Teste: como saber se tenho um problema com álcool?

Spoiler: está mais próximo do que imagina

Sexta-feira, a semana foi tão cansativa, né? Você decide encontrar os amigos e só há uma coisa a se fazer: sentar em um bar para beber, lógico!

Quando quer se relacionar com alguém, o que vai tornar a interação menos sofrida? Umas doses de vinho ou uns copinhos americanos de cerveja.

Tem gente que bebe pra ficar mais carismático, pra ganhar coragem, pra curtir melhor um show e tem até quem o faça pra esquecer dos problemas.

E não preciso ir muito longe para dar os exemplos. Sou culpado de tudo isso.

Tenho inúmeros amigos que não só não se imaginam sem o álcool como ele exerce um papel extremamente central em praticamente todas as suas interações sociais e lazer. Afinal, o que tem de errado nisso?

Bem, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou o Relatório Global sobre Álcool e Saúde e o uso danoso do álcool está relacionado a 3 milhões de óbitos em 2016 (quase 5,3% de todas as mortes mundiais). No Brasil, a estimativa é de que 4,2% (6,9% entre homens e 1,6% entre mulheres) dos brasileiros preenchem critérios para abuso ou dependência e o álcool esteve associado a 69,5% e 42,6% dos índices de cirrose hepática, a 36,7% e 23% dos acidentes de trânsito e a 8,7% e 2,2% dos índices de câncer – respectivamente, entre homens e mulheres em 2016.

Olhando, por alto, você poderia dizer "ah, mas isso é com os outros, eu só tomo uma nos finais de semana". Acontece que a linha que define o consumo danoso de álcool (ou seja, o alcoolismo) vem muito antes do que pensamos. Alcoolista não é só aquele que rola no próprio vômito às 10 da manhã em plena terça-feira.

Como saber se lido com algum transtorno relacionado ao álcool?

O teste é bem simples. Basta ver se você tem 2 ou mais dos 11 sintomas listados aqui:

Fonte: CISA

Se você tem 4 ou mais sintomas, é importante buscar ajuda de um especialista.

Assistir esse vídeo do excelente canal do Dráuzio Varella vai ajudar também.

Link Youtube

De 18 a 23 de fevereiro é a Semana Nacional de Combate ao Alcoolismo, com a finalidade de conscientizar a sociedade sobre as consequências e os transtornos relacionados ao uso do álcool.

Assim, quais são os desafios no combate ao consumo de álcool? Quais riscos e obstáculos? Quando saber se há necessidade de internação?

A Ana Café é psicóloga, idealizadora e diretora do Núcleo Integrado e uma das diretoras da Clínica Espaço Village, um espaço para tratamento de dependência química e nos responde essa e outras perguntas abaixo.

Qual o maior desafio no combate ao alcoolismo?

A minimização que o brasileiro ainda faz em torno de substâncias lícitas. Apesar do álcool ser a droga de maior risco social, nossa sociedade ainda tolera, permite e promove o uso de forma abusiva. O álcool é a droga que entra mais cedo na vida do jovem, muitas vezes por pressão do grupo, outras por exposição pela própria família.

A relação do brasileiro com o álcool é ainda muito permissiva e os pais geralmente acabam sendo permissivos também, sem saber como dar limites ou por acharem ser mais seguro permitir o uso do que os filhos mentirem ou omitirem. Sabemos que quanto mais cedo o consumo, maiores são os riscos de se desenvolver o alcoolismo.

Quando nossos filhos são pequenos tentamos preservá-los do contato com doenças através de vacinas, redução da exposição a fatores de risco. Por que é diferente com o álcool? Porque nossa sociedade ainda tem uma visão limitada e preconceituosa em torno do alcoolismo. Ainda vêem como um defeito de caráter ou falta de força de vontade e não como uma doença crônica.

Ana Café, uma das diretoras da Clínica Espaço Village  

Quais são os sintomas de alcoolismo?

Os sintomas do alcoolismo são progressivos, como é a doença. O alcoolismo é uma doença progressiva e gradativamente seus sintomas vão se manifestando. A doença passa por etapas - nem todo usuário é um dependente químico/alcoolista, mas todo alcoolista/dependente químico foi um dia um usuário e existe uma linha muito tênue entre o uso e a doença. A doença passa de um beber social, moderado e controlado para um uso abusivo e compulsivo.

