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Break Club: alivie o stress quebrando a porra toda

Quem não lembra daquelas fases bônus do Street Fighter II, quando a gente tinha que descer o cacete em carros, barris ou barras de metal?

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Nos últimos dias ouvi falar, em uma conversa por e-mail, a respeito do Break Club, um clube argentino que permite a você descontar sua raiva do dia. A fórmula é simples e consiste em pagar uma taxa para ter o espaço e a segurança de surtar à vontade enquanto quebra objetos variados. Pode escolher o método para a destruição. Arremessos, socos, marteladas, você é livre.

Menos stress. Mais diversão.

É o que eles dizem.

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E parece bem útil, mesmo, já que quando a gente está com raiva, um dos impulsos mais básicos e primitivos é o de sair quebrando tudo como se não houvesse amanhã. Eu mesmo já me peguei pensando, diversas vezes, a respeito do quanto seria melhor um mundo no qual eu pudesse seguir meus ímpetos, ao invés de ter de ficar remoendo internamente toda a carga de fúria e frustração de um dia comum.

O problema é que, não, provavelmente isso não é tão benéfico assim.

Que tal pensar um pouco mais a respeito?

O  Break Club enquanto negócio tem uma razão de existir. Ele baseia-se na crença de que desafogar nossa raiva é algo benéfico, é a materialização da voz interna que nos diz para deixar fluir, para não segurar. Afinal, fazendo isso, a raiva passa e o stress é aliviado.

E, claro, olhando os resultados imediatos, é isso mesmo que acontece. Matar uns zumbis no videogame, ver um pouco de sangue escorrendo pela tela ou, talvez, sair batendo em velhinhas e atropelando transeuntes no GTA. O efeito não é apenas alívio. É prazeroso.

O problema é que o efeito é muito curto, pequeno. E, provavelmente, causa mais malefício do que benefício.

Traduzi aqui alguns trechos de um texto bem interessante sobre o assunto, feito pelo David McRaney, autor do livro "You're not so smart", lançado em português como "Você não é tão esperto quanto pensa".

Neste artigo, publicado em seu blog, ele conta a respeito de uma pesquisa que estudou os efeitos da catarse sobre a mente humana.

Nos anos 1990, o psicólogo Brad Bushman no Estado de Iowa decidiu estudar se desafogar funcionava ou não.
Naquele momento, livros de auto-ajuda eram todos a favor da fúria e o conselho que prevalecia quando se dizia respeito a lidar com o stress e a raiva era de socar objetos e gritar com travesseiros.
Bushman, como muitos psicólogos antes dele, sentia que esse era um mau conselho.
Em um dos estudos de Bushman, ele dividiu 180 estudantes em três grupos. Um leu um artigo neutro. Um leu um artigo sobre um estudo falso que dizia que liberar a raiva era efetivo. O terceiro grupo leu sobre um estudo falso que dizia que desafogar era inútil.
Ele, então, pediu para os estudantes escreverem ensaios sobre aborto, um assunto com o qual eles provavelmente tinham fortes sentimentos. Ele disse que esses ensaios seriam avaliados por companheiros estudantes, coisa que não aconteceu.
Quando eles pegaram seus ensaios de volta, metade recebeu a notícia de que os textos estavam ótimos.
A outra metade teve isso riscado no papel: 'Este é um dos piores textos que eu já li!'
Depois, foi pedido a eles que fizessem uma atividade como jogar videogame, ver alguma comédia, ler uma história ou socar um saco.
Os resultados?
As pessoas que leram o artigo que dizia que desafogar funcionava, e que mais tarde ficaram com raiva, tiveram muito mais tendência a pedir para socar o saco do que aqueles que ficaram com raiva nos outros grupos. Em todos os grupos, as pessoas que foram elogiadas tendiam a escolher atividades não-agressivas.
'... exposição à mensagens de mídia que dão suporte à catarse podem afetar escolhas comportamentais subsequentes. Pessoas raivosas expressaram desejo mais alto de socar um saco quando expostas a um artigo falso afirmando que uma boa e efetiva técnica para lidar com a raiva era liberá-la por meio de um objeto inanimado.' - Brad Bushman, Roy Baymeister e Angela Stack, no estudo sobre a catarse.
Ou seja: acreditar na catarse faz você mais propenso a procurá-la.

Bushman não se deu por satisfeito e decidiu pesquisar um pouco mais. No segundo estudo, ele resolveu deixar as pessoas enfurecidas se vingarem. Queria testar se o comportamento catártico era realmente capaz de remover a raiva da mente.

Para isso, ele conduziu um teste parecido com o anterior, exceto pelo fato de que o grupo que recebeu os rabiscos xingando o texto foram divididos em dois grupos. Dessa vez, eles foram avisados que estariam competindo com quem avaliou seus ensaios. Um grupo foi convidado a socar um saco e o outro a aguardar dois minutos.

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Se você vencesse, podia apertar um botão, escolher o volume (com valor entre 0 e 10, sendo o 10 equivalente a 105 decibéis) e desferir um ruído alto e horrível no seu oponente. Se perdesse, quem levava barulho nas fuças seria você.

Eis o resultado:

Na média, o grupo que socava o saco ajustou o volume na altura de 8.5. O grupo que tinha de aguardar ajustou para 2.47.
As pessoas que ficavam com raiva não a liberavam no saco de porrada, ela era sustentada quando o faziam. O grupo que aguardou o tempo para esfriarem a cabeça, perderam seu desejo de vingança.

Segundo o estudo de Bushman, buscar a catarse assemelha-se ao estado do vício em drogas. Há processos químicos e reforços trabalhando. Quanto mais você se acostuma a explodir a fúria, mais se torna dependente disso. A melhor abordagem seria apenas parar. Tirar a raiva da frente, acalmar-se.

Claro, isso não é o mesmo que deixar de lidar com essas emoções perturbadoras.

Quanto ao Break Club, o Jonathan Batista (um amigo nosso) soltou durante a troca de e-mails a frase que, pra mim, parece definir bem a coisa toda:

Esse Break Club aí é mais ou menos assim: fique estressado e venha aqui. Volte para a realidade, se estresse novamente e volte aqui. Ad eternum.

publicado em 11 de Novembro de 2013, 17:16
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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