Como parar de divulgar e ser enganado por notícias falsas | 9 práticas para 2017 doer menos

Em 2016, notícias falsas e boatos foram muito mais importantes do que gostaríamos de admitir. É hora de falar sério sobre isso e evitar esse problema.

Notícias falsas não são um fenômeno novo, nem mesmo pra Internet. 

Se você tem idade o suficiente pra ter visto o engatinhar dos primeiros serviços de email, antes das redes sociais, sabe que elas se espalham, não importa muito como. Provavelmente, foi assim que você ou a sua mãe ouviram falar pela primeira vez que o McDonalds usa carne de minhoca pra fazer os hambúrgueres, ou que o governo estava escondendo a verdade sobre o ET de Varginha ou o chupacabras, ou ainda que havia um príncipe africano querendo depositar dinheiro na sua conta para se livrar de um golpe de estado.

Até aí esses hoax não parecem lá tão prejudiciais assim.

Porém, o que aconteceu em 2016 é um desdobramento que, talvez, ninguém imaginava. Notícias falsas, com apelo emocional fortíssimo, tiveram participação em eventos que vão ficar marcados na nossa história. Da eleição de Trump à saída do Reino Unido da União Europeia, passando por informações manipuladas e desencontradas sobre o conflito na Síria. Elas estão por aí.

A verdade é que há muito tempo boatos e notícias enganosas são muito significativas como arma de manipulação, seja pra publicidade ou pra eleger governos nacionalistas, como na Alemanha Nazista.

Mas não é só na esfera política e global que as notícias podem ter efeito devastador. O Nexo Jornal conta a história de duas pessoas, uma que hoje não sai de casa com medo e outra que morreu espancada por causa de notícias falsas.

O serralheiro carioca Carlos Luiz Batista, de 39 anos, viu sua vida virar de cabeça para baixo em poucos dias em razão de um boato compartilhado nas redes sociais. Uma mensagem, acompanhada de sua foto, dizia que o serralheiro era “estuprador e sequestrador de crianças”.

Batista, que começou a receber ameaças, agora tem medo de sair de casa. Não é o primeiro caso do tipo: em 2014, uma mulher foi espancada até a morte no Guarujá, litoral paulista, depois de ser acusada, em boatos em redes sociais, de que estuprava e sequestrava crianças. No entanto, nem sequer existiam denúncias do tipo na região.

Em 2016, pós-verdade, foi escolhida como a palavra do ano pela Universidade de Oxford, um adjetivo "que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais".

E, em tempos como o nosso, no qual não faltam links para clicar, é muito mais importante saber em quem você pode confiar ou não, tanto que o Google e o Facebook já anunciaram medidas pra impedir a viralização e também facilitar a checagem de notícias.

Aqui, vale dizer: não é à toa que notícias falsas têm tanta penetração e se popularizam tão rápido. A questão é que não é fácil identificá-las. Você precisa respirar, ler com calma, ver o que outros veículos estão falando a respeito, etc.

Porém, ainda que saibamos que é necessário um certo esforço e que muito provavelmente a maioria das pessoas não tem sequer tempo ou motivação pra fazê-lo, ainda temos desempenhar o nosso papel de não ser multiplicador de desinformação e também de ajudar a esclarecer quem esteja caindo nesse erro. 

Certamente, não é uma conversa fácil, mas vale comentar gentilmente lá no post daquele seu amigo que divulgou que Bolsonaro foi eleito o político mais honesto do mundo e avisar que a notícia é falsa. Todo mundo sai ganhando. 

Algumas características de notícias falsas

As notícias falsas são feitas para viralizar. Assim, elas costumam ter características que se repetem. Então, se deparar com algo que vem pegando fogo na timeline, vale checar.

1. Se for absurdo ou bom demais, provavelmente é falso. Vale lembrar que notícias falsas são feitas para angariar cliques e não há nada melhor do que um sonho impossível se tornando realidade ou o reforço de uma antiga crença pra gerar uma resposta emocional e colocar seu dedo ali no botão de compartilhar.

