Sobre armas e guerra

Rafa Monteiro

por
em às | Atitude, Mundo, PdH Shots, Relatos


As palestras TED sempre impressionam pelo naipe das ideias e dos palestrantes. Dessa vez, um militar – o general Peter van Uhm, Chefe da Defesa da Holanda (abaixo somente do Ministro da Defesa) – subiu ao palco para dar uma perspectiva surpreendente sobre aquilo que provavelmente entende melhor: armas e guerra.


Link TED | Entendam: é um chefe das forças armadas. No TED. Definitivamente, não é qualquer zé ruela falando.

Abaixo, alguns dos trechos que mais me chamaram atenção, e por quê.

“Eu não estou aqui para falar sobre a glória das armas. Eu não gosto de armas.”

Ele nos fala sobre o paradoxo que é usar a violência para lutar contra a violência. Mas faz isso de forma coloquial e humilde, contrariando o estereótipo do militar de alta patente que é arrogante e ignorante.

“Olhando para esta arma, somos confrontados com o lado feio da mente humana”

Vemos violência todos os dias nas ruas e nos telejornais. Glorificamos a violência nos filmes. Tudo “numa boa”. A grande maioria de nós jamais sequer pegou numa arma de fogo. Nos sentimos mal só de ter uma arma perto de nós. Mesmo assim, do conforto dos nossos sofás, batemos palmas e quase temos orgasmos quando a polícia faz uso da força.

“Uma arma não é um instrumento de macho para alguém se vangloriar”

Temos uma relação complicada com nossas forças policiais e militares, graças (em parte) ao período da ditadura. Costumamos nos referir a eles como corruptos e torturadores, e não como pessoas que defendem a nós e aos nossos direitos.

“Fazer guerra simplesmente não é mais a melhor opção”

O general Peter sonha com o dia em que exércitos possam ser dispensados. Talvez só quando entendermos de verdade o que é a violência e para que serve uma arma.

Rafa Monteiro

Músico, nerd, gamer. Tem 29 anos, mas ainda não aprendeu a mentir. Conta piadas hediondas de efeito moral. Seu projeto de vida é tirar um ano sabático para viajar pelo mundo, palestrar no TED e zerar sua Fender Strato no hard. Tem um blog sobre guitarrismos com tiragem devezemquandenal. No twitter: @_rafa_monteiro_


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31 comentários

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  • Marcos Augusto Nunes

    Na Costa Rica não há mais exército. Não sei se isso ocorre porque os norte-americanos, hegemônicos na América Central, perceberam que não precisam contar com a truculência militar para dominar a região, ou porque, como aliás ouvi num costarriquenho dizer, as Forças Armadas foram desmanteladas porque só serviam para criar problemas institucionais, servindo a golpes atrás de golpes. O fato é que os exércitos são perfeitamente dispensáveis, e são sempre a pior opção para resolver qualquer coisa, existindo apenas porque são a melhor opção para aqueles que necessitam contar com forças de ataque imperialistas, e a única opção para deter as forças de ataque imperialistas. Qual é a glória em um assassinato? Nenhuma. Mas quando matamos milhares, isso é pujante, isso é heróico, diz a ideologia dominante. E a gente fica aqui, pastando.

    • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

      Bom, é facil desmontar o próprio exército quando se é um protetorado da maior potencia bélica mundial. Ainda mais quando seus vizinhos também sofre influencia política forte desta mesma superpotencia.

      É mais ou menos como ser nerd fraquinho e ter um puta amigão que treina MMA.

      • Marcos Augusto Nunes

        Só queria te dizer que sim, e isso está contemplado, sem a especificidade “protetorado”, no comentário acima. Só que o “puta amigão” é o puta inimigo. Sempre, por mais que pareça ser “amigão”.

    • hverr

      “….existindo apenas porque são a (…) única opção para deter as forças de ataque imperialistas”

      Apenas?
      Esse é o mal de vivermos nessa época tão pacífica, onde todas as nossas pendengas são econômicas, dinheiristas. As pessoas passam a falar frases absurdas como essa. Queria ver se fosse sua família na Somália hoje, submetida a bandidos locais, ou então se fosse sua família no Congo, com as mãos cortadas junto com toda a aldeia por um bando de senhores da guerra malucos. Aí você não acharia que é “apenas” por esse motivo.

