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Pessoas da FLIP

Alex Castro

por
em às | Cultura e arte, PdH Shots, Relatos


A FLIP reúne autores, editores e agentes literários de todo o mundo em uma cidade cosmopolita, linda e de poucos quarteirões. Todo mundo se esbarra na FLIP. A FLIP é para se esbarrar.

cigarrinho ao sol.

* * *

A FLIP é para esbarrar no cartunista Arnaldo Branco, entrando no centro histórico, com sua cara de malandro carioca, vestindo a camisa do Flamengo. Que, aliás, ele já iria tirar: sua esposa, Liv Brandão, não deixa ele andar assim quando ela está por perto.

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Na FLIP, tiram-se fotos acanhadas.

timidez.

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Estar na FLIP é voltar para sua pousada, tarde da noite de sexta feira, pensando em ter que escrever esse artigo para o dia seguinte, e esbarrar em centenas de pessoas em volta de quatro fogueiras à beira-mar, e, no meio do fogo, distinguir um homem grande e negro, de modernoso óculos de aro branco, fazendo gestos teatrais e declamando poesias, e pressentir que se trata do agitador cultural de Niterói João do Corujão, em pleno Sarau da Academia da Amendoeira, realizado na casa do Príncipe Dom João há oito FLIPs.

Seu novo projeto: montar uma biblioteca no Haiti, batizada em nome de um coronel brasileiro que morreu no país e adorava leitura.

João do Corujão, no Sarau da Academia da Amendoeira. Foto de Julia Michaels.

João do Corujão, no Sarau da Academia da Amendoeira. Foto de Julia Michaels.

Alex Castro e João do Corujão. Ao lado, Antonio Campos, da Fliporto. Foto de Julia Michaels.

Alex Castro e João do Corujão. Ao lado, Antonio Campos, da Fliporto. Foto de Julia Michaels.

* * *

Na FLIP, você vê Luis Fernando Veríssimo, andando encurvado pelas ruas de Paraty, sozinho, sem ninguém acompanhando, sem ninguém enchendo o saco. Respeitado em sua timidez.

Veríssimo andando sozinho pelas ruas de Paraty. Foto de Karen Bassetti.

Veríssimo andando sozinho pelas ruas de Paraty. Foto de Karen Bassetti.

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A graça da FLIP é esbarrar no cartunista Laerte e sua esposa na casa da Companhia das Letras.

Tínhamos jantar combinado com ele, mas acabamos tendo que desmarcar o compromisso.

Biajoni deu seu número de celular para o Laerte e pediu, “e o seu?”, mas o Laerte não tem celular.

Ele usava maquiagem discreta, um vestidinho leve e um xale vermelho sobre os ombros. Mas, depois que saiu, as mulheres do nosso grupo só falaram de seus sapatos:

Nós aqui de sapatilha baixa pra encarar os pés-de-moleque de Paraty, e o Laerte de sandalinha de salto alto! Isso é que é ser macho!

* * *

Enquanto isso, em outra mesa da casa da Companhia das Letras, Angeli dava uma entrevista para dois jovens de olhos arregalados. De relance, ouvi:

Pode repetir a pergunta? Minha memória de curto prazo já não é mais o que era.

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A FLIP é para o repentista ficar amigo do hare krishna.

o repentista e o hare krishna.

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Você sabe que está na FLIP quando sua companheira de viagem, Julia Michaels, ex-editora na Objetiva e autora do blog RioReal, conhece o escritor Luiz Biajoni, meu irmão já entrevistado aqui no PapodeHomem e autor do romance “Elvis & Madona”, e imediatamente faz questão de corrigir seu nome:

Biajoni? Essa não pode ser a ortografia original. Em italiano não tem J.

E Biajoni abaixou a cabeça e admitiu ser, na verdade, um falso Biaggione.

Julia Michaels, grande amiga e companheira de FLIP.

Julia Michaels, grande amiga e companheira de FLIP.

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A FLIP é pra tocar raul.

toca raul.

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Você sabe que está na FLIP quando tem uma conversa empolgada, em uma praia de Paraty, com Flora Thomson-Deveaux, a norte-americana de vinte anos que sacudiu o Rio de Janeiro ao dizer, basicamente, que a PUC era uma boate.

