Se você passou mais de 10 anos na escola e agora pretende ser ou já é pai/mãe, esse vídeo e esse encontro é para você →
​​​​​

Movimento Slow Web: a diferença entre uma namorada possessiva e um bom amigo

Rodrigo Ghedin

por
em às | Ciência e tecnologia, Mente e atitude


A Guerra dos Tronos está acontecendo!

Reúna seus amigos e acompanhe as tramas ardilosas da terceira temporada de Game of Thrones.
Novos episódios todos os domingos às 22:00hrs, só na HBO.

Assine já pela SKY:
discando 4004 2884 ou clicando aqui.

Em 1986, foi aberto o primeiro McDonald’s da Itália, bem na tradicional Piazza Di Spagna.

Um país tão orgulhoso de sua culinária, vendo-se invadido por uma lanchonete americana. Muitas pessoas contrariadas, protestando. Enquanto isso, o chef italiano Carlo Petrini pensou que, se o “fast food” respirava marketing, ele criaria um termo e uma ideia contrária, lançando uma bola que vem quicando pelo mundo desde então: o movimento Slow Food.

Como o nome sugere e brinca, trata-se da antítese do fast food, da comida industrializada, produzida em larga escala e de qualidade ruim. Os sanduíches da moda, o “lanchinho” do almoço, a comida transformada em commodity. Trata-se da exaltação do prazer de saber exatamente quem assou esse pão, quem plantou essa salada, quem tirou o leite para fazer esse queijo.

Muita gente gosta de fast food. Tanto que as cadeias de lojas (devo chamá-las disso ou de restaurantes?) são sucessos mundiais. É prático, relativamente barato, considerado gostoso pela maioria… Difícil resistir à praticidade de um sanduíche murcho, ou de uma lasanha congelada. Mas não impossível, e é isso o que o Slow Food prega:

“O princípio básico do movimento é o direito ao prazer da alimentação, utilizando produtos artesanais de qualidade especial, produzidos de forma que respeite tanto o meio ambiente quanto as pessoas responsáveis pela produção, os produtores.”

Não é só a comida que sofre com a celeridade do nosso tempo. Parafraseando “Simplicidade”, música do Pato Fu: “vai aumentando a cidade, vai diminuindo a paciência”. Nos grandes centros não há tempo para refletir, todo mundo está sempre com pressa, não há conversas a esmo, não há a contemplação das pequenas coisas que tornam os dias mais agradáveis.

Seja paciente

"Seja paciente"

Seria o computador um refúgio? Muito pelo contrário. Atualizações em tempo real, breaking news aqui e acolá, “necessidade” de saber de tudo o mais rápido possível e da forma mais superficial. Apreensão. Tensão. Ansiedade. Isso deve fazer mal.

“Sendo a Internet o reflexo da sociedade, se você não gosta do que vê no espelho, a solução não é mudar o espelho, mas a nós mesmos.”

-Vint Cerf, reconhecido como um dos criadores da internet e dos protocolos TCP/IP, o alicerce de conexão à rede

Relaxe. Assim como surgiu o Slow Food, começa a ganhar força o Slow Web, com a proposta de nos dar um descanso dessa velocidade e caos digital tão característicos da “Fast Web”.

Devagar, devagar…

O bem resolvido manifesto do Slow Web de Jack Cheng começa com os detalhes de uma conversa despretensiosa em um pequeno restaurante e, dali, aborda serviços web que caminham na direção contrária da de Twitter, Facebook e outras redes da moda. A bola jogada por Petrini já havia quicado o suficiente pelo mundo para que alguém a pegasse e transformasse em uma filosofia web, que Cheng observou e codificou.

  • Na Fast Web tudo é em tempo real. Na Slow Web as informações aparecem na hora certa.
  • Na Fast Web há uma enxurrada de caos, como em vídeos do YouTube. Na Slow Web há ritmo, como em uma série que passa em dia e hora específicos.
  • Na Fast Web você se sente sempre para trás, tentando acompanhar. Na Slow Web, você aprecia as coisas em moderação.
  • Na Fast Web você vai atrás das interações. Na Slow Web, elas são projetadas para chegar até você na hora certa, ou que você precisa.
  • A Fast Web te entrega informações, que te atravessam. A Slow Web te entrega conhecimento, que se dissolve em você.
  • Principalmente: os sites da Fast Web são como namoradas possessivas que querem estar com você, recebendo a sua atenção e validação 24 horas por dia, enquanto os serviços que se identificam com a filosofia Slow Web são como amigos com quem você sai de vez em quando, tem um papo agradável, aprende algo sobre você mesmo e depois volta pra casa dizendo “precisamos fazer isso mais vezes”.

