicos políticos, os depressivos leves algumas vezes fazem tarefas meniais e os esquizofrênicos são os religiosos. Nosso herói vai (de foguete) atrás da ex-mulher, ajudado pelo vizinho, um bolor limoso telepata e muito espirituoso.

Claro, sendo K. Dick, no fim a doutora fica no planeta como paciente! Grande vingança, a mulher (e a médica!) que é a louca, né, Dick? Mecanismos de defesa meio óbvios, hein? Mas o livro é adorável e fantástico, em todos os mundos possíveis.

Em The Three Stigmata of Palmer Eldrich, mineradores num planeta inóspito usam um conjunto de bonecas e uma droga especial para simularem, nas horas vagas, uma realidade mais afável e significativa. Um traficante intergaláctico que introduz uma droga nova que muda o equilíbrio social através de efeitos diversos, se chama Palmer Eldrich. Ele tem os estigmas, como Cristo.

Em V.A.L.I.S., um doppelgänger de K. Dick começa a acreditar que suas visões expõe fatos ocultos sobre a realidade da vida na terra. Dentro da trama um filme de ficção científica também chamado V.A.L.I.S. revela as mesmas coisas, o que o leva a acreditar ainda mais em suas visões. No entanto, ele vive, como o próprio K. Dick, em dúvida se é um mero esquizofrênico ou se é uma espécie de profeta gnóstico.

O livro deveria compor uma trilogia gnóstica com A Invasão Divina, onde K. Dick lida com ideias gnósticas e sua história pessoal (ele perdeu uma irmã gêmea com semanas de idade, e a divindade nessa obra é bipartida em um aspecto masculino e feminino, e algo de errado aconteceu com o aspecto feminino da deidade), e The Owl in Daylight, que não foi acabado. (Normalmente A Transmigração de Timothy Archer é incluído como o último item da trilogia por tratar de temas semelhantes).

Homem do castelo alto

Se a pessoa for um legítimo fanático por K. Dick, ao ler essa trilogia ela pode pegar o volumão The Exegesis of Philip K. Dick e mergulhar no mar de gnosticismo e loucura através dos diários religiosos do cara. Acho que não recomendo. Na verdade V.A.L.I.S. é um livro impressionante e interessante, mas os outros livros explicitamente gnósticos dele não são tão bons.

De toda forma, ninguém deve perder A Experiência Religiosa de Philip K. Dick, desenhada por R. Crumb, e que conta algo da história da origem do raio cor-de-rosa que em V.A.L.I.S. detonam as visões no Gordo Adoradordecavalos (Dick: gordo, Philip: que adora cavalos, o tal duplo, personagem principal em V.A.L.I.S.)

Nada que fale sobre K. Dick pode deixar de mencionar Blade Runner. Memórias implantadas, questões de identidade e individualidade, bioética, consciências artificiais: e o clima, o ambiente, a atmosfera. É claro que Ridley Scott e a absurda qualidade de produção daquele filme contribuem em grande parte para ele ser o neo-noir classudo que é. Mas o pior é que esses elementos estão mesmo lá no texto de K. Dick.

Quando George Lucas teve a brilhante ideia de projetar um futuro de máquinas avançadíssimas, mas usadas e sujas em Guerra nas Estrelas, esse elemento de futurismo retrô, desgastado, já estava lá em K. Dick talvez duas décadas antes – ainda que, como estamos vendo, a space opera não fosse o lance do K. Dick. Além dos futuros baunilha utópicos, e dos futuros ativamente opressivos e distópicos  (que K. Dick dominava), ele foi o iniciador de uma distopia de cansaço do sonho americano, de subúrbios e shopping centers, uma espécie de kitsch desgastado vindo diretamente das corporações.

Era só projetar a Califórnia dos anos 70 um pouco mais à frente, e o cenário não era bonito.

Mas além do kitsch, o camp. Eu não estava bem preparado em 1991, aos 16 anos, quando entrei no Cinema Scala para assistir Total Recall – ainda que eu fosse talvez naquela sala o único que havia lido meia dúzia de K. Dicks, e havia aguardado o filme com grande antecipação, depois que um anúncio ou resenha dele surgiu na Isaac Asimov Magazine.

