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Kurt Vonnegut Jr.: Quando a Ironia ainda Fazia Sentido | WTF #10

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Em 1985, quando eu tinha 10 anos de idade, comecei a algumas vezes ir ao cinema sozinho. Numa dessas incursões assisti Back to School, De Volta a Escola, que era um veículo para o veterano comediante Rodney Dangerfield.

Achei o filme bem médio.

"Como assim, achou médio o filme?"

De toda a forma, neste filme Dangerfield representa um sujeito que enriqueceu, mas que nunca frequentou a faculdade. Então ele resolve, depois de velho, acompanhar o filho na graduação. Só que ele, sendo podre de rico, tem muita dificuldade de seguir a coisa toda como se fosse jovem.

A cena em que quero chegar é uma em que Dangerfield contrata o próprio Kurt Vonnegut Jr. para fazer o tema de casa: um artigo sobre um livro de Vonnegut! O escritor faz uma ponta no filme. Mais tarde, a professora avalia o artigo:

“Quem quer que tenha escrito esse artigo não entendeu Vonnegut!”
(é, na verdade, uma piada reminiscente de Annie Hall, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, onde, numa fila, há duas pessoas discutindo sobre Marshall McLuhan e Woody Allen busca o próprio McLuhan para dizer quem está certo e quem está errado – “ah, se algo assim acontecesse na vida real!”)

Com 10 anos de idade, eu não conhecia Vonnegut e, na verdade, só depois que vim a conhecer bem o trabalho do escritor é que encontrei esse factoide sobre o filme de Dangerfield e retroativamente me surpreendi.

Vonnegut entrou na minha vida um pouco depois, quando eu tinha 15 anos de idade. A circunstância fortuita que me levou a lê-lo contém algo das coincidências que às vezes ocorrem em suas próprias tramas. Em Porto Alegre, naquela época, alguns anos antes da internet, a companhia telefônica tinha um serviço chamado “tele-amigos”, em que você discava para o 138 e entrava numa “sala” onde você encontrava outras três pessoas aleatórias que também ligaram para o tele-amigos.

Passei madrugadas inteiras falando com os tipos mais bizarros, mas, a bem da verdade, era uma perda de tempo – antes das BBSs, do serviço de chat do mainframe na Universidade, da Usenet, do Irc, do Almas Gêmeas do Terra, do Orkut e do Facebook havia o tele-amigos. Foi uma perda de tempo exceto por aquele incrível anônimo que me disse:

“Você gosta de Isaac Asimov e Monty Python? Puxa, você não conhece Kurt Vonnegut Jr.? Você vai adorar, ele tem um humor seco, e uma imaginação fantástica. Mas procure ler em inglês, porque o humor dele não passa bem na tradução.”

"You gotta read in english, brother! Hahaha!!!"

Monty Python e Asimov? Eu precisava aprender inglês! Porém, não encontrei nenhum Vonnegut nos sebos quando fiz as primeiras buscas. Nem sonhava como conseguir um livro importado. Os primeiros que comprei – alguns anos depois, ainda antes da internet – consegui enviando uma carta para a editora que encontrei num catálogo na Biblioteca Central da UFRGS com o número do cartão internacional de um amigo! Às cegas, sem saber se enviavam livros. Funcionou. Porém, antes destes, vi o anúncio na Isaac Asimov Magazine, que teve uns 10 exemplares publicados no Brasil no início da década de 90.

Cama-de-gato de Kurt Vonnegut Jr. havia sido traduzido. Corri até antiga livraria do globo e paguei caro pela brochura de baixa qualidade que ainda tenho. Isso ainda era 1990.

Comecei a gostar de ficção científica um pouco antes, mas faltava certa sofisticação. O que eu gostava e gosto na FC é o arrepiar de cabelos que vem não do sobrenatural, como no horror, mas da ciência e das consequências da ciência, na questão do futuro e da alteridade extrema (choque de culturas/espécies/formas). Mais que o apelo por gadgets e a engenhosidade de batalhas em larga escala, eu curtia o apelo psicológico e antropológico, e porque não, filosófico, da coisa.

Lendo sobre Ficção Científica, eu fui cada vez me aproximando mais de escritores como J. G. Ballard, Phillip José Farmer, Stanislaw Lem e Philip K. Dick, mas foi Vonnegut que me libertou do gênero, sem claro me fazer negá-lo.

Vonnegut é um escritor de Ficção Científica por acidente. Ele, através de Kilgore Trout, um personagem quase ubíquo em suas obras, escritor de Ficção Científica não muito diferente dos mencionados acima ou do próprio Vonnegut, penetra direto na meta-reflexão da pós-modernidade, mas sem nunca perder a humanidade, o senso de humor e uma extremamente consonância com as questões pessoais e sociais do zeitgeist da contracultura norte-americana no que ela tem de melhor.