      E não use levianamente essa palavra “imperialismo” que tem uma carga de professor de uma esquerda pouco educada, geralmente de teor anti-americano. Use “opressão” em geral. Na Síria, por exemplo, Bashar Al-Assad não é um imperialista e sim um maldito de um ditador sanguinário que já matou dezenas de milhares de seus compatriotas em um esforço desesperado para se manter no poder. Manda lá os diplomatas costa-riquenhos convencerem ele a abandonar suas vontades de poder, vontades tão comuns aos seres humanos ao longo de toda a história. Eu prefiro mandar a Otan, como na Líbia. Com certeza os sírios sendo esmagados por tanques de um ditador preferem também.
      Esse motivo não é “apenas”. Esse motivo é tudo.

    • hverr

      Ou então, para dar um exemplo mais próximo:

      http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1043540-com-greve-da-pm-salvador-vive-madrugada-de-mortes-e-saques.shtml 

      Com a PM em greve, Salvador tem 17 mortes em 5h45m.

      Vai lá bater um papo com os assassinos. Ou então, de repente você consegue resolver o “problema social” que causa essa violência antes da PM voltar de greve.

      E olha que tenho sérias objeções contra a PM, quanto às sempre presentes suspeitas de corrupção e especialmente quanto ao seu caráter militar, pouco compatível com o papel de policiamento de uma sociedade livre. No entanto, entre a PM e ficar à mercê de warlordismos, escolho a primeira opção sem pensar.

  • http://www.facebook.com/viictor7 Victor Alexandre

    O General é fera, e a matéria é ótima.

    Seria ótimo um entendimento entre nações. O fim das guerras. Que os líderes cheguem a um acordo justo para ambos, sem derramamento de sangue.

    E você tem razão Rafa. Temos um receio só em chegar perto de uma arma, mas, adoramos vê-la em ação, do conforto dos nossos sofás.

    Abs.

    • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

      IMO, o pior problema das armas não são as guerras entre exércitos regulares, mas sim os crimes cometidos graças e essas ferramentas.

      Posso estar enganado, mas acredito que a tendencia é que, com o passar dos anos, países consigam resolver suas diferenças e disputas de interesse sem invadir uns aos outros. Novamente, posso estar enganado, mas com todas as guerras que tivemos no século XX, ainda assim foi um número menor de conflitos que tivemos em relação a épocas passadas. 

      É mais facil alguém se ferir e morrer por arma de fogo em ocorrencia de crimes do que em guerras.

      Acredito que estamos evoluindo. A passo de lesma, mas evoluindo.

      • http://www.facebook.com/viictor7 Victor Alexandre

        Correto, amigo Rafa. Também acredito na resolução de problemas sem conflitos. E que haverá sim uma evolução nesse quesito.

        O problema dos crimes é o fácil acesso a essas armas. O tráfico. Até policias envolvidos em esquemas junto isso.

        Por mais que tenhamos uma evolução, que pessoas de bem se manifestem e comecem a agir, sempre existirá os que apoiam o outro lado e continuam entre nós.

        Caso difícil, mas solucionável.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000104077969 Guilherme Casimiro

    Cara, como essa temática é um algo que me balança.

    Eu, como filho de sargento aposentado, sempre tive um contato extremamente próximo com a arma de fogo, e isso SEMPRE foi algo que me deixou EXTREMAMENTE DESCONFORTÁVEL.

    Quando era pequeno, sempre que meu pai chegava com alguma arma nova, ele fazia questão de me chamar na mesa, desmontava a arma e mostrava o funcionamento da coisa toda. Isso me fez entender um pouco melhor essa ‘engenharia da morte’.
    Mesmo conhecendo o lado prático, e o político/filosófico da coisa, eu sinceramente, passo longe.

    Com sorte, ainda em vida vejo o TED em escolas públicas, sério mesmo.

    Altíssimo nível, parabéns!

  • J.Paulo

    A guerra sempre foi o estado natural do homem desde os primórdios, armas sempre foram instrumentos de defesa que garantiram vidas e a liberdade seu uso foram subvertidos pelo homem ao longo dos séculos.
     
    A uma frase no saguão de entrada do quartel do BOPE que diz: “Quando uma arma é disparada em defesa da liberdade, os anjos choram mas não acusam”.

    • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

      Paulo, eu entendo a guerra como parte da cultura humana, ou seja, ela nao e natural, e sim construida em funcao de uma serie de fatores. Um estado comum pra caralho, quase cotidiano, dependendo de onde voce viva, mas ainda assim construido socialmente.

      Se for possivel matar os fatores que propiciam a guerra – e eu acredito que sao – o resultado e uma resolucao pacifica de conflitos.

