Papo de Homem

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“A outra final” (Uma história fascinante sobre futebol)


Publicado por Mauricio Garcia em 09.12.2008 às 16:35 em Esportes, Principal

Em 30 de junho de 2002, praticamente todos os olhos do mundo voltavam-se para a cidade japonesa de Yokohama. Naquele dia, Brasil e Alemanha fariam a final da Copa do Mundo de 2002, e um certo Ronaldo provaria ao mundo que era brasileiro e não desistia nunca, um grande exemplo de recuperação e perseverança. Mas ali mesmo na Ásia, na manhã daquele dia, ocorreu um evento que praticamente não chamou a atenção de ninguém, num pequeno país montanhoso…

Enquanto os dois melhores do mundo decidiriam quem ficaria com a coroa, acontecia outra decisão, bem menos glamourosa. Que foi batizada de “A outra final”. Uma história sobre como o futebol pode unir os povos globalmente.

A história começa após as eliminatórias européias para a Copa de 2002. A tradicional seleção holandesa não conseguira sua classificação para o Mundial, decepcionando seus fãs. Um cineasta holandês chamado Johan Kramer, triste por não poder acompanhar sua seleção na Copa, teve uma idéia: E se as duas piores seleções do mundo se enfrentassem numa decisão própria de Copa? Nascia ai a produção de um documentário sobre “A outra final”, o jogo entre as duas piores seleções do mundo.

Kramer então consultou o ranking da FIFA, e foi direto ao final. Lá constava:

202 – Butão

203 – Montserrat

A idéia não poderia reunir países mais diferentes.

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BUTÃO

Butão é um pequeno país asiático, situado no meio do Himalaia, entre a Índia e a China. Tem como algumas de suas características a forte influência do budismo, o fato de ter sido um dos últimos países a abrir as portas para o mundo (A televisão só chegou ao Butão em 1999), e ser o único país no mundo onde a qualidade de vida do povo é medida pelo chamado Índice nacional de Felicidade. Muito do isolamento dos butaneses deve-se ao grande cuidado na preservação de suas tradições.

O esporte nacional do Butão é o arco e flecha. A Federação Butanesa existe desde 1970, mas só foi oficializada em 1983. Filiou-se à FIFA em 2000, e no mesmo ano, sofreu sua pior derrota, 20 a zero para a “poderosa” seleção do Kuwait.

Num país cravado no Himalaia como o Butão, a construção de estádios requer tempo e dinheiro, e a falta de locais para a prática do esporte é um problema crônico. Os campos tem que ser escavados nas encostas das montanhas. Uma trabalheira sem tamanho, que só a paixão pelo esporte pode superar.

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MONTSERRAT

Montserrat é uma das centenas de ilhas caribenhas. Uma vez conhecida como “A esmeralda do Caribe”, tem sua história marcada por um triste fato. Erupções vulcânicas.

Desde 1995, o vulcão Soufriere Hills entrou em atividade ininterrupta. A capital, Plymouth, ficou soterrada em 12 metros de cinzas, e a metade sul da ilha permanece inabitável desde então. A população que já era pequena em 1994 (13000 habitantes), começou a se expatriar (Atualmente, todos os cidadãos de Montserrat tem cidadania britânica garantida), e hoje, na parte habitável da ilha, restam 4800 habitantes. Uma das cenas mais emocionantes do documentário são as imagens do antigo estádio nacional de Montserrat, totalmente destruído e recoberto por cinzas.

Passando para o lado futebolístico, a coisa fica pior, pois o esporte favorito é o cricket. E com todas essas dificuldades, após 1994, a seleção nacional teve pouquíssima atividade. Na época do convite para o jogo contra Butão, nem uma base de time formado havia, num país que além da redução forçada do espaço para possível construção de campos, possuía apenas 150 jogadores amadores, alguns profissionais, e apenas 5 times no Campeonato Nacional. A seleção incluía policiais e até um membro do Parlamento.

Curiosidade: A canção “Hot hot hot”, que animava um antigo programa de auditório do Silvio Santos aqui no Brasil, é uma espécie de tema nacional em Montserrat.

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ORGANIZAÇÃO DO JOGO

Kramer solicitou autorização da FIFA e enviou convites para as duas federações. Provavelmente foi a primeira vez que um país ouviu falar do outro, culturas mais que distintas e um mundo inteiro de distância. Ficou acertado que como o time butanês estava á frente do ranking, seria o mandante. Isto acabou significando um certo pesadelo para o time de Montserrat.

O governo e a federação local hesitaram em aceitar o convite, porém acabaram capitulando pela oportunidade de um marketing positivo. Pois para um país que só foi notícia no mundo por causa de erupções vulcânicas catastróficas, aquele jogo em pleno dia de final de Copa, seria uma bênção.

A viagem durou exatos 6 dias. De Montserrat para Antigua, dali para St Maarten, então para Curaçao (todas no Caribe), para Amsterdam (Holanda), para Bangkok (Tailândia), Calcutá (Índia) e finalmente Paro (Butão). De Paro, um ônibus os levou para Timfu, a capital e local do jogo.