Tão bem como Ridley Scott capturou o noir quase steampunk (uma breve tendência que, como todo o movimento Cyberpunk, ele influenciou), Paul Verhoeven capturou completamente bem o camp kadiqueano em Total Recall. Esse filme precisa ser visto tendo em mente a cena de K. Dick levando uma história – talvez semelhante a essa, ou essa mesma – a um editorzinho miserável para pegar 200 dólares suados para pagar a conta da bodega.

Total Recall

Essa conjunção de fatores torna a experiência toda de um blockbuster norte-americano ultraviolento com Arnold Schwarzenegger e Sharon Stone, mas cheio das pequenas temáticas gnósticas, políticas e sociais e de ótimos efeitos especiais (mutante de três seios? Disfarçar o governador Arnie de gorda? O robô que dirige o taxi? Kuatu na barriga do carinha? Epítomes do camp!), simplesmente imperdível.

E totalmente kadiqueana até mesmo em ser meio (totalmente) vergonhoso gostar de um filme assim. K. Dick não só descreve e critica, ele é também produto do wasteland infinito da América suburbana dos shopping centers de brilho gasto, pedindo reforma, que hoje são simplesmente nossa cultura globalizada por todo lado.

É a própria Disneylândia da Monsanto.

K. Dick não vivenciou a celebridade, ele teve um AVC fatal aos 54 anos de idade, logo antes de Blade Runner explodir: se é que Blade Runner explodiu… ele, como a obra de K. Dick, parece que ainda estão lentamente crescendo no imaginário.  Os filmes continuam saindo, e mesmo os piores (Paycheck, Next, The Adjustment Bureau, The Impostor) não chegam a ser totalmente ruins (na verdade o remake de 2012 de Total Recall é bem ruim, quase inassistível).

Não tenho certeza se foi K. Dick que transformou definitivamente o foco da crítica distópica dos governos totalitários para as supercorporações, mas com certeza sua obra inteira é cheia de requintadas críticas ao capitalismo, e à publicidade (talvez o primeiro também, na Ficção Científica) e a alienação social que produzem.

Não que ele fosse socialista, de forma alguma. K. Dick dá poucas soluções, sejam elas psicológicas, filosóficas ou sociais. Muitas de suas historias, quando não tem uma temática de horror mais explícita, são extremamente desagradáveis e opressivas. Quase não há amor no universo kadiqueano, as mulheres no mais das vezes só servem para ferrar o protagonista ainda mais. E até mesmo as amizades são raras – o bolor de Clãs da lua de Alfa é um dos poucos amigos em K. Dick de que posso lembrar. (É um escritor muito menos humano do que Vonnegut, por exemplo, outro que escolhi para comentar – e que tem exatamente essa como sua característica principal, ou seja, calor humano.)

O tema principal de K. Dick, se é que temos um, além das múltiplas realidades e das incertezas epistêmicas quanto a identidade e mundo, é a do “homem errado” (ou seja, o cara que se fode porque está no lugar errado e na hora errada) – que é um tema eterno da ficção paranoica, de Kafka a Hitchcock. Apenas que, pelo conteúdo filosófico, psicológico e político da obra, a hora errada e o lugar errado são, como para qualquer bom paranoico, onipresentes.

Sempre provocador, atualíssimo e profético, K. Dick vai ganhando o sabor de obra sedimentada num momento específico do espaço e no tempo, e em relação com o cinema e a cultura popular – o caráter estético de suas descrições, escolhas idiossincráticas e mistura de temas, bem como uma ou outra ousadia na estrutura da escrita, cada vez se tornam mais atraentes.

Seu caráter filosófico e psicológico não envelhece como acontece com boa parte da ficção científica. Mesmo que esse não seja um século gnóstico como reconheço o século passado, é bem difícil que essas ideias milenares parem de ser cogitadas – e o ambiente mais secular onde K. Dick conseguiu fazer suas investigações espirituais é cada vez mais adequado.

De toda forma, seria, claro, temerário tomá-lo como profeta, ou procurar sabedoria ou uma explicação das coisas (na Exegesis, por exemplo). K. Dick é interessante como expressão criativa da doença mental, do abuso de drogas e, talvez, das distorções da religião – e como pensador orgânico “pós-moderno”.

