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Um capítulo da minha novela mexicana

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Mentindo pro Rafa dizendo que estava bem - aquela falsidade de quem sente vergonha de expressar o que sente - disfarço o choro e pego meu celular. Levanto do chão, espano com as mãos a grama da calça e numa atitude impulsiva e ligeira, telefono e faço o que tenho que fazer.

Sim, eu tinha que fazer aquilo.

Ouvir a voz dela foi estranhamente revoltante. Meiga, parecia uma criança falando, mas eu jamais acreditaria que ela era inocente. Uma loba coberta com pele de carneiro...

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Tudo parecia perfeito

Combinamos tudo rapidinho e logo eu já estava caminhando rumo à parada de ônibus. E cada passo era uma lembrança daquele amor. Daquela dor. Dor que não me deixou mais segurar as lágrimas.

E eis que eu percebo a cena ridícula que os passantes podiam presenciar: eu, aos prantos, carregando um monte de apostilas de revisão para o vestibular, chorando com os olhos quase fechadinhos por conta do sol das duas. Patético! Pra completar, surge um velhinho que diz “chora não, filha, ele volta!” com cara de quem tem muita experiência nessa vida. Ele me olhou e deu um risinho bobo, dentes amarelados brilhando um incrível bom humor, como se aquela tarde de segunda-feira ainda fosse domingo.

O fato é que eu não estava de bom humor, não queria ficar de bom humor. Eu queria soltar os cachorros, chutar o pau da barraca, subir nas tamancas e rodar a baiana, tudo junto. Ou talvez bater na cachorra e chutar o pau do Rodrigo com uns tamancos ao som de música baiana. Se bem que, pensando melhor, eu nem precisava me dar esse trabalho. Deus já tinha castigado os dois havia uma semana, quando ambos quebraram a clavícula em acidentes distintos, mas que analisando o curto espaço de tempo e a coincidência do resultado final, só poder ser coisa divina – se é que eu devo usar essa palavra sem parecer uma psicopata.

Mas o que importa é que ignorei o velho e segui meu caminho. E felizmente, no Grande Circular, o cobrador, mesmo eu tendo sentado no banco mais próximo da roleta, me fez a gentileza de ficar calado.

Chegando ao shopping, liguei pra minha melhor amiga.

- É o seguinte amiga, vou me encontrar com a nojenta agora. Se até o final da tarde eu não te ligar de novo, é porque ela me matou pra realizar o plano dela de fugir com o Rodrigo! Ok?

Nem deu tempo de dizer tchau, senti alguém tocando meu ombro. Virei-me e lá estava ela, Renata, com aquele sorriso escancarado horroroso dela. Pela cara feliz que ela tinha, parecia que éramos velhas amigas nos encontrando para contar novidades. “Oooiii”, ela disse, triplicando o tamanho da palavra.

Sem poder evitar, dei aquela olhada dos pés à cabeça da menina. E foi com muito desprezo que pensei: “Mas foi com essa baranga que ele me traiu?”. Bom, tá certo que gosto é gosto, mas até ela devia pensar assim, pois não vejo outra razão pra ela me elogiar três vezes no mesmo dia, se de fato, não me achasse bonita. Modéstia a parte, pareceram comentários sinceros.

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Então a baranga me achou bonita

Fui caminhando na frente, sem dizer nada. Subimos três lances de escada rolante e sentamos numa mesa da praça de alimentação, que já estava se esvaziando do super contingente que aparece por lá na hora do almoço. Ela se encarregou de ir direto ao assunto.

- Muito bem, você quer que eu conte tudo?

- Sim.

- Tudo mesmo?

- Conta logo.

E ela contou. Tudo. Até o que eu não queria, mas precisava saber. Precisava, por que quanto mais detalhes sórdidos eu soubesse, mais eu poderia dramatizar o meu sermão pro Rodrigo.

Resumo da ópera pra vocês: o tempo deles juntos foi longo, quente. Eram amantes legítimos. Ela, dessas que se oferece e atiça, usa todas as armas de sedução pra conseguir o que quer. E disse isso com todas as letras, deixou bem claro que gostava muito dele e tinha feito tudo o que podia pra ganha-lo. Ele, se achava a criatura mais esperta e sortuda do mundo por ter um pênis e uma mulher que abriu as pernas sem cerimônia nem enrolação pro tal - partiu direto “pro que interessa” logo na primeira semana.

