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A vida depois de largar tudo para seguir um sonho

Sem conto de fadas, uma história que a gente não vê por aí.

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Um dos meus textos que mais gera questionamentos até hoje, é o que conto que pedi demissão para estudar empreendedorismo.

Não importa quantos outros eu escreva, este ainda me gera uma carga semanal de emails questionando os caminhos que tomei e como está minha vida hoje. Nunca fiz um compilado completo, até porque não sinto que a jornada acabou, mas acho que está na hora de comentar sobre tudo o que aconteceu até aqui.

Dia 19 de Setembro completa exatos 5 anos que entrei pela porta do Aeroporto Internacional de Brasília com uma mochila nas costas e muitos sonhos na cabeça. Eu estava fazendo aquilo que tinha ouvido muita gente falar, aquilo que para mim representava o auge de autonomia na vida de um adulto:

Largar tudo para trás e seguir meus sonhos.

Eu poderia usar de uma boa narrativa e contar uma incrível história de superação, mas na vida real não foi assim que aconteceu. É fácil construir uma narrativa para posar de bem sucedido, mas não estou aqui para enganar vocês.

Empreender deu muito errado

Meu período estudando fora do país foi mágico. Conviver com uma turma completa de estrangeiros e gente com uma visão de mundo bem diferente da minha me ensinou bastante.

Muitos dos meus dias pareciam cenas de seriado norte-americano. E como todo jovem que cresceu assistindo televisão enlatada vinda dos Estados Unidos, era bem engraçado ter esse sentimento que aquilo estava acontecendo na vida real.

Mas eu não sou rico e morar em outro país custa caro. Tive ajuda de amigos e um apoio enorme que, sem ele, teria sido tudo mais difícil. Mas os 3 meses que passei fora foram suficientes para queimar mais da metade do dinheiro que eu tinha reservado.

Aprendi bastante coisa interessante no curso e consegui até desenvolver um pequeno negócio que me gera pequenos lucros até hoje, mas nada consistente o suficiente para seguir no longo prazo.

Voltar para o Brasil foi um choque. A cultura que aprendi de empreendedorismo era drasticamente diferente da moda de startups que estava se erguendo por aqui, ao mesmo tempo,  as outras pessoas ainda me cobravam o tal sucesso.

Demorei certo tempo para entender o que seria melhor para mim, e arriscar o resto do dinheiro nisso. Aproveitei que tinha um público bom no Parkour, era dono do maior portal sobre o assunto e resolvi lançar uma marca de roupas.

Nada mais óbvio do que conversar com o público que já me conhecia e admirava meu trabalho.

O negócio até que vendeu bem, e consegui fazer um projeto interessante de divulgação e construção de comunidade em volta da marca. Tinha distribuição em estabelecimentos físicos, montei uma loja online e até que para os padrões normais de começo eu vendia bem.

Mas no final tudo empatava, não tinha prejuízo, mas não tinha lucro.

Começar um negócio sem dinheiro normalmente encalha nesse cenário. Você até consegue se pagar, mas precisa de um investimento muito grande para conseguir alavancar com a força necessária.

Um dia eu só cansei de fazer tudo sozinho e a coisa foi morrendo.

Eu fiz outras coisas

Estudei nesses 5 anos tudo o que não estudei pelo resto da vida. Não só optei por voltar para a faculdade e experimentar uma universidade pública, como também li uma quantidade de títulos que mal consigo contar.

Fiz muito exercício, aprendi a ter calma, pensar antes de falar e organizar melhor meus pensamentos. Escrevi uma quantidade enorme de linhas, estudei formas de escrita e estilos de narrativa.

Talvez a coisa mais importante que eu tenha feito por mim, nesse tempo todo, tenha sido aprender a escrever de verdade.

Ainda cometo meus erros de gramática, mas me orgulho bastante da capacidade que adquiri de transmitir ideias através dos meus textos. Felizmente isso é algo que vai ficar comigo pra sempre.

Mais ainda: é isso que garante meu sustento hoje.

De fato, uma coisa que não ter um emprego fixo e ganhar certa flexibilidade de vida me garantiu, foi investir em mim mesmo. Estudar, pensar com mais clareza, conhecer outras perspectivas e amadurecer.

Qualquer pessoa que convive comigo entende o quanto mudei de lá pra cá, algumas pessoas também dizem perceber isso nos meus textos.

Talvez o único aspecto que me faça pensar que o risco valeu a pena seja o crescimento pessoal.

A verdade é que o processo todo é desesperador

Não consigo pensar quantas vezes eu deitei para dormir desejando que nada disso tivesse acontecido.

Abraçar o travesseiro e chorar feito criança, pensando que o dinheiro estava acabando e que deixei um bom salário para trás.

A falta do dinheiro traz problemas bem mais sérios do que simplesmente “não ter dinheiro”. Quantas brigas com a namorada não foram iniciadas pelo inexplicável medo do futuro? Cada dia que eu não consegui sair da cama com medo de olhar para o mundo, simplesmente porque dentro de mim eu tinha certeza que tinha feito uma escolha ruim.

Sem falar em todas as vezes que alguém olhava para mim e perguntava: “e aí, no que você trabalha?”

É fácil contar uma história de como larguei tudo, saí do país para estudar e agora estava começando um negócio que tinha tudo para prosperar. Eu sou escritor, eu sei contar histórias.

Mas aqui dentro, eu sabia que eu estava todo fodido.

Eu me tornei o retrato da solidão

Quando eu digo que deixei tudo para trás, foi tudo mesmo.

Não apenas emprego e salário, mas todos os meus amigos e conhecidos ficaram em 2013, nesse, agora longínquo, passado.

