Elementar, meu caro

Gustavo Bertassoli

por
em às | Cultura, PdH Shots


O hábito de assistir a séries de TV pode ser bem cruel, ao te fazer esperar por cerca de um ano pra assistir a continuação daquele final de temporada filhadaputamente extasiante que te deixou de queixo caído. Recentemente, a série Sherlock, uma produção original exibida pela BBC britânica, encerrou sua segunda temporada, exibida em ciclos de três episódios com uma hora e meia de duração. E foi cruel.

Essa série da BBC é um exemplo do que deveria ser considerado um programa de família. Entretenimento da melhor qualidade, divertida, engraçada, intrigante, extremamente refinada e, acima de tudo, inteligente. Infelizmente, a cultura de fora que importamos é composta quase que só de seriados americanos que apelam ao mínimo denominador comum.

Séries como The Big Bang Theory ou Friends possuem quase tanta intimidade com o povo brasileiro quanto as novelas da Globo, mas infelizmente acabamos deixando passar batido tudo aquilo produzido por outros países – e uma coisa eu lhes digo: o povo da terra da rainha sabe produzir séries como ninguém.

Sherlock e Watson em suas versões século 21

Quem não conhece Sherlock Holmes?

Provavelmente um dos personagens mais famosos do mundo da literatura, o senhor Holmes atingiu uma fama grande a ponto de engolir o seu criador, Sir Conan Doyle, que pra muitos se tornou apenas “o escritor de Sherlock”. Em tempos de alta do personagem, com o filme hollywoodiano dirigido por Guy Ritchie e estrelado por Robert Downey Jr. sendo sucesso de bilheteria, a BBC resolveu por em prática releituras fiéis das clássicas histórias de Doyle, mas com um twist: ambientadas nos dias de hoje, na Londres da década em que estamos.

Para não virar apenas mais uma série de investigações caricata como tantas outras que já temos por aí – o que ela definitivamente não se tornou –, muito cuidado foi necessário. Cada sutil detalhe foi repassado e repaginado, transposto mais de um século para o futuro em relação às histórias originais.

Todos os personagens centrais, todos elementos essenciais foram preparados de forma minuciosa, com destaques para a ambientação do famoso apartamento na 221B Baker Street e a caracterização tanto dos personagens principais quanto de coadjuvantes como Mycroft, Lestrade, Irene e Moriarty – que ficou particularmente incrível.

Seria uma tarefa um tanto quanto difícil estragar uma série tão bem produzida, com cada detalhe técnico bem arranjado. O roteiro foi magistralmente bem adaptado dos contos originais de Doyle; nem mesmo os fãs mais puristas têm por onde reclamar. Dando suporte a tudo isso, temos uma excelente direção, com sacadas brilhantes e planos-sequências bem construídos.

Sem falar da ideia genial de, nos momentos de concentração de Sherlock, surgir em evidência na tela o que está acontecendo em seu palácio mental – detalhes por ele captados no ambiente, caminhos de raciocínio, seja em palavras, sinais ou até mesmo mapas, como na sequência da perseguição de taxi logo no primeiro episódio.


Link YouTube | A perseguição ao taxi (infelizmente, o audio não é o original da série)

Mas, para mim, a melhor parte sem sombra de dúvidas é o trio Benedict Cumberbatch, Martin Freeman e Andrew Scott, que interpretam, respectivamente, Sherlock, Watson e Jim Moriarty.

Benedict incorpora o personagem de forma como eu jamais havia visto em qualquer outra adaptação. Sistemático, cheio de TOCs, com sua super inteligência e percepção fora do comum, dono de uma voz mansa e aveludada que esconde temporariamente o quanto é chato, intransigente e de difícil convivência, mas ainda assim tão cativante quanto Hugh Laurie interpretando o Dr. House – que pra quem não sabe, foi inspirado no detetive inglês.

Martin Freeman fica responsável por equilibrar e dar certa leveza as cenas, fazendo o contraponto à aura ranzinza de Sherlock. Ora meio bobo, como quando fica preocupado se as pessoas imaginam que ele e seu melhor amigo são na verdade um casal gay, ora como um valente cavaleiro a proteger seu fiel e irritante amigo.

E Jim Moriarty… que vilão! Adaptado das páginas dos livros, Moriarty toma forma de um excêntrico milionário e completo psicopata, daqueles que dá gosto de ver, em atuação soberba por parte de Andrew Scott. Mesmo com sua baixa estatura pouco intimidante, consegue transformar o personagem em um gigante imponente, completamente louco e imprevisível, cheio de caras e bocas e falas impactantes.

Sem mais enrolação, fica a minha forte recomendação desse seriado a todos que se interessem por Sherlock, investigações e aventura. Entretenimento de qualidade, sem mistério.

Gustavo Bertassoli

Estudante de Direito meio errado, não sabe dizer se é viciado, aficcionado ou apenas apaixonado por música, mas tenta manter isso num nível saudável (apesar de falhar constantemente). Cresceu junto com a internet, porém, não sabe se evoluiu tanto quanto ela. Não gosta de café, o que não lhe permite ter uma biografia pseudo-cult no Twitter.


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20 comentários

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  • Olaf Q

    Valeu a recomendação, certamente procurarei assim que chegar em algum ponto onde possa fazer um download a mais de 2 kb/ps. Depois volto pra divulgar meus “achismos”.

  • http://discordando-do-mundo.blogspot.com Leonardo Xavier

    Concordo com tudo que você falou! Eu achei a série muito bem produzida e bem adaptada! Eu acho que o único problema vai ser esperar a 3ª temporada!

