Critérios e eixos para navegar a vida | Eduardo Pinheiro na série “O que aprendi”

Fábio Rodrigues

por
em às | Entrevistas e perfis, O Lugar no PdH, O que aprendi, PdH Shots, PdH Vídeos


O herói mais querido (pelos nerds) da DC

“No dia mais claro, na noite mais densa,
O mal sucumbirá ante a minha presença.
Todo aquele que venera o mal há de penar,
Quando o poder do Lanterna Verde enfrentar.”

Ele foi escolhido. Ele fez o juramento. Ele decidiu salvar a Terra.
Não perca a estreia de Lanterna Verde no Cinemax.

“Qual é o critério para mudar um critério? O critério para mudar um critério é a heurística.”

Em junho passado convidamos Eduardo Pinheiro para ir a São Paulo conduzir um encontro do lugar sobre como desenvolver critérios melhores para navegar na vasta quantidade de informações e visões de mundo com que topamos todo dia. E aproveitamos a presença dele pra puxar um bate-papo e fazer perguntas sobre temas como debate, lógica, ironia, perda de tempo, critérios e eixos para a vida, gerenciamento de ignorância, economia de atenção, meditação, alucinógenos, a importância de ter bons professores e referenciais, entre outras coisas.

A Luiza teve a generosidade de nos receber na sua casa pra essa conversa, nos acompanhar atentamente por quase três horas, registrar tudo e editar mais um vídeo para a série “O que aprendi”, que agora compartilhamos com vocês por aqui.

Em tempo, fui eu quem fiz a decupagem das falas — e não foi fácil… –, então já peço desculpas adiantadas a vocês e ao Pinheiro se calhou de faltar um pouco de coerência em algum lugar. De toda forma, acho que ganhamos um belo vídeo, daqueles pra parar e assistir sem pressa:


Link YouTube | Inscreva-se no canal do lugar para mais vídeos sobre desenvolvimento humano →

Índice para ir direto a alguns temas:

Algumas falas

Sobre diálogo e debate:

“As pessoas são muito mais profundas do que a gente consegue tocar.”

“Qualquer conversa entre duas pessoas no fundo são duas pessoas gemendo uma para a outra. A partir do momento em que você está tentando entender o gemido do outro e tentando mudar sua posição, isso é compaixão. [...] Se você por acaso estiver certo e o outro aceitar sua ideia certa, é vitória para os dois.”

“Se a pessoas querem usufruir de sua humanidade, elas tem de saber falar de um ponto de vista não puramente emocional, não puramente reativo. Elas tem de saber trazer ideias, colocar em pauta e depurar com outra pessoa.”

“Aqui no Brasil a gente não tem uma tradição de debate. Nos Estados Unidos, por exemplo, eles têm clubes de debate. Inclusive acho que faz parte da nossa tradição de Direito, da lei, da gente não ter essa retórica tão desenvolvida. As pessoas chegam lá, falam complicado e não parece que adiantam argumentos efetivamente, elas derrubam o outro só no ‘legalês’, vamos dizer assim. [...] Na universidade [brasileira] a gente raramente vê [um bom debate]. O professor responde de uma forma que não admite um bate-volta. Cada um fica entrincheirado em sua posição, um amando o outro, um odiando o outro, e não tem uma troca.”

“Cooptação: reduzir o outro a você. Isso existe na religião, existe na política… Você não dá alteridade para o outro. Você não permite que o outro respire dentro das opções dele. ‘O que você está dizendo é, no fundo, no fundo, exatamente o que eu estou dizendo.’ Isso é uma violência.”

“O que eu chamo de anti-essencialismo é esse posicionamento mais isento. Você não se atira para um lado ou para o outro. Num sentido último, quando você não tem mais nenhum tipo de inclinação, você só reage ao que vem, você não põe nada seu ali. Você não está defendendo nenhuma posição particular, você está só mostrando para o outro o quanto ele está equivocado (se ele está equivocado). Você está só depurando as ideias do outro. Às vezes ele pode até estar certo, mas por motivos errados ou com uma justificação fraca. Se você pegar a certeza dele e começar a cutucar, ele vai fortalecer aquelas ideias positivas. É engraçado porque se alguém olha de fora pode parecer que essa pessoa não tem ideia nenhuma, não tem ideia própria. Não. Ela está livre de se fixar. Ela pode carregar uma ideologia para lá, uma ideologia para cá, mas ela está livre de tomar isso como uma coisa absoluta, e ela ajuda os outros a não tomarem aquilo como absoluto.”

Sobre ironia:

“A gente está cheio de ironia, mas não tem ironia de boa qualidade. É só uma associação por estética. Ela vê uma celebridade, daí ela se comporta como a celebridade. Mas como esse se comportar como uma celebridade é muito óbvio, ela se comporta ironicamente como uma celebridade. E daí a celebridade se comporta ironicamente e a pessoa se comporta em referência a uma… E quando vê não tem nada, só tem uma associação com ícones vazios, que não conectam a pessoa com nada — a não ser com marcas, com pessoas longe, ideias alienígenas, de outra cultura, sem nada a ver com a realidade da pessoa. Essa ironia que vemos por aí tem a ver com participar de um grupo que se acha esperto.”

“O problema do debate é que às vezes ele é um pouco condescendente: se você debate de uma forma muito direta, você acaba diminuindo o outro, como se ele não pudesse chegar lá por ele mesmo. Se você debate de forma indireta, que é a ironia, você está apontando mas não dizendo com todas as letras. Aí ele chega por ele mesmo e tem a vitória dele. Esse é o aspecto positivo da ironia. Mas isso é muito mais raro.”

Sobre pensar até o fim:

“Se você entendeu e não consegue explicar, você não entendeu, meu amigo.”

“Você não pensou sobre a morte direito, você não levou a sério as implicações que isso tem. Uma das implicações de pensar sobre a própria morte é que você não pode perder tempo, sua vida é curta. Se você está perdendo tempo, você está traindo seu conhecimento sobre a sua morte. Ou você não tem esse conhecimento e você deveria obter esse conhecimento. A morte é uma das coisas que a gente não pensa até o fim.

Sobre eixo e critérios na vida:

“Quando eu conheci os exemplos do budismo, pessoalmente, uma das primeiras coisas que me impressionou foi a própria postura física: não é muito comum gente assim. Achei que eu queria aquilo para mim. Esse é o tipo de eixo que acho que se forma, daí a pessoa tem um critério: eu quero ser como essas pessoas. Isso é bem prático. A pessoa não precisa ir doutrinalmente, ir no texto para ver como é o budismo. Não, você examina a pessoa por um tempo, convive com ela um tempo e veja se ela se comporta de um jeito que você acha que seria bom você mesmo ser assim. E ela tem um método, ela não chegou aleatoriamente nessa posição, ela aplicou coisas para chegar lá. Então você pode tentar obter as mesmas qualidades. Então acho que isso é o que é importante, o eixo: encontrar um bom exemplo.”

Sobre auto-engano:

“A pessoa tem a capacidade infinita de se ludibriar. Ela tem de confiar que tem uma honestidade básica lá no fundo, porque se ela for confiar em qualquer outro aspecto da mente dela, que vai desenvolver alguma ideia, alguma coisa assim, no fim ela pode estar se enganando.”

Sobre economia da atenção:

“O que a publicidade está fazendo é te roubar um instante de consciência. Este instante de consciência é seu? Não, você deu para uma empresa.”

“O sistema se configurou de tal forma que as empresas disputam nossa atenção.”

“O que a publicidade faz? Como um traficante de drogas, ela lida com a nossa acrasia. Ela vai lá cutucar onde a gente acha que está frágil, onde a gente acha que está agindo por liberdade, mas não está.”

Eduardo Pinheiro

eduardopinheiro

Diletante é como chamam a uma pessoa que nutre um grande interesse por alguma coisa (geralmente uma atividade artística), mas que não tem um comprometimento formal ou profissional com isso. Às vezes a palavra tem uma conotação um pouco ruim, sugerindo que o diletante trata de seus interesses sem responsabilidade ou maturidade suficiente, de um jeito meio superficial.