Meu maior contato com as pessoas que faziam parte da minha vida naquela época é por mensagem de WhatsApp.

Os poucos contatos que mantenho num grupo fechado já não têm a mesma dinâmica faz muito tempo. Acho que os 5 amigos do grupo sabem que, se acabar esse último canal, as chances de ninguém nunca mais se falar são grandes.

Outras pessoas dessa época surgem vez ou outra, perguntam como as coisas estão e seguem suas vidas. Mas a gente sente que tudo mudou quando volta para visitar a cidade e ninguém tem disposição para sair e conversar.

Acho que com o tempo também fui ficando mais fechado. Fiz alguns poucos amigos nessa nova vida, mas a sensação que tenho é que os contatos são sempre superficiais demais.

Acho que se não fosse a companhia da namorada e do cachorro eu já teria enlouquecido. E já tentei fazer amigos das mais variadas formas, mas parece que perdi essa capacidade.

As contas não vão se pagar sozinhas

Um dia eu acordei e o meu maior medo se tornava real. Minha parceira da época tinha ficado sem emprego, me olhou e disse: “estamos ficando sem dinheiro, você precisa voltar a trabalhar”.

Era isso, a busca pela felicidade era linda, mas a vida real tem suas obrigações.

E na teoria era muito fácil pensar em “arrumar um emprego”, mas quase 4 anos fora do mercado de trabalho trazem seus danos. O conhecimento e valor de mercado que eu tinha lá atrás, dificilmente se transferia para os dias atuais.

Nas entrevistas de emprego eu tinha dois problemas: o primeiro é que meu currículo era qualificado demais para as vagas mais baixas. Nenhuma empresa queria contratar alguém com mais de 10 anos de experiência para uma vaga que pagava pouco. “Se eu te colocar no mercado eles te roubam rapidamente”, confessou um recrutador.

Para eles, não valia a pena queimar um processo seletivo comigo.

O outro problema é que para as vagas mais altas me faltava experiência nas tecnologias e metodologias mais atuais. Em quatro anos muita coisa muda. Eu até cheguei a estudar e aprender alguns dos requisitos, mas sempre tinha alguém que já estava mercado e trabalhava diretamente com a tecnologia, e acabava levando a vaga.

Minha saída foi procurar outra profissão.

Arrumei um emprego numa empresa que estava começando. Sem nem um contrato de gaveta, trabalhei alguns meses por um valor abaixo do salário mínimo. Mas naquela altura qualquer dinheiro ajudava para ficar “menos negativo”.

Não aprendi nada nessa empresa, e fui demitido depois que o maior cliente pulou fora do negócio. Pelo menos foi a explicação que recebi.

Reformulei meu currículo, tirei minhas experiências anteriores e deixei apenas o último emprego. Voltei a procurar trabalho e acabei conseguindo um lugar melhor para trabalhar.

Dessa vez o salário inicial fazia sentido e tinha todos os vínculos trabalhistas.

Um ano e meio se passou desde que entrei nessa empresa. Consegui me desenvolver e assumir novas responsabilidades, e aos poucos o salário foi subindo.

Hoje sou responsável por grande parte do marketing de uma empresa de tecnologia chamada Moskit, juntando tudo o que desenvolvi com a escrita, minha experiência aqui com o Papo de Homem e muito do que trago de bagagem como analista de sistemas.

Também sou inteiramente responsável pelo conteúdo de um portal com foco em vendas, o Sales Expert, que funciona como pilar de conteúdo para o marketing da empresa. É lá que eu e uma pequena equipe desenvolvemos pesquisas e produzimos conteúdos quase que diariamente.

Hoje posso dizer que tenho uma nova carreira e estou desenvolvendo um trabalho que gosto bastante de fazer. Ainda falta muito pra grana deixar de ser uma preocupação como era lá atrás, mas gostar do trabalho que faço, mais do que gostava no passado, me deixa um pouco mais otimista.

Mas e aí, valeu a pena?

É muito difícil dizer.

Quando contamos a história assim, de trás pra frente, as coisas se conectam de uma forma que parecem fazer sentido. Só que o mundo real é bem mais confuso que isso.

Conheci pessoas incríveis nessa trajetória e vivi experiências que tenho certeza, jamais teria vivido em outras ocasiões. Mas isso não apaga que, seguindo a antiga trilha em que eu estava, teria vivido outras tantas experiências tão únicas quanto.

A gente vive numa sociedade movida pelo sucesso profissional, e por mais que eu já tenha construído uma mentalidade que aceita muito bem um modelo alternativo de vida, não vivemos em bolhas. Vez ou outra acabo me olhando no espelho e pensando “como foi que vim parar aqui?”.

O fato é que não importa muito se valeu a pena ou não, essa é a vida que tenho hoje.

Estou de fato num momento bem diferente, nos últimos 9 meses as coisas mudaram numa velocidade muito maior do que eu esperava.

Neste momento sou uma pessoa com um bom estilo de vida. Trabalho de casa, faço exercícios físicos todos os dias e tenho muitas das coisas materiais que o capitalismo me fez acreditar que eu preciso.

Moro com uma parceira que admira meu trabalho e me incentiva para seguir em frente, tenho um cachorro fofo que parece um bicho de pelúcia e uma vida confortável.

Por um lado eu acho que tive bastante sorte, e “no fim” as coisas acabaram dando certo. Por outro eu penso que bastava um deslize para tudo ter dado muito, muito errado.

Essa não é uma história de superação, é apenas o relato de quem deu muita sorte.


publicado em 06 de Setembro de 2018, 14:53
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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