Era uma longa massagem com óleo de amêndoas e pétalas de rosa no ego dele, um troféu que ele pendurou no pescoço e só não mostrou pra todo mundo porque eu poderia descobrir e fazer ele engolir aquela porcaria, ou quem sabe até, enfiar por outra saída menor e mais sórdida.

Depois de sentir na pele o quanto a verdade dói, convidei-a, receosa de que receberia um não, para ir a casa dele, botá-lo contra a parede. Não tendo nada a perder e na esperança de que o que eu dissesse a ele fosse entrar por um ouvido e sair pelo outro e que no fim das contas eles ficariam juntos e seriam felizes para sempre, ela topou na hora. Dessa forma, mesmo com todo o ódio que nos rivalizava, resolvemos nos unir.

E pra minha surpresa, a ida até a octogonal foi até divertida. Fomos conversando muito na van, falando mal dele e da outra menina que ele tinha ficado enquanto estava comigo, a Marina. Uma conversa sobre alguém que odiávamos em comum era a única maneira de evitar que eu descontrolasse e partisse pra cima da garganta dela.

Ao chegar ao bloco dele, percebi que ela ia lá mais do que eu já tinha ido naqueles seis meses de namoro: ao invés de interfonar e pedir para abrirem a porta do acesso principal, como as visitas civilizadas fazem, ela, com muita praticidade, entrou pela porta do elevador de serviços, mostrando que esta não tinha tranca, estava sempre aberta. Chegamos ao sexto andar e a porta do elevador se abriu de frente pra porta da cozinha. Ela bateu na porta e a Maria abriu e olhou com aquela cara de mané dela.

- O Rodrigo tá aí? – perguntou Renata.

- Tá sim, lá no quarto. - Maria respondeu, agora com uma cara não satisfeita, nos olhando como visitas mal-vindas.

Tomei a dianteira e segui pelo corredor como quem diz “daqui pra frente eu lembro o caminho”. Parei na porta aberta do quarto de paredes bege. Ele estava de costas, sem camisa – o gesso na clavícula era muito incômodo e quente-, passando o tempo no computador, sem perceber que eu estava ali. Disse um oi e Rodrigo se virou assustado. Ele começou uma frase com “Oi, meu amor!” e deu pra perceber que ele teria terminado com “Que surpresa agradável! Você veio me visitar!” se não tivesse notado que atrás de mim estava quem ele menos esperava. Apavorado com a visita inusitada ele virou-se novamente pro computador e falou com uma voz fraca e frustrada de quem não pode mais mentir: “Eu não tenho como explicar.”.

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Outra coisa iria se quebrar nele, e não era era a clavícula...

Eu e Renata sentamos na cama e eu não perdi tempo e comecei o sermão imediatamente. O meu ódio era tanto que eu fui falando desordenadamente tudo o que me vinha à cabeça. Xinguei, gritei, botava pra fora toda a dor do meu coração, mal tinha tempo de respirar. Eu estava lá me descabelando de raiva quando noto que ele, como um filho que apronta e ouve a bronca do pai calado, estava de cabeça baixa olhando pro teclado do computador a sua frente. Aliás, atrás do computador havia uma parede com uma janela.

Tenho certeza que se ele tivesse asas, sairia voando por ela pra bem longe, e voltaria muito tempo depois, quando eu já tivesse quebrado a coleção de carrinhos-miniatura dele me acalmado. Porém, anjo ele não era, e como galinha não voa muito, o safado teve que ficar ali mesmo, paradinho até a hora que eu quisesse que ele ouvisse. Indignada, ponho as duas mãos na cadeira dele e puxo violentamente de forma a colocá-la de frente pra mim. Queria ele vendo bem o que acabara de perder. Feito isso, pude olhar a cara de pavor dele, o reflexo da minha fúria. Finalmente me olhando nos olhos ele captou que a minha vontade era quebrar todos os móveis da casa na cabeça dele.

Na proporção de quatro pra um, a Renata também falou algumas coisas. Não tendo muito do que reclamar, se contentou em apenas concordar com o que eu dizia. Bastava ela tomar ar para começar a falar e eu a cortava, sem nem perceber.

