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Você já parou pra pensar na quantidade de tempo e de dinheiro e de trabalho… que gasta com seus cabelos?

Porque Chewbacca parou de se barbear...
Chego na dermatologista, ela olha o meu cocuruto e diz:
“Acho que já está na hora de começarmos a usar loções anticalvície, não?”
“Por quê?”, eu pergunto.
“Porque senão você vai virar careca em alguns anos.”
Confesso que realmente não entendo a lógica:
“E isso implica em algum problema de saúde? Tenho trinta e oito anos. Não é natural o cabelo de grande parte da população masculina começar a ficar mais ralo e talvez até cair por volta dessa idade?”
“Hmmm, normal é, mas fica feio, não?”
“Hmmm, não sei. Feio pra quem?”
Deu vontade de perguntar: “você é médica ou esteticista?” Mas perguntei:
“Você não estava agora há pouco me oferecendo seis sessões de depilação laser por seiscentos reais?”
“Ah sim, claro. Mas pra barba! Agora estamos falando do cabelo!”
“Peraí. Você quer que eu gaste dinheiro pra tirar cabelo de onde tem e gaste mais ainda pra colocar onde não tem? É pegadinha?”
Claro que é.

Precisamos mesmo disso tudo? E se você NÃO se barbeasse? E aí? O mundo acabava?
Imagine uma ida à farmácia.
Primeiro, você compra o Avicis (100 ml por R$130) e o Pilexil (125ml por R$135). (Esses foram os dois tônicos capilares que a dermatologista me receitou.)
Depois, uma caixinha de Gillette Fusion com quatro lâminas (R$50), um pincel de barba (R$6), uma espuma pra barbear Nívea (200ml, R$22) e um gel pós-barba da Gillette (75ml, R$16).
Ou seja,você acabou de gastar R$265 para que pelos voltem a crescer na parte da sua cabeça onde eles naturalmente tendem a cair, e então mais R$94 para tirar os pelos da parte da sua cabeça onde eles crescem continuamente. Da mesma cabeça. Dois lugares que estão a vinte centímetros um do outro. R$350! Pense nisso!
É como ficar salgando e adoçando, salgando e adoçando… o mesmo prato. É como ligar o ar condicionado por meia hora, depois o aquecedor por meia hora, depois o ar condicionado de novo… e no final do mês, ainda reclamar da conta de luz gigantesca.
Então, é isso mesmo?
Cabelo quando tem ali é másculo, mas quando tem aqui é mal ajambrado. Quando não tem aqui é sinal de velhice, mas quando não tem ali é sinal de boa higiene pessoal.
E vocês acham mesmo que o mundo é assim, que a beleza é assim, que essa é a opinião de vocês, livre e independente, que não foi ninguém que lhes enfiou esse contrassenso na cabeça?
Faz sentido? Vocês aceitam isso? São felizes assim? Gastando dinheiro e tempo e trabalho pra tirar cabelo de onde tem e colocar onde não tem? Vivendo sua vida ao bel-sabor desses critérios que caíram do céu, que vieram sabe deus de onde?
Não seria mais fácil aprender a gostar do cabelo onde ele cresce e a gostar da falta de cabelo onde ele cai?

Barbeiro indiano em serviço. Mumbai, 1946.
Nossos pelos são um dos melhores marcadores de nossas vidas, de nossas trajetórias, de nossas existências.
Quando somos crianças, não temos pelos, ou são ralos e fracos. De repente, começamos a virar homens, nossos hormônios borbulham em fúria, e começam a nos crescer pelos por todo o corpo. Então, vivemos nossas vidas a mil, com a mesma força dos pelos, até que, aos poucos, nossa energia vai caindo, vamos ficando mais sábios, mas também mais tranquilos, e aí aparece o primeiro fio branco na barba, o cabelo vai ficando um pouco mais ralo.
(E não só isso. As marcas no meu rosto dão testemunho da acne na minha adolescência, minhas estrias comprovam as idas e vindas do meu peso, a cor dos meus dentes indica que fumo e bebo café talvez demais, meus pés por si só já revelam um homem que caminha muito, mas sempre de chinelo de dedo. O meu corpo é a minha história.)
Negar nossa calvície e pintar os cabelos grisalhos é como o menino de dez anos que pinta um bigode na cara e finge fazer a barba ao lado do pai. Fofo, mas imaturo.
A desculpa dele é ter dez anos de idade. Qual é a sua?