    • http://www.facebook.com/koticho Gustavo Bertassoli

      Aparentemente a temporada da s03 já foi produzida pra evitar conflitos com a agenda do Cumberbatch e do Freeman que estão gravando O Hobbit. Pelo menos é certeza de que não teremos que esperar 2 anos igual da primeira pra segunda temporada

  • http://www.streetsampa.com.br Felipe Salum

    Como um bom aficcionado por series, baixarei essa pra conferir.

  • http://twitter.com/ericcosta Eric Soares Costa

    “Mas, para mim, a melhor parte sem sombra de dúvidas é o trio Benedict Cumberbatch, Martin Freeman e Andrew Scott, que interpretam, respectivamente, Sherlock, Watson e Jim Moriarty” =  SPOILER!!!! 

    Hehe, mas ótima série mesmo… 

  • Anônimo

    Essa série é uma das mais gratas surpresas da tv dos últimos tempos.

    Quando eu ouvi falar que estavam produzindo isso, logo torci o nariz: “Sherlock hoje em dia…hum… vai dar merda”

    Mordi a linguá. A série é foda!

  • http://www.facebook.com/people/Paula-Franco-Rodrigues/100000775883525 Paula Franco Rodrigues

    Oxi, por que Spoiler? Se você conhece o mínimo de Sherlock você sabe que esses três são os personagens principais…

    Muito boa a série mesmo. O que mata é essa espera. E adoro a relação dele com a Irene, muito divertida e diferente do que estamos acostumados a ver nas outras adaptações feitas.
    Eu gosto ainda mais da série por lembrar o Sherlock do início, embora falte alguns elementos que em contrapartida tem no filme do Guy.

  • http://twitter.com/JackRobera Rafael Castro

    Sherlock é uma série fantástica, o episódio final dessa segunda temporada foi uma porrada no estomago!

    O Moriarty quase atinge o nível Heath Ledger/Coringa como vilão. Quando ele apareceu pela primeira vez achei errada a escolha do ator, mas depois desse final eu estava batendo palmas pro sujeito.

    Série altamente recomendada!

    • http://twitter.com/LucasMalto Lucas Malto

      Também não gostei do personagem na primeira aparição, mas depois do season finale da segunda temporada não tem como criticar, muito pelo contrário…

  • http://twitter.com/pontoanalitico Ponto Analítico

    Gustavo, muito bom esse teu resumo, em poucas linhas conseguiu chamar atenção para uma série realmente brilhante. Recomendo para você e os leitores do blog um outro seriado britânico, chamado Life on Mars, ele teve uma versão americana (assim como vai acontecer com Sherlock) mas que não chega aos pés da britânica.

    Saudações.

    • http://www.facebook.com/koticho Gustavo Bertassoli

      Já ta se tornando praxe os americanos criarem adaptações de séries britânicas, Sherlock, Skins, Dr. Who, Life On Mars, The Office. E infelizmente sempre ficam um tanto abaixo das originais

    • http://twitter.com/JackRobera Rafael Castro

      Bem lembrado, Life on Mars é uma outra grande série.

      O primeiro episódio ao som de David Bowie é pra virar fã logo de cara. E o “ogro” Gene Hunt é um dos personagens mais carismáticos que eu já vi.

  • http://www.facebook.com/caducbraga Carlos Eduardo Correa Braga

    Surgiu um sorriso no meu rosto ao me deparar com esse artigo.

    Essa série realmente é sensacional.
    O cara que interpreta o Sherlock Holmes manda muitíssimo bem – ouso dizer que se sai muito melhor do que o Downey Jr. no filme.

    • João Antônio

       Eu tenho certeza que ele se sai muito melhor que o Downey Jr.. Aliás, achei os filmes fraquíssimos!

      E a série é fantástica. As duas temporadas assisti os três episódios seguidos, foram quase 5 horas estagnado na frente do computador.

  • http://www.facebook.com/people/Marcéu-Heinzmann/1380396333 Marcéu Heinzmann

    Não tinha ouvido falar na série até ler por aqui. Baixei ontem e assisti.

    Muito massa mesmo.

  • Pedro Nunes

    Uma ótima série, muito bem trabalhada, com atores muito bem selecionados e sem apelar para os clichês clássicos… 

    E concordo que dúvidas as séries Inglesas são muito superiores, talvez devido ao humor refinado.

  • Raquel Fernandes Zorzanelli

    Eu baixei todos os episódios e assisti de sexta pra sábado!!!
    É VICIANTEEEE!!!!!!!!!!! Não tem como, vc começa e não quer parar mais!!! Muito inteligente, adaptação brilhante!!!
    E o último episódio foi eletrizante!!! Choreeeeiii!!!!!!!

    Nao há recomendação melhor!!!

  • http://www.facebook.com/koticho Gustavo Bertassoli

    Poxa, não conhecia essa e me interessei bastante, vou dar uma caçada.

  • Will

    Ótima recomendação Gustavo! 

    De fato, os britânicos sabem como fazer uma boa série! E, como já era esperado, os americanos já estão  produzindo uma versão americana de Sherlock Holmes, mas o nome é “Elementary” (tum dum ts), e quem fará o Watson será uma mulher, sim sim, estranho, não? hehe. 

  • Akisonfire

    Simplesmente um dos melhores seriados que eu já assisti.
    A capacidade de um roteiro que te impede de deduzir o final é impressionante. Certamente não tenho tais capacidade de dedução,mas certamente já deduzi muito final de muito “filme norte americano” e “seriado norte americano”.

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