Eu poderia ter apenas terminado o namoro fingindo que não estava nem aí e dizendo que ele também era corno. Poderia ter sido forte e escondido minha tristeza. Poderia ter saído com minhas amigas pra ficar com uns carinhas e mandado ele ir à merda. Mas com uma ponta de prepotência e segurança de que ele me amava e que iria se arrepender pro resto da vida de ter me traído, preferi me humilhar um pouco e dramatizar bastante, sabendo que isso o afetaria.

Preferi fazer ele acreditar que acabara de jogar fora a melhor namorada do mundo (ou pelo menos era essa a maneira que devia me ver de acordo com meu discurso revoltado). Preferi enumerar minhas qualidades, especialmente frizando a lealdade. Preferi deixar o orgulho de lado e dizer que eu o amava de verdade. E que minha decepção me envergonhava. Preferi apostar que o pior castigo que eu poderia dar seria mostrar que ele desprezou a mulher perfeita, ainda que eu tivesse uma lista infinita de defeitos.

Funcionou. Eu senti que ele estava sendo afetado por minhas palavras afiadas. A consciência já estava pesada o suficiente para ele se arrepender de cada mentira. Finalmente ele enxergou que toda a maldade dele prejudicou a ele mesmo. Como quem bebe do próprio veneno e descobre que ele é mais ácido do que se esperava.

Eis que de repente ele resolve dizer algo útil:

- Renata, vai embora.

- Ela vai embora quando ela quiser. – a defendi, como se fosse a mais justa das criaturas. Na verdade quase cruzei os dedos pra ela não pensar duas vezes e tirar aquela bunda reta da cama; a questão é que ele não tinha o direito de ordenar nada pra ninguém ali, nem pra ela.

- Eu preciso falar com a Gabi. Vai embora.

Acontece que não seria muito prazeroso ficar quando o homem que você gosta e teve um caso te expulsa da casa dele. Ela se levantou da cama e atravessou o corredor como um cãozinho com o rabo entre as pernas. Eu a segui para me despedir dela, com vontade de soltar um “YES!” bem alto. Ela estava chorando, decepcionada como quem perde a guerra. O que ela desejava estava no quarto, esperando que eu voltasse para pedir perdão e se declarar. Sem mais armas, truques ou manobras a fazer para ganhar a batalha, ela se rende, e desabafa:

- Viu como ele me trata mal? Ele nunca gostou de mim, nunca quis te deixar pra ficar comigo. Mas cuidado, ele não presta.

Não podia consolá-la. Ela também era culpada da minha dor. Mas em respeito ao sentimento de quem ama e não tem o prazer de sentir a reciprocidade, guardei pra mim a minha vontade de dizer “Bem feito!” e dei-lhe um abraço sincero. Ela sai pela porta da cozinha ligando do celular para que a avó fosse buscá-la – vale lembrar que ninguém pode dirigir com a clavícula quebrada.

Volto pro quarto e sento na cama novamente. Queria assistir de camarote o pranto do Sr. Frieza, homem que nunca chora.

Ele se debruça sobre minhas pernas. Senti-as molhar pelas lágrimas que caiam daqueles lindos olhos azuis. Pela primeira vez em dois anos ele estava chorando na minha frente. Pela primeira vez aquele egocêntrico se abalou com alguma coisa que não fosse a nova Ferrari F450 Spider destruída por uma batida. Ele começou a falar bem rápido, com medo de que eu também interrompesse-o, como fiz com a Renata.

- Me perdoa. Eu juro que te amo, você é o amor da minha vida. Eu sei que fui idiota. Eu mudo, eu vou ser tudo o que você quiser, eu vou ser só seu. Me perdoa. Eu preciso de você na minha vida, não me deixa. Eu te amo. Sei que errei, perdoa.

Óbvio que eu interrompi aquela falação repetitiva.

- Ah, isso que você tinha pra me falar? Essas promessas fracas, essas declarações falsas? Você não me ama. Você nem sabe o que é isso. Uma pessoa podre como você jamais sentiria algo tão nobre. Eu tenho nojo de você, sai de cima das minhas pernas. Alias, melhor eu levantar dessa cama. Vocês devem ter tido ótimos momentos aqui. Eu vou embora, porque eu tenho aula daqui a pouco, e diferente de você que não está nem aí pra nada, eu tenho sonhos. E um deles é passar no vestibular.