Cheng usa o iDoneThis como exemplo dessa abordagem mais… zen. É uma lista de tarefas baseada no email. Trata-se de uma espécie de registro de atividades/metas. Todo dia um email é enviado por ele perguntando o que o usuário fez. Esse responde. Um app normal seria atualizado na mesma hora. O iDoneThis leva meio dia. Não vai mudar a sua vida ver o retorno no mesmo instante, você pode esperar. Você talvez não queira, por estar condicionado à postura “em tempo real” da web, mas você pode. E, com o tempo, passará a querer ver as coisas por esse ângulo.

Não desperdice muito tempo online

"Não desperdice muito tempo online"

O Slow Web se funda em três pilares: na ruptura do tempo real, no ritmo e na moderação. Troca a enxurrada de informação fast web, pelo conhecimento. Informação é efêmera e descartável; conhecimento é atemporal e agrega. Uma notícia por si mesma é algo que até um robô escreve; uma análise fundamentada, com referências, reflexões e questionamentos, só tem condições de redigir alguém que domina o assunto e/ou o estudou muito.

O esforço é recompensado, sempre. Pense no último texto do qual você se lembra; aposto que não foi o anúncio de um produto “X”, mas algo mais elaborado, mais profundo. Não foi alguém dizendo que a Samsung lançou o Galaxy S III enquanto o anúncio do aparelho ainda estava rolando, mas sim aquele onde o articulista considerou os aspectos humanos do smartphone, o que a Samsung quer com isso e como tal abordagem foge dos números e da força bruta para focar em experiência. Agora a diferença ficou bem clara, certo?

Show me the money

O problema da Slow Web é que ela ignora métricas e mina os meios mais populares de se ganhar dinheiro na Internet hoje. Os sites da moda, ágeis, em tempo real, que nunca param, precisam de page views, precisam do maior número de pessoas usando-os na maior parte do tempo possível. São, usando uma analogia de Cheng, amantes ciumentas querendo atenção exclusiva. Para tanto, elas apelam para táticas de gosto duvidoso, que brincam com o seu psicológico, que te viciam sem que você saiba.

As micro-recompensas do mundo virtual são isso: pequenas migalhas de pão que dão a famintos por atenção, por massagear o ego, para mantê-los fiéis, para fazê-los voltar. O problema é (bem) mais em baixo e, também por isso, o Slow Web é tão importante: ele propõe uma mudança comportamental em áreas que já extrapolaram a web e na própria web.

Acorde cedo e tenha uma vida simples

"Acorde cedo e tenha uma vida simples"

É difícil pensar em modelos de negócio que fujam do “tenho um zilhão de usuários, quer anunciar aqui ou comprar a minha empresa?”, mas é possível. E na medida em que a parte podre dos Facebooks da vida aparecem, novas abordagens surgem. Nenhuma se estabeleceu, mas há várias dando certo, apontando para um futuro ad-free. Não precisa ser do jeito dominante, não precisa ser algo baseado no senso de urgência artificial implantado para inflar métricas de visitação. Muita calma nessa hora.

Exemplos, eu quero exemplos

O Evening Edition é um compêndio de notícias diário, redigido por jornalistas consagrados e feito para quem passa muito tempo se locomovendo do trabalho para casa. Tem uma página responsiva, para ser acessada do smartphone ou tablet, que muda todo dia. O jornalista escolhido para o dia compila as principais notícias de forma sucinta com links para o interessado se aprofundar no assunto. É um trabalho de “mastigação” jornalística. Bem feito, sucinto, direto, uma vez por dia e nada mais.

This is My Jam pede que você escolha a música do momento a cada sete dias. Ponto. O exato oposto do scrobbling do Last.fm, que captura tudo o que você escuta em tempo real. No TIMJ, você para. Pensa. Vasculha a sua memória em busca das músicas que tem ouvido recentemente e, dentre elas, pega uma, apenas uma, a que se alguém lhe perguntasse qual a melhor música do momento, você daria como resposta. Na real você dá, ao TIMJ. O site não lhe enche o saco a todo momento para trocar a música, apenas manda um email a cada sete dias para que você atualize a sua “música do momento”. Estipularam sete dias para essa renovação. Pode ser antes, pode ser depois, você decide.

Sei da existência de ainda outros exemplos, com os quais eu tenho menos experiência pessoal:

O NextDraft é uma newsletter diária com recomendações de leitura salpicadas por bons comentários.

O Budge te relembra, uma vez por dia, de coisas que te farão bem. Tenta criar hábitos sem ser intrusivo, sem te sufocar.

Wander te manda para um lugar onde você tira uma foto e faz um cartão-postal. Uma vez por semana.

Ao ter contato com essa ideia e com alguns exemplos, é difícil ficar indiferente, não olhar para si mesmo para encontrar resquícios tímidos do Slow Web ou buscar oportunidades de torná-lo mais presente. Talvez já esteja acontecendo com você agora, neste exato momento.