O principal sintoma é a perda de controle no tempo de uso e na quantidade. Perda de controle é a marca registrada da doença! Além disso, os sinais de tolerância, que é a necessidade de doses cada vez maiores e mais fortes para obter o estado desejado. Ao mesmo tempo, após a doença instalada, temos a tolerância inversa, que é quando com doses cada vez menores atinge-se mais rapidamente a alteração de comportamento.

Os sintomas de abstinência costumam estar sempre presentes, mas muitas vezes são encarados como angústia, depressão, irritabilidade momentânea, sendo mascarados pelo uso de medicações antidepressivas ou ansiolíticas (prescritas ou não). Os médicos antes de prescreverem deveriam ter uma escuta mais apurada, no sentido de compreender se estão tratando de depressão e ansiedade ou de um quadro de negação do alcoolismo já instalado.

Quando tomar a decisão de internar um alcoolista?

O ideal sempre é fazer com que o alcoolista busque ajuda. Sabemos que nem sempre isso é possível pois os mecanismos de defesa da doença estão sempre presentes, no sentido de proteger a própria doença. Costuma-se orientar as famílias a buscarem ajuda antes de uma internação involuntária (esta deverá ser o último recurso a ser utilizado).

A família precisa aprender a se posicionar e oferecer limites para o alcoolista, mas na maioria das vezes não sabe como fazê-lo. É dominada por sentimentos e emoções incontroláveis que por muitas vezes acabam dificultando o processo. Mas respondendo a pergunta, o momento de tomar a decisão por uma internação involuntária é quando percebemos que o alcoolista apresenta comportamentos que colocam em risco a sua vida ou a de outros, comportamento violento, pensamentos suicidas, entre outros.

É aconselhável alcoolistas em recuperação beberem cerveja & drinks sem álcool?

Não, invariavelmente este comportamento leva a recaídas. Um alcoolista em recuperação tanto precisa mudar seus hábitos de ingestão do álcool, como os hábitos sociais relacionados ao uso. Falamos do fenômeno "Porre Seco", que é quando a pessoa está sem ingerir álcool, mas com o mesmo comportamento e prejuízos da ativa.

Autossuficiência é um dos fatores que dificultam a adesão e manutenção do tratamento. Como seria o paciente "dos sonhos"?

Acho difícil quem trabalha com adicção não ter um paciente dos sonhos. Todos que trabalhamos com isso sabemos das dificuldades e da nossa impotência perante a doença e de nossas limitações. Ter um paciente que aceite estar em tratamento, que entenda que tem um problema, mesmo que a principio não visualize que seja o álcool, já é um sonho.

Começamos pelo processo de conscientização e autoconhecimento para que este individuo possa chegar num lugar que chamamos de rendição. O paciente rendido talvez seja o paciente dos sonhos, aquele que sabe que perdeu para a doença, que perdeu para a substância, que aceita que sua vida fica incontrolável sob o uso do álcool e qualquer outra substância.

Um paciente rendido não manipula e usa medicações, um paciente rendido não manipula os familiares e/ou terapeuta, um paciente rendido quer ajuda e aceita ajuda.

Ficou curioso e quer ampliar seu entendimento? Que tal nos ajudar respondendo a nossa pesquisa nacional sobre alcoolismo?

Apesar de tão presente, o consumo de álcool está imerso em mistério. Pouco sabemos sobre por que as pessoas bebem. Ou porque ou como chegam a abusar. Como certas quantidades de álcool as impactam. O quanto a fase de vida, gênero, raça, orientação sexual, status de relacionamento e tantas outras variáveis mudam o perfil de consumo.

Decidimos, então, criar um imenso banco de dados sobre os diferentes perfis de consumo, do bebum inveterado a quem nunca se interessou pela bebida.

Queremos utilizar o conhecimento gerado para beneficiar as pessoas e trabalhar em parceria com instituições, universidades e ONGs. Nos ajudam?

Aqui está o questionário (as perguntas são fáceis de responder):

 
Pode clicar na imagem pra abrir o questionário também :)

Se puder nos ajudar compartilhando o link da pesquisa com amigos e familiares, seja por whatsapp ou em suas redes sociais, agradecemos muitíssimo. É essencial termos respostas de segmentos sociais diversos, de pessoas que bebem e que não bebem.

A pesquisa está ativa até amanhã (sábado, 23 de fevereiro), às 20hrs.

Agradecemos, de coração, pela força!


publicado em 22 de Fevereiro de 2019, 15:32
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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