Normalmente falamos das distorções da religião organizada, e vez que outra atacamos a religião como um todo. Mas K. Dick pode sim ser lido como uma advertência. Uma sempre interessante e infinitamente criativa advertência, sempre deixando claro que há dragões nesse caminho. Se você quer estudar dragões: loucura, drogas, gnosticismo… tudo bem. Só não se identifique. E não deixe de aproveitar a promoção, só esta semana, dois Ubik pelo preço de um!

Obs: Pensei que preciso fazer duas observações sobre o gnosticismo. Primeiro é o termo Gnose, com o qual vamos encontrar publicidade em várias cidades. É um movimento moderno new age, que considero altamente falcatrua. Gnose é a mesma palavra que deu origem a conhecimento, knowledge e jnana (o nh, o kn e o jn são esse gn! Grego, português, inglês e sânscrito, mesma família: o indo-europeu.)

Outra coisa que creio pode surgir, por causa de minha conexão com o budismo, é o quanto essa coisa da realidade última oculta do platonismo/gnosticismo está presente no budismo. É extremamente complicada a relação desses conjuntos de ideias – até se não entramos no greco-budismo e influências mútuas –, mas para efeito de balde de água fria, a não ontologia budista da vacuidade nega essa realidade de sonho, como a gnose faz, mas nega também uma realidade última postulável. Para o budismo é nessas exatas formas imperfeitas que se apresentam, como se apresentam, e que são um sonho, que, quando vistas como sonho, são a realidade última. Não tem nada “por trás”. O budismo acusaria o platonismo de botar um sonho mais bonitinho e matemático por trás do sonho grosseiro, e de então reificar esse sonho como realidade última.

Como o K. Dick sabia – por exemplo em Blade Runner [final cut], Total Recall e o final mindfuck de Minority Report (este último talvez você tenha que ler a respeito para entender que não é bem o que parece) –, e como filmes kadiqueanos como Inception seguiram, na ficção fica mais interessante quando o sentido último fica ambíguo, ou, melhor ainda, quando o personagem se vê horrorizado, preso a um regresso infinito de realidades que se dissolvem. Sádicos, esses escritores. (Se bem que os gnósticos e gente que gosta de teoria de conspiração, e os paranoicos, sempre acham um jeito de duvidar da nova versão dos fatos… Masoquistas, estes. Criativos inventores da maquinação alheia.)

Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100001317628816 João Brizzi

    Parabéns, Eduardo! Do K. Dick, já li “O Homem do Castelo Alto”, “VALIS”, “Ubik” e o “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, mas nunca tinha me ocorrido traçar esse paralelo com o mundo que vivemos hoje. Também não parei pra pensar no final do “Minority Report” até hoje, vou assistir novamente assim que possível e fazê-lo.

    Fazia tempo que não lia um texto sobre um assunto do qual tenho algum conhecimento e que, ainda assim, me faz notar tantas coisas novas sobre o que é tratado. Obrigado por essa, cara!

  • Henrique

    Muito legal, pretendo ler em breve alguns livros do K. Dick. Você poderia analisar a obra do Robert Anton Wilson. Acho ele um dos grandes autores de livros sobre teorias conspiratórias. Eu acho o pensamento dele um dos mais otimista sobre o mundo.

    • http://www.facebook.com/padma.dorje Padma Dorje

      Eu fui muito fã do RAW num breve período, lá por 96. Porém acho ele um autor meio ruim de divulgar, por ser um propagador de noções erradas sobre drogas, principalmente.

      K. Dick, nesse sentido, e também porque sentiu na carne os problemas da contracultura, é mais positivo.

      Se você é otimista com uma série de coisas negativas, isso não é bom.

      • Breno Tiki

        Padma, interessante sua posição sobre o RAW, que mais vc vê de complicado na visão do RAW?

      • http://www.facebook.com/padma.dorje Padma Dorje

        relativismo moral (e em geral), cultismo new age, vício em epifania e foco demasiado em teoria da conspiração — sendo que a última é mais estética mesmo.

        O livro supremo sobre ocultismo e teoria da conspiração é o Pêndulo de Foucault, do Umberto Eco. O RAW (em Illuminatus) é quase um espelho contra-cultura do Dan Brown — um oposto que acaba guardando muitas das características.