"Tenho que tirar esses pelos senão as mina do maternal não vão querer dar pra mim!"
Teve uma época em que namorei duas meninas ao mesmo tempo. As duas sabiam uma da outra, claro, não sou canalha, mas morriam de ciúmes e tinham uma certa, digamos, rivalidade capilar.
No Rio, Ana gostava de mim com visual mais limpo. Queria cabelo curto, pelos pinçados da orelha e do nariz, barba escanhoada como pele de bebê. Bem coxinha.
Já em São Paulo, Maria Cristina tinha tesão num estilo meio-intelectual meio-de-esquerda da Fefeléti (a faculdade que vem com uma fofolete). Queria barba por fazer e cabelos revoltos.
Para conciliar as duas, eu tinha que manter tanto a barba quanto o cabelo de um modo que nenhuma delas ficava completamente satisfeita, mas também não contrariada.
Os cabelos ficavam mais longos do que Ana teria gostado. Em compensação, quando estava com ela, sempre os trazia muito bem penteados. E, em São Paulo, para ver Maria Isabel, molhava o cabelo, passava a mão para desarrumar bastante, deixava bem cacheado.
Pior mesmo era a barba.
Logo antes de me encontrar com Ana, no Rio, era fácil deixar o rosto bem macio e escanhoado. Depois, enquanto estava com Maria Isabel em São Paulo, eu nunca me barbeava, claro, mas era difícil de evitar uma primeira impressão negativa. Sempre que me via chegar do Rio com a barba mais curta, ela resmungava:
“dá pra ver na sua cara que está vindo dos braços da outra!”
Quem acha que viver relacionamentos abertos é mais fácil do que a monogamia claramente nunca viveu a minha vida.

"Minha ruiva gostosa, o que você pede chorando que eu não faço rindo? Ou é o inverso?"
Sei que alguém vai dizer:
É fácil falar isso quando se é um gordo feio careca que não pega ninguém! ou que já perdeu a esperança de pegar alguém, etc.
Normalmente, eu não responderia, mas tem um ponto importante a ser feito aqui.
A questão, óbvio, não é quantas mulheres me pegam ou não (essa é a parte que seria deselegante responder) mas que existem tantas mulheres quanto homens no mundo, e elas concordam entre si tanto quanto os homens, ou seja, em nada.
Então, se um homem gosta de usar cabelo azul, não faz sentido ele deixar de usar cabelo azul “senão não vai pegar mulher” porque, assim como existem homens que gostam de usar cabelo azul e/ou sentem tesão em mulheres com cabelo azul, também existem mulheres de cabelo azul e/ou que sentem tesão em homens de cabelo azul.