Eduardo Pinheiro às vezes se descreve como diletante, mas eu pessoalmente acho que o título não lhe cabe muito bem, uma vez que o vejo sendo sempre tendo muitíssimo cuidado e critério com o o conteúdo que manuseia, e também sendo nada superficial. Mesmo assim, a ironia até que cai bem aqui ;-)

O Pinheiro é conhecido dos leitores do PapodeHomem pela sua coluna “WTF”, pelo podcast Atrás do Front (que apresenta junto com Eduardo Fernandes) e pelo site tzal.org. Faz uns anos que o acompanho e que aprendo bastante com as coisas que fala e escreve, com as referências inteligentes e debates desafiadores que sempre está oferecendo por aí. Recomendo.

Convido o Pinheiro e todo mundo pra seguir a conversa aqui nos comentários.

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E para quem quiser algo mais aprofundado e a longo prazo, deixo o convite para participara do lugar – uma movimentação coletiva que está se centralizando em um site de assinatura semestral, com pessoas do Brasil inteiro e do exterior, dentro do qual temos gerado artigos e vídeos exclusivos, sugestões de práticas para o cotidiano, contato com grandes professores, experiências de pensamento e comportamento, espaços protegidos e favoráveis para conversas profundas em um fórum online, videoconferências e encontros presenciais.

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Foto do último encontro do lugar, com a Carolina Bernardes, sobre como viajar e viver sem dinheiro (o áudio na íntegra já está disponível dentro do lugar)

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Fábio Rodrigues

Trabalha em espaços de aprendizado sobre como melhorar a vida e as relações, como ter melhor equilíbrio emocional e encontrar uma felicidade mais genuína – sem oba-oba, com o pé no chão da vida cotidiana. Coordenador do lugar e do CEBB Joinville, professor do programa Cultivating Emotional Balance, desenhista e professor de desenho, baixista na banda Vacine, pai do Pedro | www.fabiorodrigues.org


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  • Pedrão

    “A pessoa tem a capacidade infinita de se ludibriar. Ela tem de confiar que tem uma honestidade básica lá no fundo, porque se ela for confiar em qualquer outro aspecto da mente dela, que vai desenvolver alguma ideia, alguma coisa assim, no fim ela pode estar se enganando.”

    Um tanto quanto subjetivo não?
    Como definir que um outro aspecto da mente é enganar-se ao passo que “a honestidade básica lá no fundo” é a realidade?
    Pode ser que “a honestidade básica lá no fundo” de um seja apenas um outro aspecto da mente de outro.

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      O critério de fato é interdependente. Não existe como fomentar um lastro independente de certeza. E não existe diferença alguma entre eu e outro, no nível fundamental.

  • ANA

    NAO DEM ATENCAO PARA O EDUARDO PINHEIRO ELE FOI EXPULSO DO CEBB PELO LAMA PADMA SAMTEM.NAO TEM AUTORIZACAO PARA ENSINAR.

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Oi Ana, eu não tenho autorização para ensinar, e acho que sempre deixo isso claro. E não estou falando de dharma. E não fui expulso pelo Lama Samten, temos uma relação amigável, e eu parei de frequentar (tanto) o cebb por iniciativa própria.

  • Rafael

    Por que apagaram o comentário que diz que o Eduardo Pinheiro foi expulso do CEBB? Acho importante essa história ser esclarecida.

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      eu pedi. porque que não fui expulso, ora. Não tem história, quer dizer, agora você tá ajudando a fazer a história existir.

      • Rafael

        Obrigado pelos esclarecimentos. Abraços!

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Recomendo o filme A Caça (Jagten, de 2012).

      • Rafael

        Entendi o lado de vocês, só que quando vi o comentário ser apagado, senti um tom autoritário e manifestei meu interesse em saber mais sobre o suposto caso, não por curiosidade sobre a sua vida, mas sim porque esse suposto fato poderia influenciar a minha interpretação sobre os seus textos.
        Já o fato de eu ter roubado uma velhinha em Bauru não é de interesse de ninguém e em nada se relacionaria à discussão.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Uma entidade privada não é uma democracia. Essa é uma expectativa irrealista.

        O fato de você ser um ladrão fala sobre sua moral, portanto sobre todas as suas ações.

        De fato, me incomoda que esse assunto seja sustentado. Ora, porque? Porque foi a primeira vez que ouvi alguém dizer isso sobre mim. E já virou um “motivo de esclarecimento”.

    • http://www.facebook.com/iodris Fabio Rodrigues

      Rafael, o Papodehomem tenta manter a prática de não aprovar ou deixar no ar comentários agressivos. Este que apagamos, além de agressivo, era uma mentira (ou um engano).

    • Luciano Andolini

      Rafael,

      Tudo bem?

      De um modo geral, comentários agressivos são moderados dentro da comunidade.

      Mas, nesse caso em especial, por se tratar de uma acusação bem séria, decidimos averiguar a história, assim como faríamos com qualquer um. Como é uma história que não é verdadeira, removemos.

      Aqui a nossa política de comentários: http://papodehomem.com.br/comentarios/

      Aqui tem alguns textos que falam da forma como temos tentado nos comunicar no PapodeHomem.

      http://papodehomem.com.br/comunicacao-nao-violenta-o-que-e-e-como-praticar/

      http://papodehomem.com.br/sem-palavras-fala-de-coracao/

      http://papodehomem.com.br/melhor-falar-menos-ou-nem-falar/

      http://papodehomem.com.br/falacias-logicas/

      http://papodehomem.com.br/ironia-rasteira-e-ironia-tragica-wtf-13/

      Abração,

      • Rafael

        Obrigado Luciano.

      • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

        Rafael, sem problemas ter nos questionado sobre isso.

        Pinheiro, também entendo ficar incomodado/puto com o comentário que fizeram aqui, não à toa logo nos movimentamos pra resolver. O tom de sua resposta seguinte com o Rafa foi um tanto seco/irônico, acho.

        Uma de minhas principais influências pra repensar o papel da ironia – individualmente e nos comentários do PdH – foi o seu próprio texto sobre o tema aqui. Ajudou a deixar claro o quanto a ironia pode ser agressiva, uma camada que afasta as pessoas na conversa.

        ;-)

        Desde então temos procurado tocar a gestão dos comentários com regras claras e encorajando, na medida do possível, transparência e serenidade em todos os lados.

        Isso tem sido tema diário de conversas com os caseiros, é uma labuta.

        E se encorajamos a transparência e o diálogo, mesmo sendo uma entidade privada, não dá pra ficarmos bravos com o Rafael ao nos questionar sobre um comentário apagado. Creio que o melhor é respondermos tranquilos.

        abração!

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Esse problema não é daqui. Qualquer tipo de moderação é considerada “totalitária”, enquanto que as pessoas responsáveis pelo conteúdo e disponibilização dele é que carregam junto a responsabilidade moral.

        Não acredito que uma pessoa que poste sem um perfil deva receber o mesmo respeito do que outra a quem podemos ligar uma vida AFK. “Rafael” e “Ana” são, até onde posso perceber, anônimos. Então minha ironia pode ser seca, mas ninguém pode levar a sério minha acusação — já a da Ana, repicada por ele, que agiu por uma visão infantil com relação ao que significa moderação, essa é voltada a uma pessoa que se apresenta inteira.

        De toda forma, o tom que uma pessoa utiliza é dela. Não precisamos ter vergonha alheia ou melindre — se ela soar mal perante os outros, isso recai sobre ela mesma.

        Para mim o efeito Jagten começou quando o Rafael postou reclamando de um comentário apagado. Essa história e dúvida sobre minha idoneidade e minha relação com o Lama Samten estão aí ainda, e a responsabilidade disso, é, em parte, da moderação — que na minha visão, deveria ter também apagado o comentário do Rafael. O Rafael, se quisesse explicações, que as pedisse a mim ou aos editores em privado.

      • brunowjr

        Ficou meio mal-esclarecido esse negócio aí…

  • Iuri

    Gostei bastante. Fica aí a sugestão de gravar outros vídeos com a galera que escreve por aqui no PdH. A gente lê o texto de vocês todos os dias e as vezes pinta aquela vontade de saber como seria um “bate-papo com esses caras”. Existe uma certa naturalidade/espontaneidade no formato vídeo que é mais díficil de alcançar através das palavras.