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Tudo certo? Nada disso, além de todo o desgaste da viagem, o time ainda teve 7 jogadores com problemas relativos a altitude (Timfu fica a 2500m) e disenterias. Depois os brasileiros reclamam de jogar na Bolívia. Isso não impediu os jogadores de Montserrat de fazer turismo. Por onde andavam, eram seguidos por multidões, e pasmem, até distribuíam autógrafos. Até uma festa com karaokê entre os jogadores de ambas seleções foi organizada. Foi assim que os butaneses conheceram o “Hot hot hot”.

Inacreditavelmente, o técnico da seleção butanesa havia morrido. E Paul Morris, técnico de Montserrat, pedira demissão. Ambos fatos ocorridos no mesmo dia. Os times jogariam praticamente sem treinador, ou alguém improvisado. Mas a conferência de imprensa pré-jogo simplesmente foi a maior já ocorrida em terras butanesas.

O local do jogo era o Estádio Changlimithang, que naquele dia abrigou 20000 pessoas, incluindo o monarca butanês, que dizem, foi um grande goleiro. Ao invés de placas de publicidade nas laterais, como na final “rica”, haviam faixas com dizeres religiosos em dzongka (língua oficial do Butão). O ingresso, que na final rica chegava a 800 dólares, foi gratuito. Cachorros invadiam o campo, e isso aconteceu até durante a partida.

Uma forte chuva quase impediu a realização da partida. E após diversas cerimônias tradicionais da cultura budista, enfim, o juiz inglês Stephen Bennet, acostumado aos jogos da Premier League, deu o apito inicial.

O JOGO

A última coisa que se poderia exigir de um jogo entre Butão e Montserrat é o nível técnico, provavelmente a maioria das peladas aqui no Brasil dá de 10 a zero. Enfim, após dois ataques de Montserrat, Butão consegue um escanteio. Na cobrança, a zaga rebate para o alto, e o atacante Wangyel Dorji ganha no alto, cabeceando fraco. A bola bate num morrinho artilheiro (é correto falar “morrinho” no meio do Himalaia?) e engana o goleiro Cecil Lake (mas que foi frango, foi). 4 minutos de jogo, 1 x 0 Butão.

Assistir o vídeo do jogo é engraçado. Num lance, o goleiro Lake tenta sair com a bola, mas ao chutar, entrega no pé de um jogador butanês. Este, mesmo com apenas um zagueiro na frente, dá um peteleco na bola, praticamente passando para o zagueiro, sem o goleiro atrás. Patético. Mas vale a festa em si. O primeiro tempo termina 1 x 0.

Em meio a furadas, entradas duras e outros lances menos classificáveis, aos 12 minutos do segundo tempo, uma falta na entrada da área para o Butão, e novamente Wangyel Dorji cobra com perfeição. 2 x 0. No vídeo tape, nota-se que o goleiro de Montserrat definitivamente faltou à aula de como armar uma barreira. Ridículo.

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Nessa altura do campeonato, os jogadores de Montserrat já estavam com a língua para fora. Após um cachorro desfilar tranquilamente pelo campo, o time butanês avança pela ponta, a bola é cruzada para a área e Dinesh Chhetri, um jogador que usa uma bandana multicolorida, chuta de bico. 3 x 0 Butão. A torcida delira com a provável 1ª vitória internacional do país. Decorriam 30 minutos do segundo tempo.

E dois minutos depois, Wangyel Dorji, o Obina do Himalaia, chuta, a bola desvia num zagueiro e trai o goleiro Lake. 4 x 0, que seria o placar final.

Ao fim do jogo, uma grande festa dos jogadores de ambos os times. Uma taça partida ao meio foi entregue e erguida por ambos capitães, Wangyel Dorji e Charles Thompson, simbolizando o espírito esportivo. Todos se reuniram para danças típicas butanesas ainda no gramado. E seis horas depois, os dois times assistiam juntos à Brasil x Alemanha.

Fica aí o exemplo da união que o esporte pode trazer, unindo dois países com histórias e dramas tão diferentes, que jamais teriam ouvido falar um no outro, num elo de amizade eterna.

PS: Quem quiser assistir o documentário acesse http://br.youtube.com/user/tangpa . Os vídeos estão sob o título bhutan:football, em 8 partes. O jogo em si, está a partir do final da parte 6.

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Foto do autor

Mauricio Garcia é flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico. Ele é o nosso grande Dr. Health.

Outros artigos escritos por Mauricio Garcia

  • Priscila
    Pelo menos eles jogam melhor que esses caras aqui... :D

    http://br.youtube.com/watch?v=Puv1gQzKtOs
  • Paulo
    Muuto boa matéria um exemplo pos cartolas famigerados do Brasil, afinal futebol e isso diversssaum e espirito esportivo
  • Geraldo Luiz Bello
    Sou Vascão, Doutor, ótima matéria, se pensar direito o meu time pode arrumar um amistoso lá e conseguir algum zagueiro bom.

