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Tom Brady | Homens que você deveria conhecer #58

O homem que desafiou a lógica, agora desafia o tempo.

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O dia era 10 de janeiro de 1982. O local, o mítico Candlestick Park em San Francisco. O time da casa, conhecido por 49ers, precisava de um touchdown para vencer o jogo e chegar pela primeira vez ao Super Bowl, a grande decisão do futebol americano. Faltando 58 segundos, a bola vai para o quarterback Joe Montana que acha Dwight Clark na endzone em uma das jogadas mais icônicas do NFL, o “The Catch”. Depois do chute extra, os 49ers viraram o jogo contra o Dallas Cowboys e chegaram à tão sonhada final inédita.

Link Youtube – Com vocês, The Catch

Um jovem sortudo

The Catch é considerado o marco inicial da carreira de um dos maiores quarterbacks de todos os tempos. O legado de Joe Montana seria desafiado por uma pessoa que estava naquele dia no Candlestick Park. Não dentro do campo, mas nas arquibancadas, acompanhando o jogo aos 4 anos de idade.

Thomas Edward Patrick Brady Jr., nasceu em San Mateo na Califórnia e, como todos os garotos da região, cresceu acompanhando os feitos de Montana e sonhando um dia ser tal qual o craque. Ao contrário dos outros garotos, porém, ele conseguiu.

Tom Brady queria ser um Joe Montana como todos os outros, a diferença é que ele conseguiu.

Mas as coisas não foram tão fáceis assim pra Tom. O caminho dele não foi tão óbvio como o do prodígio que chega ao esporte profissional com a chancela de futuro grande ídolo – como foi o caso de Lebron James, por exemplo. No início de sua carreira universitária, Tom chegou a ser a sétima opção de quarterback no elenco do Michigan Wolverines, um dos mais tradicionais times do futebol americano universitário. Necessitou de ajuda psicológica para lidar com a frustração de estar tão longe do time titular, só conseguiu ter alguns jogos no time principal nos últimos dois anos e se tornou titular absoluto já na segunda metade de sua última temporada como universitário.

Esse garoto não atraiu a atenção de muita gente no draft, não.

Brady se inscreveu no draft – o recrutamento de jogadores vindo das universidades – da temporada de 2000. No que a NFL chama de Combine, os treinamentos coletivos antes da tão esperada escolha, Brady atingiu números pífios como os 5,28 segundos na corrida de 40 jardas, sendo um dos mais lentos de todos os quarterbacks do treinamento.

Não ser chamado por nenhuma equipe naquele draft seria normal e ao mesmo tempo significaria praticamente nunca mais jogar futebol americano profissionalmente e ter que se dedicar a uma carreira em um escritório qualquer. E essa não era uma hipótese totalmente descartada por Tom, tanto que ele já tinha um currículo pronto para o mercado financeiro.

Nada como ter um inglês fluente!

Mas ele acabou selecionado pelo New England Patriots na discreta 199ª escolha daquele recrutamento, depois de outros 6 quarterbacks. Após passar por esse sufoco, ao conversar com o dono do time, o que ele diria? Um agradecimento digno de um náufrago resgatado de uma ilha? Nada disso, na verdade, ele disse:

“I’m the best decision this organization has ever made.”

Eu sou a melhor decisão que esta organização já fez.

No primeiro ano ele galgou espaços no roster saindo de quarta opção, para primeiro reserva. Mas a oportunidade de participar de um jogo foi aparecer apenas no ano seguinte, quando Drew Bledsoe, o titular, teve que sair do jogo após sofrer um tackle que lhe causou hemorragia interna. Eita.

Mesmo após a recuperação de Bledsoe, porém, Brady foi efetivado como titular e conduziu à franquia ao Super Bowl daquele ano, um feito destacável para um jogado que nem sequer era titular no início da temporada. Naquele momento, os Patriots estavam eclipsados em Boston pelos holofotes das grandes franquias Celtics e Red Sox e aquela era uma nova chance deles conquistarem o primeiro título de sua história.

O adversário era o favorito St. Louis Rams, que tinha chegado às duas últimas decisões e possuía um dos ataques mais poderosos da história da NFL, The greatest show on turf.

Nos últimos minutos do jogo, os Rams conseguiram o empate e a bola voltava para a mão de Brady faltando 1min21 para acabar o jogo. Sem a chance de interromper o relógio com pedidos de tempo, e com a bola na linha de 17 jardas do campo de defesa, a lógica mandava deixar o relógio correr e levar o jogo para a prorrogação.