    • Pedrerage

      Estão roubando minha atenção!
      Estão me enganando!
      Pior, estão fazendo eu me “auto-enganar”!
      Eu sou vítima do mundo!
      Parem com isso. Se vc é influenciado, é porque vc se deixa influenciar.
      A propaganda faz a parte dela. A gente faz a nossa. Ponto final. Ninguém é vítima, nínguém é bandido.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Os problemas do mundo existem, e se é para falar, melhor falar deles. Em nenhum momento me senti uma vítima, não sei onde você inferiu isso.

        Quanto a publicidade, esse seu argumento é o mesmo da cultura do estupro: “ela estava pedindo”. É evidente que existe uma indústria e engenharia de manipulação da consciência dos outros — e manipulação é um sintoma psiquiátrico. Ou você vai dizer que não existem pessoas manipuladoras? E que a manipulação não pode ser uma política de relações públicas? Aqui, amigo, independente de sua ideologia, você precisa reconhecer que isso existe.

        Aliás, reconhecer isso é exatamente não se sentir vítima, mas um agente no mundo, capaz de discernir o que é bom ou ruim para si e a partir disso inferindo para a cultura de modo geral. Simplesmente viver num mundo de Poliana não é deixar de ser vitimizado, é apenas deixar de tomar as rédeas e deixar de assumir responsabilidade no âmbito público e privado.

      • Pedrerage

        Não tem nenhum paralelo com a “cultura do estupro”, em que alguém é vítima de violência real impetrada por outra pessoa.
        O que eu quero dizer, é que existe a tendência de se isentar as pessoas de suas responsabilidades, como se as influências, ou as tentativas de se influenciar, fossem coações inescapáveis.
        Retira-se do sujeito a responsabilidade por resistir ao que lhe seria prejudicial, culpando-se tão-somente aquele que supostamente o manipulou.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        A cultura do estupro tenta responsabilizar a vítima. Afinal, ela estava usando roupas provocativas, tava “pedindo”. É a partir disso minha critica.

        Eu entendo o que você quer dizer. As pessoas de fato tem responsabilidade: mas também de se proteger como puderem do conteúdo que explora sua acrasia. Alguém quer parar de fumar? Como ela consegue “querer querer”: não somos seres nem sob controle dos outros, nem com controle total sobre nós mesmos. Entendendo essa fragilidade e essa responsabilidade, nos abstemos no âmbito pessoal de conteúdos que exploram nossas fragilidades e lutamos pela sua regulação.

        É como um bêbado que evita seus amigos que bebem, pelo menos enquanto estão bebendo. Temos responsabilidade também por entender que muitas vezes usamos a palavra “liberdade” para desculpar e justificar uma vida não examinada, hábitos não examinados, e até mesmo compulsões não examinadas. Só entendendo isso podemos assumir responsabilidade e buscar a liberdade verdadeira — que é acima de tudo contra nosso maior feitor, não absoluto, mas muitas e muitas vezes presente e oculto, nosso próprio autoengano.

      • Pedrerage

        O caso do bebado, viciado em bebida, é bom para o meu ponto.
        Ele é vítima por ser viciado?
        Logicamente que não. Ele bebeu e buscou essa caminho de forma livre. Não importa quais influências estavam agindo sobre ele (genética, marketing, amigos, meio social). Ele poderia ter optado por outro caminho.
        Isso vale pra qualquer viciado, ou pra qualquer um que tenta vestir o papel de vítima, antes de procurar nas suas próprias decisões, tomadas de forma livre, as razões por seus infortúnios.
        E a principal palavra é LIVRE (mesmo que essa liberdade seja exercida sob toda a sorte de elementos que tenham o POTENCIAL, mas somente potencial, de dirigí-la).

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        O alcolismo é uma doença com causas variadas, e a autodeterminação só é parte de um complexo.

        “Ele poderia ter optado por um outro caminho”: e agora, que ele já é doente? Da mesma forma, com todos os nossos hábitos, possuímos um complexo de autodeterminação e fatores fora de nosso controle.

        ADEMAIS: por ação autodeterminatória incluí-se evitar padrões externos (ideológicos, propagandísticos) que fomentem a acrasia. Em outras palavras, é a autodeterminação que nos faz não sermos vítimas, ao optarmos por políticas e regulações privadas e públicas que tolhem a publicidade.

        A ideia de que ideias são “inertes” e não participam de um complexo de forças que inclui a determinação, exclui até mesmo o fato de que há determinação em ativamente rechaçar certas ideias.

  • http://twitter.com/renatenso Renato Araújo

    Ta aí um vídeo que vou levar pra vida. Valeu demais, Eduardo!

  • Renan Ribeiro

    Agora mesmo estava lendo um artigo com o qual fiz um link imediato à questão do debate que tu apontaste. A cooptação política no Brasil é realidade. Nosso debate político é raso e ao invés de tratar de ideias é calcado em dois fenômenos, o legalês verborrágico (citado por ti) que muitas vezes é vazio de conteúdo e/ou o uso de xingamentos igualmente vazios, mais parecendo dois cachorros brigando pra ver quem late mais alto.

    E assim seguimos achando que realmente há democracia por estas bandas.

    Ainda não tenho tempo de assistir ao vídeo inteiro e comentar mais a fundo, mas a priori queria perguntar por quais fontes (além do teu próprio raciocínio) usaste pra desenvolver tuas ideias sobre a heurística. Alguma recomendação?

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Olha, eu só fiz uma leitura horizontal, mas acho que são pertinentes e interessantes Thinking Fast, Thinking Slow e You are not so smart.

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Há alguma democracia no Brasil. Um pouco menos que nos EUA, que seria um exemplo nessa área, só que não é. Hoje, é parelho.

  • Daniel Horai

    “A morte é uma das coisas que a gente não pensa até o fim”. Fantástico. Fantástico porque a morte é algo óbvio, na cara, mas a gente se distrai, não vamos até o fim ou nos contentamos com uma ou outra teoria que no fundo não nos convence ou continuamos caçando bons momentos, um atrás do outro. Falta pararmos, sentarmos em silêncio e olharmos com interesse para poder investigar e compartilhar. Talvez assim a gente ganha um pouquinho de paz, rs… Abs!!!!!

  • Vagner Ligeiro

    “Se você entendeu e não consegue explicar, você não entendeu, meu amigo.”

    Isso vale também quando a pessoa tenta falar com o próximo, e depois se diz que não quer uma audiência que não a entenda?

    Penso que se conseguir explicar até para uma pessoa com menor entendimento que o mesmo, ai todos entendem, inclusive quem explicou :)

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Mas para evidenciar que você entende, basta que uma pessoa tenha entendido. Você não precisa exigir de si próprio que toda a população, e que todo e qualquer um o entenda. Na verdade, isso seria uma expectativa completamente fora de propósito.

      E, se você quer testar o próprio entendimento, melhor ainda é se explicar para alguém com mais capacidade que você — caso contrário é possível até mesmo que os dois estejam achando que entendem. É possível que estejam apenas alimentando o efeito Dunning-Kruger um no outro.

      O exemplo mais simples é na sala de aula: você tem que explicar de forma que o professor esteja satisfeito — e ele até pode exigir que parte da sala de aula entenda também — mas ele não pode exigir que todos na sala entendam, isso é irrealista.

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Que coisa bonita esse vídeo, Pinheiro!

    Agradeço demais da conta por ter gravado essa puta conversa e disponibilizado conosco.

    Em especial, ando muito interessado em *economia da atenção*. Pirei nesses trechos:

    Sobre economia da atenção:

    “O que a publicidade está fazendo é te roubar um instante de consciência. Este instante de consciência é seu? Não, você deu para uma empresa.”

    “O sistema se configurou de tal forma que as empresas disputam nossa atenção.”

    “O que a publicidade faz? Como um traficante de drogas, ela lida com a nossa acrasia. Ela vai lá cutucar onde a gente acha que está frágil, onde a gente acha que está agindo por liberdade, mas não está.”