- Eu vou ser tudo. Eu vou estudar pra te ensinar. Você vai realizar todos os seus sonhos, tudo que eu vou fazer vai ser pra te agradar e te dar felicidade. Eu quero me casar com você, ter filhos, te amar pro resto da minha vida.

- Lamento. Não dá mais pra acreditar nessas frases vazias. Você foi muito cruel e frio. Mentiu descaradamente e desprezou meus sentimentos, não teve nem respeito, sequer pena de mim. Agora eu só tenho ódio de você. Quero mais é que você sofra e que nunca ninguém caia no mesmo erro de te amar como eu. Não quero te ver nunca mais, some da minha vida. Tchau.

Levantei, peguei meus livros e segui pelo corredor, ouvindo o Rodrigo dizer que ia me levar de carro até a minha aula. Da porta da sala chegou o irmão dele, que pasmou de imediato com a cena – ver o Rodrigo chorando é tão raro que choca qualquer um. Aproveitei e peguei a chave do carro da família em cima da mesa e joguei nas mãos do meu ‘ex-cunhado’. Mandei ele esconder do Rodrigo, dando um resumo da ópera para explicar minha atitude, acrescentando que não queria que aquele gesso grotesco deslocasse do lugar por ele ter dirigido.

Segui pela cozinha. O choro do Rodrigo era cada vez mais alto. Confesso que senti muito prazer em ouvir o sofrimento dele. Ele se atirou de joelhos e agarrou minhas pernas, me segurando, que nem criança fazendo birra para o pai não ir trabalhar. Continuou a repetir a ladainha do perdão e eu voltei gritar descontrolada, mandando ele parar de mentir com esse papo de amor. Empurrava-o cada vez que ele tentava me abraçar. O choro aumentou, ele começou a soluçar, já não conseguia mais falar.

Numa péssima tentativa de me fazer sentir pena dele, disse que cortaria o gesso se eu não lhe desse outra chance, assim ele passaria três meses internado no hospital fazendo uma série de cirurgias e seria uma forma eficiente de controlar os impulsos de me encontrar. Pegou a faca e começou a cortar. Impaciente com aquele teatrinho chantagista, tomei a faca da mão dele e joguei-a com força na pia. Se fosse de propósito não conseguiria, mas a faca bateu num copo de vidro, e quebrou-o.

- Presta atenção Rodrigo, eu quero que você sofra de peso na consciência. E muito. Mas eu não quero jamais ter parte na culpa da sua clavícula esfarelada.

Voltei a gritar. Expus tanto os meus sentimentos que perdi a força. Fui escorregando devagarzinho até o chão como as lagrimas que escorriam dos meus olhos até o queixo. Fiquei sentada vendo passar na minha mente cada capítulo daquela novela mexicana. Ele continuava de joelhos implorando. Me senti pequena e frágil. Meu amor me fragilizava. Meu ponto fraco era meu coração. Mas respirei profundamente, levantei e saí deixando pra trás impiedosamente um Rodrigo caído no chão, exposto ao ridículo que o garoto popular sempre temeu. Um Rodrigo que jamais seria o mesmo.

Se as paredes daquele quarto falassem, teriam muita história pra contar. Mas tudo bem agora. Nem são mais beges, as paredes, são verdes, e puderam presenciar depois momentos felizes, que pareciam impossíveis de ainda acontecer ali um dia.

Vivianne Christine é autora convidada da PapodeHomem e, se depender de nós, vai escrever mais por aqui. ;D

Além disso, é estudante de publicidade da UnB e treina para sua futura carreira de redatora escrevendo de tudo, inclusive sobre a "Novela Mexicana" que é a sua vida.


publicado em 14 de Outubro de 2007, 10:56
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Vivianne Christine

Vivianne Christine é estudante de publicidade da UnB e treina para sua futura carreira de redatora escrevendo de tudo, inclusive sobre a “Novela Mexicana” que é a sua vida no seu blog Vivi, Sobre Vivi.


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