Proibir o funk nas favelas não vai melhorar a segurança do Rio de Janeiro

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Primeiro, a resolução. O atual Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, assinou a chamada Resolução 13, em 2007, que consiste na "atuação conjunta de órgãos de segurança pública, na realização de eventos artísticos, sociais e desportivos, no âmbito do Estado do Rio de Janeiro".



Cá está a resolução completa, em PDF. É só clicar para ver em tela cheia e, se preferir, dá pra ver aqui
Em resumo, a tal resolução dá ao poder público o poder de meter o bedelho em qualquer evento dessas características, dentro do Estado do Rio de Janeiro. A medida seria tomada, em tese, para tentar minar a atuação criminosa desses eventos, muitas vezes organizados por chefes de tráfico de drogas ou de qualquer outro tipo de crime organizado, bem como a própria venda de drogas, prostituição etc.

O outro lado

Para as pessoas que vivem em comunidades pobres do Rio, a resolução 13 afeta diretamente o cotidiano local, que se vê privado de organizar, por menor que seja, qualquer tipo de evento que trabalharia suas culturas e todo o tipo de lazer.

Há, hoje, um pedido em forma de abaixo-assinado, para que a resolução seja revogada e que o Estado não interfira mais no que seria de interesse da comunidade, seja um campeonato de futebol de várzea, um sarau dentro de um boteco qualquer, ou os grandes bailes funk que tanto sofrem preconceito por parte de grande parte da sociedade brasileira. O abaixo-assinado está no site do Movimento Meu Rio.

Link YouTube

E eu com isso?

Eu nunca gostei de funk carioca. Não que a batida não seja interessante e que as letras não tenham lá sua relevância. Apenas não é pra mim. Mas isso nunca impediu que o estilo se desenvolvesse, ficasse cada vez mais forte e fosse, hoje, o tipo de música mais ouvido e consumido no Rio de Janeiro.

Não posso ver as músicas como agressivas, relaxadas, que influenciam pessoas ao sexo desenfreado, ao consumo de drogas e ao crime. Isso é balela. O que leva alguém a isso tudo nada mais é do que a desinformação e a falta de estrutura básica em quase todos os sentidos - em suas casas, suas escolas (ou a falta de), a dificuldade de encontrar um trabalho que valha, as ruas por onde andam e, claro, os eventos culturais tão raros nas partes mais pobres de qualquer estado daqui do Brasil.

E aí que, em meio a tudo isso, temos a cultura brasileira (não só de nossos políticos) de sempre encontrar medidas paliativas para qualquer problema. Nunca houve por essas terras medidas preventivas, com intuito a longo prazo, para que as coisas se desenvolvessem.

Se a criminalidade toma conta desses eventos dentro de favelas e comunidades pobres, é porque o Estado nunca lá se preocupou em desenvolver o lugar, desenvolver a cultura e a educação dessas pessoas. Sempre há de se achar uma medida paliativa para os buracos que nunca são preenchidos porque, claro, esse tipo de ação leva mais de quatro anos e assim, nenhum político vai dar crédito de algo finalizado para seu antecessor de outro partido.

O problema não é o funk. O problema não são os eventos organizados por criminosos. O problema não é a ignorância do povo. O problema é tentar fechar uma rachadura com o dedo, e não com cimento.

"Porra, Jader, o cimento tá caro pra cacete. Deixa que eu fico com o dedo aqui até o próximo eleito e, daí, ele que se vire".

Por favor, autoridades quaisquer que sentem empatia por lenhadores e, com isso, acompanham as traquinagens desse site saco-roxo. Deixem a molecada jogar bola, deixem a meninada rebolar, larguem mão de descarregar nessa galera toda a frustração de não conseguirem dar conta da bandidagem e não receberem qualquer apoio a longo prazo dos que estão acima, mamando gostoso nas tetas.


publicado em 12 de Maio de 2012, 07:12
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Jader Pires

É escritor e editor do Papo de Homem. Seu livro de contos é o Ela Prefere as Uvas Verdes. Está no Facebook, no Instagram e escreve semanalmente sua newsletter, a Meio-Fio, com contos/crônicas e uma curadoria cultural todas às sextas, direto no seu e-mail.


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