  • Bruno Longo

    Discordo de muitas coisas que o Eduardo (assim como é a minha “relação” com o Alex Castro) coloca nos textos, concordo com algumas, mas não tem como negar que é um ser humano com inteligência e bom senso acim da média.

    • http://gustavogitti.com/ Gustavo Gitti

      Fala Bruno!

      Li seu comentário e normalmente, em casos assim, não digo nada, mas dessa vez acho que vale entrarmos nisso porque faz parte até mesmo do conteúdo do vídeo (ajudei a fazer as transcrições então acabei vendo tudo umas 4x, fora a vez em tempo real hahaha).

      Eu não entendo muito bem qual o sentido de apenas dizer que concorda e discorda (e não especificar do que) e depois avaliar a pessoa. É algo que em uma mesa de bar acabaria o diálogo se ninguém perguntasse: “Concorda e discorda de quê?”.

      Eu acho que os temas que o Pinheiro levanta são tão, tão importantes que dizer “concordo / discordo / você é inteligente” é como ler “Descobri hoje que estou com cancer” e dizer “Você esqueceu de acentuar: o correto é ‘câncer’.”

      E, veja, isso não é algo que você faz. Eu faço isso direto. É como se fosse uma desatenção, um vacilo cotidiano nosso: a gente fala de modo a não abrir ou aprofundar diálogos.

      Também observa isso por aí?

      Abração.

      • Fredericovilela

        @gustavogitti:disqus, estava hoje mais cedo pensando justamente sobre o que acabou de observar e até ia pedir uma opinião para o Frederico Mattos, pois pensei que ele pode acrescentar muito, mas era justamente sobre a questão de as vezes lermos belos textos, em que concordamos com 99%”, mas que por falta de argumentos ou mesmo por realmente não ter mais nada pra falar, atentamos para apenas algum ponto que julgamos negativo, como por exemplo uma incoerência em algum momento, uma escrita mal feita e mesmo que tenhamos gostado do restante da obra, não nos cabe comentar, então o que fazer? deixar pra lá??
        E em outros casos, como me ocorreu hoje, li um texto aqui no Pdh onde não gostei de muita coisa, e não teria nada de produtivo para acrescentar nos comentários, apenas expor meu descontentamento, só que hoje, optei por me calar, apenas deixar pra lá, mas não tenho uma opinião totalmente feita sobre o assunto, o que acha?

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Se a crítica não vai cair bem, e ela é relativamente inócua (nem vai ser tomada a sério, nem é sobre algo sério), o melhor é se abster.

        Se você vai remendar algo, tem jeito de fazer isso com cuidado e respeito. Dou exemplo de um texto meu aí com listas de documentários. Várias pessoas recomendaram outros documentários, a maioria eu não achava pertinente. Mas teve uma que recomendou um documentário pertinente, mas de uma forma muito grosseira. Daí não dava para dar upvote, mas ao mesmo tempo, a informação que ela deu era mais valiosa do que a de muita gente bem intencionada. Então é mais difícil. Mas se tem uma mistura de tom e propósito, daí é o melhor.

        No caso desse thread aqui, eu entendo o que o Gustavo disse, pq é parte do conteúdo mesmo do que eu tava falando. Porém, tipo, eu entendo se o cara sei lá, acha democracia direta uma bobagem, não gosta de cinema japonês, é a favor de regulação, ou acha que o suicídio tem justificação, ou mesmo algo bem menor em algum parágrafo de algum desses textos. Aí sim, eu encorajo o cara a entrar em debate, mas nesses textos específicos. Até entendo que ele não queira entrar nesses debates aqui.

        Agora, se ele viu algo no video que quer refutar, daí sim, concordo com o Gustavo que ele deveria tentar refutar aqui. Então, resguardada a questão espacial, de evitar (pelo menos um pouco) trazer temas de textos passados para cá, parece fazer sentido inquirir sobre dificuldades específicas com o material apresentado.

      • Bruno Longo

        Opa, Gustavo!

        Então, na realidade em relação à esse post em si não tenho nada a refutar/debater, já discordei e debati com o Eduardo nesse post http://papodehomem.com.br/big-data-analise-monstra-de-um-oceano-de-dados-wtf-19/ por exemplo.

        Talvez nesse caso não tenha deixado claro que o comentário se refere ao próprio Eduardo, tanto ele quanto o Alex tem a habilidade de com seus textos/pensamentos criarem, pelo menos em mim, um debate interno sobre o que eu penso ou costumava assumir em determinados assuntos, depois de digerir, se eu acredito que possa acrescentar, eu volto e dou a minha opinião.

        Por outro lado é possível que eu pudesse fazer um comentário mais rico que adicionasse mais, mas acho que caí na armadilha de simplesmente externar o que eu pensei ao terminar o vídeo, possivelmente como forma de mostrar que eu gostei e que acrescentou pra mim, o ponto que é irônico é o próprio vídeo abordar o debate, e eu fazer um comentário que não incita nenhuma discussão, e pensando bem, talvez eu faça isso mais do que eu mesmo perceba.

        E obrigado pela observação, serei um comentarista mais atento! Hahaha

        Abs.

      • http://gustavogitti.com/ Gustavo Gitti

        Entendi, Bruno.

        Valeu!

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Esclarecimento importante sobre a moderação de comentários nesse artigo, pessoal:

    Foram apagados comentários, a pedido do autor, com fatos que foram verificados por nós como não verdadeiros.

    Como esses comentários começaram a gerar discussões paralelas bem negativas, achamos por bem deletá-los e suas respostas, que ficaram sem contexto.

    Comentários específicos feitos a esse respeito serão apagados, mantendo a coerência do critério utilizado e o respeito ao autor.

    Assim também beneficiamos mais pessoas, permitindo que a conversa em torno do vídeo, que é bastante rica, siga em frente.

    ;-)

    Qualquer dúvida, podem falar comigo pelo guilherme arroba papodehomem ponto com ponto br

    abraço!

    • Márcio

      Acho uma falha de vocês querer que o texto só contenha comentários a favor. Mas como se a conversa fosse em um bar e o estabelecimento sendo de vocês, tudo bem em pedir os críticos para se retirar.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        O comentário apagado não foi “contra” minhas ideias, mas sim invenção e mentira atentando contra minha honra.

        Você foi bastante desagradável com seu comentário, em vários níveis, supondo que os critérios utilizados foram arbitrários.

  • Philos77

    Achei muito superficial e “estético” o discurso. De modo geral, em
    casos assim, inócuos, melhor deixar pra lá. Mas como a censura passou
    por aqui (e não vi o que ocorreu), vou um pouco além.

    Usando o exemplo da política, indissociável do autor: chega a ser curioso um cara que beira a militância assumidamente esquerdista, a ponto de considerar os guerrilheiros do PT heróis nacionais, ao mesmo tempo em que sataniza elementos semelhantes em outro espectro político, etc. falar com ar zen sobre auto engano, lógica, influências externas, postura isenta, etc.

    Daí quando a aplicabilidade das ideias (algumas delas válidas) é sempre no sentido esquerdista de satanizar as empresas (como se seus excessos fossem diferentes de qualquer outro efeito dos problemas mais profundos da sociedade), aí fica realmente difícil ter paciência para filtrar o que há de bom.

    Fora isso, há ainda a questão do formato, da linguagem. Princípios que fariam todo o sentido dentro de uma explanação mais situada dentro do budismo, como o exemplo a seguir, ficam sem fundamentação ditas dessa forma superficial:

    “A pessoa tem a capacidade infinita de se ludibriar. Ela tem de confiar que tem uma honestidade básica lá no fundo, porque se ela for confiar em qualquer outro aspecto da mente dela, que vai desenvolver alguma ideia, alguma coisa assim, no fim ela pode estar se enganando.”

    • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

      Posso deixar bem clara minha relação com o PT: votei no Lula em uma eleição que ele não ganhou. Das outras vezes, em todas as eleições para presidente ou qualquer outro cargo, justifiquei o voto ou anulei.

