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em às | Cultura e arte, Debates
Não acredito em artista não-vaidoso.
É necessário muita vaidade para se sentar diante da página em branco e achar que pode acrescentar algo a Shakespeare e Machado de Assis. Ou para subir no palco onde interpretou Paulo Autran, ou criar na tela onde pintou Di Cavalcanti.

Uma vez, critiquei um jovem escritor citando Machado e ele protestou:
“Pô, é covardia me comparar com o Machado!”
Mas não é.
Se você é brasileiro e se propõe a escrever ficção, quem está se comparado a Machado é você, ao presumir se meter na área onde ele é a referência incontestável.
Ser escritor de ficção no Brasil e não querer ser comparado a Machado de Assis é como ser jogador profissional de futebol, entrar em campo contra o antigo Santos e não querer ser driblado pelo Pelé:
“Pô, Pelé, roubar a bola de mim é covardia.”
Colega, você entrou em campo porque quis. Agora, aguenta.
É a vaidade que nos faz entrar em campo e, ao longo dos muitos anos de frustrações e derrotas que todo artista enfrenta, é a vaidade que nos mantém em campo.
Antes de subir ao palco, a Claudia Raia tem um mantra: pede humildade, para que sua vaidade não se sobreponha ao personagem. Sábia diva.
O historiador Evaldo Cabral de Mello comentou que Gilberto Freyre era intragável de tão vaidoso.
Evaldo é autor de uma das grandes obras historiográficas do Brasil e, como quase todos os acadêmicos, deve ser vaidoso também. Mas a vaidade de um professor universitário é uma distração diletante comparada à vaidade profissional de um artista.
Basta ler Casa-Grande & Senzala para saber que Freyre era, antes de tudo, um artista e um dos maiores que já escreveram qualquer coisa, prosa, poesia ou ensaio, na língua portuguesa. Talvez por isso só tenha sido reabilitado pela academia quando morreu, quando sua presença física desconcertante não mais atrapalhava a consideração de sua obra.
Os tímidos são os piores.
Quem auto-publica contos, faz lançamento na mercearia, se auto-promove feito puta e participa até de antologia de bula de remédio não tem metade da vaidade megalomaníaca do outsider que não sai de casa, despreza os contemporâneos, mal se interessa em publicar e, em sua cabeça, só dialoga com o futuro, com a posteridade, com o eterno, com o transcendental!
Espalhados no continuum de vaidade entre a puta da mercearia e o outsider da quitinete, estamos todos nós, cada um onde pode.
Estou cuidadosamente evitando aquela velha falácia de minimizar seus defeitos extrapolando-os para os outros:
Sim, roubei, mas qualquer um roubaria na minha situação, etc.
Não digo que artistas são todos vaidosos só porque eu sou um poço borbulhante de vaidade incontrolável (aliás, sou) e daí concluo que todo mundo deve ser igual. Digo isso porque passei a vida cercado de artistas.
Quem nunca conviveu de verdade com um artista, seja como familiar, cônjuge ou amigo próximo, não faz ideia do que é a vaidade de um artista profissional. A mais tímida e humilde dançarina contemporânea tem uma vaidade profunda e constitutiva que deixa no chinelo a mais fútil e vaidosa engenheira, professora ou publicitária.
Um diretor de criação, que vive de vender pasta de dente e se acha tão criativo e tão vaidoso, não subsiste só de sua descomunal vaidade, mas ganha também um polpudo contra-cheque ou, pelo menos, espera ganhar no futuro.
Já para a dançarina contemporânea, durante grande parte ou toda sua carreira, a vaidade da beleza realizada, do movimento perfeito, da arte ideal, será toda a recompensa que terá para subsistir. Enquanto isso, as ciências atuariais estão sempre aí, nos tentando com uma carreira segura na lucrativa indústria de seguros.
Lidar com um artista não é para qualquer um. É necessário uma tolerância específica e temperamental à vaidade e ao auto-centramento alheios.
Todas as mulheres com quem me envolvi romanticamente chegaram a mim através dos meus textos. Sem exceção. Até aquelas que conheci por outros meios só se interessaram por mim como homem depois de saber que aquele colega de trabalho “escrevia umas coisas aí” e pedirem pra ver.
Depois desse primeiro momento, encarando o desafio de se propor a amar um homem vaidoso, elas se dividiram em dois grupos: as tietes mantiveram sempre uma postura de “fãs número um”, se envolviam em minha carreira, lutavam por minha arte; as ausentes, talvez imaginando que meu ego já era grande demais, faziam questão de não alimentá-lo e ignoravam estoicamente minha carreira e minha arte, tratando-as como se fossem um emprego qualquer.
