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Realizando o sonho de viver na praia com a família

Os riscos, o porquê e a jornada para sair em busca de uma vida menos caótica, menos urbana e mais feliz.

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Como eu e a maioria dos pais acreditam, a paternidade muda tudo. Ela traz novas prioridades e nos faz reviver as antigas, os sonhos do passado que são trazidos à tona com um brio novo e com a sensação de que conseguimos fazer qualquer coisa. Por eles, tudo é possível.

A história de hoje nasce a partir dessa perspectiva. Por ora, parece até um pouco irresponsável ou mesmo ingênuo afirmar que podemos fazer o que quisermos nas nossas vidas, que podemos desafiar o status quo e tudo o que o nosso sistema de crenças nos ensinou, como o clássico bordão "trabalhar 40 horas por semana para ter dinheiro para pagar as contas no final do mês". Está difícil acreditar que podemos sair da caixinha desenhada pelo sistema capitalista e vivida pela grande maioria de nós e sermos protagonistas da nossa própria história, desenhando os capítulos de forma que faça real sentido de acordo com o nosso propósito.

No que diz respeito a mim, sempre sonhei em morar na praia, ter uma pousada, viver a vida de forma menos caótica, mais tranquila, com mais ligação com a natureza e aspirações mais simples.

Mal sabia eu que a chegada do meu filho Noah, me daria brilho, força de vontade e resiliência para resgatar esse sonho e colocá-lo em prática.

Vou contar ao longo desse artigo um pouco mais sobre os desafios que tínhamos e temos, como os estamos enfrentando e dar um panorama de toda essa mudança de vida. Minha esperança é poder inspirar outras pessoas a refletirem sobre as suas decisões de vida. Respire e venha comigo.

São Paulo, um capítulo de 11 anos

Em Maio de 2019 eu completaria 12 anos morando em São Paulo. Desde a primeira vez que pisei em terras paulistanas, a cidade me recebeu de portas abertas e abraços generosos. Fui muito feliz por essas bandas e aprendi a amar Sampa. Fiz centenas de amigos e vou guardar para sempre cada memória, cada momento.

Com o Noah chegando em nossas vidas, a Lari e eu temos pensado muito sobre o nosso papel no mundo, nosso propósito e, obviamente, onde queremos criar a nossa família. O prisma de ter um filho nos levou a analisar outros pontos da cidade que cada vez eram menos compatíveis com a vida que queríamos ter. Começamos a entender que o cenário ideal seria criar o Noah em um ambiente com menos violência, com valores menos materialistas, com custo de vida mais baixo, que fosse tranquilo e que não tivesse toda a aura de caos urbano.

Eu cresci passando os verões na praia do Cassino-RS, com longas temporadas de 2 a 3 meses na praia, vivendo em casa de madeira, rua de terra batida, jogando taco com latinhas de óleo como bases (era algo nessa linha, mas bem mais roots), tomando refresco de groselha nas tardes quentes de verão do Sul, andando a cavalo como se não houvesse amanhã e chegando em casa sujo e cansado depois de um dia inteiro de aventuras na rua. No fundo, quero proporcionar vivências e aventuras dessa natureza para o meu filho por acreditar que a essência da vida está baseada nessas coisas simples.

Tivemos bons momentos aqui, hein Noah?

Futuro com mais dinheiro não significa um futuro mais feliz

Um dos fatores que mais pegam quando se decide morar em uma cidade grande como São Paulo é o sucesso que está implícito no ato de decidir por uma metrópole, as oportunidades que a cidade pode te oferecer e, consequentemente, o dinheiro-fama-sucesso que você pode ganhar.

Acho que a maioria das pessoas que opta por morar em uma cidade como São Paulo pensa dessa forma. Porque se não fosse por estas "coisas" que a cidade pode te oferecer, porque alguém iria querer levar uma hora e mais para chegar no trabalho, passar menos tempo com a família e pagar 15 reais em um pão com queijo e presunto em um boteco qualquer? Pelo menos as pessoas que conheço e decidem vir morar em Sampa, têm essa percepção em mente. Abandonar essa perspectiva é loucura para muita gente.

Ouvi de mais de uma dezena de pessoas que eu estava louco por cogitar viver uma vida mais tranquila. Frases como "não há outro lugar melhor do que São Paulo" e "ninguém ganha dinheiro como aqui" começaram a ser constantes.

Acho que a liberdade de expressão e de escolha de vida é um dos pilares da vida moderna e respeito todas as opiniões.

Na minha visão, quero criar meu filho para ser feliz, não para ser rico e um homem de sucesso.

Óbvio que caso ele queira ter sucesso, ou queira ser rico, ele poderá estudar e seguir tal caminho de vida. Meu papel como pai e da Lari como mãe é de proporcionar o que achamos que seja melhor para ele. E decidimos que o melhor é morar em um lugar onde possa viver de forma livre, sem problemas agravados pela violência, que possa brincar na areia com seus amigos, cultivar hábitos relacionados à natureza e viver de forma mais plena e consciente.