        Meu livro favorito do RAW era Schrödinger’s Cat Trilogy, que é uma montanha russa de epifanias. Mas no fundo é panfletário, como todos os outros RAW, da mesma contra-cultura paranóica gnóstica, “nós somos os tais, a sociedade está toda errada” — mas essa questão das drogas não é pequena, RAW e Timothy Leary estavam na crista da onda de um movimento que, por muitos motivos, deu muito errado.

      • Breno Tiki

        Justo

  • http://www.facebook.com/mietto Pedro Morini Mietto

    Tirinha do Piteco é muita sabedoria!!

    http://www.monica.com.br/comics/piteco/pag1.htm

    • Guilherme

      Muito boa.

    • http://www.facebook.com/diego.paiva.rr Diego Paiva

      Genial.

  • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

    “Tudo que chamamos de new age, a contracultura e a cultura da droga, as teorias de conspiração: são absolutamente banhados em gnosticismo.” – Você não poderia estar mais certo. Percebi isso em falas do Olavo de Carvalho, filósofo execrado por muitos e admirado por muitos outros. Ele fala dessa influência gnóstica, e de como ela é forte, presente no nosso subconsciente.

    • http://www.facebook.com/padma.dorje Padma Dorje

      Sim, o Olavo de Carvalho, pelo pouco (felizmente) que li, parece, também, banhado em gnosticismo. É curioso como esquerda, direita, desde que meio lunáticos, são atraídos pelo gnosticismo igualmente.

      • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

        Então, é interessante isso, compreendo que por ser teorizador conspiracionista de primeira, principalmente envolvendo o PT, ele parece ser afetado por esse gnosticismo, mas o que quis dizer é que ele diz exatamente isso que você disse, que somos influenciados fortemente pelo gnosticismo.

      • http://www.facebook.com/padma.dorje Padma Dorje

        Nunca li isso, mas vindo de um gnóstico (explicitamente, religiosamente), daí vira meio autopropaganda, né?

    • http://www.facebook.com/gustavoducka Gustavo Augusto R. Abreu

      Olavo de Carvalho é um perenialista, mas o conhecimento dele de filosofia é quase nulo. Ele só solta perola quando vai falar de política.

      • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

        Bom, até onde tenho lido e pesquisa, ele é graúdo e respeitado por seu conhecimento filosófico. Concordando com suas falas ou não, há de se notar um homem diferenciado.

      • http://www.facebook.com/padma.dorje Padma Dorje

        Normalmente ele é ridicularizado, na academia, até por pessoas com inclinações políticas semelhantes. O comentário mais neutro que se pode fazer é que ele tem uma visão um tanto “pessoal” ou “idiossincrática” sobre a história das ideias.

      • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

        Claro que acadêmicos, da área de humanas, ridicularizam ele. Olavo faz o mesmo com eles. Suas teorias sobre marxistas culturais colocam todos os acadêmicos da área de humanas do Brasil na lata do lixo. Ele é respeitado por juristas e afins, um meio naturalmente mais conservador. E tem muitos alunos também em seus cursos de filosofia. Um dos pontos que tem feito seu nome aparecer mais ultimamente é o fato de que muito do que ele falava a uns anos atrás, hoje tem se confirmado ou apenas outros direitistas tem discursado de forma parecida, o que faz o discurso ter mais força (Gramsci, Foro de São Paulo).

        O cara vociferou contra a USP, lixo mundial, rs, não queria reação contrária?

      • http://www.facebook.com/padma.dorje Padma Dorje

        Falar dos departamentos de humanas como uma generalidade já é exagero, os cursos de filosofia são bem diferentes, bem mais equilibrados politicamente. Neles levantar o nome de Olavo é queimar o filme — e não com o pessoal de esquerda, que enfim, está louco para você levantar o nome deles, mas com o pessoal mais à direita mesmo.

        É como falar de Fritjof Capra ou Deepak Chopra. Queima o filme total. Na verdade tive vergonhinha de ver o nome dele aqui, mas enfim, está certo, lembrei que ele usa a palavra gnosis e fala do gnosticismo. Não acho que ele fale de K. Dick, no entanto. hehe.

