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Pega aí, pós-modernidade do relativismo linguístico | WTF #49

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DRAMATIS PERSONÆ

JAMES JOYCE é o escritor irlandês de tapa-olho.

GIAMBATTISTA VICO é um teórico napolitano humanista. Já considerava que o relacionamento entre linguagem e cultura era supimpa. Um anticartesiano que deu origem ao pensamento complexo e sistêmico. That is, a proto-continental-jibber-jaber.

BENJAMIN LEE WHORF acreditava que a língua molda como podemos pensar e perceber o mundo.

EDWARD SAPIR foi o mentor de Whorf, e deu credibilidade pro cara, que não tinha formação na área.

STEVEN PINKER representa a maioria dos linguistas não hippies que desacreditam Whorf.

LUDWIG WITTGENSTEIN é dois filósofos em um só. Normalmente vinculado ao determinismo linguístico, que não sabemos se ajuda (visão mais comum) ou prejudica (Pinker) a posição de Whorf.

FRANZ BOAS antropólogo germano-estadunidense que começou essa história de relativismo cultural. Ele não aparece explicitamente no texto, mas está de castigo contra a parede em algumas das cenas.

JOHN MCWHORTER linguista e magical negro.

O ALEPH letra “a” hebraica metaforicamente transformada em Big Dumb Object (o simultaneamente menor e maior deles) de um conto de Borges.

NARRADOR ONISCIENTE a confusão que se auto-intitula “eu”, ou Mike Myers como Linda Richman no esquete recorrente Coffee Talk.

EDUARDO PINHEIRO um diletante extraordinário e bugio levemente territorial.

GEORGE ORWELL inglesão das letras, cheio das noções do uso (e distorção) da língua para uso político, as quais famosamente extrapolou em seu ultramega influente 1984 e no ensaio seminal “A política e a língua inglesa”.

HERBERT V. GUENTHER não está no texto, mas cunhou o termo “gnosêmico”, que salta aos olhos e cuja definição não vai ser fácil achar. O termo foi criado embasado na teoria de que os fonemas são expressões da sabedoria inata da fisiologia sutil. Ai, mamãe.

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James Joyce

James Joyce recorreu a Giambattista Vico em sua imersão hipercabalista na glossolalia, Finnegans Wake. O italiano ressoa já na primeira página, dita a divisão dos capítulos, e mais de um teórico atribui às primeiras considerações sistemáticas da conexão entre cultura e linguagem algum tipo de palimpsesto caleidoscópico do labirinto textual em questão. Mas mais que isso, tais considerações são extrapoladas por Joyce para a relação entre a linguagem e uma totalidade desavergonhada que não ousamos chamar inconsciente, ou o que seja. Texto maior que a vida de qualquer um de nós, não cabendo, espaço-temporalmente falando, em nenhuma -- um objeto irritantemente transfinito.

Que alguns anos da vida de um sujeito fazendo repetidas cirurgias nos olhos produzam tal calhamaço indecifrável, que se julga a princípio algum tipo de pegadinha literária, é só evidência da segunda lei da termodinâmica. As coisas degradam para o equilíbrio da desordem e dispersão, a utilidade da energia remanescente tendendo a zero. Se ninguém entendia, cada vez menos gente vai entender.

Confesso que me sinto ambivalente em meu relacionamento com o texto, e o divulgo como forma de ampliar a dissonância cognitiva em torno dele – algo que o próprio também escancaradamente fomenta. Aliás, a primeira vista, ele parece só isso: uma cacofonia sem propósito.

Mas, independente de nossa pequenez, independente da alta literatura, independente da depressão da morte térmica do universo – qualquer coisa, para não pensar no velório final da matéria! – quer seja o caso ou não, o relativismo linguístico nos atrai. A circularidade que Steven Pinker reconhece no cerne do argumento não elimina o fato de que, como indivíduos, somos claramente afetados pelo uso da língua. Pergunte para qualquer jagunço: a maioria vai dizer “faz sentido”.

Na alçada pessoal, o confirmo: os inúmeros registros que utilizo durante o dia se contrapõem à cuidadosamente arquitetada forma de maravilha que é o texto, e cada um deles ou ocorre de acordo com o humor momentâneo, ou o reifica. E é, justamente essa a disputa: faz sentido perguntar qual das duas coisas tem precedência?

