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Quatro chutes no saco: verdades que você finge não ver

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Frequentemente caminhamos pela vida de olhos vendados. E muitas vezes esta não é uma condição involuntária. É incrível como fazemos questão de nos deixar enganar com medo de encarar algumas verdades. Preferimos seguir caindo nos mesmos buracos, alimentando tipos específicos de ilusão com a única finalidade de nos agarrarmos, desesperados como mendigos, a qualquer pequena felicidade.

Para nos libertar disso, a vida costuma dar golpes muito bem aplicados. A única opção é acordar por meio da dor e seguir em frente com a frágil esperança de não repetir os mesmos enganos.

Este texto é uma simulação tosca deste tipo de golpe. É apenas um alerta, uma leve ameaça para relembrá-lo de algumas verdades que você finge não ver. Longe de ser doloroso como aqueles chutes dos quais nos contorcemos só de imaginar. Longe de ser igual a ser surpreendido no erro. Muito longe.

1. Sua mulher vai dar para outro

Imagine que ela é sua namorada e ele não é você

Sentado com um amigo, em algum lugar, durante uma viagem. Ele sai para ir ao banheiro e, milagrosamente, uma mulher senta ao seu lado. Vocês começam a conversar e o papo flui magicamente. Sem dificuldade alguma vocês vão para o quarto. Depois de gozar, conversando, descobre que ela é casada há um mísero ano. Sua reação instintiva é chamar o marido dela de corno, todo orgulhoso. Você comeu mais uma e sai feliz, afinal, seu namoro está perfeito, parado no ponto em que deixou e ele é só mais um incompetente, incapaz de satisfazer a mulher que tem.

Esta mulher que você comeu é a sua e não a do outro. O casamento deles é o seu. O seu namoro pode estar passando por uma crise ou não, mas caso esteja tudo bem, você tende a achar que está imune. A verdade é que, quanto mais protegido, quanto mais pensar que esta hipótese é remota, mais dentro da merda está. Esta mulher que você comeu também chegou em casa tranquilamente e fez um sexo gostoso, cheio de saudades com o marido dela. Ele chegou e demarcou o território. Igualzinho a você.

Numa situação de maior comprometimento com os acordos do namoro ou casamento, ainda assim não estamos imunes a isso. Ela vai terminar e acabar construindo um outro lance. Provavelmente, você a verá dançando com alguém, sendo cortejada, rindo toda soltinha, até que o beijo ocorrerá na sua frente e apenas isso será suficiente para toda a cena do sexo se armar na sua mente. Um sexo bem melhor do que aquele que você fazia com ela. Agradeça à sua imaginação.

Sua mulher vai dar para outro a qualquer momento. Estamos todos fodidos desde já com nossos medinhos, com um gatilho armado, prestes a disparar essa realidade com um imenso potencial para nos deixar jogados no chão do banheiro, chorando em posição fetal. Nenhum relacionamento tem chance.

É melhor admitirmos o mais rápido possível que a regra é outra. Mesmo nossos avós estão se divorciando e a história que contam agora não é nem um pouco parecida com aquela que pensávamos conhecer durante a infância. Há muito mais traição, putaria e mentira do que nos contaram. "Para sempre" ou pelo menos "até que a morte os separe" é a exceção. Não importa o poder do seu controle, não há nada que você possa fazer para impedir sua mulher de trepar com outros a qualquer momento e a porra toda ir por água abaixo. Reconheça isso. Se não conseguir, você está muito mais fodido do que pensa.

2. Você não tem amigos

Onde estão seus amigos?

Dias difíceis sempre voltam. Sempre nos pegam no meio da ascensão e nos fazem lembrar da violência da força da gravidade. Nesses momentos, nada mais justo do que ir atrás dos amigos em busca de apoio.

As situações se repetem e nós já nos pegamos, diversas vezes, precisando de ajuda. Então, de repente, olhamos para os lados e estamos sozinhos. É nesse momento que nos vemos reclamando, sem saber em que direção seguir, já que não conseguiremos chorar as pitangas em nenhum ombro pré-definido.

É interessante notar como temos o hábito de agir baseados em pura politicagem e dar a isso o nome de amizade. Temos a mania de esperar que alguém faça algo por nós e de adicionar boas doses de culpa e amargura quando essas expectativas são quebradas. Ou seja, como volta e meia nos tolhemos pensando "ele é meu amigo, não vou fazer isso", ficamos extremamente contrariados quando a recíproca não é verdadeira.

O que chamamos de amizade nada mais é do que um conjunto de expectativas mais ou menos definidas. Amigo é aquele que se move dentro desse cercadinho sem reclamar qualquer liberdade além dos limites. Por isso, relações de amizade vão se dissolvendo uma a uma com o decorrer dos anos. Este fenômeno ocorre pelo simples fato de que ninguém tem a obrigação de viver em função dos nossos caprichos e desejos. Os amigos, principalmente, têm a obrigação de não fazê-lo.