      • http://www.feedbackmag.com.br Fernando Henriques

        Generalizar é sempre ruim. Agora, esse pessoal mais à direita aí, duvido que sejam direita genuína, raridade no Brasil, devem ser algo próximo de “a direita da esquerda”.

        Você leu “O Imbecil Coletivo”, escrito por ele em 1993? Ou mesmo algum artigo seguindo a mesma linha? Bom, para mim, mesmo ciente de todas as críticas a referida pessoa, é difícil não dar crédito a tal linha de pensamento.

        Eu sinto vergonha de quem sente vergonhinha, hehe.

      • http://www.facebook.com/padma.dorje Padma Dorje

        Ele tá no mesmo nível do Erik Von Daniken, não dá para nem chegar perto, queima o filme total.

        Lembro quando esse livro foi lançado, e naquela época, era possível que eu me vinculasse a um tipo de pensamento como o dele… então eu tive sorte de não dar muita bola. Não consigo nem ver um video com ele, é tanta bobagem logo de saída, e ele é tão repulsivo como pessoa, que tenho que fechar.

        A direita da filosofia, até onde conheço, é um liberalismo lockeano, não tem nada mais puro (embora, curiosamente fosse “esquerda”, no sentido de oposição, na época do Locke esse tipo de visão). É claro que eu sou e sempre fui um cara de esquerda, né — não extrema, mas principalmente anticorporação e por uma boa regulação na economia, e por quaisquer medidas que diminuam desigualdade. Também sou contra o crescimento econômico como algo a ser sempre visado. Acho que a definição de direita é livre mercado, essencialmente. Pelo menos é o que tá no meu Oxford Dictionary of Philosophy — por acaso tinha dado uma olhada hoje. Tô pra dizer que os professores mais velhos no meu curso eram todos do centro pra direita, os mais jovens, dai sim, isso mudava. Creio que na USP seja semelhante, embora ainda exista esse pessoal que sofreu com a ditadura, nos dois Campi, né… mas embora para os milicos eles fossem de esquerda, ou talvez até fossem comunistões mesmo, hoje são muito mais centrista e defensores dos valores liberais…

        Nas sociais a situação é bem diferente, e acho que na educação, letras, etc… tenda também mais pro “esquerdismo brasileiro”.

  • http://www.facebook.com/Lobobarbanegra Lobo Barba Negra

    Eduardo, eu coordeno o Espaço ASIMOV, em Porto Alegre, e gostaria de falar contigo!

  • Breno Tiki

    K.Dick é leitura essencial para tudo que é nerd! Apesar de ter lido, Ubik, Castelo e Ovelhas, nunca tinha lido sobre o cara e a sua relação com o gnosticismo.Bacana de saber!
    E sobre esse assunto de gnosticismo é de pensar que não tinha lá muitas pessoas no mundo e a troca de conceitos entre as culturas era grande principalmente com os vizinhos. Fora quando um grupo começava um deslocamento em busca de lugares melhores. ou pro conquistas territoriais

    Budismo, Gnosticismo, Judaísmo, Helenismo. Todo mundo se influenciou em algum momento. Ando lendo sobre os bogomilos e a relação deles com a Igreja Ortodoxa, e gosto de dizer que as seitas gnósticas são bonitas de ler e pensar sobre, mas numa distancia segura

  • http://levelmais.com/ Rubens Cavalheiro

    magicamente ontem estava assistindo “os agentes do destino” e querendo entendo a as obras literárias de Philip K. Dick, este texto ~caiu como uma luva~

  • http://www.facebook.com/people/Valmir-Marques/100000310262655 Valmir Marques

    gozado…nao tem nenhuma participação feminina, geralmente abundante, nos comentarios..alguma explicação??

    • Ricardo

      Mulheres geralmente não se interessam por assuntos metafísicos. Segundo pesquisas realizadas pela Universidade Stanford os 10 assuntos que mais interessam às mulheres nos fóruns de discussão da internet, por ordem decrescente de importância, são:
      1) Sexo
      2) Homens
      3) Homens
      4) Homens
      5) Orgasmo
      6) Direitos femininos
      7) Outras mulheres
      8) Direitos femininos
      9) Direitos femininos
      10) Direitos femininos

  • http://www.estrategistas.com/ Paulo Ribeiro

    Eu geralmente curto os textos do Padma. Respeito a escrita dele, sempre bem referenciada e recheada.

