Eu até me atrevo a dizer que Cidadão Instigado não é só o nome da banda, mas também característica inerente de quem escuta a sonoridade e divagações simpáticas do grupo chefiado pelo guitarrista cearense Fernando Catatau. A última provocação havia sido com o elogiado Método-Túfo de Experiências (de 2005) e, depois de quatro anos, o instigado volta a instigar.
Resolvi então afirmar que o ouvinte desse novo álbum também recebe a alcunha da banda pelo fato de que Uhuuu! (terceiro e novo disco do grupo) é um trabalho que se assemelha bastante ao Método-Túfo…, mas é completamente diferente (mesmo a obra já despertando curiosidade por si só).
As inquietações estão lá, assim como a objetividade no dizer dos pensamentos.
Fernando Catatau devaneia e conversa consigo mesmo o tempo todo. As viagens do Cidadão Instigado são um tanto quanto solitárias, mas sempre tratando de sentimentos universais como o amor, o tédio, o medo, a fé – o que torna todos os pensamentos palpáveis e compartilhados.

Os arranjos áticos também estão presentes, mas com leveza e perceptível luminosidade, identificadas logo na interjeição que dá nome ao álbum. Trata-se de um arrematado de onze faixas que dão a mesma cara ao Cidadão, mas agora com uma feição mais animosa.
Canções mais soltas e dançantes como em “Contando Estrelas”, “Escolher Pra Quê” e “Como as Luzes” (ouça logo abaixo) vão esparramando batidas que lembram a disco music, sintetizadores que parecem sair de fundo naquele “radinho” de pilha da empregada e sopros garridos (na fofura “Ovelhinhas” e na eloquente “Deus é uma Viagem”) que se encaixam curiosamente bem na forma não-convencional de cantar de Catatau.
Sua voz tem um timbre discordante que se acentua com o jeito quase falado de cantar, porém, funciona muito bem em conjunto com a instrumentação (veja como exemplo a melodia vocal em “O Nada”) que consegue fazer encontrar o brega setentista brasileiro com a psicodelia do rock dos anos 60.
Melodias diretas com guitarras amalucadas e a junção da estranheza com o pop formam a originalidade notável de um cidadão instigado em busca do mais que a atual pasteurização formulada de algumas grandes bandas.
Jader Pires é editor do Papo de Homem. Publicitário por opção, jornalista por apego e escritor por maldição. Prometeu um dia que, se ganhasse na loteria, doaria cem reais para caridade (e não há cristo que o faça pensar o contrário). No Twitter, atende pela brilhante alcunha de @jaderpires.
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