2. Imagens fortes, cadáveres, violência excessiva. Novamente, o foco é gerar revolta, indignação, nojo. Grandes veículos raramente fazem uso desse tipo de recurso, já blogs e sites menores, não costumam ter pena de apelar para gerar cliques, mesmo que pra isso tenham que forjar imagens (o que não raro é o caso).

3. Citação de pessoas ou especialistas que não existem. É fácil identificar uma notícia falsa procurando pelos nomes citados. Em geral, quem fabrica notícias coloca nomes de indivíduos inexistentes como se fossem profissionais de alguma instituição renomada. Por exemplo, citam um jornalista dizendo que ele foi premiado pelo Pulitzer e quando você procura o nome dele no Google, vê que não só ele nunca ganhou nenhum Pulitzer, como ele não existe. É um dos modos mais efetivos de identificar problemas em uma publicação e se repete bastante em notícias que citam estudos científicos bizarros.

4. Texto sem data. esses artigos costumam viralizar de novo de tempos em tempos. Um dos motivos é que eles não possuem data, para descontextualizá-los e facilitar o engano. Outra coisa que é comum é um artigo antigo ser veiculado novamente, com algum novo contexto que facilite a viralização. Nesses casos, vale checar a data da informação, caso ela exista.

5. Pedido enfático para repassar a mensagem. O Whatsapp é um antro de notícias falsas. Em geral, ao final da mensagem apocalíptica anunciando em primeira mão a prisão de algum presidente ou golpe de grandes empresas, é pedido que se divulgue a mensagem para todos terem conhecimento da "verdade". Porém, não é só isso, sites de notícias falsas costumam ter uma experiência de usuário terrível, que focam em garantir seu like ou o seu compartilhamento. Então, se eles são invasivos e se desesperam pedindo o seu compartilhamento, pois o destino do mundo está em jogo, duvide.

6. Veja onde a notícia é veiculada. Como falei aqui no item anterior, o Whatsapp não é nenhuma agência de notícias e a credibilidade beira o zero, então, aquelas mensagens enormes com notícias apocalípticas provavelmente podem ser ignoradas logo de cara. Mas vale checar também o site ou blog onde ele pode estar. Uma notícia falsa tem mais chances de estar no blog do Serginho do que no G1 (ainda que eles também tenham seus deslizes).

7. Erros de português: claro, ninguém aqui precisa ser o professor Pasquale, mas notícias falsas têm bem menos cuidado com os detalhes e vêm cheias de erros de português e erros de digitação. Quando isso salta aos olhos além de um ou dois erros num mesmo artigo, pode levantar a bandeira amarela.

8. Adjetivos demais são um alerta. Um artigo que usa de muitos adjetivos para exaltar ou difamar uma pessoa, em geral, está defendendo algo e isso pode colocar a credibilidade da publicação em cheque. Vale uma bandeira amarela.

* * *

Agora que você já aprendeu a identificar algumas características de notícias falsas, vamos colocar a mão na massa e pensar em algumas ações a tomar. Nem sempre elas são tão intuitivas quanto parecem ser, por isso, lá vai:

1. Respire

É essencial deixar a ingenuidade de lado e perceber que sem o arrastamento emocional e a ansiedade de fazer algo a respeito, essas notícias perdem bastante do poder.

Por isso, tente não se deixar levar pela emoção e urgência, respire, acalme-se.

2. Leia mais que o título

Novamente, essa instrução parece óbvia, mas de acordo com um estudo conduzido por cientistas da computação da Universidade de Columbia e do Instituto Nacional Francês, 59% dos links compartilhados em redes sociais nunca são clicados. Ou, em outras palavras: a maioria das pessoas, aparentemente, passa notícias para a frente sem nem sequer ler o conteúdo.