Sem dúvida meu jeito de me expressar me caracteriza perante os outros, mas me caracteriza perante mim mesmo? Mais do que me caracteriza, independente de um algo de dentro que vai para fora ou um algo de fora que vai para dentro (ui), me molda?

O texto enquanto texto, não o chat comunicativo, ou o e-mail  pragmático; aquele que é a expressão mais cuidada e representativa da minha pessoa – algo que não vem de um pedido ou como trabalho, mas que se apresenta como o articulado canto lacônico de um pássaro, natural em seu floreio deliberado. Será indicativo de mera bravata intelectual, ou uma expressão de sincera labuta interior pelo sentido?

Benjamin Whorf
Benjamin Whorf

Canto de pássaro, ó, que bonitinho. Vem de um turbilhão de reflexões que cultivo há anos, cuidadosamente entrosado com a glosa, duvida, aliterativa. No pun intended, mas quem peidou?

E nunca esqueçamos a plateia imaginária, cheia de indivíduos exigentes em suas ausências peculiares, que possivelmente segue resmungona. Ausências mentais (lacunas na cultura, para ser bronco) tais como o hipertextual “James Joyce”, com que abro o primeiro parágrafo (e que, repito, ninguém jamais domou, particularmente se estamos falando do Wake). Não é coisa de bloguinho, meu amigo. Não é artigo de revista feminina com 10 dicas de como fazer boquete. (Mas, no fundo, bem no fundo, né, é a mesma merda que vai a zero kelvin... todo mundo tá cansado de saber.) Joyce, e tudo mais, é para quem sabe que o texto não vai ser dominado – explorado, esgotado, com a expectativa que se tem diante de uma jiboia que tenta digerir o mundo. A incompreensão e o mistério afrontam quem busca receitas de bolo ou sensacionalismo argumentativo, ou a confissão íntima da egotrip. Não é sua praia? Beijinho no ombro.

E cada sentença é um espelho que reflete todas as outras, cada uma delas espelhada inteira e completa na subsequente, o Aleph na alusão ao Aleph. Ouroboros textual. Algumas vezes uma palavra é suficiente, e o samadhi atemporal aflora de conhecimento transbordante. “Escaninho”: vá ter seu delírio místico na puta que o pariu. Não são letras, não são fonemas, nem referências a algo em algum lugar, mas o próprio néctar da presença espontânea feito letras marcadas em fogo de fótons e elétrons na consciência não eletroquímica, subjugados pela união inexpressível de boa vontade com desenvoltura.

Ou muco pútrido de doninha. Poesia.

Affect or effect?

Mas Joyce não é exatamente místico, embora seja para iniciados, e possivelmente só recomenda e fala de Joyce para se soar bacana: quem tem várias vidas para ficar masturbando leitura modernista? Só quem tem uma bolsa de doutorado, ou um trust fund, e olhe lá. E daí cabe ser artê, ars-qua-ars, só pra conquistar alguma princesa carolíngia – ou assemelhada.

(BTW, emprestei minha cópia do Wake para uma amiga irlandesa -- ó ironia -- e ela só me disse que tinha sacanagem demais. Ironia ao quadrado!)

E claro, o caso em questão é de um simples artista, essa gente que vive pragmatismos desprezíveis, como a situação financeira e familiar engendrada (opa, engemBRADA) desse escritor exemplo. Nada demais, nada de se orgulhar. Ano passado cheguei a ouvir um audiobook da biografia de Joyce por Richard Ellmann: como nós todos, pessoas, sofremos. E nem adianta ser gênio e trabalhar feito um condenado.

Steven Pinker
Steven Pinker

De todo modo, o assunto é o relativismo linguístico. Joyce escreveu como quem faz cócegas em multidões de acadêmicos ainda por nascer. Ou como quem prestou atenção na logorreia da filha esquizofrênica. Provavelmente as duas coisas. E outros escritores volta e meia seguem a fórmula “vou encher essa porra de piada interna”. Nada contra, nada a favor.

Mas, por isso e aquilo, sou adepto.

Sempre achei interessante o que alguns anos atrás chamava de “hipótese de Sapir-Whorf”, mas que hoje com uma historiografia renovada, leva o controverso título inicial de “relativismo”, linguístico, no caso. Essa mudança na nomenclatura da teoria -- (olhe já o buraco onde se entra, ao reconhecer que a ideia de que a língua afeta como pensamos recebe diversos nomes, cada um mais comprometedor que o outro) -- implica um parentesco com outros relativismos, em particular, o relativismo cultural. Ora, todos facilmente concordamos que o relativismo cultural é perigoso: é o tipo de coisa que nos faz de algum modo respeitar costumes bárbaros como circuncisão feminina, por que, enfim, são próprios de uma cultura que existe como uma totalidade em si própria, e não pode ser julgada a partir de outra. Esse tipo de encrenca.