      Considero os governos FHC e Lula ambos bastante falhos com algumas grandes conquistas. De forma geral, não acho possível que fossem muito melhores do que foram, de toda forma. O governo Dilma acho ainda difícil avaliar, mesmo porque não acompanho de perto.

      Nunca participei de passeata, nunca levantei uma bandeira, sempre fui relativamente cínico com politica partidária.

      Na verdade, quando alguém menciona partido, em geral a conversa já perde todo o interesse para mim. Gosto de discutir em termos de princípios, e também das formas (abstratas, hipotéticas) que os princípios naturalmente se corrompem na prática. Isso me interessa, de resto, para mim, é do mesmo nível de revista de fofoca.

      • Philos77

        Desculpe mas não é o que parece em seus textos e discussões sobre os mesmos. A afirmação que fiz foi retirada de um post seu quando discutíamos, sendo que você se estendeu bem mais chegando a dizer que tais pessoas tinham “licença moral” por serem heróis, etc. ao mesmo tempo em que condenava incisivamente comportamento semelhantes até mesmo liberais. Se está revendo isso, fico feliz em saber.

        Nos posts sobre seu texto que enumera uma coletânea de vídeos aparecem os mesmo vetores esquerdistas aplicados a outros temas. Então não cola esse papo de que sua visão é apenas abstrata. Nem acho isso bom, para ser sincero. Não existe política desconectada dos exemplos reais fora utopia ou ideologias extremistas.

        Acha mesmo que discutir isso está “no mesmo nível de revista de fofoca”? Você não vive acima da realidade Eduardo, e os vídeos esquerdistas e ambientalistas que tanto gosta e compartilha estão sempre associados a siglas da realidade queira ou não. Essas siglas estão ligadas a pessoas e ações, e por aí vai.

        Acho que está apenas se esquivando do da contradição entre seus posicionamentos concretos polarizados e sua proposta de concepções teóricas isentas, conforme apontei..

        Mas concordo que esse não é o foco desse texto.

        Voltando ao tema do texto, confesso que gostaria muito de um um vídeo como esse, mais extenso, focado em sua vivência no budismo. Sou diletante nesse sentido, e estou considerando seriamente o Budismo Tibetano como referência. Não sei qual a sua linha, mas é sempre interessante o relato.

        Abs.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Ah, eu sou de esquerda, e o que está na história, está na história. Não dá para considerar quem lutou com uma ditadura sanguinária de forma diferente — ainda que os métodos usados, em muitas ocasiões, possam ser criticados.

        Mas eu não dou apoio ao PT, nem me ocupo de política partidária. Assumi que você soubesse diferenciar. Com certeza os documentários e eu podemos nos alinhar com ideologias também pregadas por partidos (mais regulação, por exemplo) — mas isso não quer dizer de forma alguma que partidos estejam necessariamente envolvidos. E mesmo quando Bill Maher, e, assumo, Michael Moore, “doem” dinheiro para a campanha de, por exemplo, Obama — isso não necessariamente implica um alinhamento total com os democratas (e de fato, em ambos os casos, não é o caso de serem alinhados totalmente com os democratas. Com certeza anti republicanos, mas não democratas.)

        Eu não tenho autorização para falar de budismo, é preciso que a pessoa seja um professor autorizado para falar do dharma. Ademais, o próprio Dalai Lama se diz socialista, então você pode levar isso em consideração sobre sua decisão. Aqui alguns centros budistas que pessoalmente recomendo: http://tzal.org/centros-de-dharma-que-recomendo/

      • Philos77

        Valeu pelos links.

        Não vou levar em consideração o equívoco do Dalai Lama ( a história do Tibet é muito diferente do que a maioria imagina, era um país muito mais sanguinário e injusto antes do domínio Chinês) por enquanto. Mais adiante, vamos ver :-)

        Abraço!

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        A grande maioria dos professores budistas que conheço é escancaradamente de esquerda, com alguns que tentam ficar em cima do muro.

        Acho que o Dalai Lama, tanto o 13o quanto o 14o contam essa história de um Tibet sanguinário, que eles estavam justamente tentando reformar. Mesmo o 13o já tinha essa consciência.

      • Philos77

        Sabe Eduardo, é isso que questiono. Não seria esse “esquerdismo” budista uma simbolização do inconformismo com a injustiça (que está mais relacionado à ignorância da condição humana), que a adequação a rótulos?

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Não, um dos venenos mentais é a competição. Qualquer ideologia que preze a competição como valor positivo, e a promova, é antitética ao objetivo budista de aliviar ao máximo o sofrimento dos seres.

        Esse é o principal elemento que desloca o budismo da direita. Adicione a isso, o ambientalismo e o pacifismo, e já temos elementos demais tradicionalmente ligados, pelo menos nos EUA, a esquerda.

        Tanto não é o caso de que se trata de um mero “inconformismo” que, entre os praticantes, onde supostamente se concentra a ignorância, encontramos alguns exemplos de visões de direita. Quanto mais elevado na hierarquia da sanga, porém, vemos mais visões contra a competição, individualismo, publicidade, ganância, guerra, poluição, e assim por diante. Até é possível que, nos estratos mais baixos, tudo seja confundido, junto com o dharma, numa especie de hippismo… mas ali se encontra também algo da direita. Onde não há essa confusão, e há clareza sobre os ensinamentos do Buda, a visão tende a esquerda.

      • Philos77

        Acho que há um problema de rótulos aqui, Eduardo. Competição, no sentido capitalista é uma coisa. No sentido grego, de “imitar a excelência”, não me parece muito diferente da relação mestre-discípulo presente em todas as tradições, principalmente orientais.

        Do meu ponto de vista (repito: diletante) me parece que há um equívoco em tentar restringir o budismo à política contemporânea.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Acho que há um problema de rótulos aí: se estamos falando de direita, estamos falando no sentido capitalista, não é mesmo?

        E, de fato, dentro do treinamento de alunos, a competição é um dos problemas mais graves, sendo frequentemente assinalada como um tipo de doença.

      • Philos77

        Eduardo, o sentido platônico de excelência como modelo aos demais “artesãos”, apresentado na República é beeem conhecido. Me surpreende que não

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Não faz diferença alguma sobre o que se compete, uma vez que há comparação mútua, há ignorância. Isso é bem descrito nos textos, sobre meditantes que ficam se medindo uns aos outros, é descrito como doença.

        O estado não precisa se ocupar em diminuir venenos mentais, basta que não os promova, como o corre no liberalismo econômico.

        O mesmo argumento sobre o estado, poderia ser aplicado a indivíduos. E de fato, na política budista, há a noção de estados iluminados. Não há diferença alguma entre um coletivo e um indivíduo, em termos do que ele pode atingir.

        No meu texto recente sobre regulação eu trato do tamanho do estado e de todos esses problemas que você menciona. Dá uma olhada.

      • Philos77

        A competição é entre o padrão de excelência. Esse é um mecanismo utilizado amplamente em qualquer tipo de ensino e produção. Não é, necessariamente, algo que se opõe diretamente entre dois indivíduos. Acho que não está compreendendo esse ponto. Nada disso é “um jogo”.

        Claro que em religião essa questão de padrão de excelência se torna mais abstrata e subjetiva, e é nesse ponto que quero estudar a vertente budista melhor, pois há uma integração concreto e abstrato mais coesa.

        “Estados Iluminados”? No thanks. ;-)

        Não há diferença alguma entre um coletivo e um indivíduo, em termos do que ele pode atingir.

        Exato. Por isso mesmo é muito difícil imaginar um “estado Iluminado” pois precisaria ser habitado por iluminados. Aposta mesmo nessa direção politicamente?

        E, no sentido contrário, fica pior ainda, pois você está ignorando o ponto que salientei onde o estado desenvolve mecanismos próprios, peculiares, que não existem no campo individual. A lógica da própria estrutura atuando de forma mesquinha, igualzinho ocorre nas empresas e no mercado que você tanto critica…

        Juro que fico muito surpreso com a sua incapacidade de enxergar isso em relação ao estado ao mesmo tempo que aponta o tempo todo o mesmo problema nas corporações. A mesma “personalidade psicopata” se desenvolve nos meios peculiares aos governos. Acho inclusive bizarro ter que lembrar isso a um brasileiro…

        De qualquer forma, vou rever seu texto para entender melhor sua posição sobre regulação.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Eu até entendo, li Adam Smith, que a pretensão é moral. Mas a realidade não é. Principalmente quando estamos falando de recursos finitos. E, mais do que isso, quando vemos a olhos vistos a desigualdade aumentando.