A instrução aqui é simples, saiba que o compartilhamento, por mais inocente que possa parecer, está moldando nossa agenda cultural, política, econômica, e pode ser tão influente ao ponto de levar uma ou mais pessoas à morte. Leia, aprofunde-se minimamente, saiba o que você está fazendo.

3. Faça o cruzamento de fontes

Dê um Google rápido e veja por onde a notícia circulou.

Notícias falsas podem ser publicadas em um blog pequeno ou em vários, mas dificilmente saem em um portal maior, com uma equipe preparada. Claro, há exceções, mas é importante estar atento que, se um grande veículo não quis dar a notícia, pode ser que ela nem sequer seja verdadeira.

4. Busque a fonte original

Em uma tentativa de dar ares de verdade às suas notícias falsas, esses sites fazem uso de instituições e nomes famosos (ou que lembrem remetam a algo que você vai confiar).

O Google é seu amigo, faça uma busca e veja se essa instituição fala alguma coisa a respeito da notícia. Em geral, eles mencionam o fato em algum lugar. Se não o fazem, mais um sinal vermelho.

5. Faça uma busca reversa da imagem

Ainda como uma forma de adicionar veracidade às falsas notícias, é normal vermos alguma ilustração bem contundente, especialmente se ela vai deixar você mais revoltado ou comovido.

Não é bem uma tarefa fácil, mas é importante se ligar se não trata-se de uma montagem ou imagem removida de seu contexto.

Nesses casos, vale fazer uma busca reversa pela imagem, para saber mais informações. Basta acessar a busca de imagens do Google. Então, clique no ícone de câmera dentro do campo de busca e transfira a imagem que gostaria de pesquisar.

6. Cheque sites como E-farsas e Boatos.org

Aqui no Brasil temos o E-farsas e o Boatos.org, que fazem um ótimo trabalho checando boatos e notícias falsas. Vale dar uma olhada por lá, pra ver se eles já não falaram a respeito antes.

7. Cuidado redobrado em tragédias e situações de grande comoção

Quando acontecem grandes tragédias, é normal as pessoas ficarem emocionalmente afetadas. Mas quando elas acontecem, em geral, boatos voam e as pessoas acabam compartilhando indiscriminadamente imagens e notícias que podem, por exemplo, piorar ainda mais a situação de familiares e pessoas envolvidas.

Além disso, esses veículos de notícias falsas se aproveitam do momento de fragilidade para angariar acessos. Vale manter o alerta ligado.

8. Na dúvida, não compartilhe

É muito comum vermos parentes ou amigos enviando um boato, talvez até suspeitando da falsidade da informação, mas com receio de que alguém saia prejudicado por não saber daquilo. "Ah, na dúvida, estou compartilhando".

Porém, as notícias falsas têm seu lucro em sua mera exposição. É muito difícil desfazer o estrago uma vez que a informação incorreta ou caluniosa já foi espalhada.

Por isso, sugiro fazer o contrário. Na dúvida, não compartilhe.

* * *
Nota do editor: juntamos uma série de práticas que têm beneficiado nossa comunidade há anos na busca de uma vida mais lúcida e as transformamos em nove textos. O percurso foi chamado de 9 práticas para 2017 doer menos, e o exercício que acabou de ler faz parte dele.

Ficou interessado em praticar os outros? Abaixo listamos todos, para facilitar a busca. Agora, mãos à massa. ;-)

1. Pequeno manual para sobreviver ao Natal e ano novo com a família

2. Como parar de divulgar e ser enganado por notícias falsas

3. Como tornar seus debates mais produtivos

4. Respire antes de comentar na internet

5. Não deseje mais sexo nesse reveillón

6. Ande o máximo que puder

7. A gente consegue sim melhorar nossa relação com a comida

8. Não use o cartão de crédito para acumular milhas

9. Como sofrer menos com o trabalho em 2017


publicado em 25 de Dezembro de 2016, 00:05
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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