Se você passou mais de 10 anos na escola e agora pretende ser ou já é pai/mãe, esse vídeo e esse encontro é para você →
​​​​​

O sorvete do Rei

Fred Fagundes

por
em às | Crônicas e contos, PdH Shots


Jorge V, o primeiro membro da casa de Windsor a subir ao trono do Reino Unido, é considerado um símbolo entre os monarcas excêntricos. Homem de roupas extravagantes e admirador de esportes, herdou a coroa do Rei Eduardo IV, homem forte na Marinha Britânica. Mesmo tendo servido à força marítima e ter convivido com o sentimento antigermânico durante a Primeira Guerra Mundial, Jorge V, para o desgosto do pai, não gostava de armas.

Jorge V gostava de uma coisa mais do que todas as outras: sorvete de creme.

Fala glr

O vício na sobremesa era tamanha que um decreto foi levantado logo no primeiro ano de reinado, em 1911. Independente da época ou ocasião, a casa de Saxe-Coburgo-Gota deveria sempre dispor de uma vasilha de sorvete de creme real. O doce, de exclusividade de Jorge V, era como um refúgio. Dentre tantas decisões importantes, reuniões diplomáticas e jogos de cricket, o sorvete tinha a função de relaxar o patrono.

Afinal, tudo acontecia na Inglaterra do início do século XX. Pessoas morriam de pneumonia, seu irmão, o Príncipe Alberto Victor, só queria saber de curtir o Caribe e Charles Muller já era tido como retranqueiro e burocrático por Armando Nogueira. Ou seja: tudo passava. O mundo, as notícias e os personagens da rotina do Rei. Menos o sorvete de creme.

O sorvete de creme era fiel. Ele sempre estava lá. Final de tarde após a partida de cricket? Sorvete de creme. Domingo de manhã no gramado do Palácio de St. James? Sorvete de creme. Sor-ve-te de cre-me.

Essa vida, repleta de toda o conforto que um sorvete de creme pode proporcionar, não era perfeita. Mas era feliz. Era generosa. Feito uma recompensa diária. Numa época em que não existiam chinelos, era como chegar em casa, tirar o sapato apertado, ligar a TV a cabo e calçar os chinelos. Mas também sem TV e muito menos a cabo.

Mas com sorvete de creme.

Durante 10 anos.

Até que Rei Jorge V conheceu algo diferente: o sorvete de chocolate.

Que isso novinha

A primeira impressão foi de desconfiança. O chocolate era chamativo, ok. Mas era apenas um outro sorvete. Não havia o que temer. Sem ainda provar, Rei Jorge V apenas observava de longe. Era interessante ver a reação das pessoas em volta. De como o sorvete de chocolate interagia e fazia os outros felizes. Isso confortava o Rei. Não só confortava, como rendia admiração. Logo o sabor começou a povoar os pensamentos da realeza.

— Será? — questionava-se.

A curiosidade foi maior que a segurança. Verdade que o sorvete de creme não perdeu espaço na preferência de Jorge V. Contudo, já existia um flerte com o chocolate. Quantas e quantas vezes vossa majestade, durante tardes vazias e chuvosas, se viu imaginando como seria o gosto daquele sorvete. As frenéticas colheradas no creme já não cobriam o espaço de necessidade. Os pensamentos eram focados no alternativo.

E, ah, como era bom pensar naquele sorvete de chocolate. Rei Jorge V Começou a estudar a história do Cacau, as plantações na América do Sul e dos diferentes tipo de preparo com o fruto. Tornou-se um especialista, mesmo sem conhecer o gosto.Passava noites imaginando como seria o o êxtase causado por aquele gosto diferente. E sorria. Sorria porque, tal como quando conheceu o sorvete de creme, voltou a sentir a emoção de gostar de uma novidade.

Era uma questão de tempo e oportunidade.

Quando menos percebeu, ficou a sós com o sorvete de chocolate. Colocou na sua cabeça que era o acaso, mas, no fundo, sabia que havia programado aquele encontro. Se aproximou. Tentou não demonstrar tanto interesse, mas o olhar tenso acusava que não estava ali a toa. Evitou qualquer tipo de ação afoita e preparou o terreno. Uma, duas colheradas cheias de sorvete de chocolate em uma tigela.

Era o momento.