Sempre que possível, o mar como pano de fundo

Principais desafios para a mudança de vida

Desde que casamos, em 2013, temos conversado recorrentemente sobre mudar de São Paulo e estabelecer a nossa família em outra cidade, mais ligada com o futuro que queremos construir.

Entre pensar e fazer, há um hiato do tamanho do infinito e, no fundo, sempre temi nunca colocar esse sonho em prática. Embora tenha tatuado no braço direito a frase "O que se leva dessa vida é a vida que se leva" e sempre bradar confiança e atitude de um viajante quase-profissional em um Instagram com fotos nos mais diferentes lugares do mundo, sempre tive medo de não realizar meu sonho.
 

Retrato da vida de nós, conectados, quando chegamos na praia

Muitos foram os desafios que tivemos que lidar para colocar o plano em prática. Relacionados à parte profissional, sobre o lugar que iríamos decidir morar, enfim, tivemos meses e meses de análise para conseguir fazer essa tomada de decisão, bater o martelo e construir todas as pontes para uma mudança como esta.

  1. Continuidade do PapodeHomem. Como empreendedor, era fundamental conseguir mudar para um local que me permitisse dar continuidade com o PapodeHomem, assim como tenho feito nos últimos 10 anos. O PapodeHomem é e vai continuar sendo meu negócio do coração e prioritário. A busca por um destino precisava levar em consideração uma série de fatores para permitir que a minha rotina de trabalho continuasse parecida como foi em 2018. Precisava ser uma cidade no Brasil, próxima de São Paulo (de preferência) que me possibilitasse vir quinzenalmente para reuniões presenciais e, o restante do tempo, continuaria trabalhando home office como tenho feito há mais de um ano.

  1. Destino turístico. Queríamos que o lugar respirasse turismo, que tivesse nessa indústria o seu pilar econômico, seja para empreender futuros projetos relacionados ao turismo e a hospitalidade, ou para viver em uma cidade com outro tipo de dinâmica. Como estamos acostumados com um cotidiano baseado no trabalho que nunca acaba e no inbox que nunca zera, nossa vontade era de mudar a frequência e viver em um ambiente que pulsasse de maneira diferente.

  1. Boa infraestrutura local. Como o que nos moveu para a tomada de decisão foi a chegada do Noah, um fator determinante na escolha da cidade seria ter uma boa infraestrutura, tanto em termos de escolas como de saúde pública, com hospitais e postos de saúde confiáveis e rede médica presente.

Uma conversa de coragem

O sonho de morar na praia existia há mais de uma década. A nossa raiz sempre foi ligada ao mar. A Lari nasceu em Florianópolis-SC e já morou em diversas cidades litorâneas e eu nasci na distante cidade litorânea de Rio Grande-RS com uma praia de mais de 200km de extensão.

Como comentei anteriormente, há um mundo de distância entre você querer e sonhar morar em um lugar determinado e, de fato, decidir mudar e largar mão de muitas coisas para poder. 

A mudança nunca vem de graça. Você sempre precisa deixar coisas para trás, sem se lamentar. Olhando sempre para o norte, para o futuro que vai ser construído.

A conversa que tivemos foi com essa lente. De olhar para o futuro. De esquecer as dificuldades e focar no que precisa ser feito.

Na mesa do restaurante, estavam meu irmão André com sua noiva Michele, a Lari e eu. Era carnaval de 2018 e estávamos conversando sobre o passado e o futuro. Sobre como as nossas vidas seguiram rumos desconectados, como nos tornamos distantes, sobre estarmos criando as nossas famílias com poucos vínculos afetivos em virtude da distância. Sobre sonharmos estar mais próximos, viver em um lugar tranquilo, próximo ao mar e podermos empreender juntos.

Horas passaram em um piscar de olhos e chegamos a uma decisão unânime. Vamos mudar as nossas vidas. Vamos buscar um novo lugar para chamar de lar. E vamos começar esse processo hoje.

A busca por um paraíso

Quando decidimos acreditar que, sim, que era possível quebrar a bolha, sair de São Paulo e ter uma vida mais ligada à natureza e ao mar, começamos a ter convicção de que tudo era possível. De que se tivéssemos força de vontade e um plano estruturado, seria plausível ir para algum desses paraísos quase que escondidos pela costa brasileira, de águas claras e natureza exuberante que as pessoas costumam passar alguns dias de férias, e o chamarmos de lar doce lar.

Eu lembro de ter trabalhado o carnaval inteiro, literalmente. Devem ter sido cerca de 10 dias intensos, algo entre 8 e 10 horas por dia no computador fazendo análises de lugares-alvo, da indústria turística das principais cidades com as características que buscávamos, dos prós e contras, mapeando oportunidades de negócios que poderiam ser construídas nestas cidades. O que era para ter sido férias com pleno descanso, foi um momento de completa imersão na construção do futuro da nossa família. Na minha cabeça passavam filmes, da gente morando em uma praia paradisíaca e tudo o que vinha com essa imagem. Era como se bastasse nos organizarmos corretamente que tudo iria dar certo.