Evidentemente, também, logo que uso a palavra “bárbaros” estou plenamente ciente que o termo surgiu do “territorialismo” latino coxinha, ao se deparar com aquela alteridade esquisitona, meio metaleira, que vivia fora do esquema imperial. Sujeitos com cheiros estranhos e costumes idem cujas línguas soavam, ora, “bar bar bar” -- juro que é a etimologia aceita -- aos Plínios e Justinianos da vida... e os punks (vândalos, ostrogodos, etc.) nem eram todos iguais: nada disso, um grupo vastamente heterogêneo, e que nem sempre sustentava costumes tão terríveis ou vivia de ações violentas quanto se presume pelas versões menos descoladas da história, ou mais violentas do que as dos protofacistas comedores de pizza.

Basicamente chamar de “bárbaro” era só a xenofobia de sempre: reclamar dos “argentinos” de uma época e lugar específicos.

Não dá para fugir da psicolinguística.

E sim, chamei os bárbaros de punks logo depois de tê-los chamados de metaleiros, oh, I’m verklampt, talk amongst yourselves. E nem entremos na Maria Baderna, Nossa Senhora do Facebook.

Não existem águas rasas na cultura. E code-switching, referências obscuras e verbomania não ajudam. Fazer o quê? Não tava afim de escrever matéria de consumo.

Ludwig Wittgenstein
Ludwig Wittgenstein

Anyway.

O absolutamente desacreditado trabalho de Whorf com a língua dos Hopi foi, em contraposição com os barbarismos aí, segundo John McWhorter, cheio do que eu descreveria como “xenofilia”. Exatamente como o estereótipo do personagem do preto mágico, em que nossa cultura (ou a de Hollywood, sendo mais preciso) condescendentemente, por meio da culpa do homem heterossexual branco engravatado, cria uma sequência de personagens negros altamente benignos, mas pobremente unidimensionais. Por inferência, a mesma fonte de coisas como “o oriental é sábio”, um tipo de antirracismo (que segue racista) que ouvi de minha vó e gente da idade dela por toda minha vida.

(O leitor desavisado poderá perder o triplo sentido de “barbarismo” na sentença anterior: não só os atos dos bárbaros, mas o barbarismo de primatas-que-atiram-cocô-por-territorialismo de nomear pejorativamente bárbaros porque soam “bar bar”, e mais que isso, também de, diz o Houais ELETRÔNICO, “formas vocabulares contrárias à norma culta da língua, seja do ponto de vista ortoépico, ortográfico, gramatical, ou semântico”. Viu como sou esperto, piscadinha e sorrisinho lateral ;)

Teria Whorf realmente exagerado em seu argumento? Não tenha dúvida. Whorf era um místico com uma adoração estereotipada pela alteridade, especialmente a do underdog massacrado. Tem teórico até que diz que essa era a importância do cara.

E se alguém está se perguntando se Whorf era hippie, a ordem altera o produto: a relatividade linguística (assim soa mais respeitável, mais einsteniano!) e o relativismo cultural, mais antigos, sim que foram fundamentos do (“abaixo o) sistema(”) emaconhado de pensar. Mas acabou tudo identificado... só não me rotula, cara, paz e amor, pode ser?

Agora cada vez menos gente se aceita “relativista”: já é xingamento. A esteira dos eufemismos (nomenclatura de quem? Pinkerinho!) pode seguir inexorável que sempre se dá um jeito de demonizar terminologia. As ruas espezinham os especialistas. E não que eu defenda o relativismo, não me acuse disso, nem de pós-moderno. Gordo eu sou, isso aí, não.

Mas o que vem antes, o ovo ou a galinha: a linguagem surge em termos do jeito que pensamos, ou pensamos como pensamos devido à linguagem? O que Pinker chama de argumento circular daria para ser mais generoso e chamar logo de feedback, “retroalimentação”. E sim, quando você lê essa palavra sinta-se livre para ficar mesmerizado como diante de uma serpentina longa distorcida nota hendrixiana. (E quando se lê essa sequência de adjetivos culminando num substantivo adjetivado composto impossível não lembrar que isso vem de pensar em inglês).

