Sobre comer lanche com as mãos

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Fui, nesse último final de semana, ao recentemente famoso Vapor Burger, na Vila Madalena. Um lugar que inspira rock 'n roll, minimalismo aconchegante pra abraçar a sua falta de preocupações, abrandar os pudores incrustados em todos nós, bater de frente com o decoro dos restaurantes de três tipos de altura de pratos.

Escuro, tijolo a mostra, inferninho gastronômico, fetsa estranha com gente esquisita

Me serviram bebida na garrafa. O suco da pequena veio num copo que simula aqueles potes de requeijão, com aquela rotação na borda (pra fechar uma suposta tampa) e tudo o mais. Fomos lá comer um lanche, um sanduíche, o famoso sanduba, um hambúrguer nervoso. A menina que recepciona a galera -- uma ruiva de decote generoso, shortinho bem curto daqueles que o bolso fica aparente, tatuagem, maquiagem pesada, a porra toda -- já apresenta a falta de modos antigos. O grande lance é chegar e aproveitar.

Só que, em vez de um público condizente, ao menos naquela noite e horário específicos em que eu estava presente, uma turma que facilmente teria passaporte da coxinholândia entupia o local. O oráculo Xico Sá já havia registrado a previsão desse presente desastroso:

Ele não come, ele não bebe, ele degusta.
Ele não combina as coisas, ele harmoniza.
Ele não vai à cozinha, utiliza o espaço gourmet.
E assim mil e uma frescuras. O homem-bouquet ou o homem-hortinha e quase sempre o homem-de-predinho-antigo [vide post anterior deste blog aqui] conjugam todos esses verbos e situações.
Ele não sonda, ele não vê qualé, ele prospecta. Usa o verbo prospectar inclusive no assédio amoroso. Que romântico!
Mas deixa o rapaz prospectar em paz, fiquemos nos usos e abusos dos degustadores e harmonizadores que fizeram do mundo um planeta-gourmet.
Tudo é gourmet. Água, café, suco, ovo de páscoa… Se brincar tem até doritos-gourmet.
Tudo é gourmet e tudo se harmoniza. Hoje mesmo recebi um convite para harmonizar cerveja com chocolates finos. Lembrei do velho Francisco, meu pai, lá no seu rancho na chapada, autêntico macho-jurubeba, e declinei do chamado. Tô fuera. Já ando afrescalhado demais, chega!
A vida é muito curta para a gente ficar só degustando. Se o cara te convidar para degustar, em vez de comer ou beber um vinho, corra, Lola, corra, é roubada na certa. Se só degusta, jamais vai a fundo.
Realmente se abusa desses verbos de moda. Outro dia a Flávia Gusmão, ótima colunista do “JC” do Recife, relatou um caso que vai além de qualquer exemplo que eu pudesse imaginar. Uma amiga dela foi agraciada com uma degustação de papel higiênico. Isso aí, receberia em casa ofertas para degustar. Oi!
E você ai, caríssimo(a) leitor(a), já harmonizou alguma coisa hoje?
Agora me dê licença, madame, que vou ali degustar a minha rabada-gourmet. Sim, para harmonizar, Catuaba Selvagem ou qualquer outro vinho fino com aroma amadeirado.
E como diria meu amigo Ibrahim Sued, ademã que eu vou em frente.
Dito em seu blog, na Folha de S. Paulo

De tanto harmonizar, de tanto levar aquela vida gourmet paulistaninha, até o singelo ritual de empastar as mãos com o molho do lanche está pra virar uma das delícias em extinção. Pra onde eu olhava, lá estavam eles, cortando, segurando cada camadinha de pão, carne e molho, apertando, travando o processo, sufocando o lúdico do processo. Lá estavam eles, os vilões, os conjeturados heróis, os detratores dos trejeitos ogros.

Os talheres.

O pessoalzinho falava sobre um futuro mochilão na Europa, faziam bromas em voz alta, mapeavam o festival grande que vai rolar, pra poder dar tempo de ver todas as bandas que querem ver, tudo nos conformes. Mas, nessas trocas de ideias da mocidade, pedacinhos simétricos eram cortados daquele lanche que pedia o bendito rock, a safadeza juvenil e inconsequente do rock.

A natureza do lanche é justamente ser sujo, malcriado, teimoso

A molecada que dançava escondida nos quartos ingleses enquanto as rádios piratas cuspiam aquele sacolejo depravado não se arriscaram pra isso, pra ver sua prole criar essa geração que come quadradinhos de sanduíche em vez de se lambuzar com a gordura, com o queijo, de pescar com a ponta dos dedos o pimentão e mostarda que caíram no prato.

Não!

Às favas com as norminhas de etiqueta dos bistrôs franceses, da aristocracia da comida. Ora, bolas, estamos falando de hambúrguer, daquele alimento que é sinônimo de James Jean, de jaqueta de couro, de estrada, de malfeitorias pro estômago e pro coração!

Cada parte do sanduba transformado em um triste canapé decreta o estado moribundo da insubordinação, a assepsia chata do mundo moderno.

Lembrem-se, garotos e garotas, ser educado é diferente de ser, bem, é diferente de ser chato.

Esse rock n' roll, do jeito que eu vi, tava mais pra foxtrote.


publicado em 28 de Março de 2013, 21:00
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Jader Pires

É escritor e editor do Papo de Homem. Seu livro de contos é o Ela Prefere as Uvas Verdes. Está no Facebook, no Instagram e escreve semanalmente sua newsletter, a Meio-Fio, com contos/crônicas e uma curadoria cultural todas às sextas, direto no seu e-mail.


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