O autêntico Ferruccio Lamborghini | Homens que você deveria conhecer #13

Henrique Carvalho

por
em às | Atitude, Entrevistas e perfis


Em um mundo tomado por aparências, leviandade e valores passageiros, autenticidade é uma palavra que nunca sai de moda. São poucos, porém, os capazes de movê-la da lista de adjetivos almejados para a de verbos conjugados.

A boa notícia é que, como poucos sabem conjugá-la, aqueles que se arriscam já estão a um passo do sucesso, tanto na vida pessoal quanto na hora de dar vida a uma empresa.

Veja bem: o senso comum diz que o objetivo de uma empresa é lucrar. Isso faz tanto sentido quanto dizer que o objetivo do homem é respirar. Respirar, assim como lucrar, é o que mantém a máquina funcionando. Não é, porém, o motivo pelo qual a máquina deseja continuar respirando. Mais do que simplesmente respirar, o objetivo de uma empresa pode ser melhor definido como o desejo de servir a um propósito e expressar um sonho.

De todas as empresas de sucesso, independente de números indicativos de tamanho ou faturamento, todas podem ser reconhecidas por uma métrica em comum: o valor de suas visões. Isso é o que as torna capazes de conjugar autenticidade e as distingue de todo o resto.

Uma história que ilustra bem essa teoria foi a de um senhor chamado Ferruccio Lamborghini.

Não é todo mundo que pode se encostar num carro que criou do zero.

Entre tratores, touros e italianos turrões

Tudo começou na Bota da Europa. Após servir como mecânico da força aérea italiana na Segunda Guerra, Sr. Ferruccio – Signore Lamborghini, para os chegados – retornou à terra natal e enxergou uma oportunidade na fabricação de tratores, utilizando sua habilidade em mecânica e peças encalhadas nos armazéns com o fim dos esforços de guerra italianos.

Pelos idos dos anos 50, a Lamborghini Trattori S.p.A. já havia se tornado a maior do país. Os negócios iam bem, o que permitiu ao nosso amigo voltar sua atenção para uma paixão latente. Não, não era pela professora boazuda do colegial, caro leitor. Sua paixão era por carros, daqueles velozes e luxuosos. Passaram por sua garagem Alfa Romeos, Lancias, Maseratis, Mercedes e até mesmo Ferraris, que considerava bons carros, apesar de muito barulhentos e desconfortáveis para carros de rua.

Lamborghini Jota

Reza a lenda que um dia, insatisfeito com a rigidez e alta manutenção da embreagem de sua Ferrari 250GT, peregrinou como um fiel cliente até Maranello para ter com o Sr. Enzo, munido de seu conhecimento em mecânica. Para sua surpresa, teria sido recebido com descaso pelo dono da vermelhinha, com o comentário de que “Não se fazia necessária a opinião de um construtor de tratores”.

Em vez de dar o beijo de Judas e marcar o Sr. Enzo de morte, nosso italiano turrão preferiu por uma alternativa mais construtiva: faria um carro melhor que a Ferrari, de acordo com sua visão do que seria um gran turismo ideal. No lugar do cavalo rompante, adotaria como símbolo o touro Miura – animal que o fascinara na visita a um tradicional rancho de criação de animais para touradas, em Sevilha, Espanha.

O resto é história. Guiado pela paixão por carros e crença no trabalho artesanal, herança da vinicultura na fazenda dos pais, foi capaz de por a fábrica para funcionar, ainda que produzindo na casa das dezenas e vendendo com prejuízos de início, para alcançar a visão proposta: construir um carro veloz, luxuoso e confortável, superior a Ferrari.

Vão-se os anéis, ficam os dedos

Desde então, produziu os primeiros modelos aclamados pela mídia especializada, o 350GT e o 400GT, e posteriormente modelos de boa vendagem como os Miura, Countach, Diablo, Murciélago e Gallardo. A fábrica passou por duas crises financeiras, sendo adquirida pela Chrysler em 1987 (que introduziu a marca nos EUA) e depois pela AUDI AG, em 1998.

Por mais que a empresa tenha sempre estado muito próxima de quebrar financeiramente, o que de fato ocorreu nos períodos de depressão econômica, que derrubava as vendas no segmento de carros esportivos, isso não diminuiu o maior patrimônio que a empresa possuía: a visão de seu fundador que lhe confiava autenticidade, valor subjetivo e intraduzível em cifras como as investidas por Chrysler e AUDI AG.

