Vamos oferecer um curso de equilíbrio emocional para homens. Começa quinta que vem e ainda há vagas.

Ironia rasteira e ironia trágica| WTF #13

"Não se engane, a ironia nos tiraniza." -David Foster Wallace

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Quando cursei filosofia, meu interesse se voltou para os comentários de Kierkegaard sobre a ironia Socrática. O que me interessava na ideia de uma ação filosófica como primeiramente irônica vinha de uma experiência pessoal, em vários âmbitos, onde eu frequentemente percebia uma assimetria abismal entre duas pessoas tentando se comunicar.

Søren Kierkegaard era foda

Por “assimetria”, não estou falando meramente de uma pessoa muito ignorante falando com um “grande sábio” de uma maneira geral, mas mais do que isso, a uma situação um tanto corriqueira.

Imagino que ocorra com qualquer um, de tempos em tempos, que alguém vem lhe fazer um comentário superficial, talvez até no sentido de ensinar alguma coisa, sobre algo que, embora essa pessoa não saiba, é muito íntimo e significativo para você. Digamos alguém que menciona com grande tristeza a morte de seu animal de estimação, quase que esperando condolências, sem saber que você acaba de vir do funeral de sua filha de 5 anos de idade que morrera de alguma forma trágica, estúpida e repentina.

O seu interlocutor até comenta:

“Mas já era a hora dele, ele estava muito doente, e um gato de 20 anos já é bem velhinho, não é mesmo?”

Você nem sabe por onde começar. A assimetria pode ser até mesmo incompreensível para o interlocutor. Em alguns casos, a ironia é bem percebida por, digamos, toda uma sala de aula. Isso tem alguma similaridade com uma desagradável tendência um tanto bárbara que vemos no Brasil, de um aluno em sua primeira aula desafiar, por exemplo, um especialista num filósofo, num ponto específico que talvez nem desconfie seja o que o tal professor estuda.

Sem mal saber pronunciar o nome do filósofo em questão, ele, no intuito de impressionar, causa celeuma.  Há um relativismo social um tanto canalha que diria “mas ele tem todo o direito de expor sua opinião”: tem, mas simancol e tato são o mínimo para um bom convívio e com certeza todo tipo de vergonha alheia e tensão desnecessários se formam na sala de aula.

Muitas pessoas falam do despreparo educacional em termos de dificuldades de interpretação de texto, mas há muito mais falta de educação na perda de um convívio social contextualizado e apropriado. Isso muitas vezes tem a ver diretamente com a ironia, no que ela tem a ver com duas pessoas tentando estabelecer o quão sofisticadas surgem uma para a outra.

Porém, a situação acima descrita só se torna irônica na medida em que a assimetria não é violada, mas simplesmente não é reconhecida.

"Mas..."

Quanto mais tacanhos somos, menos conseguimos sequer reconhecer a profundidade do outro, seja ela intelectual ou de vivência pessoal e conhecimento direto do sofrimento humano. Boa parte disso pode ter a ver com o simples desenvolvimento e amadurecimento humanos, mas há um aspecto de falta de respeito pela alteridade como alteridade, e uma curiosidade aberta com relação ao outro que podemos encontrar em todas as idades.

Esse primeiro sentido de ironia que apresentei é similar a outro tipo, em que até mesmo ocorrências naturais podem ser reconhecidas como irônicas, como, por exemplo, quando você se desespera atrás da chave de seu carro por várias horas só para descobrir que uma árvore caiu sobre ele na madrugada. Isso efetivamente, como no caso anterior, não é a definição de ironia como figura de linguagem.

Essa ironia “do destino”, como a ironia inadvertida do interlocutor assimétrico, não são produzidas: elas são reconhecidas e raramente podem ser efetivamente explicadas – o caso de sofrer para achar a chave de um carro em perda total é relativamente fácil, mas algumas vezes as variáveis são tantas que só alguém na sua exata mesma situação entenderia porque determinada ocorrência surge como irônica.

Exatamente por isso, nestes dois casos, há muitas discussões sobre se eles realmente caem sob a definição de ironia. Com certeza não há alguém agindo de forma irônica, mas apenas uma percepção das coisas que se revela numa forma semelhante a “como eu posso explicar para alguém a conjunção de fatores extremamente privados que resultaram numa situação desse tipo?”

A ironia deliberada, por outro lado, também parece nascer de um cinismo ou ceticismo com relação a possibilidade de comunicação. Kierkegaard disse que a ironia é “absolutamente negativa” – e acreditem, eu muito considerei o que ele quer dizer com isso.

Seria meramente uma condenação moral, ou envolverá a ideia mais profunda de que algumas vezes, e com determinados assuntos e intenções sociais, a comunicação é mais efetiva quando algo deixade ser dito?. Provavelmente a última, mas isso não nos resguarda perante um julgamento da ironia, afinal de contas, ela nunca foi fácil para ninguém.