      Mal ae pela acentuacao. To escrevendo de um Mac, e eu nao sei usar isso aqui =/

      • J.Paulo

        Olá Rafa

        A guerra e a luta em sentido faz é estado natural sim, veja que ela não é somente bélica, pode ser comercial como os embargos que vemos mundo a fora onde o maior número de prejudicados é povo que morre, só que de fome. Infelizmente o homem ainda é tribal.

        O meios pacíficos nem sempre são mais humanitários que a guerra.

        Abraço

  • Lego Riquinho

    É apenas eu que vejo a arma, como o artefato criado pelo ser humano com maior capacidade de “democracia” existente. Tu ponto de vista da sobrevivencia (primitivismo, barbarie, etc…) possibilidade a defesa de qualquer pessoa contra um oponente mais forte, ou em maior número. Uma espécia de Davi vs Golias, onde não fosse a boleadeira, golias iria trucidar Davi. Não quero ser “advogado do diabo”, mas segue o link de um outro ponto de vista de um país desenvolvido sobre armas de fogo, a suiça:
    http://www.youtube.com/watch?v=9ICHS5CsnUw

  • Jamal

    Não tenho nada contra armas, até gosto de dar uns tiros nos finais de semana em meu sítio, nunca matei um passarinho sequer, se o fizesse com certeza me arrependeria pelo o resto da vida. Uma arma é tão perigosa quanto um carro, a única diferença é quem está usando. E o problema não são as armas, e sim quem faz mal uso delas, bandidos, governos, traficantes…

  • http://luciano.wordpress.com lucianosds

    Excelente colocação do General de como as Forças Armadas devem ser vistas. E que possamos ter mais homens assim, que mesmo tendo que empunhar uma arma para defender o país, o faça para manter o estado de direito, e o cumprimento das leis de forma justa. 

  • paraquedista

    Somente os utopicos imaginam um mundo sem guerra, desde a fundação da terra os conflitos são necessarios para o desenvolvimento do mundo. A guerra é um mal necessario pq ela movimenta as economias envolvidas na produção de equipamentos e na geração de trabalho. Sou militar e apoio os conflitos, primeiro pq garante o meu trabalho e segundo pq a guerra é um instrumento de Deus.

    • hverr

      Você é pouco inteligente, isso sim. Tem mais é que fazer trabalho pouco qualificado. Imagina só, guerra movimenta a economia. Aprendeu com professor comunista na escolinha, acertei? Se entendesse um mínimo de economia saberia que isso não faz o menor sentido, pois enquanto se produz para a guerra em casa, se destrói muito mais valor no front. No fim das contas, há é destruição de valor.

      Sem falar no absurdo humano que é isso.

      • http://www.facebook.com/people/Eduardo-Pacheco/100002345621352 Eduardo Pacheco

        hverr, que porra de discurso de ódio é esse? Você critica o cara desrespeitando, fazendo igual ele, é isso? E o que “professor comunista” tem a ver com o assunto?

      • paraquedista

        hverr vc é prepotente e preconceituoso, o exercito tem muito mais a te ensinar a ser homem e os valores q isso representa do que as revistas q vc deve ler. Vc desqualifica meu trabalho, lembre-se que foi por homens como nos no passado que garantiram nossas liberdades hoje, o direito a livre expressão , o de ir e vir,o direito a propriedade privada. Sou de direita mas tenho uma quedinha sim pela esquerda, acredito na igualdade entre as pessoas perante a lei, nada mais.

    • http://www.facebook.com/people/Eduardo-Pacheco/100002345621352 Eduardo Pacheco

      Rapaz, discordo veementemente de você. Instrumento de Deus? Fala sério. Sobre você ser militar e apoiar os conflitos eu acho uma pena: Isso pressupõe que você é incapaz de resolver as coisas da forma mais pacífica possível. E, se isso for verdade, então você age na direção contrária da sua função social, que é proteger os civis. Explico. O raciocínio é bem simples: a violência é um dos meios para se obter a paz. Um dos. Mas se, em uma determinada a situação, a ferramenta de proteção (leia, os militares: você) causar mais danos que a própria situação(perigo), ela é completamente inútil. É como dar um remédio para uma gripe que mata o paciente.O raciocínio é igualmente válido quando falamos de países; No caso do gasoduto Brasil-Bolívia, por exemplo, um olhar não diplomático como o seu (“apoio os conflitos”) levaria a uma situação de tensão desnecessária que colocaria em risco a vida de militares e civis brasileiros e bolivianos. Tudo isso aconteceria pelo simples fato de que você “apoia os conflitos” e prefere resolver assim, sem conversar. Outra coisa: Pensamentozinho bem simplista esse o seu . Quem não quer um mundo com conflitos desnecessários é fatalmente utópico e uma guerra é fatalmente benéfica?Os outros militares do seu batalhão pensam como você? Abraço

