Ser cara de pau: habilidade essencial do aprendiz autodirigido

É preciso ser para chegar onde se quer chegar, ou melhor, para acessar as pessoas que se quer acessar

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O que significa ser “cara de pau”? Eu não sou tão bom nisso, mas tenho melhorado com o tempo. Expressão popular no vocabulário brasileiro, cara de pau nos leva a pensar coisas como “pessoa descarada, sem vergonha, atrevido”. Longe de equivaler a alguém mau caráter ou mentiroso, o que é preciso enfatizar é que essa habilidade (sim, habilidade!) é um dos fundamentos da aprendizagem autônoma. Vejamos porquê.

Você já foi a um evento e ficou morrendo de vontade de conversar mais com a palestrante? Conhecer mais sobre as ideias dela, escavar até o fundo a referência naquele assunto que te fascina? No entanto, quantas vezes a timidez te venceu e você ficou só na vontade?

Outro exemplo: vamos supor que você está se aprofundando em um tema e, para organizar melhor as ideias na sua cabeça, começa a escrever sobre ele. Compartilhar seus textos num blog poderia ser uma ótima forma de obter feedbacks sobre a clareza da sua sistematização e sua forma de contar a história. Melhor ainda, você poderia disponibilizar publicamente o texto e, além disso, pedir para alguns amigos — aqueles nos quais você confia e que detém conhecimento na sua área de interesse — te darem um feedback honesto sobre sua produção. Difícil? Talvez, mas com cara de pau, nem tanto.

Ser cara de pau está intimamente relacionado com nossa capacidade de fazer pedidos (honestos, vulneráveis, claros e objetivos) a outras pessoas. Tem a ver com a coragem de nos expor.

Legenda

Mas quem sou eu para recomendar isso? Minha habilidade de ser cara de pau sofreu duros golpes na minha adolescência, em que eu me via constrangido socialmente a “chegar” nas meninas para que os outros me vissem como pegador. A cultura do macho-alfa (super machista, por sinal) me fez menos corajoso, menos autêntico. Eu me sentia muito desconfortável em abordar alguém estranho, e não eram só as meninas. Na verdade, ainda me sinto assim, mas sei que é importante lidar com isso. A internet me ajudou — e me ajuda — demais: se por um lado há quem diga que a rede nos torna mais impessoais, eu acredito justamente no contrário.

A história do surgimento da palavra “cara de pau” é curiosa. Tem a ver com as carrancas, máscaras de madeira de fisionomia sombria que eram colocadas nos barcos para afugentar maus espíritos e abençoar as travessias. Uma espécie de amuleto das navegações, portanto, necessário para lembrar aos marinheiros da coragem indispensável à viagem.

O que te faz lembrar do quão corajoso você é? Em outras palavras: qual é sua carranca? Cara de pau todos nós temos, basta exercitá-la.

Obs.: Este artigo foi originalmente publicado no Medium do autor.


publicado em 09 de Agosto de 2017, 00:00
Alex bretas

Alex Bretas

Cofundador da Multiversidade, uma universidade para autodidatas, fundador do projeto de investigação independente Educação Fora da Caixa e autor de dois livros na área de educação autônoma. Pode ser encontrado aqui.


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