Roupas de marca são melhores do que as vendidas em grandes magazines? A verdade inconveniente

Grife vs Magazines em uma disputa para mostrar quem atende à necessidade que você tem

Hasteando o bastião da sabedoria nas pilastras da galhofa e chapiscando de provocações toda a ignorância, cá estamos novamente!

Seguindo meu penúltimo texto, mataremos as dúvidas mais interessantes que têm aparecido nos comentários da nossa querida coluna de imagem e estilo. Hoje focaremos uma em especial, a que ouço há mais tempo, desde que comecei a escrever aqui no PapodeHomem:

"É possível comprar roupas em magazines que sejam tão boas em termos de corte e de qualidade de material, quanto as vendidas em marcas de grife?"

Sim, é possível. Mas extremamente difícil.

Vamos à explicação resumida.

Sobre a modelagem (vulgo caimento)

O magazine almeja um número de vendas maior do que a marca de “grife”. Para que isso ocorra, ele necessita atingir um número de pessoas proporcionalmente maior e, para atingi-lo, será necessário desenvolver um produto mais abrangente, tanto em estilo quanto em modelagem.

O que isto quer dizer na prática?

Quanto maior for o público, menor o grau de individualização da peça e, portanto, maior a chance dela ficar “uhn, ok” em várias pessoas e menor a chance de ficar “uau, ótima” em uma (em termos de estilo e modelagem).

Por precisar agradar um número menor de clientes, a empresa de “grife” (cara ou não) pode apostar em nichos, o que facilita a definição de um público-alvo específico e, por isso, passível de maior identificação com os produtos da marca, tanto em ergonomia quanto em estilo.

Obs: Já faz alguns anos que os magazines têm tentado segmentar mais seus produtos, criando submarcas internas ou fazendo parceria com estilistas famosos para atingir com mais precisão o consumidor, mas tais tentativas ainda são extremamente fracas por conta da falta de continuidade e de objetivos de longo prazo.

Sobre o material (tecido, linha, estampa e afins)

Os magazines sofrem de uma combinação quase fatal quando o quesito é qualidade: a quantidade, o preço baixo e o alto giro.

A necessidade de um volume muito grande faz com que os controles de qualidade acabem não sendo satisfatórios, tanto pela velocidade com que se checa a amostragem de peças quanto pelo pensamento equivocado de que “não sendo muito ruim é bom". 

E, claro, há o fator principal da equação: os grandes magazines pagam muito pouco para seus terceirizados. Muito pouco mesmo. Se, por um lado, oferecem contratos com um volume quase irresistível para confecções de médio e pequeno porte, por outro, barganham preços com tanta agressividade que acabam sempre impactando na qualidade do produto.

Mas lembre-se, nada ocorre por acaso. As negociações sabem que o cliente está buscando, em primeiro lugar, preço. Sabem também que o cliente de magazine não é tão fiel à empresa quanto o cliente de nicho, por isso, têm em mente que, se o preço for um pouco maior, perderão para a concorrência e, assim, acabam estimulando um efeito tostines infernal.

A falta de incentivo à fidelidade e o viés genérico são os pontos negativos desse tipo de empresa. Além de estimularem em demasia um consumo desmedido, por terem a margem pequena. Ou seja: quanto mais fast o fashion, melhor.

Se não fosse pelos preços extremamente baixos, este setor já teria se extinguido.

Talvez, neste momento, você possa estar se perguntando: “Bruno, você já comprou em magazines?”

Embora eu ainda possa falar muito mais a respeito do meu desapreço pelos magazines, saiba que até antes de abrir minha própria marca, minha loja preferida era a Zara. Eu só usava Zara, toda semana tinha coisa nova pra ver, muito produto alinhado cronologicamente com o das grandes marcas, a modelagem funcionava bem em mim, os preços eram fantásticos e ninguém ficava vindo me atender. Até pensava como seria legal trabalhar no setor de criação deles.

Então, ao abrir minha empresa tive, é claro, que usar minhas próprias peças. Mas por ser uma marca essencialmente de camisas, ainda me faltavam muitas roupas e a conclusão do armário continuava sempre sendo por lá... até que estourou o primeiro escândalo de trabalho análogo à escravidão, depois o segundo e por aí seguiu. 

Então, fui checar seus índices de crescimento durante o mesmo período e eram recordes(!). Na sequência, comecei a pesquisar e ver o quão lamentável era grande parte da cadeia produtiva deste setor.

Isso me fez repensar meu modo de consumo (de roupas). Mas entenda, eu nunca consegui ser um radical. Você não vai me ouvir dizer que agora eu costuro minha cueca, compartilho a mesma blusa com a minha mulher e que o mundo é mais bonito pra quem faz a própria meia. Tentar ser coerente com minhas poucas escolhas já tem sido trabalhoso, não disponho de vocação, nem de lastro, para torná-las bandeiras alheias.

O que fiz a respeito (e ainda faço) foi procurar completar meu guarda-roupas com peças que não sejam de lojas de grandes redes, optando por (infelizmente) itens um pouco mais caros, mas em menor quantidade, de marcas menores ou com fama suficiente para me fazerem acreditar em sua credibilidade humanitária na produção, que verifico sempre que possível (hoje existem alguns selos que atestam as condições de produção e também é consideravelmente fácil dar um Google sobre a empresa).

Se você não tem do que reclamar dos produtos de magazine e está contente com o que compra, não serei eu que vou recriminá-lo. Confie em suas decisões e siga se conduzindo ao campo do bem estar.

Mas caso não esteja totalmente satisfeito, tenho uma boa solução.

Compre os itens mais básicos e de simples construção nos magazines, mas guarde parte do dinheiro para poder investir em uma peça mais trabalhada de uma marca que você se identifica. Exemplo:

Tênis básico ($), uma puta calça jeans sem lavanderia com um corte reto bacana($$$), uma camiseta branca lisa que a modelagem não te incomode($) e uma pulseira fina simples, de couro ($).

Desta maneira você conseguirá que a peça escolhida se destaque e aproxime mais o seu visual do que ela está propondo.

Por fim, sobre as questões morais, anseio para que desperte o interesse em checá-las sempre, inclusive, questionando o vendedor, pois se o setor entender que é uma necessidade de mercado, ele irá dar um jeito de cumprir a exigência.

Acho que, depois dessa, não serei convidado para fazer nenhuma parceria com magazines. A vida que segue.

Como sempre, espero que tenha sido útil ou, ao menos, divertido!

Obs: Se este texto for bem sucedido, seguiremos com o formato, já temos algumas perguntas no gatilho, mas ainda cabem muitas outras, sinta-se à vontade aí embaixo, campeão.

Epílogo:

— Ontem quase comprei um casacão monstro, Marquinho. Pretão, sobretudo e pá. Se a Nat não pilhasse que queria ir ao banheiro, eu tinha levado...

— Tô precisando de uma jaco também. Tava caro?

— Ah, cê sabe...

— Pode crê. E era da hora então?

— Vish, grossão, meio máfia, cabuloso.

— Loco, hein. Vô dar uma olhada. Só tem lá, será?


publicado em 26 de Outubro de 2015, 00:00
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Bruno Passos

Pintor e dono da Conto Figueira. Ama livros, filmes, sol e bacon. Planeja virar um grande artista assim que tiver um quintal. Dá para fuçar no Instagram dele para mais informações.


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