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O autor de “Os Versos Satânicos” vira vilão em game iraniano e o mundo continua complicado por demais

Jader Pires

por
em às | Debates, Mundo, PdH Shots


O título desse texto é bem grande, mas a minha linha de raciocínio, nem tanto. É algo mais direto, seco, mas não menos intrínseco. Eu tratei de aparar barba, cabelo e bigode pra deixar tudo no seu devido lugar.

Eles perseguiam o Salman Rushdie…

Salman Rushdie com sua "blasfêmia" em forma de literatura

Salman Rushdie é um escritor de origem indiana que foi estudar na Inglaterra na época de faculdade. Lançou alguns livros nas décadas de 70 e 80 quando, em 1989, chegou ao mundo o seu livro mais controverso, Os Versos Satânicos. Baita livro. Foi o único que li do autor, mas me prendeu do começo ao fim. Uma baita história e uma baita crítica.

Neste romance, o escritor narra a história de dois atores indianos que se metamorfoseiam, um em diabo e outro em anjo, depois de caírem de um avião atacado por terroristas. Muitas coisas opõem e associam os acidentados; um é apolíneo, o outro dionisíaco; um é apocalíptico, o outro integrado; um é apegado à origem, o outro está decidido a conquistar nova nacionalidade. Transitando livremente entre o real e o fantástico, entre o bem e o mal, entre a infinidade de opostos complementares e inconciliáveis da vida, este romance alegórico é claramente autobiográfico, especialmente em sua questão filosófica central – quem sou eu?

No livro, Rushdie condenava, por meio de sua ficção fantástica, o islão, justamente por condenar outras religiões. O escritor blasfemou contra uma das religiões mais inflexíveis (dependendo do ponto de vista de quem a pratica) e isso não poderia passar impune. Rushdie brincou com a imagem de Maomé, maior profeta do islã, ato que foi considerado como uma blasfêmia digna de morte.

Isso. Morte.

Em fevereiro de 89, o Aiatolá Ruhollah Khomeini, do Irã (aiatolá é “o mais alto dignitário na hierarquia religiosa”, figura ainda maior que a do próprio presidente do país), ordenou a execução do escritor para todo o povo islâmico. A ordem foi dada por meio de uma fatwa, um pronunciamento legal no Islão emitido por um especialista em lei religiosa, sobre um assunto específico, no caso, o lançamento do livro Os Versos Satânicos.

A cabeça de Salman Rushdie foi colocada a prêmio e o escritor teve que viver muitos anos sob forte proteção policial, passando os anos em completo anonimato. Em determinado momento, Rushdie chegou a informar que recebia um cartão de “dia dos namorados” (14 de fevereiro lá fora) todos os anos, informando-o que o Irã não esqueceu sua blasfêmia e que ainda iriam matá-lo.

…e eles ainda perseguem o Salman Rushdie

Salman Rushdie nos dias de hoje. Olhos "preocupados"

Aconteceu, no mês de maio, o a Feira Internacional de Games de Teerã, no Irã. No evento, foi apresentado o jogo chamado, traduzindo livremente para o português, A Vida Estressante de Salman Rushdie e a Implementação de seu Veredito. Criado e desenvolvido por estudantes iranianos, o game visa perseguir e matar a versão virtual de Salman Rushdie.

“Achamos que era necessário achar um modo de introduzir nossas terceira e quarta gerações à ‘fatwa’ contra Salman Rushdie e porque ela é importante”

Mohammad-Taqui Fakhrian, da Associação Islâmica dos Estudantes

Se os Estados Unidos tivessem feito um jogo de videogame cujo o objetivo fosse buscar o Osama Bin Laden nos fundos de uma caverna escura e mal cheirosa lá pros confins do Paquistão, se esse jogo fosse lançado poucos anos após os atentados de 11 de setembro, certamente bateria recordes de venda em todo o mundo. Se os mesmos americanos fizessem um jogo divertido com o intuito de executar todos os ditadores do Oriente Médio e ainda por cima com cheats para comer gostosas escondidas debaixo de burcas, seria um marco para a indústria dos jogos eletrônicos.

