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Sinto muito ciúme! | ID #49

"Se você pular a cerca, eu morro" – seria possível superarmos algo tão avassalador quanto o ciúme? E caso sim, como?

Pergunta: 

"Olá, Fred.
Namoro com uma mulher maravilhosa há mais de um ano. Nossa relação vai bem, mas tenho dentro de mim algo muito forte que, embora ela saiba que existe, certamente não conhece as proporções exatas: um ciúme cortante que não consigo entender de onde vem
Há dez anos venho trabalhando isso dentro de mim e, numa análise relativa à minha própria historicidade, sei que tenho feito muitos progressos. Mas embora eu tenha hoje mais capacidade de tratar esse sentimento como um problema meu, tentando evitar que envenene a relação, ainda me flagro refém do mesmo, me sentindo magoado com ela por conta de cenários que eu mesmo crio. Além disso fazer com que eu me sinta fraco e imaturo, receio que, em algum momento, isso vá nos prejudicar. 
O que posso fazer para me livrar da persistência do sentimento de ciúme, já que racionalmente não vejo motivos para senti-lo?
Abraço, L.G."
"Encontrou algo!??" "Talvez, mas preciso checar onde está minha esposa e já volto, um segundinho."

Caro L.G.,

O ciúme parece já ter sido tombado como patrimônio histórico dos relacionamentos amorosos, como se fosse preciso aceitar que está lá e jamais vai embora. Ainda bem que você começa seu discurso admitindo que o ciúme não é saudável.

O que parece definir a ideia de bom ou ruim, nesse caso, é a sensação de posse. 

A nossa maneira latina de avaliar a qualidade de um relacionamento é observar se as partes envolvidas "se possuem". A métrica define que o ciúme seria um demarcador positivo. Se há sentimento territorialista, isso denotaria amor.

No entanto, a pressão sobre o parceiro à respeito do quanto ambos se amam um terrível peso. Tensiona e por vezes leva ao fim prematuro da relação.

A cada novo acontecimento o ciumento precisa checar: "você ainda está aí?", "ainda me ama?", "ainda acha que sou bom o suficiente?".

Isso pode parecer bonitinho quando a paixão está comendo solta, mas não quando se pretende levar uma vida juntos. Logo se torna exaustivo e infantil. É como se o ciúme quisesse garantir um lugar de exclusividade pela checagem – e não pela experiência mútua de contentamento.

"Será que o outro está me passando para trás?"

Um sonho de muitos: contratar a equipe do CSI para resolver questões um tanto menos graves do que assassinatos

O principal medo do ciumento é ser abandonado ou enganado, "fico em cima mesmo, não quero ser feito de trouxa". Esse medo obsessivo acaba criando uma relação competitiva com o resto do mundo e controladora com o(a) parceiro(a).

Precisamos entender que nisso, o ciúme se assemelha com vários quadros psiquiátricos. 

Não raro pessoas com esquizofrenia, transtorno de personalidade borderline, obsessivo-compulsivas ou apenas alcoolizadas manifestam essa paranóia ciumenta. 

Aliás, o componente principal do ciúme é justamente essa paranóia que desconfia do outro utilizando dados parciais e interpretações tortas da realidade para legitimar seu mal-estar. 

O ciumento nunca diz "eu sinto ciúme". É sempre "agindo desse jeito você me faz sentir ciúme". Tornando a causa do mal-estar exteriorizada, a pessoa não assume a responsabilidade devida pelo sentimento.

E se ele(a) gostar mesmo de outra pessoa?

Outro ponto que complementa a paranóia é o sentimento de inferioridade que o ciumento chama delicadamente de insegurança. 

Mas é diferente falar de insegurança em uma pessoa que poderia trabalhar para o FBI em matéria de esperteza. Se alguém consegue rastrear o outro e cruzar dados para confirmar sua tese de traição como chamar essa pessoa apenas de insegura? Ela se sente inferior e por isso perturbada em sua importância, claro. Entretanto, precisa ter bastante segurança para ir atrás de tantas provas e considerar tal ato razoável.

O ponto fraco do ciumento patológico costuma ser sentir, lá no fundo, que nada do que faça ou seja é o bastante para "garantir" a relação. 