Depois de tanto tempo, era esse o momento.

Provou.

Provou duas vezes pra ter certeza.

Ele esperava mais. E não gostou.

Praticando a esquiva após o choque de realidade

Não só não gostou como odiou a experiência.

O sorvete de chocolate era inconstante e variava momentos que iam do prazer oriundo pela combinação do novo com o saciar de desejo até uma previsível insegurança. O Rei não enxergou no sorvete de chocolate aquele porto seguro que o sorvete de creme comprovou ser com o passar dos anos. O sorvete de chocolate, na hora, era uma delícia. Mas passava longe de ser aquilo que o reino precisava.

Triste isso.

Jorge V sentiu-se enganado pela própria percepção. Pela expectativa do gosto diferente. Aquela mesma que rendeu tantos sonhos acordados, que o fazia feliz no meio da tarde e que o deixava com a consciência pesada quando lembrava que declarou fidelidade ao sorvete de creme.

Assim, encerrou-se uma fantasia. E o pior: restou ao rei uma enorme saudade de tudo que jamais teve. E quando teve, não era nada do que foi imaginado. Jorge V, enfim, conheceu o amor platônico descobrindo do modo mais difícil que essa agradável dor, que mescla desejo e esperança, se materializa de modo incompleto. Perde justamente o gosto inebriante do desconhecido, do que não está ao alcance das mãos.

Jorge V morreu preferindo o leve doce do sorvete creme ao provocativo do sorvete de chocolate.

Morreu feliz. Mas viveu sem sorrir. E as vezes sentia uma saudade daquela desgraçada.

Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.


Outros artigos escritos por

Somos entusiastas do embate saudável

O texto acima não representa a opinião do PapodeHomem. Somos um espaço plural, aberto a visões contraditórias. Conheça nossa visão e a essência do que fazemos. Você pode comentar abaixo ou ainda nos enviar um artigo para publicação.


EXPLODA SEU EMAIL

Enviamos um único email por dia, com nossos textos. Cuidado, ele é radioativo.


TEXTOS RELACIONADOS

Queremos uma discussão de alto nível, sem frescuras e bem humorada. Portanto, leia nossa porra de Política de Comentários.


  • http://twitter.com/riann__ Riann Selegar

    Qualquer semelhança com mulheres e relacionamentos é mera coincidência. Certo, Fred?

    • http://www.portalhomem.com.br Fred Fagundes

      Certo.

      • Priscila

        Exatamente o que imaginei!
        Mera coincidência..
        ^^

        Excelente texto! :D

      • http://www.facebook.com/rafael.allegretti Rafael Allegretti

        @FredFagundes:disqus
        Texto foda! Não somente é uma referência as mulheres, como referência as próprias expectativas que criamos. Tá de parabéns!

  • David Alexandre

    Claro que a discussão aqui é só sorvete. Nada de mais fundamental ou profundo… oh, wait!

  • http://www.facebook.com/osouzajefferson Jefferson Souza

    Eu consigo dar nomes/sobrenomes aos sorvetes. E mais de um pra cada.

  • http://twitter.com/Felipauskas Felipe Villanova

    Clap, clap, clap.

    Tchê loco, magnífico.

  • http://www.facebook.com/caiorenan Caio Renan

    Pois é. é como sorvete. Você vai todos os dias à sorveteria e vai escolher o mesmo sabor. Provável que vai querer provar outros enquanto os olha, mas será que vale a pena tirar sua colher do pote do seu sabor pra pegar outros e deixar o seu livre pra outras pessoas colocarem suas colheres?

  • http://www.facebook.com/people/Eliana-Arruda-Ferreira/100000262341399 Eliana Arruda Ferreira

    Quisera que após “experimentar” e não gostar do sorvete de chocolate, ao voltar ao sorvete de creme, este se fizesse salgado… ;)

  • http://www.facebook.com/BrunoSMartelli Bruno Martelli

    Qualquer semelhança é mera coincidência, definitivamente.

  • http://www.facebook.com/mariana.jose.94 Mariana Jose

    Como dito abaixo, há uma evidente metáfora entre o texto e relacionamentos, entretanto, acerca de chocolate, não são todos que são fãs número 1. Eu prefiro de creme. =)

  • http://www.facebook.com/allissonduarte Allisson Duarte

    “Afinal, tudo acontecia na Inglaterra do início do século XVIII…” Mas o amor platônico pelo sorvete de chocolate não se passava em 1911? Não seria início do século XX? Tem que ver isso aí…

    • http://www.portalhomem.com.br Fred Fagundes

      Check!