    Mas, para o Papo de Homem, esse texto está muito fraco. Não vejo o menor sentido dessa publicação aqui.

    Galera, alguém pensou no leitor mediano do site? Imaginou o perfil do usuário que desembarca aqui (seus interesses e comportamentos) e abre essa página: o que ele vai tirar daqui?

    Tudo bem ter um texto longo escrito pelo Gitti ou Fábio, que normalmente abordam temas de interesse geral que se alinham com o perfil do site. Mas divagações (ainda que culturais) com um estilo de escrita difícil sobre o Philip K Dick? Sério?

    Nem o conteúdo nem o estilo de escrita foi pensado para average Joe, sinceramente o texto está extremamente mal posicionado. Sem falar que está difícil de ler também, esse já é um feedback para o Padma (mas que a edição tinha que ter ficado de olho).

    • http://www.facebook.com/padma.dorje Padma Dorje

      Crítica recorrente essa, hein? Acho que dos cerca de 20 textos que publiquei aqui, uns 18 receberam uma critica exatamente nessas linhas.

      Se não for para escrever assim, prefiro não escrever. Mesmo. :)

    • http://www.facebook.com/people/Guilherme-Gabriel/100002425025681 Guilherme Gabriel
  • http://twitter.com/AndreTamura André Tamura

    Não li K. Dick, apenas assisti alguns dos filmes citados no texto. Bom entretenimento.

    A explicação e e argumentação são coerentes, tenho um amigo bem graduado nos ensinamentos da Gnose Samaeliana e já tivemos discussões sensacionais.Achei interessante esse texto, despertou curiosidade sobre o autor, mas convenhamos que o texto está bem “gnóstico”, uma gnose nível hard nerd talvez.

    Essa mania “eulandia” que os praticantes das religiões / seitas tem, não me agrada. Cada um acha que esta no degrau de cima da escadinha e os outros estão “errados”.

    Tempos atrás teve um texto do Rodolfo Viana que falava que qualquer coisa poderia ser uma religião.

    Tenho dificuldade em entender os textos da coluna #WTF, absorvo pouca coisa. É a coluna mais distante da prática, que tanto pregam por aqui.

    De repente se o texto fosse: “Paulo Coelho e a paranoia espírita”, eu entenderia melhor. ;)

    • http://www.facebook.com/padma.dorje Padma Dorje

      Como o comentário final coloca, não sou gnóstico — embora antes dos 20 anos eu tenha ficado, sei lá, um mês tentando entender a terminologia na obra do Jung, e assim adquiri algum vocabulário gnóstico.

      Cito a gnose “samaeliana” como falcatrua porque creio que isso é de conhecimento generalizado, basta dar uma checada na wikipedia.

      Não sei no que o seu comentário sobre “um degrau acima da escadinha” tenha a ver com meu texto — critico a gnose de um ponto de vista puramente secular.

      Quanto a dificuldade de “absorver”, essa é uma crítica comum. No entanto, especialmente no caso desse texto, o assunto K. Dick é tão batido, até em português, que quis sair do mero elencar de filmes e ir diretamente na base ideológica do cara. Não é um enfoque comum, nem em inglês. É um texto que eu gostaria de ler.

      Minha prática é escrever de forma desafiadora, por motivos que, creio, repito a cada texto nos comentários. Também dois de meus textos já foram direcionados a essas criticas.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100003162080726 Renan Gonçalves de Souza

    Muito legal. Já tinha ouvido falar do cara mas nem imaginava do que ele tratava, sendo que você nos aplicou inclusive no que o tratava. Valeu. Assisti à defesa da monografia do final de curso de História de uma colega querida chamada Giuliana Besi (onde você está???), que a certo momento se viu obrigada a definir-se, pois tratava de religiosidade africana numa universidade católica, na seguinte frase: “Eu não dou fácil”. Well s, tive que ler de baixo pra cima pra ficar mais fácil… Aquele abraço.

