Você não tem vergonha, não?

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Quantos de nós já ouviram essa pergunta? Da mãe, do pai, da professora, do namorado, do amigo decepcionado. Você não tem vergonha de: bater no seu irmãozinho, tirar essa nota, fazer isso comigo depois de tudo o que eu fiz pra você, estar tão gordo, magro, não cuidar dos dentes, sentar dessa maneira e por aí vai...

Montagem do New York Times com políticos americanos envergonhados
Montagem do New York Times com políticos americanos envergonhados

Podemos ficar aqui por muitas horas lembrando de todas as perguntas que começam com essa frase. Quantos de nós, ao ouvir a tal indagação, desejaram com todo o coração que a terra se abrisse e fosse possível desaparecer sem deixar rastros?

Não é só prerrogativa dos tímidos e introvertidos. Vergonha é confundida com civilidade e educação. Emoção universal, instala-se permanentemente em nossas vidas. Não importa quanto tempo depois, se alguém toca naquele lugarzinho onde ela está escondida, ela ressurge com toda fúria, novinha em folha.

Outro dia estava na casa da minha mãe e ela me disse que era melhor eu não levar o pedaço de bolo que havia sobrado para casa porque eu estava gorda. Durante semanas, aquela afirmação feita na frente de toda a família (supostamente pessoas com quem tenho intimidade) me perseguiu implacavelmente. E eu achava que já não tinha nenhuma necessidade de aprovação da minha mãe, com a minha idade...

Eu achava.

Oscilei entre a vontade de ser completamente anorética e não comer nunca mais com a de comer até pesar uns 200 quilos. Sim, porque se tem uma coisa que a vergonha — ou sua parente próxima, a humilhação — desperta é raiva. Em geral, de si próprio.

Você já se deu conta que ser chamado de "sem vergonha" é xingamento?

Passamos muito tempo de nossas vidas sem perceber o quanto nos envergonhamos — e de tantas pequenas coisas. Acabamos, exceto pelas situações em que nossa vergonha é exposta, vivendo como se ela não existisse. Mas existe e muito.

A psicóloga Brené Brown tem publicações, vídeos e um blog sobre vergonha, resultado de pesquisas extensas com mulheres e homens. Em seus livros, demonstra como a educação, por exemplo, incute a vergonha nas pessoas. Uma forma de controlar as crianças e adolescentes é exatamente fazer essa pergunta do título e muitas outras, como: "o que você acha que aconteceria se todos soubessem o que você fez?"

Link TED | Palestra de Brené Brown (veja também essa animação da RSA em cima de uma fala dela sobre empatia)

A vergonha é considerada uma defesa para a vida em sociedade. Mas será que não exageramos ao apoiar tanto da educação e da polidez em vergonha? Será que podemos ser civilizados e gentis baseados em outras emoções? A vergonha tem um peso que muitas vezes não permite novidade ou criatividade. Temos que vencer muitas e muitas barreiras para ser alguém um pouco diferente.

E não falo só daquela gigante, dos grandes feitos. Há muitos pequenos atos cotidianos também liderados pela vergonha. Não tirar a camisa, não perguntar algo para um desconhecido, não entrar sozinha em um lugar. E também não dizer "não", não contar a alguém que está incomodado com algo, não dizer que não come tal coisa…

Brené diferencia vergonha de culpa. A culpa diz respeito a coisas que você fez e a vergonha diz respeito a quem você é. Acho, no entanto, que em nossa sociedade judaico-cristã, baseada nas culpas e pecados originais, os dois se confundem, andam de mãos bem dadas.

Dá para reduzir a vergonha?

A pesquisadora propõe alguns passos para um tratamento, digamos assim, da vergonha:

1.Perceber os gatilhos, tudo que provoca o momento em que o rosto fica quente, com aquele desejo desesperador de não estar ali. A famosa vontade de que o chão se abra e você possa se enfiar em um buraco. O que te leva para esse estado?

2.Fazer uma lista das pessoas ou contextos que fazem parte da sua rede da vergonha, incluindo você mesmo, evidenciando os principais personagens das situações em que você se envergonha.

3.Fazer outra lista, agora das pessoas e situações nas quais você sente que pode confiar e não sente vergonha — em que, pelo contrário, sente-se seguro para abrir e falar de sua vergonha.

Cena do filme "Shame" (2011)
Cena do filme "Shame" (2011)

4.Falar da sua vergonha com as pessoas, começando, claro, pelas que estão na sua lista de confiáveis, de forma que elas saibam a dificuldade que certas situações são pra você.

"Privacidade, silêncio e julgamento são as três coisas que a vergonha precisa para crescer exponencialmente em nossa vida. [...] A vergonha não consegue sobreviver quando é aberta e quando encontra empatia."
— Brené Brown

Isso não vai te curar, nem eliminar a vergonha, mas você talvez comece a não deixar que ela te paralise ou te leve a se esconder em alguns momentos. Dá para conviver com ela sem o tal buraco aos seus pés.

5.Pedir ajuda. Uma das coisas que esquecemos é que a nossa vergonha nem sempre é a do outro. Embora muitas de nossas vergonhas sejam sociais, relativas ao corpo público, outras são totalmente ligadas à nossa história: o vizinho, a namorada, o amigo nem imaginam o quanto aquilo é difícil para você.

6. Ser mais amigável com suas vulnerabilidades. Para Brené Brown, a vergonha está profundamente ligada àquilo que consideramos frágil ou defeituoso em nós, tudo o que procuramos esconder. Em nossa sociedade extremamente competitiva, qualquer falha é entendida como fracasso, qualquer inabilidade ameaça nossa ideia de que teríamos que ser perfeitos.

Então, um dos exercícios para lidarmos com nossa vergonha (porque ela nunca desaparecerá) é melhorar a relação com nossas vulnerabilidades. E aí vamos na trilha da autocompaixão, não da autoestima.

Reconhecer que existem áreas de fragilidade, situações onde nos sentimos vulneráveis, e ao mesmo tempo nos sentir mais confortáveis, adquirir mais recursos para lidar com elas, não desejar extirpá-las de nosso ser como se fossem doenças ou coisas erradas; tudo isso vai nos ajudar a lidar de outro modo com esse sentimento da vergonha em nossas vidas.

Não querermos ser perfeitos e sem falhas, mas singulares e únicos, ótimos em algumas coisas, não tão bons ou péssimos em outras. E queremos conseguir nos apresentar ao mundo assim: podendo ser diferente a cada dia, sem vergonha do que somos.

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E você, quer ser mais sem vergonha?

Quer colocar isso em prática?

Para quem está cansado de apenas ler, entender e compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar, criamos o lugar: um espaço online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação.

veja como entrar e participar →


publicado em 07 de Abril de 2014, 21:00
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Rosana Rapizo

Psicóloga, mora no Rio de Janeiro. Trabalha com facilitação de conversas entre indivíduos, famílias, casais, grupos em diversos contextos do cotidiano: separações, casamentos, filhos, violência... Coordena um curso de trabalho com grupos no Instituto Noos e oferece aulas para profissionais. Ensaia alguns escritos no blog SerParaAção e participo entusiasmada do lugar


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