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100000559103169 SayoNara Costa

    Ahahahaha! Excelente metáfora, manteve o ritmo até o fim do conto. Parabéns, Fred!

  • Natália

    Que maravilhoso toda essa sutileza escancarada…

  • http://www.facebook.com/thiago.lechner Thiago Lechner

    Ele podia adicionar novos sabores ao sorvete de chocolate pra tentar chegar ao que ele esperava.

    • http://www.facebook.com/joaofachini João Fachini

      Para de querer armar putaria, rapaz… deixa isso com o João V, ou Henrique VIII.

  • http://www.facebook.com/taty.nascimento Tatiane Nascimento

    Acho que já fui um sorvete de chocolate, mas hoje em dia prefiro os de creme!

  • http://www.facebook.com/people/Rafael-Marques/1560951216 Rafael Marques

    Excelente. Estas mulheres…rs

  • Abobrino

    Felizmente não existem somente dois sabores de sorvete no mundo. Entre limão, côco, morango e tantos outros (afinal são cerca de 3,5 bilhões de “sorvetes” por aí) algum vai ter que te agradar. E mesmo assim se não encontrar o certo, a quantidade é tão grande que vai passar a vida toda procurando, sempre sentindo aquela emoção, aquele frio na barriga que antecede cada descoberta.

    Obs.: Se alguém conseguir provar todos e não gostar de nenhum, considere trocar para o sabor banana, rsrsrs.

  • http://www.facebook.com/people/Vinicius-Oliveira/100002205060215 Vinicius Oliveira

    Sorvete é foda! As vezes você tá em uma sorveteria com incontáveis sabores disponíveis, mas tudo o que você quer é ir pra casa e ficar no sofá, abraçado com seu pote de sorvete de creme. Essa confusão é culpa da nossa colher, sempre insatisfeita haha

  • http://www.facebook.com/joaofachini João Fachini

    Deve ter alguma ligação com aquela parada de “é o creme do verão”… ou não.

  • gabrielawey

    Que texto foda. Me pergunto se meu namorado tá pensando no sorvete de chocolate…

    • Fernando

      Por que pensar assim?
      Talvez você seja o chocolate e ele tenha preferido você.

      • gabrielawey

        Hhahahahah pois eu espero que seja assim mesmo!

  • http://www.facebook.com/annaclaudia.haddad Anna Claudia Haddad

    Me lembrou, de leve, um texto que li uma vez – True love is like a desert – e dessas analogias todas que fazemos com doces e amores e que ora funcionam, ora nem tanto:

    “E quando digo que rosquinhas são como o amor verdadeiro, como o casamento, le mariage! Digo isso porque elas nunca falham. Podem não ser um doce apetitoso e colorido, nem aquele prato exótico que você gostaria de experimentar e que há anos você se pergunta por que nunca fez. Mas as cinco ou seis da tarde, tudo o que você vai precisar são rosquinhas amigas. Singelas rosquinhas e uma xícara de chá, que pode até estar frio, mas se as rosquinhas forem como as minhas, elas salvarão sua tarde.

    (…) Com as rosquinhas, sempre fui feliz, mas demorou para que eu assumisse esta paixão completamente. – Confessou.

    Ninguém quer admitir que passou por uma escalada rumo à fama e deixou tudo para trás para se dedicar às rosquinhas, que aliás, nem são uma sobremesa, apenas um tímido item de pâtisserie. Chamo de sobremesa porque para mim elas valem muito mais do que qualquer crème brûlée de confeitaria, entende?”

    //

    texto completo:
    http://umpardeoculos.blogspot.com.br/2012_01_01_archive.html

    //

    Rosquinha, sorvete de creme, brigadeiro. Belo belo minha bela / tenho tudo que não quero / Não tenho nada que quero. The grass is always greener on the other side e o mito do ser constante e continuamente insatisfeito, curioso e ávido pela desbravada. Do imaginário, místico e misterioso, que prega peças e passa a perna, que promete e não entrega, toda a santa vez.