Amor.
Na verdade, se concentrar em um nicho específico tem duas gigantescas vantagens:
Em primeiro lugar, maior felicidade e satisfação pessoal. Afinal, se você faz algo que vai tão contra a corrente, é porque gosta muito e se sente muito bem desse jeito. Ou seja, já é intrinsecamente gratificante, independente do resultado final.
Em segundo lugar, reserva de mercado. Pode até ser que muitas meninas ditas “normais” nem queiram te olhar por causa do seu cabelo azul, mas isso vai ser mais do que compensado pelo fato de que as meninas que adoram homens de cabelo azul vão ficar loucas por você.
E, sério, quantas mulheres você precisa? Basta uma, duas, meia dúzia, digamos vinte meninas que amem os seus cabelos azuis para você ser feliz, romântica e sexualmente realizado por toda a vida.
Talvez você seja daqueles que quer comer oitenta, cem, mil mulheres. Nesse caso, é melhor ser bem mainstream e sem personalidade mesmo. Já eu prefiro poucas, 8 ou 18 ao longo de toda minha vida, mas que tenham as minhas taras e amem os meus defeitos, do que cem pelas quais vou ter que me moldar, me adaptar, me depilar, me clarear, etc.
E, não, não estou te dando o conselho mais canalha de todos os tempos (“seja você mesmo!“). Estou dizendo o seguinte: uma coisa é você adequar seu corpo pra satisfazer os gostos de seu parceiro sexual, uma pessoa concreta que atura coisas suas que ninguém mais atura e que presumivelmente também se molda aos seus gostos; e outra coisa, muitíssimo diferente, é você se escravizar e se mutilar em nome de um padrão estético vigente, massificado e incorpóreo, que você não sabe de onde veio e que nunca nem chupou seu pau.
Confie em mim: só na sua cidade, por menor que ela seja, existem pelo menos duas, ou cinco, meninas (ou meninos!) que gostam de QUALQUER coisa – inclusive de VOCÊ, por pior que você seja. Ninguém precisa se anular, se mutilar ou se oprimir para não ser sozinho, para encontrar amor verdadeiro, para transar, para ser feliz.

Macho.
Talvez o dilema todo já tenha sido resolvido há mais de um século pelo economista norte-americano Thorstein Veblen. Além de ser um dos pensadores mais brilhantes da história e arguto observador dos costumes humanos, Veblen era também um excelente satirista e genial contador de histórias. Ao ler sua obra-prima, A teoria da classe ociosa, um livro de economia escrito no século XIX!, eu literalmente ficava sem ar de tanto rir. (Leia esse textinho que escrevi sobre Veblen, com meus trechos favoritos da obra.)
Sua famosa teoria do consumo conspícuo, brutalmente resumida, diz mais ou menos assim: os ricos, em sua busca por status, precisam ostentar sua riqueza justamente através do desperdício. Saltos altos e unhas longas não são “bonitos” intrinsecamente mas sim por demonstrarem que sua portadora não trabalha nem com as mãos nem os pés.
Então, diria Veblen, o que é bonito e atraente não é nem o cocuruto cabeludo e nem o queixo bem escanhoado (afinal, critérios estéticos são culturais e variam de sociedade em sociedade) mas sim o fato de você ter demonstrado que é rico e ocioso o suficiente para usufruir da renda, do tempo livre e da disposição para tirar cabelo de onde tem e fazê-lo crescer onde não tem. Em outras palavras, você está sinalizando ao mundo, e principalmente às mulheres, que não é um pé-rapado que trabalha dois turnos de faxina e fica três horas por dia no ônibus em troca de um salário mínimo.
E, de fato, se quisermos sucesso social e sexual em uma sociedade escrota, racista e desigual como a brasileira, povoada por homens e mulheres idem, essa talvez seja uma das mensagens mais importantes a ser transmitida.
Ou, quem sabe, talvez fosse mais digno não ter sucesso.
Quando Henry David Thoreau foi preso por se recusar a pagar impostos que seriam usados na Guerra Mexicano-Americana (forte concorrente para o posto de mais canalha guerra de agressão já travada pelos EUA contra um inimigo mais fraco), Ralph Waldo Emerson foi visitá-lo na cadeia e lhe deu um puxão de orelha:
“Henry, Henry, em tempos como esses, o que você está fazendo aí dentro?”
E Thoreau, na lata:
“Waldo, a questão é o que você está fazendo aí fora.”
alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // todos os meus textos são rigorosamente ficcionais. // se gostou, me siga no facebook, compre meus livros ou faça uma doação. // não leio comentários dos meus textos. para falar comigo, mande um email.
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