  • Thiago Santana

    Com todo respeito amigo, mas vc não faz a menor ideia do que seja Gnosis. Ler meia dúzia de coisas, tomá-las como verdade e rotular algo, a partir de nossa visão subjetiva e limitada é, no mínimo, ingênuo.
    Essas horas vale lembrar os orientais: “Quem sabe, não fala. Quem fala, não sabe.”

  • Sofia Harmonia
  • Juliano Manetta

    Gastei umas duas horas lendo o texto. Foi muito bom! Ótimo texto, aprendi muito e abriu de cara uma serie de novas linhas de pensamentos práticos.

  • Vitor

    Nunca entendi essas críticas sobre os textos do Eduardo estarem errando o alvo aqui no site. Eu sempre o vi como um “artista” que está vendendo o seu produto no PdH, e não um prestador de serviços. Então a princípio não acho que ele deva moldar seus textos na expectativa de que um leitor mediano compreenda sem um mínimo de esforço ou interesse, e pelo que entendo é exatamente o contrário a proposta de Eduardo, leitores intelectualmente preguiçosos não o interessam, visto que discutir assuntos mais elaborados (ou indo mais fundos em qualquer assunto) com este leitor é o mesmo que nada. Acho que ele foi chamado aqui para nos apresentar assuntos interessantes e muito relevantes mas que muito geralmente passam desapercebidos da nossa mente, em textos curtos porém bem encorpados.
    E logo uma reclamação a esse texto, que foi um dos mais divertidos do Eduardo…

    Sinto que vivemos numa época anti-intelectual que preza por um amontoado de dados compactos de assimilação instantânea. Essa onda de mini-textos mastigadinhos da internet está perdendo o controle. Acho que chegou no fundo do poço quando vi um dia desses na livraria um livro discutindo a filosofia de Nitzsche usando balõezinhos e esquemas coloridos… (nada contra o método em si)

    Estou numa onda de ler FC, uns dias desses li Encontro com Rama, 2001, Childhood’s End do Clarke e coincidentemente comecei ontem a ler meu primeiro livro do Dick, “Do Androids Dream of Electric Sheep?”. Vou prestar atenção nessas associações que o Eduardo fez. E com certeza o texto me chamou atenção para o resto da obra do DIck.

    Falando em paranoia, Eduardo, já lesse algo do Thomas Pynchon?

    • http://www.facebook.com/padma.dorje Padma Dorje

      Não li, mas Gravity’s Rainbow tava nos meus planos nos anos 90. Hoje não sei mais se teria disposição/tempo para ler.

      Tom Robbins eu gostei de alguns livros, mas depois ficou cansativo.

      Childhood’s End gostei muito quando li, muito tempo atrás.

      Pretendo falar sobre Heinlein, Lem e Ballard ainda nesse coluna, mas daqui bastante tempo. Asimov e Clark talvez eu fale uma hora, mas daí vou falar em geral da “era de ouro”, acho.

      Obrigado pela sua percepção do meu trabalho, e, de fato, encaro isso como craft.

  • wagner Muniz

    Pow.. que mania essa de inserir termos estrangeiros (especialmente inglês)… sem necessidade… AVERAGE, CRAFT, FEEDBACK… ALGUNS TERMOS SÃO INCORPORADOS À LÍNGUA E TUDO BEM… MAS OUTROS SÃO REALMENTE DESNECESSÁRIOS… parece coisa de quem aceita a colonização cultural facilmente…..

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Minha língua principal é o inglês mesmo, que, curiosamente, tem sua força cultural no mundo em muito por ser uma língua totalmente bastarda, que sempre tomou emprestado e se apropriou de tudo que funcionasse melhor. É uma pena que o português, e o francês, sejam bem mais xenofóbicos culturalmente — é uma pena para essas línguas que perdem a relevância cada vez mais no mundo da alta cultura e da ciência…

      Agora, também não acho que uso qualquer termo do inglês desnecessariamente: uso porque não há equivalente perfeito no campo semântico que desejo conceder à expressão.

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  • Karine C. F. Aleixo

    K. Dick é o cara, tbm adoro os desenhos do Crumb, juntando os dois, SENSACIONAL. Faça um texto sobre o Gibson tbm e sua Trilogia do Sprawl, eles são os melhores! Adoro!!!

