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Na minha adolescência, sempre que o verão chegava, eu gravava uma fita com as músicas que me acompanhariam pela estação. Naquela época, os gravadores de CDs ainda engatinhavam e a fita cassete respirava seus últimos ares.
O ritual envolvia uma ida a locadora de CDs no centro da cidade de Rio Claro. Lá empilhava uns cinco ou seis discos, deixando um pagamento equivalente a uma semana de lanches na escola para os locadores. Ao chegar em casa, seguia para o “micro system”, onde selecionava as faixas dos discos e compilava no cassete. Geralmente, eu usava fitas de 90 minutos, com 45 de cada lado. Na gravação, tudo tinha de ser cronometrado para não haver cortes, o que nem sempre era possível.
Em clima de nostalgia e calor, resolvi bolar uma “Summer Tape” aqui pelo PdH. Por ser uma seleção pessoal e minha, a qualidade está garantida. La garantia soy yo.
O ska é um gênero dos mais interessantes. Emergindo das classes populares na Jamaica, o estilo consegue equilibrar a sofisticação do jazz e a pegada do rock, passando pelo balanço do reggae. Todos esses elementos estão impecavelmente reunidos em “No Worries”. Melodia, ritmo e aquela sensação que tudo vai dar certo.
Depois de ouvir, tente não cantarolar.
Ainda bebendo do ritmo da Jamaica, vale relembrar esse grupo que já foi uma banda. Todo mundo conhece “Don’t Speak”, pela sua pegada mela-cueca e comercial. No entanto, antes de Gwen Stefani se deslumbrar com o show business, ela mandava ver na cena punk californiana.
“SpiderWebs” levanta defunto. Tanto pelo arranjo, quanto pela saudade.
Tim Maia é um artista inquestionável, tanto na sua obra quanto na sua trajetória de vida. Seus melhores momentos são aqueles recheados de alma. Sua expressividade era tão marcante, que lograva sucessos independentemente da língua em que cantava. Essa música eu ouvi pela primeira vez no Guarujá em pleno Carnaval. Caiu como uma luva.
O Raimundos marcou a adolescência de muita gente. Naquela época, o rock cantando em português estava em baixa. Os Titãs não acertavam a mão e a trajetória dos Mamonas foi interrompida pelo destino. O Raimundos então supria todos os anseios da juventude: hormônios, peso e velocidade. “Me Lambe” foi o último suspiro de uma grande banda.
Pelo título, já sabia que essa música seria foda. Ainda mais quando executada por um time mais foda ainda: Dom Salvador (piano), Sérgio Barroso (baixo) e Edison Machado (bateria). Café é bom até no calor, senão não brotaria aqui no Brasil ou no Caribe. Essa música fala por si só e por mim também.
A importância política da MPB é inegável. Só que começaram a levar tudo isso muito a sério e o rabo começou a abanar o cachorro. A inquisição foi instaurada e as bruxas correram. Marcos Valle foi apontado como frívolo e supérfluo pelos seus politizados contemporâneos. Sua “Resposta” foi elegante e taxativa. Perfeita. Ainda mais na voz de Leny Andrade.
Existem certas músicas que combinam perfeitamente com o verão. Mesmo que você não tenha a mínima ideia do que ela fale. É o caso de “Informer”, do rapper canadense Snow. Mais tarde, descobri que se trata de um rap literalmente chapa branca, mas a memória de dezenas de quiosque tocando essa música é o que vale.
Aqui está uma prova de como o tempo não faz bem para certas bandas. Assim como o Silverchair, que fez uma trajetória brochante, o Maskavo Roots chegou matador no cenário pop brasileiro. Depois o espírito rede Globo baixou na galera e eles resolveram deixar a qualidade para trás.
Assim como Edinho é o filho do Pelé, Diogo é filho de João Nogueira. Nessa mesma proporção, nessa mesma amplitude. Ao mesmo tempo que é impensável esse hiato entre gerações, é compreenssível a genialidade única dos pais.
O fim do verão traz uma melancolia confortável. E o grunge sabe tratar desses assuntos como nenhum outro estilo. O Screaming Trees nos pega pelo estômago e nos traz para as portas do outono.
Eu também gravava fitas de thrash metal, entituladas “Chute na Oreia”. Mas essa lista fica para um próximo post.
Rapaz do interior de SP que vive suas desventuras na cidade grande. Poliglota valente, busca equilibrar o jeito cosmopolita de ser com a simplicidade caipira de viver.
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