O sentimento é de menos valia e baixa "gostabilidade", como se qualquer pessoa fosse potencialmente mais atraente, bonita, inteligente, sexy ou interessante. 

É menos sobre o quanto o outro reafirma (ou não) seu comprometimento, pois se trata de uma questão que só o próprio ciumento pode resolver.

Foi trocado, trocou, traiu, foi traído, se confundiu? É o ciclo natural da vida e não quer dizer que não houve amor ou uma bela relação, amigos e amigas. Respirem, não se desesperem, amanhã é outro dia.

O sentimento de importância pessoal, por exemplo, tende a ser construído na infância, ao sermos crianças estimadas e admiradas por nossos pais e familiares. E quem não cultivou isso ainda precisa fazê-lo na vida adulta. 

Como? Um caminho é pela auto-eficáfica. Isso significa ter boas performances em diferentes áreas da vida para construir uma fortaleza interior que não seja abalada por uma comparação qualquer.

Por vezes o problema se dá no desejo do ciumento de ser amado incondicionalmente, quase como se não precisasse fazer esforço algum, apenas seguindo em sua passividade.

Potencializando a paranóia e o sentimento de inferioridade, o ciúme conta com a obsessividade para completar o bolo e garantir que "tudo" foi checado na mais fidedigna perfeição. 

O ciumento age como um agente do CSI que investiga provas físicas ou emocionais, checando tudo que o outro fala, sente e se está onde diz que está. É nessa necessidade de controle, previsibilidade e imutabilidade que a pessoa se perde. Afinal, essa é uma aspiração digna de "Alice no país das maravilhas". 

Pois a vida é imprevisibilidade, mutabilidade, fluxo. 

O ciúme é a antítese do amor genuíno que precisa de espaço, liberdade e generosidade para florescer.

O ciumento age, em linhas gerais, de modo mesquinho. Contando os passos, os olhares, as alegrias da pessoa amada para na sequência roubar o sorriso no rosto com uma pergunta do tipo "está rindo para quem?". 

Certamente não é isso que garante uma resposta honesta ou uma alegria correspondente. Sem perceber, o ciumento faz murchar a flor que tanto diz idolatrar. 

O que fazer então?

Para iniciar um processo de superação do ciúme (que é possível, acreditem) é preciso mais que revisitar seu modelo de amor e repaginar sua vida, sua visão de mundo e sua personalidade. 

O ciúme não é apenas um problema amoroso, ele sinaliza como nos relacionamos com a própria felicidade em nossas vidas.

É preciso trabalhar em si a entrega, a potência pessoal e a capacidade de estar vulnerável diante do outro. Assim nos deixamos inspirar pela generosidade e alegria alheias. 

Isso se treina, não é dom inato

Em pequenos gestos como cuidar de si, relaxar o corpo, destensionar, respirar antes de falar o que vem a mente – filtrando esse hábito estraga-prazeres –, conviver com o medo da rejeição e do abandono, fazer brilhar o olho quando o(a) parceiro(a) realiza algo que chame a atenção, mesmo que isso atraia o desejo de outras pessoas. 

Podemos combater o ciúme com vários ações que não dependem da pessoa amada. O foco é interno, você olha com carinho para si mesmo, se levando menos a sério, parando de perseguir, controlar e criticar cada passo. 

É um treino pra vida. 

Ao deixar transbordar a sensação interna de contentamento em viver, o ciúme pouco a pouco perde espaço. Lentamente, as paranóias cedem, dando lugar a confiança; a inferioridade sai de cena para surgir então o empoderamento; por fim a obsessividade tende a enfraquecer, enquanto a fluidez ganha força.

Agora é contigo, e com todos nós, meu caro L.G. 

Aguardemos as outras preciosidades que surgirão nos comentários no texto, sugiro a todos que compartilhem seus obstáculos e histórias sobre como têm lidado com esse sentimento.

Um grande abraço.

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Leituras sugeridas:

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Nota: a coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas). É apenas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão ampla, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta, leia as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa. Se ainda assim considerar sua dúvida benéfica, envie para id@papodehomem.com.br. A casa agradece.


publicado em 16 de Julho de 2015, 17:18
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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