      • paraquedista

        Pacheco, não preciso formular ideias complicadas pra explicar idéias simples, o militar é como o esportista alto nivel que treina durante todo um ano para participar numa competição (conflito), é so perguntar aqui na minha cia quem é voluntario para participar e vc vera uma multidão de braços levantados. Participei da guerra do Afeganistão 2 vezes ao lado das tropas francesas, posso te dizer com conhecimento de causa que as armas entram em cena quando as opções diplomaticas ja não surtem efeito. Bem lembrado o caso do gasoduto, o Brasil perdeu uma grande chance de se afirmar como lider regional ao deixar que um ditador de merda nacionalizasse o nosso dinheiro que foi investido la. Salve

      • http://www.facebook.com/people/Eduardo-Pacheco/100002345621352 Eduardo Pacheco

        Paraquedista, é esse o problema cara, vocês simplificam de mais a vida e lidam com ela como se não tivesse importância. É uma coisa maquiavélica de mais “vou resolver na força e ponto”. Você não negou que essa postura mais atrapalha que ajuda,e as coisas que você citou são contraditorias entre sí. Explico. Você considerou a guerra como ultima opção, o que eu concordo, a exemplo de uma guerra pela  lbertação de um povo de uma ditadura. O golpe de 64, por exemplo, no nosso país. Muitos militares nossos desertaram e no Rio Grande do Sul, as tropas da legalidade estavam prontas para defender o presidente eleito democraticamente. O Jango optou por não resistir ao golpe, o que na minha opinião foi um erro. Ainda assim, as tropas gaúchas estavam la prontas, o que é totalmente legítmo: se houvesse uma guerra, as tropas gaúchas agiriam com total coerencia. Agora,  você citou em seguida  a guerra como uma “oportunidade”, o que vai na contramão de “ultima opção”. Saca a diferença? Mudando de assunto: O que achou da missão no Afeganistão? As tropas Francesas violam os direitos humanos assim como as americanas como mostrou os vazamentos do Wikileaks ou são mais humanas na forma de agir?

    • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

      Eu imagino a guerra como instrumentos dos homens, quando saidas diplomaticas nao funcionam mais.

      Embora conflitos sejam um mal necessario, eu acho que nao sao exatamente algo de que se deva sentir orgulho.

      Pra mim, manter um exercito e pagar militares e como assinar um plano de saude: voce paga caro todo mes e da gracas a deus se nao puder usar o plano.

  • Rodolfo Viana

    Puta texto bacana, Rafa.

    • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

      Po, obrigado, Rodolfo :)

  • http://www.facebook.com/people/Eduardo-Pacheco/100002345621352 Eduardo Pacheco

    Puta que pariu, Rafa, matéria do caralho. Impressionante.

    • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

      Valeu Eduardo!

      Vantagem de se escrever sobre uma palestra do TED: 99% de chance de ser algo muito foda.

  • http://www.facebook.com/people/Gutierrez-Rodrigues-Reis/100002664677434 Gutierrez Rodrigues Reis

    Seria tudo mais tranquilo se só quem possuísse armas fossem realmente os autorizados e capacitados..

  • Ramon Távora

    Não conheço o papel da Holanda na atuação no oriente médio, mas com um argumento desses o papel da Holanda seja totalmente justificável no Afeganistão. Agora é claro que essa justificativa só é possível por dois simples motivos, existem dois lados com interesse, é aquele de ser absolutamente dominante em um território próprio o qual é usado para satisfazer inúmeras vontades, e também o interesse econômico de um país com maior poder em um território extremamente lucrativo, seja religiosamente, ou economicamente. 
    E dessa forma, somente dessa forma, a Holanda pode atuar com o altruísmo de levar justiça, educação militar, e segurança…

    Vai procurar o interesse dos EUA no Haiti, ou em algum país da Africa sem recursos minerais.

    Podem falar muito do despreparo das nossas forças militares, mas pela história, a nossa acaba tendo um papel muito parecido com o da Holanda.

    No mínimo eu fico aliviado de não morar em um país que tenha declarado guerra a outro.

    • http://estadodearte.wordpress.com/ Rafa

      Ramon, e por essas e por outras que eu adoraria ver um diplomata no TED, justamente porque eles fazem as negocioes e cuidam diretamente dos interesses internacionais.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=1758390154 Lucas Ono

    “Killing for peace is like screwing for virginity”

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