Faça menos coisas, mas melhor

"Faça menos coisas, mas melhor"

Comigo, o principal momento eureka foi quando me dei conta de que não preciso mais acompanhar o fluxo de notícias de tecnologia que meus trabalhos em sites anteriores exigiam. Agora, na condição de repórter/colaborador, essa tarefa saiu dos meus ombros, está com o editor. Isso me permitiu fazer uma limpa no agregador de feeds e trocar os Engadgets, Mashables e TechCrunches da vida com seus cinquenta artigos por dia pelos blogs pessoais de gente que admiro, que publica coisas mais aprofundadas e em quantidades menores.

Poderia continuar a lista acima, mas o que importa aqui é que estamos mudando — “estamos” todos, usuários e provedores de serviço/conteúdo. Sites “ágeis” são importantes, eles criam a massa de informação que abastece boa parte dos sites “lentos”; notícias que são mescladas, estudadas e expandidas para análises profundas, dados crus que são processados para se chegar a conclusões e apontar tendências. O problema dos últimos tempos é que os “ágeis” têm sido os únicos. E não precisa, ou melhor, não pode ser assim. Pela nossa sanidade e pela qualidade da web, que o Slow Web vingue.

Mesmo que isso aconteça bem devagar.

Rodrigo Ghedin

Paranaense com 25 anos. Escreve sobre tecnologia desde o Ensino Médio e nem a graduação em Direito lhe tirou o gosto pela escovação de bits. É repórter do Gizmodo Brasil, colunista do TechTudo, podcaster do Gemind e culpado pelo blog pessoal. Procura manter hábitos saudáveis, papos instigantes com gente bacana e música boa na playlist.


Outros artigos escritos por

Somos entusiastas do embate saudável

O texto acima não representa a opinião do PapodeHomem. Somos um espaço plural, aberto a visões contraditórias. Conheça nossa visão e a essência do que fazemos. Você pode comentar abaixo ou ainda nos enviar um artigo para publicação.


EXPLODA SEU EMAIL

Enviamos um único email por dia, com nossos textos. Cuidado, ele é radioativo.


TEXTOS RELACIONADOS

Queremos uma discussão de alto nível, sem frescuras e bem humorada. Portanto, leia nossa porra de Política de Comentários.


  • Claudio Dettoni Jr

    Parece muito interessante esse Budge, porém, acho que eles estão fechando as portas. http://habitlabs.tumblr.com/post/27719242771/budge-is-closing-down-august-31st

    • http://www.gemind.com.br Rodrigo Ghedin

      Acabou a grana. Um (triste) exemplo prático do tópico “Show me the money” do post…

      []‘s!

      • http://www.papodehomem.com.br/ Guilherme Nascimento Valadares

        que merda

        :(

      • Fernando

        que merda (2)

  • Pingback: Movimento Slow Web: a diferença entre uma namorada possessiva e um bom amigo | Mugango

  • Daniel Augusto Oliveira

    Não sei se fui contagiado pelo tema, mas li o texto com uma velocidade bem menor que estou acostumado a ler na web.

    Thanks my brother.

  • don luidi

    Texto muito interessante Rodrigo. Diariamente somos bombardeados por uma enxurrada de informações (muitas disconexas, outras nem fariam diferença senão soubéssemos) que ao invés de nos agregar conhecimento apenas acabam alimentando tempestades cerebrais que nos fazem perde o fodo daquilo que é importante (cabe um sabe o que é importante para si próprio? Pra mim pode ser linhas de financiamento de moradia, pra você notícias de traições hollywoodianas).

    Na faculdade eu era viciado em ‘real time information’, mas hoje devido ao trabalho e metas posso viver sem estas informações.

    Filtrar informação hoje em dia creio que seja uma das tarefas mais difíceis de se aprender (os livros ajudam), queremos saber de tudo e ao mesmo tempo sabemos é de nada.

  • Fernando Diomar

    Semana passada comecei com o processo de desaceleração, e um dos tópicos é ver o que realmente importa na web. Vou fazer o uso destas dicas.

  • Renata Falcão

    Parece que todos os textos do site – que, aliás, deveria se chamar “Papo de Gente”, já que tem muito papo aí que definitivamente não interessa somente aos homens – surgem no momento certo pra mim!
    Trabalhar com conteúdo duradouro e de qualidade é um sonho pra muita gente, escritor e leitor, mas vende pouco! Sou consultora de imagem e meus textos com mais acessos são os que falam de tendências (conteúdo efêmero) – as quais tenho menos interesse em discutir ao contrário de técnicas para conhecimento mais profundo! É difícil não se render à essa demanda!