John McWhorter
John McWhorter

Mais pedigree que contextualizar Joyce bonito (tese: Finnegans Wake como libertador dos grilhões de hábitos linguísticos arraigados, pelo menos para quem o tenta ler em japonês) num texto é difícil, mas vamos meter um Wittgenstein. O primeiro, que dizia coisas como “já que não dá para falar dessas paradas, melhor fechar a matraca”, parece de fato ser algum tipo de determinista linguístico. Isto é, pensar e falar são a mesma coisa. Elimina a circularidade pinkeriana, mas não nos livra do relativismo cultural, porque se há formas diversas de pensar, tudo segue de acordo com o argumento. É difícil mesmo dizer se é um argumento que ajuda ou prejudica o whorfianismo.

Complica ainda mais. O segundo Wittgenstein, é difícil precisar, parece que pensa diferente. Ao contrário do determinismo linguístico implícito no Tractatus, as Investigações Filosóficas usam como método o discurso indireto, em o que está expresso é uma série de problemas que apontam para algo (uma não solução? Para um não problema?) -- certo aspecto de confusão mental que é causado, ora, pelo uso da linguagem. “Ah”, o leitor mais consciencioso poderá exclamar, “o primeiro Wittgenstein também parecia assobiar isso no primeiro livro, com sua parrésica tirada nonsense sobre o próprio nonsense”.

É isso.

O primeiro é desajeitado em expressar, de acordo com o totalitarismo da linguagem, aquilo que ele reconhece como não estando na linguagem, como não podendo ser sequer ... deixa para lá, subiu pro sótão, joga fora a escada. É romântico, no sentido do desespero de obter um “resultado” que não pode entregar. Mostra, não diz. “Cala a boca e me beija”. Já o segundo, com o mesmo problema, é menos emocional e mais hábil: vamos criar estas estruturas aqui, e aos poucos, lidando com elas, a fixação habitual às estruturas da linguagem vai se revelar.

* * *

Porém, é preciso dizer, aprender 30 termos em grego com certa profundidade muda a vida da pessoa. Não é “aprender grego”, é se esforçar para penetrar a semântica de outra era, uma que tem a ver conosco, mas está suficientemente afastada -- geralmente se escolhe palavras com impacto supostamente atual, como “democracia”, e aí se tenta ir além da mera etimologia.

Umas poucas palavras podem não abrir a visão do mundo grego como ele era, ou permitir algo do tipo, mas desafiam sem dúvida a imersão corriqueira no automático não examinado de quaisquer termos, a imersão corriqueira no paradigma normalóide. (Como é mesmo – normose? Normatose? Norminose?) (Para-deikmuni: apontar o que está do lado, o que corre paralelo; paradeigma: padrão, exemplo).

George Orwell
George Orwell

Quando alguém me louva por escrever numa versão brasileira de Basic English ou petinege fico particularmente pasmo. Às vezes sinto como se popularizar o “pensamento erudito” do Eduardo Pinheiro tenha virado uma campanha com verba e sede, em que pessoas se encontram para decidir como me induzir a escrever textos mais simples, com mais “envergadura” populacional. Mas é só megalomania, eu sei.

Ora, circularidade pinkeriana: escrevo para alguém em qual sentido de “para”: no sentido subserviente, ou num sentido assertivo? Para as vontades, para as necessidades, ou para um leitor que se quer forçar a fazer existir, como por esfregar uma lâmpada? Teurgia de invocar ou evocar?

Se eu não posso reificar o verbo reificar, e assim liberar o texto de si mesmo, de nada vale ele ser o mais puro aglomerado de marcas gnosêmicas.

Mas ficar de briguinha com filisteu é cansativo.

E a política, claro. Nesse assunto do “relativismo” linguístico, 1984 está em alta – desde 1948. Ora, não porque o totalitarismo como Orwell temia tenha se estabelecido, mas ... desculpe, sim, porque algum totalitarismo orwelliano se estabeleceu. Só que de direita, mais huxleyano, no fundo. Isto é, participe de qualquer reunião de publicitários e eles não estarão discutindo a circularidade que Pinker reconhece em Sapir-Whorf (tenha que nome tenha): estarão cuidadosamente fazendo engenharia de palavras para marcar sua mente, atrair sua atenção, e, se possível, o fazer tender a pensar em comprar.