Não que eu concorde qualquer gota com os iranianos, com os islâmicos que desejam a morte do escritor. Por deus, eu escrevo! Quero toda a minha liberdade de expressão para tal, para poder escrever o que me der na bendita da telha. Para explicar a seu filho pequeno justamente a liberdade de expressão que lhe faltava nesses tempos mais conturbados, Salman escreveu um livro infantil chamado Haroun e o Mar de Histórias. Um jeito criativo e triste de o pequeno compreender a difícil situação do pai.

Os estudantes iranianos não estão certos e os americanos não estariam errados. Quem jogar qualquer um desses jogos estará longe de poder ser culpado de algo. É apenas um recorte do tempo em que vivemos, tempos que são, por demais, complicados.

Obs: as imagens do game ainda não foram disponibilizadas.

Jader Pires

Jader Pires é editor do Papo de Homem. Publicitário por opção, jornalista por apego e escritor por maldição. Prometeu um dia que, se ganhasse na loteria, doaria cem reais para caridade (e não há cristo que o faça pensar o contrário). No Twitter, atende pela brilhante alcunha de @jaderpires.


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  • Luciana_Marques

    “tempos que são, por demais, complicados.”

    Verdade demais!!!

  • Marcos Augusto Nunes

    “Se os Estados Unidos tivessem feito um jogo de videogame cujo o objetivo
    fosse buscar o Osama Bin Laden nos fundos de uma caverna escura e mal
    cheirosa lá pros confins do Paquistão, se esse jogo fosse lançado poucos
    anos após os atentados de 11 de setembro, certamente bateria recordes
    de venda em todo o mundo.”

    Você tem certeza que eles não fizeram nenhum jogo nesse sentido? Não acompanho o mercado de games (acho todos intoleráveis), mas quem acompanha deve saber algo a respeito.

    Pegunto porque li um livro recentemente, escrito por uma paquistanesa igualmente moradora em Londres (como Rushdie) e como tal também comospolita e muçulmana não praticante. Em dado momento, uma japonesa sobrevivente de Nagasaki, em tratamento em um hospital local, é tratada por equipe médica norte-americana, após a ocupação do Japão pelos EUA com o final da guerra. Os norte-americanos assim justificavam, faces límpidas e suaves, as duas bombas atômicas jogadas contra os asiáticos: “Isso salvou a vida de muitos norte-americanos”. O livro termina com os abusos aos Direitos Humanos (civis, legais, o diabo) dos EUA logo após o WTC e Pentágono. Fica claro que a história não ensina nada para quem tem pauta fixa em política interna e externa: o bem estar dos “americanos”.

    O nome do livro é “Sombras Marcadas”, a autora é Kamila Shamsie. Elogiado justamente por Salman Rushdie.

    Em sintese, toda a antipatia contra muçulmanos fundamentalistas não consegue superar a antipatia contra a política oficial de uma nação que, estranhamente, não é comandada por fundamentalistas – pelo menos os religiosos. Há o fundamentalismo do american dream: ele parece bastar para martirizar o mundo inteiro em favor do barbecue dominical dos caipiras do Tio Sam.

    P.S.: O Líbano é majoriratiamente muçulmano, mas mulheres lindas como Nadine Labaki podem vestir tranquilamente suas roupas crossover ocidente-oriente, e exercer profissões tais como a de cineasta e atriz. Se os EUA, como disse o também cineasta – e iraniano – Mohsen Makhmalbaf, jogasse no Afeganistão livros, e não bombas, não teria lá os Talibãs que, aliás, foram armados pelos EUA contra os russos – então soviéticos. O mundo realmente continua complicado demais, e precisamos ser cândidos de menos.

    • http://www.facebook.com/fabiobracht Fabio Bracht

      Não houve nenhum jogo claramente com esse mote, Marcos.

      Que mal lhe pergunte, por que considera todos os jogos “intoleráveis”?

      • http://twitter.com/_brunosilva Bruno Silva

        Cara, tem Call of Duty Black Ops, onde a primeira missão é matar Fidel Castro… sempre achei que os jogos tem um mote mais de ‘defender o jeito americano’…

      • Marcos Augusto Nunes

        Simplesmente não acredito que não haja outros que tenham como alvo Osama Bin Laden, talibã, Al Qaeda, Saddam Hussein, o Irã, etc.