    Parabéns Dr. o futebol une as nações.
  • Demais isso.
    De onde você desenterrou esta história ?
  • Nunca tinha escutado essa história... interessante
  • Adorei a matéria! Futebol devia ser sempre assim: uma grande festa.
  • Gostei demais da matéria! Mesmo que no jogo tenha acontecido lances um tanto quanto constrangedores, a festa, pelo jeito, foi animada.
  • Joir Eduardo
    Maureca,

    Bom artigo!
  • Futebol é algo sem explicação. Tem gente que acha uma loucura coletiva. Que seja, é viciante mesmo assim!
  • 'Cristine'
    Eu sou timão mas fiquei muito fula da vida quando soube que O Bola-cata-traveco-não-joga-mais-porra-nenhuma foi contratado pelo time.Perdão pelo palavreado mas… PUTA QUE PARIU TINHA QUE BOTAR ESSA BIBA ENRUSTIDA NO TIMÃO??? Esse povo tá bebendo o que?Vodka do Paraguai?E Dr Health só pq eu gosto muito de vc que eu vou ignorar o comentário sobre aquilo ser a cara do timão. -.-
  • 'Cristine'
    Eu sou timão mas fiquei muito fula da vida quando soube que O Bola-cata-traveco-não-joga-mais-porra-nenhuma foi contratado pelo time.Perdão pelo palavreado mas... PUTA QUE PARIU TINHA QUE BOTAR ESSA BIBA ENRUSTIDA NO TIMÃO??? Esse povo tá bebendo o que?Vodka do Paraguai?E Dr.Heart só pq eu gosto muito de vc que eu vou ignorar o comentário sobre aquilo ser a cara do timão. -.-
  • MagoCego
    Muito bom post!
  • Paula Tejando
    Ronaldo deu um creu na torcidinha de merda do falmengo hauhauhauhauhau
  • Dr Health
    Pedrones, vou chorar por um gordo comedor de travecos???

    Acho que ele é mais a cara do Curintxa mesmo...
  • thiago
    ISSO FOI MUITO BOM....
    TO ATE ME SENTINDO UM JOGADOR PROFISSIONAL AGORA
  • Priscila
    Já vi esse documentário na NG também. Muito bom. :)
  • Excelente matéria Doutor, realmente ficou uma leitura muito boa e divertida. São exemplos como esse que nos fazem pensar o quanto o esporte é importante para alguns povos, e como o esporte pode fazer grandes mudanças na vida de algumas pessoas.
  • pedrones
    R9NALDO É DO TIMÃO!
    Não chore, Maurício! aheuaheuaheuahe


    Brincadeiras a parte... belo post!
  • Ótimo post, ótimo post. Muito bom, parabéns.
  • Matéria jornalistica de primeira!!!!!Congratulations!
    Beijocas,
  • Raphael
    Porra,muito show,obviamente não pela técnica,mas sim pelo espiríto esportivo!

    Dá vontade de mandar esses vídeos p/os nossos cartolas...
  • Cheeeega ai medico!
    Mandem 100 reais lá pro Plymouth também. Ah, esqueci, eles não moram no mesmo território que vocês, na hora de marcar as divisas eles ficaram pra fora, são menos gente. Esqueci, malzaê povão sagaz!
  • Dr Health
    Vou continuar a linha de artigos sobre jogos toscos.

    Ano que vem será sobre o Duque de Caxias x Vasco, no Marrentão!!!!

    (Alô??? Vasco???? tu tu tu tu tu tu... Ih, caiu!!!)
  • Cigano
    é né??!!

    mais uma prova de que ainda existe o ''futebol de verdade'', e não esse esporte movido a grana que vemos hoje.
  • Thiago
    "No vídeo tape, nota-se que o goleiro de Montserrat definitivamente faltou à aula de como armar uma barreira. Ridículo."

    hahahhaha, deu até dó do goleiro cara.... arrumar uma barreira daquela com um buraco maior que o da camada de ozonio!!

    coitado...

    mas o documentário parece ser bom msm, achei que ia ser um pouco de humor-humilhação mas parece bem bacana!!
  • Ótimo documentário!
  • Vinícius
    Dessa eu não sabia... Vou assistir o jogo inteiro pra aumentar minha auto-estima no fut.
  • Diogo Bispo
    Boa matéria. Não conhecia o vídeo.
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    Cara, toda vez que eu entro aqui aparece esse aviso. Tá ficando chato já.

    Se puderem dar um jeito, agradeço.
  • DIVA
    ADOREIIIIIIIII EXCELENTE POST
  • Ótima matéria. Ri muito com o "Obina do Himalaia". Muito bom mesmo.

    Esse jogo eu teria gosto de ver. Não pela técnica, mas pelo espírito esportivo.

    Parabéns pela matéria.
  • 'Cristine'
    Ótimo post!Eu diria q esse sim é o espírito esportivo /o/
  • Filipe Oliveira
    É isso que é o verdadeiro espírito esportivo.Ótima matéria Dr.Health ;)
  • Esse é um documentário que passa na National Geographic também, já assisti duas vezes.

    Realmente é bastante interessante, vale a pena pra quem realmente gosta de futebol!
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