E como tudo no capitalismo darwinista, eles não existem porque suas teorias e jargões floridos sejam o caso, mas porque funcionam. E os que funcionam melhor ganham mais dinheiro, e portanto “existem melhor”, mais reificados. E assim por diante.

Ora, haver copidesque em agência de publicidade é prova de Sapir-Whorf: alguém duvida que manipular a língua é manipular mentes? Pinker parece que sim, mas é só birra. Talvez me acusasse de confundir o uso emocional da língua, que todo mundo que já se deparou com ficção ou alguém contando uma história conhece, com a estrutura linguística. Mas, as coisas só se separam em termos do que seria a diferença entre biologia evolucionária e a fisiologia de um organismo particular: como pensar a segunda sem a primeira?

Em Ulysses, slogans publicitários adentram os pensamentos dos protagonistas, em pensamento, ou ouvidos pelas ruas de Dublin. Quando li sobre isso me surpreendi: “1904 e eles já tinham slogans e outdoors com frases chamativas!”. Joyce capta essa realidade com o comentário modernista sem comentário.

Mas riverrum, recirculando, da língua para o pensamento, do pensamento para a língua – determinismo ma non troppo. Nem entremos em marcadores evidenciais, e o fato de que em certas línguas apenas aos doze anos se atinge o uso adulto padrão de certas construções. Ou na disputa não política contra Chomsky. Ou nas versões “fraca” e “”forte” do argumento do relativismo linguístico... a versão fraca, que há alguma relação causal entre língua e pensamento/percepção,  é mais que suficiente para nos ocupar.

O fato é que a língua não afeta os fatos. Anselmo que o diga. Kant que o garanta. Wittgenstein que... contextualize. Se a ordem de matar foi dada, podemos sempre dizer que mandar e obedecer não são atos linguísticos. Se alguém age por que entende, o problema é ético. Se age porque não entende, porque confunde, o problema é cognitivo. A língua é isenta. Que são essas coisas, as palavras, senão ferramentas totalmente neutras?

Mas essa tentantiva de tornar isso um fato pela expressão de que é um fato é só retórica.

O psicologismo vai para o extremo oposto dessa glória da separação analítica. Ora, mete um interpretacio em tudo, e em alguns casos, o sujeito vai estar justamente no texto. Nada além do texto, da fala... único existente absoluto, e que para os desavisados e otimistas, desafia o zero kelvin do fim dos dias. Pulsão masturbatória, texto parrudinho de referências que não fala em espancar o macaco perde o clichê, fica no nhem nhem nhem e não vai ao ponto. Essas coisas.

Nem aqui, nem ali ou acolá. Não tem sujeito reificado santificado, culpado, exorcizado. E a língua -- a expressão habitual ou esculpida dessa presença, faz sem dúvida diferença, e sem dúvida afeta (a paciência?). Para começar, quem a usa de forma banal, se mostra banal e vive de forma banal. E se não for o caso, nem sabe alçar o lastro infindo do manancial supremo, blá blá blá. (Volksgeister, talvez. Leitor frequente de Heidegger fica tudo meio bitolado, não? Gambiarra gonzo de medo e delírio: veneno, cara. Tudo caô. Falou e disse).

… Coca-cola é isso aí. Imagine. Ame-o ou deixe-o. Vai tomar no cu. Brekekekex koax koax. Amar é nunca ter de pedir desculpas. Amo muito tudo isso. Check out the big brain on Brett!  Sub specie æternitatis. “Arigatô” vem da pronúncia japonesa de “obrigado”. “Laranja” vem do tâmil, a mais culta das línguas dravidianas. Fatos linguísticos, eventos linguísticos, com impactos no mundo, sofrendo impactos do mundo. Por si só? Nada é por si só.

Os Pirahã
Os Pirahã

Evidências cada vez maiores (em estudos com cores e tribos como os Pirahã) mostram que vamos ter que conviver com algum grau de whorfismo, isto é, nunca vamos nos livrar totalmente da linguística bicho grilo. Podemos nos perguntar a quem serve pensar a estrutura de pensamento subjacente à língua como universal. Ao estilo de pensamento dominante, ligado à língua dominante, of course. Take your stinking paws off me you damn dirty ape!

(O autor não utilizou ferramentas eletrônicas de geração automática de texto em linguagem natural na preparação deste petardo gárrulo.)


publicado em 12 de Novembro de 2014, 22:00
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Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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