Suicídio: mitos, como identificar, o que fazer para ajudar? | Setembro Amarelo

Vamos falar dos 15 indícios para você identificar o risco, esclarecer 10 mitos sobre o tema e dar algumas dicas sobre como ajudar alguém nesta situação

Nunca sabemos se há alguém ao nosso redor que pensou, pensa ou tem um fator de risco ligado ao suicídio. A gente não sabe nem mesmo se nós teremos esse tipo de impulso. Muitas vezes não sabemos como lidar com isso ou que informações buscar.

Toda vez que falamos sobre suicídio, é preciso pensar nos vários aspectos que abarcam esta questão: não podemos falar de suicídio, e sim de ‘suicídios’.

Ilustração publicada originalmente no Jornal do Campus USP.

E por que tão poucos estudos sobre suicídio são divulgados?

Existe um certo cuidado redobrado no jornalismo ao noticiar fatos ligados ao suicídio, em especial, de figuras famosas. Os estudos indicam que alguns índices de suicídio aumentam após a publicação e divulgação de uma notícia relacionada a alguma figura famosa (como aconteceu, por exemplo, com a Marilyn Monroe e com Kurt Cobain). 

O suicídio, portanto, acaba se tornando um tabu — é como se fosse um pouco proibido falar sobre ele. Mas, hoje, vamos enfrentá-lo.

Neste texto vamos falar, primeiro, sobre 15 indícios que podem te ajudar a identificar quando existe o risco de suicídio, em seguida vamos esclarecer 10 mitos que costumam vir a tona quando se fala sobre o tema. E, por último, vamos dar algumas dicas sobre como ajudar alguém que está nesta situação:

Como saber se alguém está em  situação de risco de suicídio? 

Eu separei 15 itens que vão te ajudar a identificar quando uma pessoa estiver numa potencial situação de cometer suicídio. É importante lembrar que nada é determinado de maneira exata nas ciências humanas, em particular, na psicologia.

No entanto, juntando esses 15 itens — reparando na frequência e intensidade deles — você terá bons indícios para identificar situações de risco. 

1. Visão distorcida por uma sensação de falta de alternativa

É como se a pessoa tivesse num grande beco, sem saída emocional dentro da própria perspectiva, seja por uma questão de perda amorosa, perda financeira, perda por idade, perda de status, perda de uma sensação de pertencimento a uma determinada comunidade (ou a um determinado grupo). 

Ou seja, isso acontece a partir de qualquer sensação crescente de afunilamento emocional da própria visão como um todo, dando a ideia de que “não existe saída”.

2. Desesperança e falta de sentido. 

Desesperança e falta de sentido são coisas que, isoladamente, estão presente na vida de muitas pessoas. No entanto, no caso da pessoa que potencialmente pode cometer o suicídio, isso está mais presente; é como se ela sentisse que não há resposta, que não há razão de viver.

Assim como no item acima, ela não consegue visualizar qualquer sensação de melhora aparente. É como se tivesse isolada dentro da própria bolha.

3. Constante dor emocional 

Sofrimento constante, a sensação de que nada mais faz sentido acompanhada de uma dor emocional. Há uma sensação constante de desagrado, mal-estar, é como se ela sentisse o corpo, a noção e a própria vida dela arder de um jeito cada vez mais insuportável;

4.Uso de substâncias que trazem alívio

 Não é raro que a pessoa esteja numa posição frágil e, então, possa fazer uso de alguma substância — seja cigarro, álcool, maconha, cocaína, crack,  ou medicamentos — visando aliviar a sensação de apatia emocional.

Isso pode acontecer tanto para dar à pessoa uma sensação de maior energia e ânimo, quanto para trazer a tona o mal-estar interno.

5. A perda de interesse em relação às coisas

Coisas e pessoas das quais ela gostava muito deixam de ser interessantes ou  motivadoras. É como se ela, gradativamente, apagasse as luzinhas na casa porque é como se fosse se desconectando do mundo real, se desconectando das pessoas e das coisas pelas quais é apaixonada. 

6.Sensação de Isolamento social

O processo de perda de interesse em relação às coisas vai levando a pessoa a uma sensação de isolamento social.

O indivíduo nesta situação vai se fechando mais em si mesmo — nas suas próprias coisas, nos seus espaço, na sua mente — interagindo pouco trocando com as outras pessoas, sem buscar ou oferecer nada nas relações que tem.

7. Descaso com a aparência e com o auto-cuidado

Não é raro que esse descaso aconteça. É como se esta pessoa estivesse se importando gradativamente menos com o que acontece do lado de fora e fosse desistindo, se isolando. 