    “Be slow and poor or fast and rich”?

    Sei que isso geraria discussões intermináveis….rsrsrs

    Beijos

  • CDP

    Um dos motivos pelo qual exclui minhas contas de praticamente todos os lugares, principalmente os relacionados ao Google, nem busca por lá faço mais por questão de privacidade e de ter ficado de saco cheio de propagandas.
    ps: o link do this is my jam está errado.

    • http://twitter.com/rafaelcgo Rafael Oliveira

      Só pra fazer mais barulho, o link do “this is my jam” tá quebrado. http://www.thisismyjam.com

  • http://www.facebook.com/viniciusmarcall Vinícius Marçall

    dei uma desacelerada brusca quando me twittercidei. a outra desacelerada está em processo: se algo não for extremamente relevante, não vai para o facebook. e se alguém não é extremamente relevante para mim, cancelo a assinatura. no começo é meio estranho ver o feed atualizando de hora em hora (e olhe lá)!

  • http://www.facebook.com/people/Robert-Oliveira/100002294217625 Robert Oliveira

    Parabéns pelo texto Rodrigo,por isso que gosto tanto do PdH,vocês dão a possibiliade de ver a vida de uma forma diferente,a partir do momento que você se propõe a fazer menos coisas,mas bem feitas,você começa a prestar atenção nos detalhes de coisas rotineiras que sempre fez mas nunca enxergou realmente o que fazia.

  • Reysi Pegorini

    Sabe que eu tenho notado talvez, sutilmente, esse movimento Slow Web por aqui no Pdh. Antes eram vários textos por dia, várias atualizações, percebo a mudança, principalmente na qualidade da informação e da leitura. Não que eu achava os textos de antes ruins, mas quando você joga tanta informação para o leitor, não dá chance dele pensar, dele usar aquela informação pra alguma coisa. Eu percebo essa diferença em mim, antes lia tudo e não parava pra pensar, analisar o contexto, comentava o que achava do texto que mais identificava na hora (e esse é o problema) e depois corria pra ler o outro, agora leio, dou um curtir no texto e as vezes volto no outro dia pra comentar, porque durante esse tempo eu fiquei DIGERINDO a informação. Aliás eu li esse texto ontem, rsrs. =) Beijo

  • http://www.facebook.com/anndreluis André Luis

    não é atoa que eu sou baiano..

  • Gabriela Sousa

    Caiu não como uma luva, mas como uma bomba, esse conceito que precisávamos faz tanto tempo é o um divisor de águas, já que daqui pra frente me parece que tudo vai ser a grande rede. Nossas vidas não podem simplesmente submergir dentro da areia movediça que são as midias sociais, os “clique aqui”, agregadores de conteúdo, e tudo mais que nos prende a essa tediosa vida em frente ao computador.
    Uma espécie de alienação está surgindo, é de se espantar quando as pessoas só passam a pensar sobre algo quando isso se torna um viral, quando está no topo da lista dos posts mais lidos, dos vídeos mais vistos ou mais curtidos. Claro que essa forma de espalhar ideias é ótima, já que vivemos em um mundo onde a massa só tem força quando trabalha na agilidade dos compartilhamentos, porém infelizmente essa linha ultrapassa a do coletivo e invade nossas vidas; daí a coisa complica, ficamos a madrugada inteira apertando o F5 ansiando por atualizações de qualquer jeito, nossos olhos almejam coisas efêmeras.
    Agora me pergunto, seria ironia demais usar todos esses serviços de uma vez só?

  • Carla

    Ótima análise, e ótimas ilustrações =)
    Estou tentando entrar no movimento slow há alguns meses… abandonei twitter, só posto no facebook o que realmente importa (este texto vai com certeza!) e o ápice tem sido ficar mais de 24h sem ligar o computador pessoal (ou seja, sem ver e-mail, facebook, etc). Mas ainda é difícil, para quem vem acelerada na internet há mais de dez anos…

  • http://www.facebook.com/talesg Tales Gehrke Gonsalves

    este foi o texto mais útil que li nos últimos meses.
    de fato ando saturado e questionando a validade dos ‘feeds’ nossos de cada dia. é tanta coisa, e tanta sensação de que sempre falta algo, que chega a ser irônico chegar a conclusão de que, na verdade, não falta, mas sim sobra. viva a slow web.

  • http://www.facebook.com/people/Dioplin-Stange-Bartz/1795097619 Dioplin Stange Bartz

    Eu até parei tudo que estava fazendo no PC, para dar uma lida bem calma no texto. Muito bom! Precisamos usar mais desta ideia “slow”.

Papo de homem recomenda

Assine o Papo de homem

Curta o PdH no Facebook
  • 4329 artigos
  • 585467 comentários
  • leitores online

Lifestyle Magazine