  • http://www.facebook.com/kcf.aleixo Karine C. F. Aleixo

    K. Dick é o cara, tbm adoro os desenhos do Crumb, juntando os dois, SENSACIONAL. Faça um texto sobre o Gibson tbm e sua Trilogia do Sprawl, eles são os melhores! Adoro!!!

  • Leonardo Almeida

    Excelente texto, Eduardo. Excelente. Não tenho nem o que adicionar à discussão. Na verdade, comento apenas para pedir que, se for falar de algum autor na próxima coluna, fale de Robert Heinlein.

    Acho q Heinlein e toda a controvérsia que o envolve cairia muito bem. Adorei tropas estelares (o livro), mesmo já tendo visto tantas repetições de seu temas; e “Estranho em uma terra estranha” li 3x consecutivas: a 2a pq não tinha entendido e a 3a pra pegar os detalhes. Acredito que, sem querer desmerecer o Ballard – adorei Crash – Heinlein seria mais adequado à uma discussão bem “dafuq?” sobre certos conceitos dele (em especial a moral cívica objetiva de tropas estelares e as questões sexuais/religiosas de Estranho numa terra estranha).

    Continue com o bom trabalho!

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  • Suely Farah

    Eduardo, foi bom ler o seu texto. Li o que me foi possível do Philip K. Dick, em português, o daqui e o de Portugal, o que pude encontrar. Esse interesse aconteceu depois que vi o filme Blade Runner, que sempre estou voltando a rever. Difícil para Ridley Scott ter feito este filme e ter que continuar sendo cineasta depois dele, eu acho. Mas a intenção da mensagem aqui é perguntar se você leu e se interessa pela obra de Paul Auster e se vê algum paralelo entre a obra dele e a de Philip K. Dick. Vale a provocação, você não acha?

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Puxa, não li Paul Auster. Darei uma olhada.

  • Bob

    Tem uma curiosa declaração de Philip K. Dick, feita em 1977, aqui> http://youtu.be/5SVXnlkJqWI

  • marcelo

    você tomou um sentido de gnose popular, que o torna nada mais do que uma superstição. apesar de assinalar que as raizes etimologicas venham de conhecimento, voce considera ela mesma como produto de uma demonstração dualista, que é ‘paranóica’. entretanto, você desconsidera que o próprio budismo, tantoem suas versões madhyamika quanto yogacara pressupõe a noção de maya. nesse sentido, transcender maya é relembrar nossa condição fundamental de não-dualidade, como nos termos da reminiscência platônica. você introduz, desse modo, uma distinção de valor entre doutrinas que visam exatamente a mesma coisa, como se dissesse que o budismo é melhor por se basear num vazio que não lhe conferiria a situação de dual. assim, o que você diz sobre o gnosticismo, sobre freud ou jung, não é válido. a respeito desse último, cabe lembrar que ele esta muito mais num papel de cientista das religiões comparadas, do que um adepto de uma doutrina específica da sophia perennis.

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      De fato o budismo tem a noção de maya, o que o budismo não tem é a noção de uma realidade além das aparências. Só tem aparências, daí vacuidade. Portanto é bem diferente do gnosticismo.

      A minha crítica ao Jung é exatamente porque ele pretendia ser um cientista, mas não chegou bem lá — mas concordo que era essa sua pretensão. E, a vista dos novos livros (dele) publicados recentemente, ele se via mais como um curandeiro messiânico mesmo.

  • Augusto Barros

    Gostaria de dedicar esse comentário hiper atrasado ao autor do texto. Graças a ele comecei a ler Philip K Dick… e é realmente incrível. O Eduardo Pinheiro captou muito bem a questão da paranoia, que é muito clara em “Os três estigmas de Palmer Eldritch”.

  • Bruno Mf

    É difícil conceber essas noções budistas, pelo que eu entendi a “realidade” que a meu ver incluiria o plano astral e todos os outros mundos, incluindo esse dessa matéria seriam uma realidade relativa e que o que eles chamam de realidade absoluta ou formas puras, na minha interpretação seriam as próprias leis da “natureza” combinadas com o vazio (numa noção totalmente lucreciana do átomo que se propaga no vazio e aí forma os corpos que seriam a realidade relativa).

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