A perda da sensação de autoestima, de cuidado consigo mesma, e também da preocupação com a visão dos outros vai gradativamente desaparecendo, levando-a a ficar cada vez mais descuidada em relação a si própria.

8. A alteração de humor

"Você viu essa pessoa? Da última vez que foi vista: sorria muito, tinha amigos, saia de casa frequentemente, vários hobbies, aproveitava a vida. Se o encontrar por favor, ligue. Eu sinto muito a falta dele"

Esta é uma característica muito presente: há fases de apatia, desinteresse completo, mal-estar, como se ela estivesse sempre entristecida ou  deprimida.

Por outras vezes, há picos de euforia meio incompreensíveis para quem olha de fora e, por esse motivo algumas pessoas podem ficar confusas quando uma tragédia acontece, questionando: "mas ela estava bem outro dia..."

9. Apatia generalizada

A sensação de apatia se manifesta de modo geral: é como a pessoa não reagisse às situações, sejam estas boas ou ruins.

10. Envolvimento em situação de perigo

Não é raro que a pessoa se envolva em situações de perigo (contra a própria integridade física), às vezes acidentes domésticos, em outras, um acidente na rua, fruto de descuidos…

É como se a pessoa estivesse desconectada do senso de proteção, do alarme que a gente tem que cuidar para se manter vivo.

11. Preparo financeiro para um “fim”.

Em alguns casos, principalmente no de pessoas que são provedores da família, a pessoa tende a ir se preparando financeiramente — como se estivesse encaixotando todos os bens, todas as finanças — deixando tudo mais ou menos preparado para aquilo que ela entende como a derradeira despedida.

12. Estado emocional de ódio

Em alguns casos também é possível notar um estado emocional de ódio, raiva e às vezes até sentimento de vingança, como se a pessoa estivesse querendo esganar alguém de modo constante.

13. Sentimentos de vergonha culpa ou raiva

Em outros casos, diferente do item acima, algumas pessoas também manifestam vergonha, culpa ou raiva de si por conta de algum tipo de comportamento que ela considere inadequado, ruim ou prejudicial.

14. Medo Constante

É possível perceber uma sensação de medo relativamente constante de perder o controle do próprio comportamento das emoções da vida como um todo.

15. Bem estar da decisão

Curiosamente, quando a decisão do suicídio é tomada a pessoa tem um certo alívio súbito, uma sensação aparente de bem-estar porque, na realidade, o conflito (a angústia de morrer ou não) já está finalizada.

Sabe quando um doente terminal melhora antes de partir? É como se ela tivesse decidido pelo destino dela e, a partir daí, os outros estranham a recuperação súbita. Na verdade, a pessoa tem um estado de alívio pela decisão tomada. Nessa hora, pode ser que os familiares e amigos deixem de cercar a pessoa e, então, o pior acontece.

Fatores de risco

Existem alguns fatores de risco que estão que presentes e que aumentam a probabilidade de suicídio ou a reincidência da tentativa. Eu vou citá-los brevemente: 

  • Tentativa anterior de suicídio; 

  • Transtornos mental, seja de humor ou de personalidade; 

  • Abuso de substâncias químicas (álcool, drogas, medicamentos) numa idade entre 15 e 35 anos ou após 75 anos costumam gerar mais risco, 

  • Histórico familiar de suicídio (homens se suicidam mais que mulheres); 

  • Falta de vínculos sociais e/ou familiares; 

  • Doenças em estágio terminal ou incapacitantes; 

  • Situação de desemprego; 

  • Contexto de declínio social

  • Situação de estresse continuado na vida cotidiana, principalmente quando se está solteiro, divorciado ou recém-divorciado.

A depender das vertentes psicológicas que tentam explicar o suicídio, existem três  linhas de raciocínio que tentam levantar causas do funcionamento psicodinâmico do suicídio (essas linhas de raciocício são hipóteses controversas e discutíveis):

Primeiro linha: Costuma estar presente um sentimento de culpa ou impotência diante de algo que a pessoa sente como problemático errado ou monstruoso na personalidade ou na vida dela. 

Por esta perspectiva é como se o suicídio fizesse com que ela apagasse a chama daquele mal-estar que ela carrega dentro de si a respeito de algo que ela sente, pensa, fez ou é. 