        Todos os centros de dharma que conheço funcionam como estados-bodisatva. A noção de mandala é uma noção também de ciência política. É evidente que os coletivos podem andar em direções mais ou menos éticas, e é por isso que existe política.

        E, claro que existem mecanismos nefastos, exatamente como no individuo. Ora, estou apontando para um deles, a ideologia capitalista — pelo menos no que há de PROMOÇÂO da ideologia capitalista, que vem lá do darwinismo social.

        O que estou discutindo, aqui, não é nem o que eu penso. Estou dizendo que a critica ao capitalismo é essencial ao praticante budista — e eu definiria isso como “esquerda”. Há problemas no pensamento de esquerda? Evidente que há. Não estou abraçando todo e qualquer pensamento de esquerda quando digo que sou de esquerda e que o budismo como um todo tende a esquerda. Creio que qualquer um é capaz de entender isso.

        O problema do Brasil, até onde entendo, não é recente, e não é exatamente ideológico.

        É óbvio que governos podem ser psicopatas e terem outras “doenças mentais” — mas a corporação, do jeito que a lei é formada, sem accountability e com todas as prerrogativas dadas a um indivíduo (todas as liberdades, como se fosse uma pessoa), faz com que as corporações NECESSARIAMENTE sejam psicopatas — por mais bem intencionados que seus CEOs e acionistas possam ser.

      • Philos77

        Eduardo, não estou dizendo que não se deva criticar o capitalismo, mas que essa crítica não implica em relevar os problemas semelhantes do lado oposto (empiricamente muito mais graves), se definir “de esquerda” etc. Uma coisa não implica na outra.

        Na verdade, no sentido em que estou falando, até a democracia pode, e deve, deve ser criticada.

        Novamente repito: não falei em comparação direta entre indivíduos, mas entre o que se entende por excelência. No cristianismo isso se dá por identificação com os santos (de uma forma mais pessoal no sentido de foco e doutrinária, no sentido de ensinamentos) e “imitação de Cristo” (de uma forma mais simbólica e teológica.

        No Judaísmo não é diferente, assim como no paramathman indu: aniquilação do ego para ressonância com a “mente universal”. Enfim, não estou falando de competição entre pessoas, mas entre princípios do indivíduo para que alcance determinado estado de “excelência” (ou consciência búdica, como queira).

        Quanto ao estado teocrático, bem, não é difícil fazer o mesmo paralelo “positivo” com o cristianismo, como você mesmo reconheceu. Isso faz o estado teocrático melhor que o democrático? Claro que não.

        Da mesma forma, não é porque as empresas se configuram (coisa que, assim como os trusts norte americanos do início do séc. XX, podem ser mudados) de uma forma necessariamente nociva dentro do sistema atual que o sistema inteiro passa a ser pior do que outra linha que tem se demonstrado mais repressor e genocida na prática. Um dos principais motivos para as corporações serem o que são é justamente a corrupção governamental. Aumentar o poder regulador dentro desse cenário é criar um ciclo vicioso.

        Desigualdade? a menor desigualdade se dá entre os países capitalistas, isso é um fato pra lá de pacíficado. A pior entre países socialistas com regimes autoritários (pleonasmo? :-) . Os social-democratas ricos atuais não se tornaram ricos como social-democratas. Se há algum argumento a favor da esquerda, com certeza não é esse.

        Por fim, gostaria de esclarecer que não estou buscando o budismo de forma estritamente monástica, mas sim uma informação mais qualificada e alguma vivencia que sei ser indissociável dos ensinamentos. Agradeço as suas indicações (inclusive pelas descrições, ainda que breves, junto aos links). Faz tempo que o budismo foi vulgarizado no ocidente e é preciso filtrar a papagaiada new-age. Aqui no Rio há um centro Tibetano, mas estou para me mudar para outro estado, então não posso decidir nesse momento.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        “Empiricamente muito mais graves”: primeiro você está caracterizando o pensamento de esquerda pelo que não funcionou, e segundo você está subestimando o volume de sofrimento humano e ambiental causado pelo capitalismo.

        Cara, não adianta você querer transformar competição em excelência. Ora, se estou atacando o que ocorre no capitalismo, toda a outra discussão é irrelevante.

        No budismo não há deus, portanto não pode haver teocracia.

        O governo é sintoma da doença corporativa, e não vice-versa. É o mesmo que os libertários tentam argumentar com relação a crise: ora, se foi a desregulação em primeiro lugar que causou o problema, agora eles vem dizer que o problema ocorreu porque há regulação demais!

        A desigualdade só tem aumentado. Você iguala eu ser esquerdista com defender governos totalitários? Ah, então você cai sobre a ideia de que eu aceito tudo que recebe o rótulo de “esquerda”. Da mesma forma, um direitista como você deve estar esperando com regozijo a volta de jesus cristo enquanto duvida da evolução das espécies.

        Os centros de dharma que funcionam como terras puras que mencionei são também não monásticos. Aliás, eu não conheço de primeira mão um centro monástico. Quando falamos de sanga, falamos de terra pura, quer moremos juntos e sejamos monges, quer moremos juntos e não sejamos monges, quer não moremos juntos: porque a sanga possui uma organização coletiva em qualquer das opções. E em todos os casos, visa uma terra pura.

      • Philos77

        Acho que estamos rodando em círculos no sentido de afirmação de uma coisa e negação da outra dentro do espectro político. Não estou dizendo que você é comunista ou coisa do tipo, pelo pouco que conheço de sua postura política está mais para centro-esquerda. da mesma forma, minha postura é de centro direita. A diferença maior é que achamos que o norte fica em direções opostas :-)

        Para mim é claro como o sol que os governos esquerdistas são os piores. Muitas das neuroses contemporâneas que você atribui ao capitalismo não existiriam porque não haveria liberdade naquele plano, não porque o regime esquerdista seria melhor no mesmo aspecto. O indivíduo simplesmente não teria o direito de decidir ou atuar. Sim o mercado é duro e difícil, mas não tanto quanto ditaduras como a stalinista ou a de Mao. Nem de longe.

        Não estou dizendo com isso que você “defende governos totalitários”, mas sim que os negligencia na análise, assim como faz com os estatutos dos movimentos esquerdistas brasileiros dos anos 60 dos quais participaram nossos governantes atuais (como o VAR-Palmares, COLINA, etc.) , que propunham claramente a implantação de um regime autoritário nos moldes de Cuba, por exemplo.

        Se aplicar o mesmo rigor crítico que usa com o capitalismo em relação aos governos esquerdistas (e mesmo às ideias, já que eles só passaram a disfarçar o totalitarismo dos anos 60 para cá, quando o movimento se tornou mais gramsciano de modo a disfarçar as táticas stalinistas), duvido muito que continuaria a se considerar “de esquerda”. Mas tenho consciência de que isso não vai ocorrer ;-)

        Sobre os centros budistas, vou dar um pulo lá no Humaitá para conhecer o lugar e conversar. Por hora é o que posso fazer.

        Abraço

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Fica claro que você ainda não leu minha critica a desregulação.

        Para mim, como para a direita de forma geral (talvez você seja um caso anômalo), criticar o capitalismo, a essência do capitalismo, que é a competição, é, por definição “esquerda”. Até mesmo no sentido primeiro do termo, que é “oposição ao status quo”, oposição à situação.

        O que é um governo “esquerdista” — há governos mais a esquerda, e menos a esquerda. O governo Obama é mais a esquerda do que o governo Bush. E superior.

        E, no que esses dois governos tem de direita, eles também se aproximam do totalitarismo. Acho uma falta de visão ampla toda a vez que alguém menciona “esquerda” surgir a ideia de governos comunistas — por mim eles nunca teriam entrado na conversa. Ora, eles implodiram.

