Theodore Zeldin: Uma história íntima da humanidade | Pare tudo #5

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Acompanho os textos do Gustavo Gitti há um bom tempo e depois de ler Sawubona: eu vejo você | Pare tudo #1 resolvi compartilhar o que me fez "parar tudo". É o livro Uma história íntima da humanidade, de Theodore Zeldin.

Abaixo, alguns trechos do primeiro capítulo: "Como os seres humanos continuam a perder as esperanças e como novos encontros e um bom par de óculos as renovam."

Link Youtube | Theodore Zeldin conversando sobre a cidade e a sensação de isolamento. Infelizmente não tem legenda, mas vale se arriscar


[...] Legalmente, é claro, a escravidão foi abolida (e não há muito tempo: a Arábia Saudita foi o último país a fazê-lo, em 1962), mas a escravidão também encerra um significado metafórico e mais amplo: é possível ser escravo das paixões, do trabalho, de certos hábitos, de um cônjuge que, por vários motivos, não se pode abandonar. O mundo esta cheio de pessoas que, embora não sejam escravos reconhecidos, vêem a si mesmas presas a grilhões sem liberdade.

[...] A solução para a escravidão não está em aboli-la – pelo menos, isso não seria uma solução total, porque novas formas de escravização viriam a ser inventadas, sob outro nome. Os operários das fábricas, que mourejam no ar envenenado do alvorecer ao anoitecer e jamais veem a luz do dia, exceto aos domingos, obedecendo em silêncio, provavelmente levam vidas ainda piores do que muitos antigos escravos. E hoje, todos aqueles que optam por fazer o que lhes mandam, em vez de ousar por conta própria e assumir as responsabilidades – um terço dos britânicos, segundo pesquisa de opinião pública –, são herdeiros espirituais dos escravos voluntários da Rússia. É importante lembrar que ser livre é cansativo e doloroso e em época de empobrecimento o amor pela liberdade sempre diminuiu, não importa o quanto se fale.

[...] Igualmente importantes foram os encontros, quer com pessoas ou lugares, que propiciaram inspiração e coragem para escapar as rotinas tediosas. Houve um desperdício de oportunidade sempre que um encontro se realizou e nada aconteceu. Na maior parte dos encontros, orgulho ou cautela ainda proíbem que se diga o que realmente se sente. O ruído do mundo é feito de silêncios.

[...] muito do que as pessoas fazem é governado por velhos modos de pensar. Tanto a política quanto a economia têm se revelado ineficazes diante da obstinação de mentalidades arraigadas, que não podem ser modificadas por decreto, pois estão fundamentadas na memória, que é praticamente inextinguível. Mas é possível expandir a memória de uma pessoa alargando seus horizontes e quando isso acontece, há menor probabilidade de que a pessoa continue a tocar as mesmas melodias antigas para todo o sempre, repetindo indefinidamente, os mesmos erros.

[...] Quando as pessoas olharam além dos limites de suas famílias, quando aprenderam a ler e a viajar, descobriram que muitos indivíduos estranhos compartilhavam suas emoções e interesses. [...] Hoje, a esperança se sustenta, acima de tudo, pela perspectiva do encontro com novas pessoas. Na verdade, toda descoberta científica é inspirada por uma busca similar e pelo encontro de ideias que antes nunca se juntaram. O mesmo vale para a arte de fazer a vida significativa e bela, o que envolve a descoberta de conexões entre o que parece não ter conexões, unindo pessoas e lugares, desejos e memórias, através de detalhes cujas implicações passaram despercebidas.

[...] os seres humanos tem muito mais opções a frente do que comumente supõem. [...] O conceito que fazemos de outras pessoas, bem como aquilo que vemos no espelho quando nos olhamos, depende do que sabemos do mundo, do que acreditamos ser possível, das memórias que guardamos e se nossa lealdade está comprometida com o passado, o presente ou o futuro. Nada influencia tanto nossa capacidade de suportar as dificuldades da existência quanto o contexto em que as vemos; quanto mais contextos à nossa escolha, menos as dificuldades nos parecem inevitáveis e inacessíveis.

Quer colocar isso em prática?

Para quem está cansado de apenas ler, entender e compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar, criamos o lugar: um espaço online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação.

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publicado em 08 de Julho de 2013, 09:54
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Ana Claudia França

Professora da UTFPR. Dedica-se à pesquisa e desenvolvimento dos temas: Design, Cultura, Imagem e Comunicação. Interessa-se por tudo que possa melhorar relações entre pessoas e a vida em sociedade. Escreve também em seu blog.


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