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Tenho pinto pequeno | ID #57

Sem fantasias aqui, pinto pequeno pode ser um grande problema, mas não é o fim da linha.

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"Tenho o famoso problema do PPQ (Pinto Pequeno).

Nunca tive problema em me relacionar com mulheres, sou um cara alto (1,90) e gosto de frequentar academia, preferencialmente musculação, então pode-se dizer que sou um cara em forma e sempre me disseram que sou bonito. Mas o meu problema com as mulheres vem na hora do 'vamo vê' sempre que tiro o 'pequeno' para brincar, sempre noto os olhares que as mulheres dão.

Como se não bastasse ser pequeno em comprimento também sou pequeno em grossura. Algumas mulheres reclamavam que não sentiam nada e tive alguns casos que elas simplesmente riram e foram embora.

Essas situações já me acarretaram diversos problemas como depressão e mais recentemente o alcoolismo. Já estou a mais de 2 anos sem me relacionar com nenhuma mulher pelo medo da rejeição e sinceramente não sei o que mais fazer. Isso está acabando comigo.

Gostaria de saber se o Sr. tem alguma luz para compartilhar sobre esse problema."

* * *
 
Caro Pequeno,

Vamos por partes. Esse assunto é muito especial, delicado e merece todo o carinho do mundo.
 
A identidade masculina, quase generalizadamente, se forma ao redor do pinto. Nossa cultura é falocêntrica. Isso é uma faca que machuca dos dois lados: ao mesmo tempo que parece empoderar o homem, o vulnerabiliza, pois há uma dimensão do pênis que funciona na absoluta contramão da filosofia de empenho ou força: quanto mais peso se coloca sobre o pinto mais acanhado e desfuncional ele fica.
 
Como os homens idolatram seus próprios pintos, consequentemente as mulheres absorvem indiretamente essa importância, mesmo entendendo que o pênis é mais um dos ingredientes do sexo.

As que idolatram são essas que riem ou fogem do seu pinto pequeno, pois elas provavelmente não conseguem suportar o peso de interagir sexualmente com um homem sem que tenham prazer imediato na penetração.

Sim, é verdade, muitas mulheres terão objeções de ficar com um homem que não as preencha vaginalmente, seja em comprimento ou largura. E é preciso respeitar essa barreira.
 
Mas há também manobras compensatórias que trazem para o sexo uma experiência global que vai além da penetração pura e simples.

Pode parecer o consolo dos desafortunados, mas é possível descobrir muito da sexualidade sem a pressão de um pinto.

Certa vez atendi uma senhora que queria a todo custo ajudar o marido recém-operado de um câncer de próstata a redescobrir o prazer sem o falo.
 
Foi uma jornada interessante. Eles tiveram que descobrir muitas coisas sobre transar. A primeira delas foi de que o pinto duro não era o único sinal corporal de desejo, a respiração, o olhar, a força ou ternura também contavam. Eles descobriram que esfregar o corpo um no outro poderia ser um jeito muito saboroso de vivenciar o desejo.

Em última instância, perceberam que o ponto definidor de uma boa transa era a alegria e a liberdade que imprimiam na dinâmica de casal e que se só bastasse a mente deles num corpo frágil pelo tempo isso poderia resultar em sexo sem corpo. Era na vontade de se possuírem sem amarras que o desejo pegava fogo, o corpo era um acessório importante, mas não inevitavelmente indispensável.
 
Na prática, você terá que descobrir sua força para além do pênis, ajudar a parceira a não ter medo de um pinto pequeno.

A reação dos outros em relação a nós depende muito da nossa própria reação.
 
Existem garotas que conseguirão passar por cima disso e encarar outra proposta de sexo para além da rola grande e carnuda. E outras que acharão um desafio muito perturbador.

Vale frisar que sua altura e porte criam expectativas, mesmo que involuntárias. Parece haver uma crença popular que cria similaridades entre altura, tamanho de pé, nariz e mão com o pinto, e isso pode pesar tanto quanto a própria fantasia de que pintos pequenos são desconfortáveis.

Imagine que situação desafiadora que você estabelece para a garota, pois tecnicamente ela precisaria ter relações com você pressupondo menos prazer na fricção pênis-vagina para uma alegria maior sua do que dela. Você seria capaz de fazer o mesmo por elas? Conseguiria ter relações sexuais onde só a garota estivesse se divertindo? O desafio é brutal quando precisamos conceder muito de nós pelo outro e a alegria do outro se transformar na nossa. Nem todos estão prontos para isso, alguns aprendem, outros não.
 
Eu acredito na vida possível, em fazer o melhor dentro de cenários desfavoráveis. Você está nadando contra a correnteza da fantasia latino-brasileira do homem caliente e pintudo. Não se engane, as pessoas têm menos prazer, frequência e boa performance do que alegam.

Os que dizem fazer muito (e gostam de exibir isso) não raro costumam ser insaciáveis e performáticos, muitas vezes preferem ter a vaidade da caçada atendida e o sexo é mera descarga operacional do seu ego. 
 
Não é agradável ser humilhado, mas como eu disse, o seu jogo de cintura pode mudar percepções. Sua personalidade será forçada, para seu bem, a se sofisticar e causar um impacto agradável que inicialmente compensaria o desapontamento estético da garota até que ela entre na dança. O sexo começará depois que ambos seguirem para além da penetração e, assim, vocês poderão se divertir.

Não queira ser unânime, muitas garotas existem felizes da vida com seus parceiros dos mais variados tamanhos. Encontre-a e descubra uma forma particular de tornar algo pequeno em um fator engrandecedor da relação.

No ápice da sua desenvoltura você poderá interagir com esse medo com mais leveza, "acho que você calculou errado, sou alto né? Vamos ver como ele vai se comportar hoje com essa vontade que estou de você!".

A alegria é um aliado, a firmeza cheia de desejo também. O fechamento numa catacumba não, para nada aliás. Mão na massa!

* * *

Nota: a coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas). É apenas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão ampla, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta, leia as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa. Se ainda assim considerar sua dúvida benéfica, envie para id@papodehomem.com.br. A casa agradece.


publicado em 21 de Abril de 2016, 00:05
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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