Como sempre sonhei em ter uma pousada, a minha busca levou em consideração a sazonalidade anual, proximidade com os grandes centros e aeroportos internacionais, ticket médio das diárias de hotéis e pousadas, verticalidade das construções, disponibilidade de terras livres à venda para construção, atratividade turística, além é claro, das questões que eu mencionei lá em cima, como boas escolas, hospitais, rodovias, e infraestrutura em geral.

Acho que essa busca foi uma das partes mais divertidas de todo o carnaval. Uma constante navegação no Google Maps e sites especializados, listando os principais destinos turísticos do Brasil, os principais destinos que não eram capitais, afinal, não queríamos ambientes muito urbanos, destinos que irão crescer nos próximos 10 anos, destinos com maior receita vinda do turismo e assim por diante.

Uma das delícias de fazer uma imersão como essa é que a cada micro descoberta, pode-se desfrutar um pouco da sensação de morar nesse lugar e cria-se um filme na cabeça contextualizando como seria viver nesta praia, com os desafios, as oportunidades, as belezas, o povo, as descobertas e a vida nua e crua do lugar. Posso dizer que eu viajei nessa imersão. Meu corpo passou o carnaval em Santa Catarina mas minha mente vagou pelo Brasil afora, como um espírito livre.

Frente a todo esse estudo, chegamos em 3 cidades pré-escolhidas que atendiam aos pré-requisitados que listamos como fundamentais. As cidades foram: Búzios, Paraty e Ilhabela. Moraríamos em alguma delas e isso me levou a um sentimento de gratidão e uma pitada de desconfiança. Será que era possível mesmo? Será? O frio na barriga começou a ser recorrente e uma mistura de entusiasmo e medo se estabeleceu em mim.

Os 2 dias seguintes se resumiram a ler sobre as 3 cidades que tínhamos sobre a mesa e chegamos a conclusão que o destino que mais iria jogar a favor do nosso sonho de futuro seria Ilhabela. Ela estava a poucas horas de São Paulo, tinha muitas terras ainda à venda, uma excelente estrutura de hospitais com postos de saúde em bairros principais e um ótimo hospital público, escolas públicas e particulares muito boas e um lugar muito seguro. Por ser uma ilha, a violência lá é algo incomum.

Decidimos que Ilhabela seria a cidade que chamaríamos de nosso lar.

Minha história com Ilhabela começou logo que cheguei em São Paulo. Muitas foram as visitas ao Galeno, meu grande amigo que tem uma eco-floresta chamada Santa Seiva e faz um belíssimo trabalho sobre o despertar dos sentidos há décadas no Sul da ilha.

Ilhabela é um lugar apaixonante e cativa a todos que decidem explorar esse pequeno pedaço do paraíso. A ilha tem mais de 40 praias e, reza a lenda, 365 cachoeiras, uma para cada dia do ano. Foi um reduto de piratas há muitos séculos e possui 23 naufrágios em suas costas, o que hoje é uma meca para mergulhadores de todo o país que vão para o lugar em busca de turismo de aventura, vela oceânica e mergulho.

Praia de Castelhanos | Créditos
Saco do Eustáquio | Créditos: Robert Wener
Saco da Capela | Créditos: Gustavo Frazao
Primeira visita do Noah na Ilhabela. Março de 2018 (30 dias após a decisão)

Ilhabela, nossa nova xodó

Assim que decidimos por Ilhabela como reduto, construímos idas trimestrais para conhecer melhor a ilha, com seus diferentes bairros, charmes e atrativos e, claro, para tornar a ligação da Lari e do Noah mais próxima ao futuro lar.

Em exatos 4 dias, Larissa, Noah e eu mudaremos para uma ilha e isso não é um sonho, é uma realidade. É um plano colocado em prática em 10 meses e cerca de 300 dias de trabalho diário.

Abre-se agora no horizonte uma vida mais saudável, consciente e ativa, com esportes de natureza como mountain bike, trekking nas trilhas, acampamentos e esportes aquáticos como o mergulho e a vela.

Pretendo que este seja o primeiro artigo de uma série que vou escrever sobre mudança de vida, na prática. Minha intenção é compartilhar os nossos desafios de morar em uma ilha, as principais atrações por lá, os obstáculos de manter uma rotina de trabalho em São Paulo e ir e vir quinzenalmente, como ser produtivo mesmo morando na praia, hábitos saudáveis que pretendo cultivar, esportes e aventuras mil que certamente estão na minha lista de prioridades, dentre outras dezenas de assuntos que pretendo contar, sempre em uma perspectiva pessoal, compartilhando a minha experiência.

Antes do amanhecer no primeiro dia morando na ilha, temos uma senhora mudança para fazer. Muito trabalho pela frente. Vou contando mais episódios também no meu Instagram e no da Lari.

Nos vemos aqui nos comentários e também por lá!


publicado em 13 de Dezembro de 2018, 12:15
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Felipe Ramos

Um realizador nato, de coração sem tamanho. Transformar pedra em banquetes é a especialidade desse MacGyver gaúcho. Notório por seu apetite festeiro, nunca recuse quando for convidado a uma de suas frequentes celebrações e aventuras. O imprevisível é seu prato favorito. No Twitter, @felipemktg.


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