David Foster Wallace, em seus comentários sobre o impacto da TV, e em particular das propagandas de TV, na cultura americana, chamado EUnibus Pluram, em pleno 1993, numa doce era onde a internet era um bebê, já se percebia sufocado pela ironia ubíqua da pós-modernidade.

tomar nosso tempo e vender

A publicidade, de forma a fixar a atenção da audiência, passou a trabalhar em vários níveis de autoconsciência e autocomentário e várias camadas de subtexto. A sinceridade pode até funcionar em certos âmbitos, mas num mundo onde a comunicação naturalmente serve apenas para basicamente , nada pode ser dito diretamente.

Como um gato atrás de um inseto, somos fascinados pelo jogo de linguagem aparentemente bem humorado e que nos faz criar uma ilusão de que somos inteligentes, apenas para que vejamos bem o logotipo e fixemos a existência de determinado produto.

A ironia na pós-modernidade tem exatamente esse valor: criar uma noção de rompimento da assimetria, uma sensação de privilégio intelectual ao participarmos de um clube restrito, daqueles que captaram a piada. Cientes de que vender bobagem nos coloca na posição de tolos, ao nos informar descaradamente que sim, estamos sendo feito de bobos, começamos a sonhar estar penetrando um âmbito mais esperto.

Uma associação se forma pela mera aparência de quebra da assimetria: a propaganda nos torna irônicos – apenas para no jogo de espelhos de intenções e na criação de realidades (“necessidades”, “ânsias”) de consumo deixar o mais indeterminado possível quem está no controle do espectro de sentido.

Por meio da propaganda direta e dos programas, que são vendedores de um estilo de vida quando não diretamente com o merchandising, nossa cultura como um todo se tornou progressivamente mais irônica. O ápice, no meu ver, foram os anos 90, mas como Christy Wampole recentemente escreveu num blog do NY Times, a tendência segue - segundo ela - mais forte hoje. (O texto causou bastante impacto, o que se vê pelo fato do texto ser traduzido para o português e ter gerado vários comentários. Enquanto preparava este texto para publicação Gustavo Mini postou uma interessante pensata: A batalha contra a ironia está perdida - num viés concordante ainda que bastante distinto do meu aqui.)

Wampole parece ter se focado no que eu chamaria de ironia rasteira, isto é, a tentativa, que pode passar por mera afetação, de deliberadamente deixar clara a autoconsciência e usar referências pop como lubrificantes sociais de forma relativamente leve. Você já sabe que não é adequado esfregar na cara dos outros seus vínculos intertextuais e as coisas com que você convive, mas ao mesmo tempo, você quer sinalizar possíveis portas de relacionamento através desses sinais.

Aprendemos também a vender nossa interpessoalidade com as piadas internas, a metareferência, o antihumor, a “piada que talvez não seja piada”.

"Responde rápido, mané." (do filme "His Girl Friday". Em muitos filmes antigos, o texto tenta emular o "Rapport" do retruque sedutor, muitas vezes irônico)

Obs: o que é Rapport?

Isso faz parte dos mecanismos de flerte, já que não queremos abrir todas as cartas na mesa, mas não queremos que o outro perca seu foco em nós. Então entramos num jogo de incertezas epistêmicas (“o que é mesmo que ele/ela quer dizer com isso”), que muitas vezes chamamos também de ironia, embora todo tipo de figura de linguagem acabe sendo utilizada.

O ponto central, no entanto, não é testar a inteligência do outro ou o quanto ele consegue entender a complicação que você cria, mas em demarcar um território da linguagem. A cantada se torna, no mais das vezes, um vasto algoritmo intertextual onde o sedutor é aquele que consegue causar a maior perturbação fascinante na Gestalt dos gestos, fala e intenções explícitas e ocultas do relacionamento.

Infelizmente, ou de todo modo inevitável, qualquer tentativa de sinceridade, hoje, será cooptada pelo modo hipster de ver o mundo. Tente você ser natural, tente ser artificial: a afetação e a deliberação estarão claras para todos. Esta é uma das características mais interessantes e talvez funestas do mundo irônico: quando o âmbito de comunicação está saturado de ironia, o discurso direto não é mais possível.

Dica: assuma em todos os casos que o outro entende e está na sua - e logo o interlocutor, com seus “neurônios espelho” passará a assumir o mesmo. O conteúdo intencional independe do conteúdo explícito: isto é ironia.

No entanto, o ironista rasteiro, com o seu simulacro formulaico de ironia, não consegue efetivamente o que aspira, a espirituosidade (“wit”) que é basicamente falar com inteligência expressa, rápida, leve, mordaz e profunda ao mesmo tempo. Ele simplesmente se releva simplório em sua tentativa.