        Pessoas que chamam o Obama de socialista estão viajando na batatinha, mas ele é de esquerda. Ainda assim muita gente chama ele de socialista, que e um sabor da particular da esquerda, e que tem muitos “subsabores”. Tem gente que reclama do Dalai Lama ter se dito socialista sendo vitima do governo socialista marxista: esse tipo de gente é, tenho que dizer, ignorante demais. Ora, o socialismo do Dalai Lama com certeza diz respeito ao governo ter uma ação de proteção com relação aos menos favorecidos. Todos os extremos cometidos em nome do socialismo, o marxismo e assim por diante, também podem e devem ser chamados de socialismo — mas o socialismo não se caracteriza inteiramente por esses fenômenos de forma alguma. Aliás, nem mesmo na mente da direita: veja só o exemplo do Obama. Se xingá-lo de socialista implicasse que ele é socialista, para começar so isso indicaria que o socialismo seria bem menos de esquerda do que supostamente é. Um esquema de regulação de mercado de saúde como o Obamacare, SEM SINGLE PAYER, é chamado de “socialista”. E, em certo sentido, é MAIS SOCIALISTA do que o que havia antes, mas é socialista? Não é. Quem não gostam, chamam de “próximo do totalitarismo comunista”. É um xingamento, não é uma reflexão sobre sentido de palavras.

        E, de fato, se eu vivesse uma realidade onde o socialismo oprimisse, eu seria — na medida do que minha coragem permitisse — crítico ao que eu visse de errado naquele socialismo. Porém, vivemos na crista da onda do capitalismo da era da informação, no fim da classe média norte americana, no crescimento absurdo da linha de desigualdade. Essa é a realidade. Mesmo a China, ou o Brasil, que tem supostos governos “esquerdistas”, tem como seus maiores problemas efeitos DO capitalismo. Novamente, o libertário vai dizer “ah, sim, menos governo, menos corrupção, deixa as empresas fazerem a festa sozinhas” — mas esse, novamente, é um argumento circular. E eu tratei disso no outro texto, com detalhes e estudos de caso.

        Então, quando me digo de esquerda, eu claramente indico que, como meu texto sobre regulação fala, que o controle do governo é essencial particularmente nas concentrações de poder e dinheiro. Ora, se a desregulação causou esse caos financeiro, não há indicação alguma de que desregular mais, e menos governo, ajudem de qualquer forma. Eu não uso o nome Gramsci nem que me paguem. Não tenho nada particularmente contra: não acho relevante aos problemas atuais no mundo. Quem dera intelectuais populares surgissem e lutassem contra a hegemonia das concentrações. Não vejo isso acontecer. Aliás, essa teoria de conspiração, para mim, é coisa dos olavetes — o nosso próprio brand de lunático de direita. E, ademais, o meu esquerdismo é internacional: eu sou de esquerda nos EUA. No Brasil talvez a esquerda não me considere suficientemente de esquerda, mas azar é o deles: da mesma forma que é xingamento, é também bandeira de time de futebol. Não me interessa esse tipo de vida intelectual.

        Eu tenho clareza de quem são os maiores inimigos do bem estar global: e estes são os que sustentam três coisas: pessoidade corporativa, desregulação, e, ocasionalmente, a desigualdade como “não sendo um problema”. Nem acho que os defensores do trickle down economics ainda existam num âmbito coerente de discurso, senão esses seriam também oponentes. ISSO me torna de esquerda. Acreditar em programas sociais como renda mínima, educação pública (não exclusivamente), planos de saúde públicos (não exclusivos), bombeiros não terceirizados, polícia não terceirizada, etc: isso HOJE me faz socialista.

      • Philos77

        “Mesmo a China, ou o Brasil, que tem supostos governos “esquerdistas”, tem como seus maiores problemas efeitos DO capitalismo.”

        CUMA?

        Depois de ler algo assim dá um desânimo danado, mas vamos lá.

        A definição está bem estruturada e exemplificada na história, com a esquerda associada a ideia de controle estatal como regra e a direita à livre iniciativa como regra. Esses são os pilares. Em termos de movimento temos Socialismo (o que inclui a vertente Fabiana, Social Democrata) à esquerda, e democracia liberal à direita. esses são os fatos, pacificados ao longo da história.

        A partir daí há misturas, claro, mas redefinir esquerda como os paladinos da justiça social e direita como inimigos da humanidade não dá, sorry.

        O Olavo, citado por você, pode ser paranoico (principalmente em assuntos religiosos), mas “lunático”, não mesmo. Ainda não vi esquerdistas discutirem uma só argumentação política dele, fogem como o diabo foge da cruz, tentando ridicularizar com citações de exageros e frases de efeito para afastar a discussão em si. O mesmo ocorre com Arnaldo Azevedo e até mesmo o Luis Felipe Pondé, pra lá de moderado.

        Você demonstra ignorar a doutrinação sistemática que ocorre em TODAS as Universidades da América Latina, e, no caso do governo PT agora também no ensino médio com a revisão do material didático com esse propósito. Você fechar os olhos para essas cosias, para as óbvias ressonâncias dos princípios e estratégias não só gramscianos, mas stalinistas mesmo, não faz a realidade desaparecer, é só wishful thinking, já que sabe que não há nada de bonito nessas coisas e deseja dissociá-las do que defende. Infelizmente não é possível fazer tal dissociação.

        No que tange a meu posicionamento, reitero que criticar algo não é negar (precisa mesmo lembrar isso?!). Minha concepção de competição no sentido de imitação e eventual superação da excelência já está pra lá de explícita (estamos falando disso desde o início).

        Minha posição liberal porém a favor de uma regulação mínima que combata excessos (e não regulação como regra sistemática, acompanhando tudo, como ocorre hoje nas Agências Reguladoras), idem.

        Sou radicalmente contra ações afirmativas improdutivas e a favor de uma estrutura mínima de cuidado social que estimule formação e empreendedorismo (já participei desse tipo de coisa, inclusive) descentralizada. Elefantes brancos como o BNDES só servem para o Governo e seus amigos mamarem. Sobre rios de dinheiro para bolsas-esmola-voto, acho que não preciso nem dizer o que penso…

        Me veio à mente uma frase do digníssimo Roberto Campos:

        “Os comunistas sempre souberam chacoalhar as árvores para apanhar no chão os frutos. O que não sabem é plantá-las”

        Concordo contigo porém quando diz que HOJE, levando em conta a (falta de) estrutura que está aí é necessário que haja educação e saúde públicas também.

        Pela combinação desses elementos me defino como centro-direita.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Eu não vi nada disso de doutrinação na UFRGS, pelo menos no curso de Sociais e Filosofia (Física também não, mas não conta) — outros departamentos não fiz aulas. Nunca estudei Gramsci ou Marx por lá.

        Eu creio que a esquerda não se digna a responder ao Olavo, porque, puxa, é como responder ao Bill O’reilly ou ao Glen Beck. Se por acaso ele passar a ser politicamente relevante, talvez caiba argumentar com ele. Mas um suposto intelectual perdido sozinho (sem peers, só com “alunos”) em seus rantings, não dá para levar a sério.

        O cerne dessa discussão é a regulação. Não é nem mesmo o tamanho do estado ou a burocracia, porque embora sejam resultado comum em governos mais socialistas, nunca são o objetivo expresso de nenhum governo. Os exemplos de autorregulação da iniciativa privada e dos problemas causados pela desregulação que apontei no meu artigo demonstram claramente que uma solução extremamente desregulada não vai ser possível em nenhum mundo. Daí que algum governo sempre exista, e o problema da burocracia e do inchaço é comum em todos os casos. Como esse é um problema que precisa ser solucionado em qualquer mundo possível, esse é um problema comum da direita e da esquerda. A direita parece simplesmente querer jogar esse problema para baixo do tapete, promovendo uma “diminuição do governo” (enquanto muitas vezes está, lá nos eua pelo menos, inchando o orçamento de defesa, e reduzindo impostos numa esperança de trickle down). Porém a solução não é deixar as empresas/bancos mais soltos: isso já foi tentado. Por quase 40 anos.