Mas não foi isso que Brady fez.

Tão inesperada quanto a própria história de Tom até ali foi a escolha dos Patriots em tentar ganhar o jogo. E assim, conseguiram conduzir a bola até a linha de 30 jardas do campo de ataque, para conseguirem a vitória com um Field Goal.

Link Youtube – reparem na quantidade de vezes que o comentarista fala que não era uma boa ideia tentar avançar com a bola.

Era o início da maior dinastia dos esportes americanos no século. Nos três anos seguintes, foram mais dois títulos e 2004 e 2005 se tornaram os anos do último bicampeonato de uma franquia na história da NFL até hoje.

Brady e a incredulidade de quem saiu da reserva para MVP do SuperBowl no 1º ano como titular.

Um atleta dedicado

Na medida em que os títulos e os recordes foram se acumulando, os holofotes se voltaram para a rotina de Brady até darem conta de revelar uma de suas características mais marcantes: a dedicação extrema, algo que os americanos chama de work ethic.

A entrega de Brady aos seus objetivos e sua competitividade são tão proeminente que chegaram a ser classificadas por seu ex-companheiro, Darrele Revis, como uma doença, algo quase incontrolável.

Os hábitos do jogador já são bastante conhecidos. Além de uma dieta extremamente restrita que proíbe até alimentos considerados saudáveis pelo senso comum – como tomates, pimentas e camarões, soma-se o horário de descanso (ele acorda todos os dias, sem despertador, antes das 5 da manhã) e os exercícios mentais que permitem tudo isso (geralmente praticados por volta das 9 da noite – horário no qual ele costuma ir dormir). Algo que se torna ainda mais difícil se considerarmos quem dorme ao seu lado na cama.

Tom Brady e Gisele Bündchen se conheceram no final de 2006, em um blind date promovido por um amigo em comum. O amigo usou o mesmo argumento para convencer os dois: ele/ela é uma versão sua do sexo oposto. E a conclusão do cupido mostrou-se bastante coerente. Tanto Gisele, quanto Tom, se tornaram extremamente bem-sucedidos em suas carreiras, conseguiram estendê-las para além do prazo onde seus pares costumam encerrá-las e são considerados por muitos como os maiores da história em suas atividades. Uma família quase espartana que só se tornou possível porque Gisele e os filhos do casal seguem rotina e dieta regradas em comum em 90% do tempo.

Uma família quase espartana.

Os filhos, inclusive, ajudam a revelar uma outra característica importante de Brady compartilhada por Gisele: a discrição. Benjamin, nascido em 2009, e Vivian, nascida em 2012, se juntaram ao primogênito Jack, nascido em 2007, fruto de um relacionamento anterior com Bridget Moynahan e, assim como seus pais, as criança só são vistas em raras cenas familiares.

Tirar uma foto de Brady e Gisele em eventos noturnos que não sejam compromissos profissionais é uma missão difícil até mesmo para os papparazzis mais obstinados. Desde o casamento, realizado em 2009 numa cerimônia intimista, até hoje, a família leva a vida mais comum que seu status lhe permite.

Vivian, Ben e Jack, numa das poucas cenas que podemos vê-los.

Todos esses aspectos contribuíram para que Brady melhorasse progressivamente suas atuações e fosse eleito de forma unânime MVP da temporada 2007 quando bateu o recorde de passes para touchdown do ano. Recorde que só veio a ser superado por Peyton Manning três anos depois.

Naquele momento, Brady parecia estar no ápice de sua carreira. Fez contratos milionários de patrocínio, estabeleceu recordes, empilhou títulos e se consolidou no status de um dos maiores quarterbacks da história. Mas nem tudo isso foi suficiente para conquistar seu quarto título nos anos seguintes.

Até que veio 2014.

Um homem imparável

O ano não começou lá muito bem para os Patriots com duas derrotas nos quatro primeiros jogos. Sendo a última delas uma derrota acachapante 41-14 em um jogo de primetime contra o Kansas City Chiefs. O peso dos 37 anos de Brady, o fim da linha para ele nos Patriots, e o próprio fim da dinastia eram questões que se avolumavam na época. Para todas essas perguntas, em uma clássica entrevista à imprensa, a resposta do técnico Bill Belichick foi a mesma:

We’re on to Cincinnati.