Lamborghini Murcielago LP 640

Essa autenticidade tornou possível continuar produzindo com qualidade e mantendo sua identidade até hoje, mesmo após tantas aquisições, mesmo depois de não estar mais sob os olhos do idealizador.

Quanto ao Sr. Ferruccio, cansou de lidar com as crises financeiras da fábrica, mudou-se para o interior da Itália, casou-se novamente aos 58 anos, teve uma filha e curtiu o resto da vida produzindo seus vinhos até falecer em 1993, aos 76. A marca que leva seu nome, no entanto, ainda respira e tem vida própria, com o compromisso de perpetuar a visão de seu fundador.

Este é o verdadeiro valor daquilo que é autêntico: nunca morre.

Lamborghini Diablo SVTT

Henrique Carvalho

Desenvolvedor web, metido a empreendedor e fotógrafo. Trabalha com computadores o dia todo, mas busca inspiração nas pessoas, lugares e histórias. Assovia no @hcalves.


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15 comentários

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  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Eu acho que eu não tinha menor idéia a respeito origem da Lamborghini. Eu achei interessante a postura: já que eles não querem me escutar eu vou lá fazer uns carros esportivos mais rápidos e mais confortáveis.

  • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

    Não sei até que ponto a contenda com entre o Sr. Enzo e o Sr. Lamborghini possa ser verdade, mas isso não diminui esse belo texto, Henrique. Gosto da maneira como faz uso do atributo autenticidade para permear sua narrativa.

    Uma dúvida: como o Lamborghini conseguiu acumular sua fortuna inicial para conseguir tantos carros de luxo, antes de ser dono de sua própria fábrica?

    • Daniel

      Guilherme, ele enriqueceu na Itália do pós guerra com a fábrica de tratores. E lembre que na Itália um carro de luxo custa, proporcionalmente, muito menos que aqui no Brasil.

      E quanto à briga entre Enzo e Ferrucio, deve ser verdade. Ferrari era conhecido por ser ranzinza, flatulento e um sem número de adjetivos não muito nobres. Odiava qualquer coisa que não dissesse respeito a motor e design, achava coisas como freios e suspensão perfumaria. Não é de se estranhar que achasse uma crítica a seus carros um ultraje.

    • http://twitter.com/hcalves Henrique C. Alves

      Como foi dito, “reza a lenda”. Não se sabe o quanto disso é verdade, apesar dele ter confirmado isso em biografia (de onde tirei o texto). Porém, levando em consideração como são os italianos, e de como é sabido que o Sr. Enzo era “reservado”, eu não duvido que seja verdade ;)

      Antes da fábrica de automóveis ele já havia ficado rico com a fábrica de tratores. Nos anos 50 a mecanização na agricultura ainda estava começando e ele foi pioneiro na Itália, principalmente porque construiu as primeiras unidades só aproveitando partes que já haviam no mercado, sem precisar investir em fabricação de peças. Lá pelos anos 60 a fábrica já exportava tratores p/ Europa toda e ele já levava uma vida boa.

      Ele ainda ganhou dinheiro com uma fábrica de máquinas p/ calefação e tentou montar uma fábrica de helicópteros, mas o governo não liberou.

    • H10_pedrosa

      O cara tinha uma fábrica de trator!!

  • Igormenezes

    Eu ouvi uma história parecida sobre um carro brasileiro chamado Santa Matilde ou SM. Conheci esse carro a uns anos atrás quando o vi perto da minha casa, achei tão interessante que memorizei a placa e fui no site do Detran para descobrir o nome.
    Segundo fontes não tão confiáveis o carro surgiu após a insatisfação(Não se sabe se foi com o carro ou com a fila de espera) de Humberto Pimentel com o Puma GTB. Então ele decidiu fazer o seu próprio carro, só que o primeiro automóvel ficou tão ruim que Pimentel teve que ser contido para não tocar fogo no carro. Mas depois disso tudo deu certo… O carro foi melhorado e virou um dos melhores carros nacionais.

    http://www.smclube.com.br/historia_sm.asp

    • http://twitter.com/hcalves Henrique C. Alves

      É verdade! É uma história bem semelhante. A Gurgel foi mais ou menos parecida também, que começou fabricando jipinhos com um projeto diferente dos da época, em fibra.