A esquerda brasileira tem muito a aprender com Kurt Vonnegut Jr., por exemplo. Nossa esquerda não tem senso de humor, o que é totalmente diverso do que ocorre nos EUA. Além disso, certas questões de afeto, alienação na vida pessoal e ativismo poético parecem que não chegam nunca por aqui.

Todo o tamanho de Kurt Vonnegut Jr.

Vonnegut talvez seja também curioso por ser até mais queridinho da academia do que do gosto popular, embora ele não seja de forma alguma um escritor de nicho ou desconhecido. Nos anos 80, quando eu primeiro vi sua face, sem conhecê-lo, no filme de Dangerfield, ele começou a soar meio "hiponga". Nos anos 90 a ironia já havia se tornado tão prevalente na cultura que o impacto da obra de Vonnegut começou a se diluir demais. Depois de Douglas Adams e Monty Python virarem um fenômeno global (geek, mas global), o aspecto mais absurdista de suas obras não tinha mais tanto impacto, o ativismo por si só estava fora de moda (algo que é difícil conceber na cultura extremamente oposta de hoje, onde há quase uma banalização do ativismo), e falar contra a guerra soava datado.

Mas se a obra de Vonnegut colocada no contexto de seu tempo é explosiva, fora de contexto ela ainda diz muito. Vonnegut, como Woody Allen, é um niilista sedutor, um amargo-doce (bittersweet, a expressão comum em inglês) de intensa criatividade virtuosística. Kilgore Trout explica, em alguns livros, como personagem, os enredos de suas histórias em algo como três linhas. São dezenas de ideias realmente maravilhosas, se é que o hipster em nós nos permite hoje voltar a usar esse termo. O adorável em Vonnegut é a displicência com que ele não se leva a sério. Eu não sei como teria sido minha adolescência sem ele.

Bem, vamos aos livros.

Claro, todos os seres humanos deveriam ler Matadouro Cinco. O filme é bom também. Evidente, se você for aquele tipo de pessoa que não tem paciência com liberdades fantásticas na literatura, talvez você não se interesse por ler, mas acho que você não teria chegado até aqui neste texto também, embora ele tenha sido basicamente uma elegia até agora.

Vonnegut é um veterano da Segunda Guerra, ele viu Dresden totalmente em ruínas, e digamos que o que hoje chamam de PTSD, "desordem de estresse pós-traumático", foi o que o levou a escrever. O tempo foi fragmentado e, ao mesmo tempo, ele vive no Matadouro Cinco e entre os Trafalmadorianos, extraterrestres que o alojaram num domo com uma coelhinha da Playboy, mas que ele não conhece pessoalmente. No meio disso, o grande tema da família: a vida pessoal de Vonnegut está sempre em seus livros.

Em as Sereias de Titã, um milionário viajando pelo sistema solar penetra numa Infundíbula Cronosinclástica, uma espécie de Aleph borgiano onde tudo está contido, e vez após outra surge como uma imagem na terra para dar uns toques. O livro é uma inexplicável mistura de ingenuidade da Ficção Científica dos anos 50, sem nada de verdadeiramente científico (Vonnegut nesse sentido está próximo de Ray Bradbury, outro autor de Ficção Científica consagrado para quem a ciência não é o mais importante) com ... é difícil dizer: a ironia cortante de Vonnegut, que você só conhece lendo. Resta dizer que sua mente explode a cada dez páginas, e é um livro relativamente longo.

Sereias de Titã

Cama-de-gato é curto e trata-se de uma crítica humana e antropológica sobre a ciência. Sobra também uns sopapos para a religião, embora no fundo tudo que é profundamente humano Vonnegut respeita. Ele é extremamente violento, refinadissimamente, com a indiferença. Cientistas desenvolvem uma forma cristalina de água que, ao entrar em contato com água comum, eleva a temperatura de solidificação da substância: vira tudo gelo à temperatura ambiente.

O protagonista da história está procurando o criador do Gelo 9, que está numa ilha tropical onde a religião é o Bokononismo, uma religião que preza as mentiras inofensivas.

Estes três eu diria que são os essenciais. Adoro muitos outros: Galápagos, Café da Manhã dos Campeões, Um Pássaro na Gaiola, Pastelão ou Solitário Nunca Mais, Player Piano, Mother Night... enfim, vale ler todos que ele escreveu, sem exceção.


publicado em 20 de Dezembro de 2012, 22:00
File

Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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