Lançamos nosso primeiro ebook! Vem conhecer as 25 crises do homem (e como superá-las)

Seu corpo quer movimento

Somos moldados pelas viagens que fazemos, pelas culturas que conhecemos, pelas movimentações nossas de todos os dias

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Se nosso escritório falasse, ele bocejaria.

Eu, pelo menos, sempre trabalhei em um escritório, cercado de colegas, em uma mesa cheia de papéis e diante do computador.

Apesar de aproveitar as férias para (após muita economia) viajar por lugares díspares como Nova Déli, Istambul, Catar, Agra e Toledo, minha rotina de trabalho sempre foi sair de casa, chamar o elevador, entrar no escritório, sentar na cadeira e ler, ler dezenas de páginas para depois escrever outras dezenas de páginas no processador de texto, olhando o dia passar por uma janela.

Às vezes nos sentimos como o protagonista de "Se meu Apartamento Falasse", de Bylli Wilder

E eu estava nessa quando me convidaram para fazer um trabalho diferente: sair em viagens quase todas as semanas nos próximos dois anos, conhecendo novos lugares e me relacionando com pessoas diferentes a cada viagem. Apenas nos fins de semana poderia voltar para casa, e isso só para me preparar para outra jornada, abastecendo minha mala com roupas limpas, novos livros e material de consumo. Algo muito diferente de planejar uma viagem nas férias, de modo esporádico e bem controlado.

Usei tudo como desculpa para recusar a nova atribuição: meus familiares, meus amigos, meu apartamento, meu projeto de escrever um livro e, até mesmo, os textos no blog e no PdH. "Além disso, quem vai alimentar minhas tartarugas?", cheguei a apresentar como último argumento.

Um homem não faz viagens: são as viagens que fazem um homem.

Foi aí que compartilhei minhas dúvidas com um amigo cujo pai é um velho russo que viveu muito tempo na França e passou por muitas aventuras pelo mundo. Ao dizer-lhe que estava com dúvidas sobre se faria as viagens, meu amigo respondeu com uma frase que seu pai costumava falar aos filhos:

"Você não faz uma viagem, são as viagens que fazem quem você é."

A frase, ele me esclareceu, era de um tal Nicolas Bouvier, fotógrafo e escritor suíço que, no final das faculdades de Letras e de Direito, sequer esperou o resultado final de seus exames e abandonou tudo para, aos 24 anos, viajar pelo mundo. Assim, em 1954, partiu para sua primeira viagem -- na qual passou pela Iugoslávia, Turquia, Irã e Paquistão -- contando sua jornada em seu primeiro livro, concluído em 1955.

Em 1956, partiu em nova aventura em direção ao Afeganistão, Paquistão, Índia e Ceilão, uma viagem terrível e cujos registros deram, anos depois, origem a outro livro, dessa vez um romance. E assim prosseguiu pela vida inteira, viajando, escrevendo e capturando imagens com sua velha Pentax.

Nicolas Bouvier pagando de badass em algum lugar do Afeganistão.

A historia de Nicolas Bouvier e sua frase me lembraram A Arte de Viajar, de Alain de Botton, um sujeito que parece fisicamente o Humpty Dumpty de Alice no País das Maravilhas (me desculpem os calvos: chego lá um dia!) e que ficou famoso por abordar questões modernas do cotidiano sob a ótica da filosofia de  grandes pensadores europeus.

Nesse livro ele escreveu essa incrível passagem:

"Não é necessariamente em casa que encontramos nosso verdadeiro eu. A mobília insiste que não podemos mudar porque ela não muda; o ambiente doméstico nos mantém amarrados à pessoa que somos na vida comum, mas que talvez não sejamos essencialmente.

Viagens são parteiras de pensamentos. Há uma relação quase mágica entre o que está diante de nossos olhos e os pensamentos que podemos ter."

Nossa mente é venturosa, quer viajar.

Talvez seja importante pararmos, com alguma regularidade, para refletir se não estamos ficando demasiado amigos da mobília que decora nossa rotina, se não estamos tão imóveis em nosso cotidiano quanto a mesa de trabalho em nosso escritório, se nossos pensamentos não estão presos a movimentos mecânicos e unidirecionais como os de um elevador.