Segunda linha: o segundo fato também presente é a raiva, é como se a pessoa estivesse dirigindo contra si mesma uma rejeição que sente por outra, mas que não pode ser admitida para si mesma. É como se ela tivesse destruindo aquilo que ela odeia na medida em que ela tira a própria vida;

Terceira linha: é como se fosse um desejo inconstante de transformação, como se a morte fosse levá-la algum estado de maior tranquilidade, ou pelo menos de anulação daquela dor e do sofrimento.

Esses são aspectos mais inconscientes que,  é importante ressaltar, não são claros e não são unânimes nos estudos sobre suicídio. 

Uma pergunta que alguns estudiosos fazem é: a pessoa que se suicida é, ao mesmo tempo, algoz e vítima do ato. Ou seja, há um elemento de agressão dentro dela, mesmo que seja contra si mesma. Portanto, o estereótipo de fragilidade pura ou papel de vítima, pode não estar presente no ato suicida. 

Desfazendo os mitos sobre suicídio

Mito 1: “Quem diz que vai se matar não se mata”

O primeiro dos 10 grandes mitos a respeito do suicídio é que pessoas que dizem que vão se matar não se matam. Isso não é verdade!

De modo geral as pessoas que cometem suicídio avisaram de algumas maneira as pessoas que estavam a sua volta — de uma forma direta ou indireta, seja brincando ou seja falando mais sério. 

Então, na verdade, se alguém avisa há uma chance maior de efetivar a consumação do ato. É preciso ouvir, perguntar, se importar, dar voz ao que está sendo dito, sem banalizações e sem expor a pessoa.

Mito 2 “Quem se suicida é porque não procurou ajuda”

Segundo alguns estudos, 75% das pessoas que cometem suicídio procuraram ajuda, efetivamente, antes da consumação do ato, portanto elas buscam ajuda sim. Portanto, a ajuda e o apoio emocional funcionam, sim, como um elemento inibidor da ação suicida, mas nem sempre vai garantir que o ato não ocorra.

Mito 3 “Pessoas mentalmente saudáveis não cometem suicídio.”

Existe uma controvérsia nesse aspecto em particular porque alguns estudiosos dizem que, basicamente, existe algum nível de transtorno mental associado ao suicídio, como por exemplo, a depressão ou o transtorno bipolar.

Já outros dizem ser possível que uma pessoa se suicide mesmo sem nenhum tipo de transtorno emocional. É uma controvérsia, mas é importante desmistificar e dizer que pessoas que não demonstram nenhum grau de perturbação também pode cometer suicídio.

Mito 4: "Quem tenta suicídio e sobrevive a ele não comete de novo.”

Isso não é verdade. Após uma tentativa de suicídio, aumenta-se em 100 vezes a probabilidade dela voltar a tentar e efetivamente se suicidar.

É importante que essa pessoa receba um cuidado redobrado e integral. Como ela será cuidada emocionalmente? Que tipo de apoio social terá? Como será reinserida no mundo de relações pessoais, amorosas, profissionais?

Cada detalhe precisa ser pensado (com ações) para que a reincidência não aconteça.

Mito 5: “Você não deve falar sobre suicídio com a pessoa porque senão você pode incentivá-la a fazer isto.” 

Isso também não é verdade. Inclusive, os estudiosos de um modo geral dizem que é importante você falar sobre o assunto abertamente. Falar com todas as letras, obrigando todos os envolvidos a tornar o assunto real, sem tabus. Isso possibilita ações efetivas. (Eu já vou voltar nesse ponto, lá na parte sobre como ajudar)

Mito 6: “O suicídio é coisa de gente rica” 

Esse mito parte do princípio de que quem é “pobre”, tem de trabalhar tanto para garantir sua sobrevivência que não “tem tempo para essas frescuras”.  

Na verdade, alguns estudos apontam que pessoas em situações extremas —  do ponto de vista financeiro — têm mais propensão de cometer suicídio. Ou seja, tanto as pessoas que estão em condição de pobreza extrema, como de riqueza abundante, podem ter uma predisposição maior ao suicídio.

Isso acontece porque, apesar de tudo, estes dois polos são faixas de risco: uma, por uma escassez extrema, e outra porque sente que tem muito a perder.

Mito 7: “Se a pessoa planeja o suicídio é porque ela quer acabar com a vida”

Ilustração por Carmen Daf.

É importante entender uma coisa: a pessoa que tenta suicídio quer colocar um fim à dor dela, e não necessariamente à vida.