    Será?

  • Felipe Cardoso

    hahahah eu sempre pedi sorvete misto ou napolitano, significa?

  • http://profiles.google.com/hcartaxo Henrique Cartaxo

    Uma grande história com 3 atos e plot points e twists e tudo mais!

  • http://www.facebook.com/people/Robert-Oliveira/100002294217625 Robert Oliveira

    Mera coincidência…

  • Ariadne Moraes

    Putz!!!! Sou sorvete de chocolate….

  • Jorge Taxista

    E eu achando que tinha sido brilhante ao perceber a analogia com relacionamentos e traições.

  • Reysi Pegorini

    Sorvete de chocolate=Amor platônico. Você idealiza, sonha, cria fantasias em torno dele, e quando experimenta nunca é igual ao sabor que você achou que teria. Triste, por isso prefiro só admirar a beleza desse platonismo todo.

  • Katz

    Não entendi a necessidade de tudo que vem após: “Triste isso”.

    Ficou como um bom filme, em que no final, o vilão ou protagonista, anda de um lado para o outro em um monólogo, explicando tudo que acabara de ver.

    E também não consegui captar o que é triste no final das contas.
    É triste morrer feliz? É triste viver sem sorrir? É triste sentir saudades? É triste expectar?

    E isso me faz lembrar um bigodudo que dizia que a idealização é maligna. Quando na verdade é o seu fim que nos mata.

    No mais, o texto está bem divertido e agradável.

  • http://twitter.com/marxboladao Karl Marx Boladão

    Eu ainda acho que a culpa disso tudo são as sorveterias self-service. Tem de limão, café, chokito, morango com açaí, vodka com ovo e tudo mais. A gente nunca sabe o que escolher. Ficamos desorientados com tantas opções e no final escolhemos um de maçã verde com chocolate com caramelinhos.
    A culpa de tudo está nas sorveterias!

  • http://visoeslunaticas.blogspot.com.br/ Luciano Sampaio

    Me faz sentir um pouco menos triste por não ter tornado minhas paixões platônicas reais…
    Mas o que será pior: o ressentimento por não ter ou a decepção daquilo que tanto queremos e sonhamos não ser aquilo que sonhamos?

  • http://www.facebook.com/profile.php?id=100003509195914 Wendel Fragoso

    Mera coincidência em relação as mulheres!
    Por isso jamais se deve trocar o certo pelo duvidoso, mesmo que seja só uma provinha…

    [...] “E não deixe-nos cair em tentação [...]
    Amém.”

  • Pingback: O sorvete do Rei | Mugango

  • http://www.facebook.com/caducbraga Carlos Eduardo Correa Braga

    Puta que pariu. Excelente texto!

  • http://www.facebook.com/barros.danilo Danilo Barros

    Otimo texto.

    Um dos melhores do ano.

    Em poucas palavras descreve a auto-hipnose que fazemos em nos mesmos em relação a varias coisas.

    até o proximo.

  • m.alves

    ICE CREAMMMMM!!!!!!!1

  • Mandy Bejar

    Este texto arrancó más de una carjadada! Excelente! ;-)

  • Eveline

    Adorei a referência geral ao filme Last Kiss :)

  • http://www.facebook.com/gilberto.ganiko Gilberto Ganiko

    Pra mim a lição que fica é esperar menos dos sorvetes e reconhecer que o prazer de se deliciar com eles já é uma bênção!

  • SC

    Os Vanilla que me perdoem, mas Chocolate é fundamental…

  • Warley

    PQP, se eu levartar e bater palmas voce ouve dai?

  • alexandre lavrador

    Por favor, alguem que tenha um blog pode me explicar esse site? O_o

    http://www.divulgablog.site11.com

    É isso mesmo?

  • http://www.facebook.com/lucas.g.almeidasilva Lucas Goulart Almeida Silva

    Achei que era uma metáfora para experimentar “o outro lado da moeda”, mas errei. Ou talvez tenha acertado, sei lá

  • http://www.facebook.com/people/Paulo-Henrique/1744916683 Paulo Henrique

    Fantástico!

Papo de homem recomenda

Assine o Papo de homem

Curta o PdH no Facebook
  • 4332 artigos
  • 585798 comentários
  • leitores online

Lifestyle Magazine