Hoje, aos quase quarenta anos, eu diria que a segunda postura é mais condizente com um relacionamento sério de longo prazo.
A função mais importante da esposa de Shakespeare é justamente mandar ele parar com essa masturbação mental de ser ou não ser e ir lavar a porra da louça, que ela não vai se lavar sozinha.
Sem o memento mori, a vaidade vira megalomania.
Meu mantra pessoal é: antes de recusar qualquer coisa, me pergunto:
“estou recusando por pura preguiça?”.
Antes de aceitar,
“estou aceitando por pura vaidade?”
Noventa por cento de tudo que faço ou deixo de fazer é por preguiça ou vaidade.
Dependendo do artista, a conta da vaidade pode chegar a 100%, pois até sua sobrevivência é um ato de vaidade, seja porque acredita que sua vida é sua obra de arte, seja porque deseja viver apenas para poder brilhar de novo e, se não fossem os aplausos e os holofotes, já teria desistido desse mundo.
Para o artista, por definição, a vida sem público não faz sentido. Nem que seja um público imaginário e futuro que existe só na sua cabeça.
Se uma pessoa diz que é bióloga e alguém duvida, ela mostra o diploma. Se duvidam que é vice-presidente de vendas, é só puxar o cartão de visitas.
Mas artista? Para muita gente, se dizer artista por si só já é arrogante ou vaidoso:
Quem ele pensa que é, hein?
O artista depende sempre do olhar do outro e não existe validação incontestável ou reputação inexpugnável.
Paulo Coelho é o autor em língua portuguesa que mais vendeu em todos os tempos e muitas pessoas afirmam, sem a menor dúvida nem cerimônia, que ele não é escritor e pronto.
Artistas plásticos que dedicaram toda a vida ao estudo e à prática de sua arte são rotineiramente chamados de “charlatães” ou “picaretas” por gente que não entende nada de arte, mas acha que “faria igual”.
Um engenheiro, se construir um prédio que cai, será considerado um mau engenheiro, um engenheiro criminoso até. Idem para o médico que mate o paciente.
Já o artista nunca está livre de ser sumariamente despido de sua condição de artista.
Graças ao mesmo mecanismo que faz a auto-afirmação “sou artista” parecer arrogante e vaidosa (pois as pessoas percebem “ser artista” como algo intrinsecamente bom), uma crítica a um artista muitas vezes não se limita a atacar sua arte ou suas escolhas artísticas, mas também lhe nega a própria condição de artista (afinal, ser artista é intrinsecamente bom, e ele não é bom…. é um charlatão!)
Ou seja, despido da segurança oferecida por um diploma ou por alguma forma de validação incontestável, o artista é forçado a se auto-afirmar artista, na esperança que outras pessoas concordem e também o vejam como artista, mas quanto mais se auto-afirma artista mais é hostilizado ou criticado pela vaidade e arrogância de se auto-declarar artista.
Esse círculo vicioso de bipolaridade constitutiva, onde a obrigatoriedade de se auto-promover vem junto com os ataques pela vaidade arrogante da auto-promoção, é simplesmente massacrante.
Às vezes, quase me esmaga.
Ser artista e não ser narcisista é impossível.
Hoje, o desafio da arte é outro: como ser artista/narcisista, em um mundo onde o Pinterest e o YouTube, o Twitter e o Facebook, não só estimulam um narcisismo generalizado galopante como permitem que qualquer um tenha um público?
A internet tornou-se a primeira barreira de entrada: se a sua arte, gráfica ou narrativa, em vídeo ou em música, não é melhor do que o grosso da produção amadora que pode ser consumida gratuitamente pela internet, talvez você devesse mesmo considerar aquela sólida carreira em seguros.
A luta contra a vaidade é um exercício sisifeano diário de auto-conhecimento e disciplina.
Encaro minha vaidade como os holandeses encaram o Mar do Norte: já estava lá quando nasci, me define, me possibilita, me traz prosperidade e, se não for contido, me devora.
* * *
As ilustrações desse texto são todas de arte naif, uma arte que muitos não consideram arte, feita por artistas que raramente se consideram artistas. Para quem está no Rio de Janeiro, recomendo fortemente uma visita ao Museu Internacional de Arte Naif, ali no Cosme Velho, do lado da subida para o Corcovado, um dos meus museus preferidos de todos os tempos e um dos maiores acervos mundiais de arte naif. Depois de alguns anos fechados por falta de verba, o museu foi reinaugurado em abril de 2012 e merece muito mesmo a sua visita.
alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // todos os meus textos são rigorosamente ficcionais. // se gostou, me siga no facebook, compre meus livros ou faça uma doação. // não leio comentários dos meus textos. para falar comigo, mande um email.
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