      • Marcos Augusto Nunes

        Esses games eletrônicos, você deve saber dessa história, foram desenvolvidos pelo exército americano com vista a um processo de dessensibilização de um soldado à vista do inimigo e de quaisquer questões éticas e morais. Deu tanto certo que passou a ser vendido… a crianças! Pessoalmente, acho isso intolerável. Não falei de jogos eletrônicos educativos. Creio que há poucos. Há algum?

      • Daniel Felipe

        O exército americano programou jogos e vendem pra crianças?
        Oh God, Why?

  • Rodrigo

    Como entusiasta do mercado eu fiquei MUITO curioso sobre o jogo.
    Quanto as complicações do mundo, infelizmente só resta concordar

  • http://guitarrismos.wordpress.com/ Rafa

    Deixa eu ver se eu entendi: criar qualquer merda de jogo pode, mas escrever não?

    Aparentemente, narrativas só são problematicas se forem impressas em papel. É só usar midia digital que ta tudo certo.

    A proposito: os livros do cara sao bons mesmo?

    • jaderpires

      Rafa, eu só li Os Versos Satânicos e é bem bom. Ele dá uma bela cansada no meio da coisa toda, confesso. Mas ao acabar, percebe que valeu muito a pena.

    • Marcos Augusto Nunes

      Particularmente considero o melhor livro dele O Último Suspiro do Mouro, mas recomendo a edição portuguesa, que tem a ver com a trama e, claro, preserva a língua lusitana.

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000016796984 Henrique Simão

    Prefiro ler o livro do que jogar esse jogo ai. Alguém mais que leu pode emitir uma opinião sobre o mesmo? Fiquei curioso com a descrição.

  • Breno Tiki

    Se eu manjasse de criar games faria o Rushdie Verssion. Você teria que sair vivo de todos os atentados e faria multiplayer…

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Jader, esse post me lembrou tempos ancestrais do PapodeHomem, quando montamos a “Liga do Saco Roxo” e fizemos um game no qual se deveria exterminar o infame CARDOXERXES!

    http://ligadosacoroxo.org/liga.html

    http://papodehomem.com.br/cardoxerxes-facts/

    good ol’ times…

  • Juny

    Esse recorte do tempo que vivemos não é de agora, na minha opinião sempre existiu o fato de que os outros povos contrários a nós culturalmente (no caso os árabes) são “o inimigo” isso é reflexo do ser humano, não aceitar o diferente ou colocar-lo como inferior. E se não me engano sempre existiram jogos de videogames que trata os inimigos dos Estados Unidos como vilões do jogo, de Battlefield à CS os vilões sempre são árabes, comunistas… Já o fato de Salman Rushdie ser perseguido, eu achei radicalismo, pois quando Dan Brown criou sua saga de Da Vinci o vaticano tentou proibir, não com a mesma intensidade, na minha opinião foi radicalismo dos estudantes.
    Ps: À propósito ótimo livro, já foi usado numa prova da minha faculdade
    Ps²: Eu estava mesmo à procura de um jogo em que o inimigo comum, não fosse minoria, achei interessante.

  • bruno

    Criticando o joguinho?
    Olha a Fatwa pro teu lado, hein? huhuhuahuahauahuahauaa

  • http://profiles.google.com/1bertorc Humberto Ramos Costa

    Sobre o que trata o artigo… Qual seria a solução ? Proibir o jogo?
    Se eu não sou a favor da proibição dos jogos dos EUA com ‘russos malvados’ também não sou a favor da proibição dos jogos dos islamitas expressando suas opiniões (nem sei se grande parte da população apoia estes movimentos mas mesmo que seja uma minoria, expressão é espressão).
    Isso não implica em ser a favor de alguma ‘sentença de morte’ por causa do que Rushdie tenha escrito.
    O artigo induz a pensar que há alguma diferença entre o direito de Rushdie em expressar suas idéias (supondo que seu livro expresse suas idéias) e o direito em os islamitas expressar suas idéias (no jogo). Não há… Liberdade de expressão ou você tem ou não tem.
    Se esta (a de Rushdie) ou aquela (dos islamitas que fizeram o jogo) idéia é correta ou não é outra discussão… Ai sim… Que até onde eu conheço (e por favor não assumam que sou ignorante absoluto caso comentem tentem dizer algo que realmente acreditem que eu não saiba) esta discussão praticamente não existe no islã.

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