Se ela conseguir perceber que existe uma rota de saída, ela poderá preferir seguir naquele caminho e não o do suicídio. Então, é a percepção de extermínio da dor que leva a pessoa a se matar;

Mito 8: “Quando a pessoa que tem ideação suicida diz que se sente melhor, isso é um bom sinal”

Isso não é necessariamente verdade, pois como eu disse, esta pode ser aquela melhora que antecede o ato do suicídio de fato. 

Mito 9: “A pessoa que se suicida é fraca.” 

Existe uma controvérsia neste ponto para algumas pessoas, porque a noção de fraqueza é muito relativa.

O que se percebe, de um modo geral, é que as pessoas que tentam ou que cometem suicídio, são pessoa que apresentam uma rigidez na maneira de lidar com as coisas, uma tendência um pouco extremistas de enfrentar as emoções e as escolhas da vida.

Mito 10. “Quando a pessoa decide não há o que fazer para impedir”.

Na verdade existem coisas a serem feitas, sim, para evitar o suicídio e vamos falar delas a seguir.

Como ajudar?

Se há alguma pessoa do seu convívio, que você suspeita que esteja em situação de risco, e que se enquadra em algumas das características aqui citadas, vamos apresentar algumas atitudes que podem ajudá-la. 

A regra número um é: seja direto, sem rodeios, sem comer pelas beiradas. Pergunte diretamente para pessoa. 

Algumas perguntas podem ajudar a guiar a conversa são 

  • “Você já pensou em tirar a sua própria vida?”
  • “Você já planejou isso?”
  • “Você está pensando nisso, agora?”
  • “Se você já planejou suicídio, como você pensou em fazer isso por quê?”
  • “Você acha que a vida não vale a pena, não acha que existem outras opções para o seu desejo de tirar a vida? O que podemos fazer a respeito de sua vida pessoal/amorosa/profissional?” 

Essas perguntas são diretas, exatamente para não ter algum tipo de subterfúgio ou mal entendimento sobre o assunto quando a pessoa é questionada.

Em segundo lugar, quando for abordar esta pessoa, fale com ela destituído de qualquer tipo de cobrança, raiva, indignação e, principalmente, julgamento. 

A sensação de pressão externa, ou de carregar um mal consigo mesmo, é algo extremamente problemático para pessoa que está considerando o suicídio como alternativa e, neste caso, a última coisa que essa pessoa precisa é de alguém que a condene ou que a julgue.

Se esta pessoa sente em você uma conexão, um elo, ela tem uma grande possibilidade de se abrir com você. Agora, se ela vir em você uma figura de autoridade ou algo que amedronte, algo que na verdade vai problematizar ainda mais aquela situação, provavelmente ela não vai te contar sobre o que tem se passado dentro dela. 

Um aspecto muito importante, nesta situação, é que, quando vem uma resposta positiva — "sim, pensei em me matar" — nesses casos você precisa criar um pacto, um compromisso com essa pessoa de que, se alguma situação ou problema acontecer, se ela tiver esse impulso novamente, que venha a conversar com você e que traga esse assunto à tona. É um pacto e você vai fazer olho no olho. 

Se é uma pessoa menos próxima a você, é importante comunicar a algum familiar ou amigo próximo para que essa pessoa seja a portadora desse pacto.

É importante que as pessoas que estão em volta dela saibam. Todos olhos amigos e companheiros são bem-vindos. Não adianta ter uma abordagem dramática, exagerada, é preciso ser sereno, sério, comprometido. É um pacto de vida, de transformá-la num lugar mais confortável.

Por último procure alguém de confiança que nãos seja um leigo no trato com pessoas e que conheçam mais do assunto, elas são melhores ajudadoras do que simplesmente gente que têm opiniões diversificadas e tendenciosas a respeito desse assunto.

Procure também um psicólogo para que a pessoa possa recorrer à ajuda profissional e especializada. Uma figura religiosa, por exemplo, pode ser uma ponte para orientar em alguma direção. E finalmente o médico psiquiatra que vai poder intervir com recursos mais efetivos, como remédios ou estimulação magnética transcraniana (isso não é choque elétrico).

Você deve ir junto. Se ela resistir, você pode se consultar com o profissional e perguntar como trazer a pessoa que você teme pela vida. Não espere boa vontade da parte dela e não a coloque numa camisa de força, mas coloque todo o seu empenho e força moral sobre ela.

O mais importante é, não deixe esse assunto silenciar, tudo o que puder ser feito e divulgado sobre o suicídio é valioso.

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Caso precise de ajuda, converse com alguém próximo ou entre em contato com o CVV. Você pode ligar para 188 ou entrar em contato pelo site do chat. 

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publicado em 18 de Setembro de 2019, 11:05
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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