Toda geração depois da nossa é a pior geração do mundo

Poucos traços são tão marcantes do envelhecimento de um ser humano quanto a sua total incapacidade para suportar as pessoas mais novas.

  • Nossos atuais Mecenas:
  • 130x50 jpg
  • Asm selo png

Se você fizer uma breve pesquisa no Google pelo termo “millennials” você vai descobrir que eles são os responsáveis, entre outras coisas, pelo colapso da indústria automobilística, pela crise dos modelos tradicionais de relacionamentos, pela morte do cartão-postal impresso e vem colocando em risco até mesmo o próprio conceito de “almoço” como nós o conhecemos.

Millennials também, é claro, não pensam à longo prazo, não se dedicam tanto ao trabalho, são narcisistas, vivem olhando para seus celulares e tem tão pouco vínculo com marcos tradicionais da vida adulta, como, por exemplo, ter uma casa própria, que a empresa criadora do “Banco Imobiliário “– “Monopoly”, no original – se deu ao trabalho de criar uma versão “millennial” do jogo onde você não acumula imóveis e bens mas sim experiências como retiros de meditação e jantares veganos em bistrôs hispters.

Mas por que, após tantas gerações, é exatamente esse grupo de pessoas nascidas entre meados da década de 80 e o começo dos anos 2000 que decidiu acabar com o modo de vida ocidental? O que esses jovens que conseguem usar o telefone celular sem precisar aumentar a fonte e que não aceitam uma indicação de série se ela não estiver disponível na Netflix tem de tão grave contra as tradições e ritos básicos da nossa sociedade?

Master of None, já viu? Tem no Netflix.

Bem, primeiro é preciso lembrar o quanto desses “traços” millennials não são escolha mas sim circunstância. O jovem de hoje não tem tanto vínculo com o lugar onde trabalha? Talvez tenha ligação com a realidade de que o conceito de emprego como os dos nossos pais e avós morreu e ninguém mais consegue entrar num lugar com 20 anos e se aposentar por lá - na verdade muitas vezes você comemora se completar um ano e conseguir tirar férias. As pessoas de 30 e poucos anos não compram mais apartamentos? Possivelmente isso tem a ver com o fato de que hoje em dia é mais fácil realizar aquele seu sonho esquisito em que você e a Vovó Mafalda andavam num unicórnio por uma grande floresta onde todas as árvores eram sua professora de matemática da 7ª série do que o sonho da casa própria.

E também, é claro, é preciso lembrar que poucos traços são tão marcantes do envelhecimento de um ser humano quanto a sua total incapacidade para suportar as pessoas mais novas.

Seja a mulher de meia idade que está no terceiro casamento mas fala que a sobrinha de 30 anos que mora junto com o namorado está destruindo a família tradicional, seja o roqueiro de 28 que fala que “os jovens não sabem o que é música de verdade” sendo que ele ouve a música que, algumas décadas atrás, as pessoas diziam que não era “música de verdade”, existe na nossa espécie um constante ciclo de estranhamento e irritação com tudo que representa as gerações mais novas.

Isso acontece porque é natural do ser humano temer a mudança e toda nova geração representa isso de uma forma bem direta? Isso acontece porque o jovem de hoje nos lembra da nossa própria juventude e de todas as oportunidades que perdemos conforme nos tornamos mais velhos? Isso acontece porque na verdade as pessoas mais jovens são realmente insuportáveis, como qualquer pessoa que já se sentou atrás de um grupo de adolescentes num cinema pode afirmar? É complicado saber, mas é claro que o constante conflito de gerações tem muito a ver com todas as acusações e quase teorias conspiratórias que cercam os millennials.

Somos, talvez, uma geração mais narcisista, com mais dificuldade pra criar vínculos e que vive com a cara no celular? Possivelmente sim. Mas isso tem a ver com uma criação mais liberal, um mundo com mais opções de maneiras de se relacionar e é algo que dificilmente poderia ser criticado pelo seu pai que acredita em tudo que recebe no Whatsapp. E da mesma forma é complicado negar que usamos um raciocínio parecido quando compartilhamos posts do tipo “quem nunca brincou com – insira aqui qualquer briquedo da década de 80/90 que na real nem era tão legal assim – não teve infância” ou dizemos que “esses moleques de hoje em dia são assim porque o mertiolate não ardia” ou qualquer bobagem parecida.

Então talvez o problema da geração X com os millennials – e que em breve vai ser o nosso problema com a geração Z – tenha muito menos a ver com as particularidades de cada geração e mais com uma soma das razões que a gente citou ali em cima. Toda nova geração representa uma mudança e uma quebra com aquilo que a geração anterior conhecia, seja em termos de hábitos, visão de mundo ou mesmo de uso da tecnologia. Toda nova geração nos lembra da nossa própria juventude e isso causa em algumas pessoas a sensação de que para os jovens de hoje tudo é “mais fácil”, como se não existissem dificuldades diferentes. E claro, todo jovem é naturalmente menos maduro e mais propenso a desafiar a ordem estabelecida, o que tende a causar incidentes em cinemas e quando você tem 28 anos e pagou 40 reais pra ver um filme 3D vai te parecer meio insuportável mesmo.

E levar isso em consideração vai fazer com que as amigas da sua mãe questionem menos as suas decisões? Não. Vai fazer com que você fique menos irritado com a galera de 20 anos quando você tiver 50? Improvável. Mas acredito que se isso evitar que daqui a 15 anos a gente esteja discutindo como a geração Z destruiu – insira aqui basicamente qualquer coisa – nós já vamos sim ter oferecido a nossa colaboração pra sociedade.


publicado em 23 de Novembro de 2018, 11:25
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Nossos atuais Mecenas: