Policiais do Espírito Santo procuram ajuda psicológica no Hospital da PM e são ridicularizados

Uma conversa importante sobre olhar, mais que a corporação policial, para as pessoas inseridas nisso

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Há diversas óticas para se olhar o acontecido no Espírito Santo nos últimos tempos em que ficou sem polícia militar nas ruas por causa do protesto de familiares, na porta de batalhões, que impedia a saída dos policiais, com o adendo de que eles não podem fazer greve pois são proibidos pela Constituição Federal. 

Temos questões políticas em profundidades e esferas diferentes, com participações federais, estaduais e municipais para que essa realidade se fizesse real. Conseguimos também explicitar e debater muitas camadas sociais que envolvem o trabalho da polícia militar, para os cidadãos que deveriam ser protegidos poe esses e pelas condições dos próprios policiais que estão, como já sabemos, exercendo suas funções com condições bem abaixo das necessárias.

Pra além disso, temos os fatores psicológicos. Claro, policial é gente, sofre como nós sofremos, passam maus bocados como todos nós passamos. É engraçado imaginar que, a maioria das vezes que falamos de PMs, a conversa gira em torno da corporação, do macro, dificilmente caindo pros aspectos mais humanos, dos pormenores. 

O mesmo ocorre quando se entra na discussão "bandido bom é bandido morto". Mas hoje a conversa é sobre a polícia. Nessa semana, policiais lotaram o Hospital da Polícia Militar (HPM) em Vitória, atrás de auxílio psicológico. Dezenas deles, espalhados pelos corredores do hospital a espera de ajuda para os males da mente. 

(Imagem: G1)

Imaginei aqui a pressão e o descompasso. Independente dos erros e acertos de todo o ocorrido, que tem muitos, me peguei tentando entender a cabeça de um só deles, de estar na pele de alguma desses homens e foi meio barra. No link em que eu peguei a matéria, um psiquiatra diz:

“Toda situação que gera medo, apreensão, insegurança, incerteza, é geradora de muito stress. Esse stress está generalizado na nossa comunidade agora. Os policiais podem estar sentindo isso nesse momento.

No caso deles, principalmente pelo fato de ir contra àqueles princípios assumidos durante o engajamento em uma profissão. O stress advém dessa necessidade de retomar o equilíbrio em função da transgressão desses princípios”

De acordo com o médico, "os principais sintomas desse problema são aceleração cardíaca, pressão arterial, dor de cabeça, insônia, perda de apetite, cansaço e irritabilidade".

Pessoas que deveriam estar com o melhor de suas faculdades mentais para poder lidar com situações de ânimos potencializados vão para as ruas em frangalhos. Homens se suicidam em taxas alarmantes. Eles se matam quatro vezes mais que as mulheres no Brasil. 56.5% têm medo de se abrir, de contar seus dramas e dúvidas, mesmo para os melhores amigos.  Sofrem de depressão em silêncio e 80% lidam com alexitimia, uma condição expressa pela dificuldade em interpretar e expressar os próprios sentimentos e emoções.

Seria infantil imaginar que não existem mulheres exercendo essas mesmas funções e que elas não passam pelos mesmos dramas, agravados pelos simples fato de serem mulheres em um ambiente com predominância masculina. Mas é essa preminência masculina que bota ainda mais pressão na função de policial. 

Prisões masculinas que envolvem dinheiro, solidão e distância afetiva. Envolvem uma estrutura cultural de agressividade excessiva, medo de ser fraco ou feminino, a busca por ser percebido como altamente sexual evitar sinais de vulnerabilidade. 

No mesmo link do G1, já nos comentários, os policiais ainda foram ridicularizados, como se pedir auxílio pudesse ser algo menor, esse receio errôneo de que homem não pode pedir ajuda, ainda mais um que trabalha para a lei, que deveria, em teses deturpadas, ter ainda mais garra e poder de enfrentamento, que precisam ser merecedores, não podem pedir pra sair, que fazem "drama" quando deveriam se segurar em qualquer barra:

 

 

 

Os homens estão morrendo porque não conseguem falar.

Por isso a importância de dar olhos atentos para essa vertente dos últimos acontecimentos no ES. Eles e elas precisam de ajuda e de acolhimento, de cenários que permitam abertura para falar, desabafar, exercer a troca, receber apoio.

O silêncio é um grande problema e o reforço de recursos tóxicos de aprofundamento da introspecção e da violência como válvula de escape só piora a situação. 

Falem. É necessário que falem.


publicado em 17 de Fevereiro de 2017, 13:26
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Jader Pires

É escritor e editor do Papo de Homem. Seu livro de contos é o Ela Prefere as Uvas Verdes. Está no Facebook, no Instagram e escreve semanalmente sua newsletter, a Meio-Fio, com contos/crônicas e uma curadoria cultural todas às sextas, direto no seu e-mail.


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