        Se o índice de aumento de desigualdade serve para alguma coisa, é para indicar que o governo precisa intervir MAIS — também para não se ver obrigado a bail outs e corporate welfare.

        E veja, todos concordamos que um extremo desregulatório é impossível. Bom, todos menos a ala mais fanática do libertarianismo. Na medida que precisamos de algumas regulações, precisamos de um governo que funcione direito. Parte desse “funcionar direito” é regular apropriadamente, e isso significa uma política em que o governo assume seu verdadeiro papel, que é proteger o mais fraco. Isso nunca vai ser ideal, mas na esquerda se tem clareza de que esse é o papel do governo, e a tendência é que isso aconteça um pouco mais. In a nutshel, esse é meu argumento. Mas você pode se referir ao artigo que não leu para detalhes.

        Ademais, o discurso libertário de desregulação e estado mínimo é vendido como “liberdade”, e essa é uma estratégia publicitária. Como corporações são pessoas para essa gente, a liberdade que eles vendem para pessoas é abusada pelas corporações. No artigo eu cometi o erro de assumir que isso está explícito nas intenções dos teóricos libertários, mas não precisa ser assim: as corporações mesmas podem patrocinar a ideologia libertária.

        É muito curioso que a argumentação de estado mínimo se dê porque o estado é corrompível. Isto é, como se a corrupção dependesse do tamanho do estado: seja por desregulação, seja por regulação específica, lobbies particulares podem ser beneficiados. Aqui o wishful thinking de que o mercado e a eficiência da competição produz naturalmente um mundo mais moral é ultrajante. A preocupação moral existe em todos os mundos possíveis, não há razões para esperar que um mundo com menos governo seja mais justo ou menos corruptível. Aliás, os casos que apresento no meu artigo demonstram isso. E a crise de 2008 também, já que ela, aos olhos de todos os teóricos, surgiu de progressivas políticas desreguladoras.

        Então, se você fala da queda do muro de Berlin nos anos 90 como exemplo da falência de um governo absolutamente centralizador, precisamos falar dessa crise — ainda não resolvida — como exemplo da falência de um governo absolutamente não intervencionista (no mercado financeiro, pelo menos, que é o estopim disso tudo). Você pode dizer que a queda do comunismo é uma coisa, e isso não é a queda do capitalismo: perfeito, a simetria não é exata. E tampouco a escala. São situações diferentes, mas cada uma delas fala de intervenção e não intervenção, e a preemente, a não resolvida, a que realmente importa, é a última. Ninguém sensato acha que o nível de intervencionismo estatal dos países comunistas é desejável — e nós dois reconhecemos que apontamos para o centro — porém a minha crítica, a crítica da esquerda, a crítica ao não-intervencionismo é infinitamente mais viva e relevante no mundo hoje.

      • Philos77

        Estou entendendo melhor seu ponto. Você não dá muita importância à vertente política por si só e apenas usa o termo esquerda pois é terminologia vigente. Por isso as distorções no caso de uma posição de centro (é semelhante ao meu caso em relação ao liberalismo).

        Com relação a mergulhar no tema da regulação, é por si só um assunto extenso. Vou ler o seu artigo para ter melhor visão do seu posicionamento e qual é a argumentação.

        No caso do tamanho do governo em si. O que me parece não te preocupar, mas pesa, e muito, nessa conta é o gasto de recursos só para manter a estrutura. Acaba-se, em vários casos, criando-se um “meta mercado” político, envolvendo licitações e agências reguladoras corruptas. Ou seja, é preciso um motivo, e um resultado, muito sólidos para justificar essas estruturas enormes. Se a corrupção corrupção inerente à sociedade não serve para justificar o mercado, tampouco para justificar o Estado! Mas vou resistir à tentação de adentrar nisso antes de ler seu artigo e avaliar os exemplos, etc.

        Com relação ao papel do governo ser mais afinado com a esquerda no sentido da justiça social, não tenho tanta certeza. O que acontece é que, na democracia de representações de amplo acesso (ou “deliberativa”como propõe Habermas), começa como uma ideia de igualdade de oportunidades e manifestação parlamentar e termina efetivamente como uma distorção da representação democrática onde se ganha no grito e em comportamentos mafiosos semelhantes aos das corporações.

        Além disso há nessa concepção uma contínua redundância de instituições que supõe a regulação da regulação, a representação da representação, etc. remontando ao problema do elefante branco ineficiente e dispendioso que mencionei.

        Você diz que a preocupação com o equilíbrio social é predominantemente esquerdista. Também pode-se dizer que a extorsão dos recursos de quem os produz para compra de votos por “ações afirmativas” também. Não dá para enxergar as definições de forma tão abstrata, geral como você propõe.

        Um exemplo atual é a influência exagerada (do ponto de vista da representação socio-cultural) do movimento gay nos materiais didáticos, chegando a propor cartilhas de “diversidade sexual na primeira infância” para crianças de 0 a 6 anos, recebendo verbas milionárias para isso, sendo o paladino de tão nobre causa um ex-BBB que como professor responde a processo por assédio moral…

        Daí entra em cena o totalitarismo ideológico, propondo que se entenda: a crítica=perseguição, com o objetivo óbvio de angariar o máximo possível em todos os campos, sem qualquer preocupação proporcional, ou seja, sem compromisso com a democracia, apenas com seus próprios interesses (soa familiar?).

        Desculpe mas não dá para investir nisso.

        Obs. Sobre o Olavo, não “se dignam a respondê-lo” mas se empenham muito em tentar desqualificá-lo a priori… Além disso o livro mais recente (coletânea) está na lista dos mais vendidos. Seu argumento de que não respondem por ele ser insignificante não bate com os fatos, portanto. O problema do Olavo, e dos demais da extrema direita é que estendem todos os assuntos de forma a ter coerência com um catolicismo carola e republicanismo norte-americano anacrônico. Isso prejudica a articulação política.. Mas dizer que são lunáticos que só falam besteiras? Não mesmo.

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        Discordo dessas noções sobre “cartilhas gay”, como se isso tivesse qualquer importância nas questões políticas que estou levantando. E, de toda forma, qualquer importância positiva ou negativa de forma geral. O volume de ideias absurdas a que uma criança é exposta, esteja onde estiver, é altíssima. Não vejo isso como totalitarismo, mas uma política tentativa, possivelmente exagerada e com defeitos, mas melhor do que não fazer nada, não ter nenhum direcionamento. Se o lobby de uma minoria consegue algum poder, ótimo. Isso não implica nenhuma distorção, senão a curto prazo.

        quanto a todos os outros pontos, inclusive certas minúcias sobre o que você falou nesse último post, já foram tratadas no texto da regulação, mês passado.

      • http://www.cobratagarela.com.br/ André Vinícius

        Excelentes todas as suas intervenções!! Mas mudando de assunto:

        1. Você acredita que é sustentável sociedades anarquistas?

        2. Você já pensou em escrever (ou já escreveu) algum artigo sobre sua visão de vida após a morte e a existência de deidades? Se não escreveu, estes assuntos te interessam?

        Abraços!

      • http://tzal.org/ Eduardo Pinheiro

        1. Não. Embora eu simpatize com alguns pensadores, na prática eu acho que as pessoas numa sociedade com um grau maior de anarquismo sofreriam mais.

        2. Pretendo escrever uma crítica ao fisicalismo e ao funcionalismo. Sobre esses assuntos do jeito que você colocou vc pode ler em http://tzal.org/perguntas-respostas/ onde várias pessoas já fizeram perguntas do mesmo teor.

      • http://www.cobratagarela.com.br/ André Vinícius

        Muito obrigado! Vou ler o texto. E fico no aguardo do artigo.

  • Neo

    Vou separar para ouvir/ler mais tarde.

  • Neo

    Eu só sei de uma coisa… esse cara precisa urgentemente fazer alguma atividade física.. tá muito gordo… parecendo uma caricatura.

    • Márcio

      O cara sabe de muitas coisas mas de alimentação e saúde acho que falhou.

  • O vagabundo

    Apenas uma pessoa dando sua opinião pessoal sobre tópicos aleatórios.

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