      Fosse este um país que fomentasse o empreendedorismo, com baixos impostos e simplificação da legislação trabalhista ao invés de só se basear em protecionismo, não duvido que a Cia. Santa Matilde pudesse ter se tornado a “Porsche” nacional. Da mesma maneira, não duvido que hoje estaríamos dirigindo nacionais baratos e seguros, a preços muito abaixo dos atuais R$ 30.000,00, que ainda tem coragem de dizer que são “populares”.

      Enquanto isso, o país só te incentiva se você quiser derrubar mata nativa p/ plantar soja, cana, engordar gado ou extrair ferro.

    • Chalusniaki

      ele ficou insastifeito com a demora pra entregar o carro pela puma, naquela epoca a importação estava proibida, e ele procurava um carro nacional que fosse esportivo de verdade, como os carros americanos, então criou o projeto do santa matilde, que não foi inicialmente o que ele esperava, o carro ficou terrivel, dificel de guiar, instavel etc. Mas ele não desistiu e criou um dos carros mais bonitos ja feito no brasil, bem superior ao puma, em desenho, comportamento e segurança, o sm tinha barra de proteção lateral em aço, e intens de conforto muito superiores, ao que se produzia na epoca , o sm e o miura nos anos 80 e inicio dos anos 90 foram os carros nacionais mais modernos, e belos do nosso pais! O sm so parou de ser produzido devido as greves muito comuns na epoca que levaram a uma mudança na empresa, e o resultado foi um monte de decisãos equivocadas, o miura foi engolido pelo importados, e o puma, seguiu o mesmo caminho alias o puma quase se tornou realmente a primeira montadora nascional de verdade, mas a sua desorganização contabil,e a dois sinistros na fabrica acabou com o projeto, a gurgel no inico dos anos 90 consegiu projetar e montar o br 800, supermini, mas devido a uma visão muito fechado do gurgel quando ao mercado, levou a empresa a falir.

  • http://pulse.yahoo.com/_7GW5X5GGFVLIPBDRIB3EEUAP74 Medicina

    Sou fascinado por Lambo’s….no ano retrasado, tive a oportunidade de dirigir uma das 8 Diablos VTTT existentes, e posso garantir é uma experiência orgasmica senhores…

    Quem estiver interessado em “pilotar” uma Gallardo, é só vir para Gramado – RS. O pessoal disponibiliza essa máquina para os interessados em desembolsar em torno de R$ 600,00 por uma voltinha de uns 15 min. Além dela existem outras opções como uma Modena.
    segue link aos interessados:
    http://www.gramado.onde.ir/guia/Museu-do-Automovel-Hollywood-Dream-Cars

    Hugs

  • http://www.facebook.com/people/Lucas-Neto/100001393534145 Lucas Neto

    Eu já gostava dos Lamborghinis antes de conhecer a história por trás da marca, quando fiquei sabendo como a marca foi criada adotei oficialmente como o meu sonho de consumo definitivo.

  • http://twitter.com/gabrielvinicius Gabriel Alves

    Nossa impressionante como a autenticidade do Sr. Ferruccio Lamborghini foi a base para ele construir essa maravilhosa marca, quanto a contenda com o Sr. Ferrari fiquei impressionado com essa história.

    Pena que muito do sucesso hoje em dia não se baseia mais em autenticidade, mas em copiar as idéias dos outros.

  • http://www.facebook.com/people/Lucas-Barbalho/100000256329537 Lucas Barbalho

    Muito bom. Só perde em elegância pra Porsche. Não sei porque, mas a Porsche me fascina!

  • Pedro Gustavo

    Tudo começou com tratores. Nunca imaginei. Nunca mais olharei um trator com indiferença.

  • Diego

    É verdade, baita marca.

  • Pedro_unb

    Esse tipo de homem que faz a gente olhar para o próprio umbigo e dar um tapa na própria cara e se pergunar: “que porra de vida é essa de vida que estou levando????Que m..de problema tá me derrubando???Acorda cara!!!!Bota pra f….Bora…” Me inspiro nessas histórias. Leio-as. E tento, com veemência, criar a minha própria…Parabéns pela matéria. Muito show!!!!

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