No fundo, quando queremos, olhamos alguém assim como adorável, em outros casos, como um chato. Podemos gostar de ver alguém tentando nos impressionar, ou, pelo contrário, nos irritar com um poseur.

E se você é o poseur, mande ver na poker face, nunca deixe transparecer que você é o simplório: isso pode parecer trapaça ou hipocrisia, mas podemos navegar por horas nas emoções baratas de uma conversa raza e vazia: desde que haja interesse efetivo no outro.

E o ironista, quando ele é bom, muito frequentemente acaba vítima de sua obliquidade. Podemos achar muito energético e interessante o que Nietzsche escreveu, mas sobre o que ele quis realmente dizer, fora de um contexto erudito, que mesmo assim muitas vezes também se confunde, o mais marcante é que... nunca sabemos bem até onde vai sua ironia.

A negatividade absoluta da ironia novamente surge, agora como revelando o quão irônica é a própria posição do irônico. Falar obliquamente pode ser cativante, pode ter seu uso legítimo e até pode ser o modo por excelência, digamos, da filosofia (e da modernidade, e da pós-modernidade), e ainda assim ser insatisfatório, solitário, e, como Sócrates bem percebeu, perigoso.

A ironia rasteira quer normalmente dizer duas coisas: mais ou menos o oposto do que está dizendo explicitamente e que o irônico quer impressionar ou se passar por espertinho. A ironia trágica, por outro lado, é totalmente indeterminada. Ela vem de uma confusão autêntica e de um contato autêntico com a própria confusão.

Sócrates incomodou tanto a sociedade que se tornou um mártir de sua atividade irônica. Ainda assim, a própria defesa de Sócrates, como descrita nas obras que temos, por outro lado, enfatiza sua quase absurda autenticidade. Isto é, se podemos usar a palavra cristã vocação ou se podemos talvez tentar definir o que seja levar a um grau último os “dons” ou qualidades que uma pessoa percebe em si, é isso que Sócrates argumentou.

Sócrates era foda

Se era para ser um chato, desafiando todas as pequenas hipocrisias das personalidades com que se deparava, ele seria o maior chato da história. Foi o dever “endemoniado” que ele recebeu como destino. E é, de fato, possível imaginar que fosse muito interessante lidar com a ironia socrática – todo o carisma filosófico vem do bom uso da ironia.

Mas hoje é fato que vivemos nem bem uma crise de autenticidade, mas uma impossibilidade da autenticidade ser reconhecida ou levada a sério. É mais isso que Wallace e Wampole identificam e muito bem criticam em seus textos separados por quase 20 anos de incessante ironia rasteira e de todos os outros tipos permeando quase toda a comunicação em todos os níveis.

O mais interessante numa notícia – o suposto bastião da notificação factual, relativamente objetiva, e com certeza levada a sério - muitas vezes é sua peculiaridade, a capacidade de entrar num contexto cultural reconhecido – e mais interessantemente, que ainda não se sabe bem que se reconhece.

Todo mundo relaxa “puxa, é mesmo, é sempre assim”, “que sinalização perspicaz, eu há tinha visto isso, mas não levei a sério, não fui capaz de colocar com essas poucas palavras”. Isso é o “refrescante” que todo espertinho tenta em seus comentários de rede social.

Quando ao estado genuíno de não saber como fazer chegar ao outro toda a dimensão de uma circunstância ou pronunciamento, e a partir disso sinalizar obliquamente a imensidão, não necessariamente qualitativa, mas de mera alteridade por si só, quanto a isso só se pode dizer que além de tudo, a ironia rasteira tenta usurpar a profundidade efetiva da ironia trágica. O que ironicamente, torna a ironia rasteira... trágica.

A autenticidade como um levar-se tragicamente a sério, acaba naturalmente fazendo brotar obliquidades irônicas na relação com os outros. Quando, por outro lado, apenas buscamos ser espertinhos, afetados, deliberados, num pacto de mediocridade com o jeito de ser que forja um simulacro de diferença, e isso acaba nos deixando iguais e calhordas em nossos sorrisinhos pequenos, ironicamente estamos corretos em também chamar isso de ironia.

Muitas coisas são ditas irônicas e a ironia é difícil de definir, mas tão cedo não vamos conseguir abandoná-la. Não busquei em nenhum momento ser irônico com esse texto, mas talvez eu não consiga mais dizer nada diretamente.

Talvez o que eu queira dizer, no fundo, seja só que a ironia não é o que parece. (Que coisa mais canalha e espertinha terminar esse texto assim.) (E fazer um comentário final em parênteses.).


publicado em 12 de Fevereiro de 2013, 22:00
File

Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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