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O que ninguém conta sobre mudar de cidade

Um pouco sobre as minúcias de ganhar o mundo e sair da sua cidade

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Já faz alguns anos que deixei Brasília, cidade onde cresci e construí quase todas as minhas relações.

Morar quase a vida toda na mesma cidade tem muitos pontos positivos. Sabemos onde as coisas estão, conhecemos quase todo mundo - mesmo que seja apenas de vista – e sabemos a história de quase tudo por ali. Por mais que às vezes não gostemos, nossa cidade traz um senso de comunidade, sendo uma extensão do que forma nossa ideia de lar. O lugar que moramos e os acontecimentos à nossa volta adicionam um elemento extra de identidade à nossa personalidade.

Mas chega o dia que crescemos e, pelos embaraços da vida, precisamos nos mudar.  É assim na vida de muita gente, também foi assim na minha vida. A gente pode até achar que está preparado e sabe o que virá pela frente, mas existem alguns detalhes que só descobri quando chegou minha vez.

Pode ter sido só comigo, mas se puder confortar outras pessoas que sentiram-se dessa forma, já vale a pena compartilhar essas experiências que não vejo ninguém contando por aí.

Seus amigos mudam

Uma das coisas que parecem óbvias, mas nos surpreende quando chega nossa vez, é que nossos amigos mudam bastante quando estamos distantes. Não é como se permanecessem os mesmos sempre, mas quando estamos acompanhando diariamente nos acostumamos às pequenas e constantes mudanças.

Um dia voltamos para visitá-los e eles têm assuntos que não conseguimos mais acompanhar. Nossos interesses não cruzam como antes e tudo parece meio fora de sincronia. O peso da amizade de tantos anos faz o trabalho de manter a união, mas sentimos que o compasso vai se perdendo.

Por algum tempo ainda faz sentido continuar o contato com esses amigos, mas às vezes as diferenças tornam-se tão grandes que acabamos deixando de lado. O carinho e a nostalgia do passado ainda existem, mas agora cada um de fato seguiu um caminho distinto.

Você muda

Não são apenas nossos amigos assumem traços novos, nós também. Numa nova cidade é fácil entrar em contato com outras ideias, diferentes perspectivas e interesses que nem sabíamos que existiam.

Ao passo em que vemos nossos amigos mudando, nós também desenvolvemos um comportamento diferente do que eles estão acostumados. Cooperando para a quebra de ritmo entre os dois referenciais. Percebo com frequência o choque de amigos quando me encontram depois de um longo tempo sem me ver. O sentimento de amizade é certamente presente, mas as diferenças na forma de agir e pensar acabam causando alguns sustos.

Essas diferenças trazem diversas formas de desconforto, já que pessoas esperam que você se comporte de uma forma que já não é mais compatível, da mesma forma que acabamos criando a mesma expectativa quando nossos amigos estão diferentes.

Dos dois lados resta o sentimento de que estamos nos afastando de alguém que já foi muito importante.

Existe um vazio de pertencimento

Um dos efeitos mais inesperados de mudar, pelo menos para mim, foi a perda da noção de pertencer a um lugar.

No meu caso, um dia voltei para visitar Brasília, como já havia feito tantas outras vezes, mas algo ali estava diferente. As pessoas nas ruas, a jeito que se vestiam, os novos costumes e programas de final de semana. De repente, tudo aquilo não era mais parte de mim. Não existia mais conexão.

O esperado é que a nova cidade substituísse a antiga, mas não foi o que aconteceu. Eu não apenas deixei de me identificar com Brasília, como ainda não tinha vínculos com o lugar onde estava morando.

É um vazio estranho.

Não sei dizer se esse sentimento de não ter mais um “lugar para voltar”, uma referência inicial de cidade, vai passar em algum momento. O que sei até agora é que poderia morar em qualquer outro lugar do mundo, porque a cidade já não faz mais tanta diferença assim.

As coisas novas não importam para os amigos antigos

Por mais que você mantenha contato constante com seus amigos de sua cidade original, sua vida nova não importa para eles como antes. Você até vai contar algumas novidades e atualizá-los do que for mais importante, mas dificilmente os detalhes farão algum sentido maior.

É até compreensível que seja assim, essas pessoas não fazem parte dos detalhes e, mesmo que você conte, não tem como existir a mesma ligação. Os locais, pessoas e referências que você está citando são apenas uma ideia distante, é como contar um episódio de um seriado de TV. Para quem não acompanha bem de perto, a parte recortada da trama não tem muita graça, falta aquela conexão emocional.

Com isso, a gente acaba sentindo que o interesse dos amigos pela nossa vida já não é mais o mesmo, o que – é claro – nem sempre é o caso. Não adianta também ficar chateado ou cobrar atenção, isso só tornará as coisas mais estranhas e artificiais.

Vez ou outra surge o gancho perfeito e começam bons papos como nos velhos tempos. Mas fora isso, a gente fica ali vendo a amizade meio de longe.

Você não é um turista

Quando visitamos uma cidade nova, é normal correr contra o tempo para visitar todos os pontos turísticos, fazer programas interessantes e conhecer o máximo de coisas novas.

Ao pensar em mudar de cidade, é fácil achar que também fará toda essa peregrinação turística e aproveitará as surpresas do local. Só que infelizmente, o poder da rotina costuma ser mais forte que nossa vontade de explorar opções.

Reclamamos da falta de alternativas interessantes da cidade anterior, mas quando chegamos num lugar diferente, acabamos não aproveitando o que há disponível. Fica evidente que na maioria das vezes o problema da falta de atrações é nosso apego ao cotidiano, a rotina que consome nossa curiosidade e o famoso “depois eu faço”.

Morei meses em Santiago, no Chile, mas as únicas vezes que fiz programas turísticos foi quando vinham visitas do Brasil. Quando estava perto de voltar, senti que não tinha curtido a cidade como deveria. Hoje, morando em Londrina, penso que preciso mudar isso, mas quando percebo estou no mesmo restaurante pedindo os mesmos pratos de sempre.

O mundo se torna um lugar maior

Apesar de ter focado nos impactos que soam mais negativos, existe um ponto positivo que é capaz de superar todos os outros.

Mesmo quando mudamos para uma cidade que fica apenas um estado de distância, podemos observar como as diferenças culturais são gigantescas. Desde as pequenas tradições locais, costumes e formas de lidar com problemas, até a organização política e econômica que movimenta a região.

É muito bonito ver essas barreiras sendo quebradas e voltar a enxergar o mundo como um lugar gigantesco. Essa sensação de que conhecer apenas uma cidade de cada país não é o bastante, queremos conhecer cada cidadezinha pequena dos países mais remotos, suas nuances e histórias.

O mundo, ainda que mais conectado pela globalização, vai se mostrando como um lugar cada vez mais rico e excitante.

* * *

E você? O que vivenciou em suas mudanças que nunca viu ninguém contar por aí? Quais foram as coisas boas ou ruins de sair do local onde passou grande parte de sua vida?

Compartilhe conosco nos comentários, vamos conversar.


publicado em 29 de Novembro de 2016, 17:55
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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