"Você não tem amigos" quer dizer, na realidade, que não há verdadeira amizade naquela base romantizada à qual estamos acostumados a encarar certas coisas. Ninguém deve algo a você. Ninguém tem a obrigação de salvá-lo ou consolá-lo. É até errado achar que alguém vai defendê-lo incondicionalmente, em qualquer circunstância. Agir no mundo o tempo inteiro, como se a salvação viesse de maneira inevitável, é preparar-se com carinho para o momento em que a vida virá fodê-lo bem gostoso.

Essa lógica da amizade nos infere que, se formos meninos bonzinhos e agirmos de acordo com os desejos de todos, teremos muitos amigos com quem contar.

Lógica, no meu dicionário, é algo que costuma falhar quando menos esperamos.

3. Ninguém precisa de você

Link Vimeo | Repare como o universo opera sem pausas. E perceba que você não está em frame algum deste vídeo

Você pensa que tem algum talento especial. Acha que saber tocar, cantar, escrever, atuar, programar um robô ou construir uma casa o torna alguém especial. Você acredita nos comentários elogiosos quando faz algo pelos outros. Olha para a sua vida e tem a nítida impressão de que é o personagem principal de uma grande trama cósmica, caminhando rumo ao cumprimento do seu destino.

Não é bem assim que os outros veem a coisa. Não importa o quanto você seja talentoso, esperto e bonito. Não importa o quanto você já tenha feito, muito provavelmente depois da sua morte será esquecido num tempo não muito longo.

Mesmo numa situação não tão extrema, sua posição no mundo também não significa tanta coisa. Você se considera essencial na empresa onde trabalha? Surpreenda-se ao se demitir e ver que a empresa segue sem maiores oscilações. Gosta de se autoafirmar por ter uma namorada apaixonada e acredita que ela o ama mais do que a qualquer outro? Tenho certeza que vai doer bastante quando ver as novas fotografias dela apaixonada por outra pessoa.

A verdade é que não interessa em nada o grau de importância que damos às nossas atividades, sentimentos ou intenções. O mundo seguirá sem grandes impactos quando desaparecermos.

4. Você não é e nunca será independente

Este é você. Aos 40 anos

Você precisou dos seus pais para alimentá-lo, ensiná-lo a falar, andar, levá-lo à escola. Lá teve uma professora que o ensinou a ler e escrever. Houve cozinheiras que fizeram lanches, pedagogas que acompanharam seu desempenho e corrigiram seus péssimos hábitos.

Hoje você é servido por um garçom no restaurante onde almoça todos os dias, pessoa essa que tem todo o poder de sacaneá-lo de forma épica caso você o destrate. Hoje, pessoas alternam-se em turnos para garantir que não faltará energia elétrica quando outras pessoas estiverem fazendo uma cirurgia em você. Engenheiros construíram os prédios onde você mora e trabalha. A água com a qual toma banho e escova os dentes só sai pela torneira porque houve alguém que se dedicou a levá-la até onde você mora. E ela ainda se mantém jorrando, pois há uma pessoa garantindo que isso continue acontecendo.

Não importa se você se dá conta do processo ou não, ele existe. Sempre existirá alguém que faz algo que você não é capaz de fazer. E esse algo provavelmente contribui de uma maneira essencial na sua vida, mesmo que não haja compreensão da sua parte.

O adolescente trancado no quarto talvez não tenha a noção precisa de que existe uma rede de pessoas, de ruas, de bairros, de cidades e de regiões constituindo um todo maior que é o seu país, o sistema capitalista/socialista/qualquer-coisaista, o planeta Terra, o sistema solar e o universo. No entanto, tudo isso está operando, seguindo mesmo sem sua aprovação. O universo todo está no seu quarto, quer ele saiba ou não.

Somos tão frágeis e dependentes como éramos quando bebês, aprendendo a caminhar e recebendo papinha na boca. É impossível se virar sozinho. Você sempre vai precisar de outras pessoas. É burrice achar que não precisa e não deve nada a ninguém.

Os pontos cegos

Se, por um lado, costumamos agir dentro desses padrões, por outro, estamos completamente livres para agir de forma diferente. Esses pequenos pontos cegos nada mais são do que isso. Apenas pontos cegos. Basta contemplar um pouco e eles tendem a desaparecer.

A dificuldade é que, frequentemente, nos esquecemos de iluminar estes pontos e eles voltam a ficar obscuros. A partir disso, começamos a agir cegamente outra vez, até que repitamos o processo todo.

Ao mesmo tempo, às vezes até estamos vendo, mas preferimos fingir que não. Parece ser mais fácil fechar os olhos e torcer para que nada disso seja verdade, torcer para que tudo permaneça dando certo até o final da vida, quando poderemos dizer que fizemos tudo direitinho.

O grande lance é que vamos voltar a acreditar em tudo isso, principalmente quando o relacionamento estiver feliz, o emprego pagando bem, os amigos presentes e nos fecharmos em nós mesmos. É o que queremos.

A melhor coisa que pode nos acontecer é ter essas bases destruídas pelo menos uma vez. Se for tudo ao mesmo tempo, melhor ainda. Assim, poderemos verdadeiramente ver e sentir a fragilidade do que tomamos por sólido na vida.


publicado em 16 de Setembro de 2011, 05:08
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Volta e meia grava e disponibiliza no Soundcloud. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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