Sempre que sentimos certo desconforto diante daquilo que rompe com a previsibilidade do cotidiano, é sinal de estamos diante de uma oportunidade de aprendizado e crescimento. Podemos, nesse caso, escolher entre nos fechar como uma ostra ou nos abrir a uma vivência inusitada.

O estranhamento, mesmo aquele de chegar a uma cidade desconhecida, a ligeira perturbação dos sentidos decorrente do contato com um ambiente pouco familiar são os parteiros de novos pensamentos, pois sacodem nossas percepções dormentes.

É claro que nem tudo dá certo em uma viagem. Pelo menos em duas ocasiões eu passei por maus bocados no exterior, sendo que em uma delas foi quase traumatizante. Porém, sem dúvida são nas ocasiões em que tudo dá errado que nos colocamos à prova. Sobre isso, Nicolas Bouvier fez uma observação sensacional:

"Uma viagem não lhe ensinará nada se você não aceitar que é direito dela acabar com você. Uma viagem pode ser como um naufrágio, e aqueles cujo barco nunca afundou jamais saberão qualquer coisa sobre o mar."

Nosso corpo é venturoso, quer mobilidade.

Foto da coleção pessoal do autor, de sua viagem à Agra

Se nossa mente precisa de novos cenários, também é verdade que nosso corpo é seu veículo, e precisa ser posto em movimento.

Como já disse faz pouco tempo, a única coisa que você verdadeiramente possui neste mundo é seu corpo. É a primeira coisa que lhe pertence já nos primeiros momentos de vida e lhe acompanha sempre durante toda a sua jornada pela Terra. Então é evidente que você deve sempre escutar o que seu corpo lhe diz, seu fiel companheiro de todas as aventuras e desventuras de sua vida.

Aceitar o convite de seu próprio corpo significa tornar sua vida mais enxuta, mais simples e mais flexível. Exige que esqueçamos, ainda que por algum tempo, todos aqueles nossos objetos que pesam como uma âncora, impondo-nos a mobilidade. Não depositaremos nossa confiança em nada que não caiba em nossa mala ou mochila.

Então pergunte o que ele quer, fique em silêncio por um minuto e escute o que seu corpo está pedindo. E você escutará uma resposta: "eu quero movimento".

De todas as características de seu corpo, a principal é a mobilidade. Com ele, você consegue tudo o que realmente quer e importa na vida, bastando lhe dar, por seu turno, o que ele quer. E ele quer movimento, quer estar sempre de prontidão, preparado para aventurar-se quando a oportunidade surgir.  Os únicos bens que você precisa para viver plenamente são aqueles que cabem em uma mala.

Sentar seu corpo em um sofá, guardá-lo dentro de um escritório ou pendurá-lo em uma rotina paralisante sem dar espaço para que ele exercite sua inerente mobilidade ao menos nos fins de semana, ao menos nas férias, é ofender justo aquilo que está sempre pronto a lhe servir, a atender suas vontades, a mover-se na busca de seus sonho.

A vida de uma geração inteira cabia em uma mala.

Como se viu, não basta o deslocamento físico, é preciso estar com a mente e os olhos abertos para se deixar transformar pelos novos caminhos. Mente e corpo viajando em sintonia, a última deslocando-se e a primeira pronta a aprender, parece ser uma receita explosiva. E uma geração inteira é testemunha do que ocorre quando as pessoas decidem seguir essa filosofia.

Não é exagero dizer que o século vinte não seria culturalmente o mesmo se uma geração inteira não tivesse caído na estrada. O movimento beat, precursor dos hippies e da contracultura das décadas de 60/70 do século passado, deixou marcas profundas na mentalidade ocidental contemporânea formou-se das vivências de compulsivos viajantes como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e Lucien Carr.

Passaporte de Kerouac

Para Jack Kerouac, criação, vida e mobilidade  eram uma só coisa:

"Nossas surradas malas estavam novamente empilhadas na calçada; tínhamos caminhos mais longos adiante. Mas não importava, pois a estrada é a vida."

Por tudo isso, as tartarugas terão de ser alimentadas pela zeladora do meu prédio. Já está tudo acertado.


publicado em 07 de Agosto de 2013, 21:00
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Victor Lisboa

Não escrevo por achar que tenho talento, sequer para dizer algo importante, e sim por autocomplacência e descaramento: de todos os vícios e extravagâncias tolerados socialmente, escrever é o mais inofensivo. Logo, deixe-me abusar, aqui e como editor no site Ano Zero.


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