Um dos poucos caras no mundo que podem mandar no Brady.

Não importava o passado. O que importava era o próximo jogo contra o Cincinnati Bengals. Resposta diferente que pudesse ser dada viria exclusivamente no campo e veio na forma de uma vitória de 43-17 contra um time invicto naquele momento na liga. No restante da temporada, o time venceu 9 dos 11 jogos e conseguiu chegar aos playoffs com a melhor campanha da conferência. A dinastia não tinha chegado ao fim.

No divisional round, vitória contra os Ravens, mesmo estando por duas vezes 14 pontos atrás no placar. As coisas foram mais simples na final de conferência com um 45-7 contra os Colts em jogo onde ocorreu o controverso Deflategate.

As duas semanas que antecederam o Super Bowl 49 novamente colocaram Brady no centro das atenções, pela virada que tinha conseguido na temporada e pela polêmica envolvida. A pressão advinda do caso era mais um obstáculo para quem iria enfrentar uma das melhores defesas da década contra o Seattle Seahawks.

Depois de Brady ceder duas interceptações, a final chegava ao último quarto com os Patriots 10 pontos atrás do placar. Nunca um time havia revertido uma desvantagem dessa nesse momento do jogo em 29 oportunidades anteriores. Era Brady de novo contra a lógica. E de novo, Brady ganhou.

Em dois drives perfeitos, New England conseguiu os dois touchdowns que davam a liderança de 28-24. Para os Seahawks, apenas um touchdown lhe era útil. E a chance veio perto do fim do jogo com a bola a 2 jardas da endzone. Os Seahawks tentaram desafiar a lógica, ao tentar um passe em vez de uma corrida pelo meio e foi então que o herói improvável, Malcolm Butler, longe de ser um dos defensores mais destacados do time, fez a interceptação da vitória.

Brady igualava o ídolo Joe Montana em números de títulos. Ele conseguiu realizar o sonho de todos os garotos que cresceram na Califórnia dos anos 1980 e viram a dominância do antigo quarterback dos 49ers. Tudo isso, justamente no ano em que muitos escreveram o epitáfio de sua carreira profissional.

Enfim chegou o quarto Super Bowl. Mas será que é o último?

Daqui em diante Tom planeja conseguir ainda mais títulos e já declarou querer jogar até os 48 anos de idade. Resta saber se o homem que venceu a lógica, vencerá, agora, o desafio contra o tempo.

***

Atualização em 06/fev/2017:

Os recordes quebrados por Tom Brady depois do Super Bowl LI:

1. Tom Brady conquistou o quinto Super Bowl, mais do que qualquer outro quarterback da história, deixando para trás Joe Montana (49ers) e Terry Bradshaw (Steelers), que possuem quatro anéis.

2. Maior número de jardas aéreas conquistadas: 466. É uma marca impressionante. O recorde anterior era de Kurt Warner, que em 1999 havia alcançado 415 jardas na vitória de St. Louis Rams por 23 a 16 sobre Tennessee Titans. A melhor atuação de Tom Brady havia sido em 2003 com 358 jardas.

3. Quatro prêmios de MVP do Super Bowl. Mais uma vez, Brady deixou Joe Montana para trás. Eles estavam empatados com três. Agora, o camisa 12 é isolado o dono do recorde.

4. Primeiro quarterback da história a conseguir virar a partida no último quarto por três vezes e conquistar o Super Bowl.

5. Maior número de passes completados em um jogo de Super Bowl: 43. Ninguém nunca na história lançou tanto do que Tom Brady neste domingo.

6. Maior número de tentativas de passes em um Super Bowl: 62.

7. 10 vitórias conquistadas na última campanha em jogos de playoffs, mais do que qualquer um em todos os tempos da NFL.

8. Tom Brady passou a se juntar a Charles Haley, ex-jogador do Dallas Cowboys, como o maior vencedor da história do Super Bowl com cinco anéis.

9. Brady já passou para 15 TDs em Super Bowls, mais do que qualquer outro jogador na história da NFL


publicado em 23 de Novembro de 2016, 00:05
Gustavo barreto

Gustavo Barreto

Interessado em como o trabalho pode promover saúde às pessoas, em uma miríade de esportes e em novas formas de se jogar conversa fora. Pode ser encontrado no Facebook.


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