Flora fechou o blog Questões Estrangeiras, que mantinha no site da Piauí, e agora está enfurnada no Instituto Moreira Salles, lendo as vinte mil páginas da História da Nobreza Humana, escritas à mão, ao longo de quarenta anos, em cinco línguas, por Santiago, mordomo da família Moreira Salles.

Perguntei, por que essa pesquisa?

E ela:

Pelo prazer de saber que estou lendo pela primeira vez algo que ninguém nunca leu.

Flora e Alex, em debate. Foto de Julia Michaels.

Flora e Alex, em debate. Foto de Julia Michaels.

Flora e Alex, em debate. Fotos de Julia Michaels.

* * *

Durante a FLIP, foi lançada a edição especial da Granta, “Os melhores jovens autores brasileiros”, editada pela Objetiva. Os nomes dos vinte escolhidos foram mantidos em segredo durante vários meses e, para a surpresa de todos, não vazaram.

Autores consagrados, como o João Paulo Cuenca, que conheci na redação da falecida Tribuna da Imprensa, escrevendo crônicas pro TribunaBis, e nomes desconhecidos, como o Vinícius Jatobá, companheiro de júri na Copa de Literatura Brasileira.

Confesso: mandei meus trabalhos para a Granta e não fui escolhido. Com toda a sinceridade, dei um abraço no Cuenca e disse: “meus parabéns e minha inveja”.

Um dos jurados reconheceu meu nome, se lembrou do meu conto e teve a gentileza de dizer que eu estava em sua seleção pessoal dos vinte melhores e que fiquei entre os finalistas, sendo eliminado somente na reta final.

Agradeci e virei minha taça de vinho.

a flip é pra contar história no umbral da porta.

* * *

Minha companheira de viagem, Julia Michaels, é uma pessoa generosa. Não porque me trouxe à FLIP e me hospedou em Paraty, ou porque conhece todo mundo e me apresenta a eles com elogios imerecidos, ou mesmo porque entrou comigo na festa de lançamento da Granta.

Mas porque, em uma festa exclusiva com grandes nomes do mercado editorial brasileiro, muitos dos quais seus amigos e colegas, ela buscou os solitários, os tímidos e os perdidos, e fez com que se sentissem acompanhados, queridos e acolhidos.

Não conversou com o premiado Suketu Mehta, autor de “Bombaim: Cidade Máxima”, mas sim com seu cunhado, um endocrinologista indiano, escondido em um canto escuro, e louco de vontade de contar suas impressões da mata atlântica.

* * *

Na festa da Granta, reencontrei José Luiz Passos.

Quando apareci na Califórnia, fugindo do furacão Katrina, e ele era professor de literatura brasileira da Universidade de Berkeley, José Luiz foi o primeiro a me receber.

Hoje, tantos anos depois, já estou de volta ao Brasil e José Luiz se transferiu pra a UCLA. Publicou um romance pela Alfaguara e, em novembro, publica mais um.

Perguntei: Zé, se inscreveu nos jovens autores da Granta?

E ele:

“Alex, fui eliminado por idade… por dez dias!”

o poeta luis maffei falando na off flip.

o poeta luis maffei falando na off flip.

* * *

Vim à Paraty por ter sido convidado para falar na OFF FLIP, graças ao trabalho da minha editora Raquel Menezes, da Oficina Raquel.

Em um dado momento, falando sobre teorias da literatura, todos estavam tão inteligentes e acadêmicos que tive que interromper.

Pra fazer literatura, eu disse, não era preciso necessariamente ser inteligente, articulado, embasado. Na literatura, a gente tenta criar sensações no outro: fazer rir, chorar, sentir medo. É como o sexo, onde você estimula o corpo do parceiro, buscando aqui uma cócega, ali uma mordida, quem sabe uma arranhada, talvez uma lambida. É uma atividade quase física que não requer nenhuma inteligência, apenas sensibilidade.

E completei:

A literatura é uma carícia no clitóris.

* * *

Por fim, a FLIP é onde se escreve esse artigo. Primeiro, a mão.

a mão. foto de julia michaels.

Depois, no computador.

no computador. foto de julia michaels.

Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // todos os meus textos são rigorosamente ficcionais. // se gostou, me siga no facebook, compre meus livros ou faça uma doação. // não leio comentários dos meus textos. para falar comigo, mande um email.


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  • http://twitter.com/lucianoandolini Luciano Andolini

    Putz, taí o tipo de coisa que eu gostaria de presenciar.

  • http://www.alexcastro.com.br Alex Castro

    bem vindos aos comentários!

  • Flávia

    Sou apaixonada por Parati. Amo a FLIP e nunca soube expressar o porquê. Agora, toda vez que alguém me perguntar: por que eu gosto, como é, etc… vou mandar esse link da sua reportagem. Perfeito.

  • Pingback: meu relato sobre a flip - alex castro

  • http://nao2nao1.com.br/ Gustavo Gitti

    BELO relato, Alex.

    Gostei das fotos, especialmente a do Veríssimo.

    Acho uma boa textos assim, em recortes.

  • http://twitter.com/pattricialeite Pattricia

    Vc me deixou com vontade de voltar a Paraty…

  • Marília

    Uau!

  • http://marciosarge.blogspot.com.br/ Marcio Sarge

    “Na literatura, a gente tenta criar sensações no outro: fazer rir,
    chorar, sentir medo. É como o sexo, onde você estimula o corpo do
    parceiro, buscando aqui uma cócega, ali uma mordida, quem sabe uma
    arranhada, talvez uma lambida. É uma atividade quase física que não
    requer nenhuma inteligência, apenas sensibilidade.”

    Alex? Você nunca foi tão sábio! :)

  • junior

    os comentarios estão abrindo pra vcs que usam o firefox 13? aqui nao abre, só abre no chrome

  • Gabriel Simões

    muito, muito legal o texto! parabéns alex!

  • http://www.facebook.com/pedropmbastos Pedro Paulo Bastos

    A Flora é realmente uma mulher muito inteligente. Escrevia sobre o Rio como ninguém e… em inglês! Curtia muito o blog dela na piauí e nem suspeitava de que ainda estivesse pelo Brasil! Que bom!

  • Marcos Augusto Nunes

    Já fui a 3 FLIP’s, e nesta só iria se ganhasse o concurso da Off-Flip, mas passei longe, bem longe. O ambiente é calmo e agitado, colorido e chuvoso, há muita gente cheia de referência e muita gente à procura de coisas, inclusive de referências. Para quem gosta de literatura e de sexo, é o evento do ano, embora seja mais um daqueles supermercados de editoras muito pouco preocupadas com algo além de dinheiro. Paraty não é uma Bienal: é um parque temático de qualquer coisa, mudando de caráter de acordo com a fauna humana que por lá recheia as ruas no Carnaval, na FLIP, nas festas de final de ano… A melhor época é mesmo na FLIP, embora seja a mais cara. Fora de época, à margem das festas promovidas pela prefeitura, é um bom local para se passar os fins de semana, ler, olhar o mar, comer, beber e foder, apesar da ansiedade dos comerciantes que ficam de olho nos raros transeuntes que raramente entram em suas lojas e compram suas lembrancinhas kitsch’s.

  • http://www.facebook.com/people/Gustavo-de-Santana/1784635557 Gustavo de Santana

    É o tipo de relato que faz você ter vontade de vender o carro, cancelar os cartões de crédito e ir morar lá em Paraty. Como eu provavelmente não vou ter culhão de fazer uma coisa dessa, fica pelo menos o projeto de ir no FLIP do ano que vem.

  • http://twitter.com/fabianesecches Fabiane Secches

    O melhor texto sobre a FLIP que eu li, sem nenhuma dúvida.
    E as fotos estão um caso de amor à parte. Parabéns.

  • Isa

    Inveja. Adoraria estar lá. Obrigada, Alex, por trazer um pouco da Flip pra nós.
    Gosto muito de leitura, e embora minha opinião não represente nada no mundo literário, Alex Castro está entre os tops na minha lista de preferências, admiração e talento.

  • http://www.facebook.com/gccavalcante Gabriel Celestino Cavalcante

    Bom relato mesmo. Deu pra sentir o clima da coisa… bem legal!

  • Lisa

    Excelente! Esse texto me deu vontade de escrever…

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