– Mi! Acorda!! É sério!
Ouvi a voz no meu quadragésimo sétimo estágio do sono.
– Acorda!
Levantei zonza, sem saber o que era sonho, delírio ou realidade.
– Aqui! Na janela!
Uma mulher deitada pouco abaixo da escadaria, local onde os cachorros moradores do prédio costumam marcar território matinalmente, próximo ao portão de entrada, gritava:
– EU AAAAAAAAAAAAAAAAMOOOOOOOOOOO ESTE HOOOOOMEEEEEEM…
Ela rolava pra um lado. Logo rolava pro outro.

No prédio ao lado, várias cabecinhas se aglomeravam nas janelas. Vinícius – policial que sempre se manifesta nestas ocasiões gritando “Estou descendo aí! Que baixaria é essa?? Tô descendo agora, porra!!”, enquanto a esposa que grita “Calma, Vinícius” estava ausente nesta madrugada.
– EU AAAAAAAAAAMOOOOOOOO ESTE HOOOOMEEEEEMMM…
E voltava a rolar pra um lado, depois pro outro. Nestes momentos de decadência e degeneração, uma palavra de consolo sempre é de extrema benevolência e apoio. Então, gritamos:
– EU TAMBÉEEEEEEEEEEEEMMMMMM!
E ela continuava rolando..
– Aiiiiiiiiiiiiiiiiii!! COMO DÓOOOOOOOOOOIIIIIIIIIIII!!
Sim, parecia doloroso. Levantou-se – ou tentou – e ajoelhou na escada.
– Eu quero você, mesmo que com OUTRA!
É. A figura da outra é costumeira nessas situações. E voltou a deitar no chão, mas não sem antes ajeitar cuidadosamente seus cabelos – pelo visto recém escovados -, tirar algumas folhas caídas no chão do jardim lateral e deitar lentamente a cabeça sobre sua bolsa. Para não desarrumar o penteado, suponho.

– EU AAAAAAAAAAMOOOOOOOOO ESTE HOMEEEEMMMM…
Rolou mais um pouquinho pra direita, mais um pouquinho pra esquerda.
– Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii!! Dói MUITOO…
Parou de rolar e olhou pras janelas do prédio.
Voltou a rolar.
– Aiiiiiiiiiiiiiiii…
Barulho de chave na porta. Era o outro Diogo, amigo nascido na Bahia, criado uma parte em Minas, outra em São Paulo, formado no Paraná, concursado com passagem pelo Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília. E atualmente morando em Criciúma – SC, nosso hóspede de passagem chegando da balada. Entrou na ponta dos pés. O apartamento estava às escuras. Nos encontrou na janela.
– Vocês também?
– Sim! Já tem quinze minutos que estamos aqui! Agora conta tudo que viu e ouviu lá embaixo!
– Bom… assim que cheguei eu avistei a mulher, fiquei um pouco assustado, esperei um pouco. Parecia que iria demorar, então passei pelo ladinho.
– Tem mais alguém lá embaixo?
– O porteiro. Ele disse que não é a primeira nem a última vez dela. E que costuma demorar mesmo. Então acho que fiz bem em subir logo.
– Você é um COVARDEE!! Aiiiii. Eu AMOOO este homem…
Ela ainda rolava e gritava.
Resolvemos descer. Eu de pijama, Diogo também de pijama e o outro Diogo vestido da balada. Elevador, botão térreo. Saímos, silenciosa e discretamente, e ficamos atrás dos vidros da primeira entrada.
Ela ordenava ao porteiro por entre as grades do portão.
– ABRE ISSO AGORA!
O covarde também estava lá, do lado de dentro do portão, a uma distância segura e ordenava ao porteiro:
– Não abre!
– ABRE AGORA! Seu covarde!
Soluçava. Algo de vidro espatifou-se contra o portão. O covarde virou-se e veio em nossa direção. Sem tempo para entrar no elevador, corremos pela escada de acesso à garagem e nos escondemos entre as pilastras. Aguardamos alguns minutos.
– Parece que está calmo.
– Vamos voltar.
Na escada, o covarde nos avistou e disse, parecendo sem graça:
– É doida, né? Não liguem.
Constrangidos, voltamos a nos esconder – agora dele – entre as pilastras. Parecia insensibilidade rir às vistas dele.
Por fim, resolvemos voltar ao apartamento pelo elevador, preparados para fechar a porta à força caso parasse em algum andar diferente do nosso. Chegando, corremos de volta à segurança de nossa janela.
– Seu cachorro!
Passou mais algum tempo o xingando de todos os nomes. Dizem que o amor e o ódio são sentimentos muito próximos…
Fez-se silêncio.

Ajeitou novamente seu cabelo, literalmente sacudiu a poeira, subiu nos saltos e deu meia-volta. Saiu quebrando as cadeiras com o seu cabelo ainda esvoaçante, segurando firme sua bolsa. Triunfal, se não fossem os vinte minutos que demorou tentando acertar a chave na porta do carro. Saiu cantando os pneus em seu carro branco até a perdermos de vista.
No fim de tudo, ficou marcada a mentira do porteiro e a expressão “rolar no chão e gritar EU AMO ESTE HOMEM” em nosso vocabulário.
A câmera digital ainda fica ao lado da janela esperando por ela. Nas noites de madrugada, ainda acordo assustada e ansiosa quando ouço alguém gritando na rua. Algumas vezes, fico minutos prestando atenção no que é dito, até ter certeza que não é nenhuma voz conhecida. Em outras, chego a correr até a janela com alguma esperança.
Mas ela foi embora, pra nunca mais voltar. E foi assim que tudo acabou.
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