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Paternidade & Coragem | Como enfrentei as feridas do passado, as burocracias e o preconceito para nascer como pai

Todo mundo tem pai, né? Então um dia eu quero ser um pai, pra ser um bom pai, porque todo mundo precisa de um bom pai


É interessante pensar nessa pergunta: quando eu nasci como pai?

Eu vou voltar um pouco atrás. Eu vou voltar na ideia de que, quando eu descobri que ia ser pai, me vi num lugar muito dolorido na minha vida que é o fato de não ter tido um pai. Ou melhor, de ter tido um pai muito ausente de afeto, muito ausente de palavras e muito violento.

Minha infância foi marcada por muita violência. Eu não tenho uma memória do meu pai dizer que me amava e na verdade eu nem acredito que de fato ele me amasse. Mas eu tenho memória dele gritando comigo. 

Eu não tenho memória de carinho do meu pai, mas tenho a memória do peso da mão dele, mas ainda por eu ser um menino que sempre mostrei que eu era muito diferente de todos os outros. Ele não se importava se eu era um bom aluno, porque eu não era o filho que correspondia às expectativas dele. 

Um dia eu tive uma sensação que era “todo mundo tem pai, né? Então um dia eu quero ser um pai, pra ser um bom pai, porque todo mundo precisa de um bom pai”.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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O tempo foi passando e eu fui percebendo que eu era gay. Eu fui muito violentado por causa disso. A frase “se eu tiver filho viado, eu prefiro que morra” era muito frequente na minha casa. Minha experiência de paternidade foi muito marcada pela dor, pelo medo, por essa mágoa. 

Quando eu fui expulso de casa por ele (meu pai) eu tive essa sensação: Eu não tive uma família, mas eu vou construir uma, eu vou ser pai.

Passado um tempo eu conheci meu marido, o Victor. A gente está casado há 14 anos. Eu lembro que no primeiro encontro ele falou pra mim: “Bruno eu quero ter uma coisa séria, eu quero construir uma família.”

u fiquei muito emocionado porque foi o que eu falei pra ele: “Eu quero ter um filho, eu quero ser pai”. 

A gente decidiu que a gente precisava ter coragem o suficiente pra ser pai e essa palavra é uma das palavras que mais marcam nossa paternidade. A palavra coragem. Desde o início a gente precisou de muita coragem para estar junto. E a gente precisa de muita coragem para ser família. 

Eu gosto de pensar que eu me vejo sendo gestado pai: o momento da concepção dessa paternidade é quando a gente se olha, decide ser pai e começa a enfrentar as burocracias para isso, sendo dois homens.

Neste processo de gestação de ser pai, a gente escutou todos os preconceitos do mundo: diziam que o nosso filho não ia ser feliz tendo dois pais, que o amor de pai não era a mesma coisa, que uma criança pode até viver sem pai mas sem uma mãe, ela não é feliz.

Essas coisas todas machucavam muito a gente mas o nosso desejo, nosso sonho, nossa coragem de ser família, de ser mais, foi muito maior que isso e isso foi uma gestação no coração.

Quando eu segurei meu filho pela primeira vez eu fui tomado por essa tsunami de sentimentos de realização de medo de nervosismo. Foi um amor tão incrível que eu lembro de conversar com o Victor: “De onde vem esse amor?”.

Eu não sabia que eu era capaz de amar tanto quanto eu estou amando esta criança. Eu não sabia que eu era tão forte e que eu era tão frágil. Eu não sabia que eu era tão corajoso e tão medroso. E foi muito doido sentir esses sentimentos todos, porque existe uma romantização sobre o ser pai e ninguém tinha dito isso pra gente, que a gente iria sentir o maior amor do mundo e o maior cansaço do mundo. 

Então a gente ficou muito solitário e muito carente de ter essas referências de uma paternidade real, de ouvir falar sobre isso de uma maneira mais verdadeiras, a gente sentiu solitário na ausência de outros homens para conversar sobre o que era ser pai de verdade e a gente sentia uma ausência muito grande porque eu não tinha tido um pai.

Eu lembro de um dia estar no quarto, trocando fralda, no meio da madrugada, e de perguntar pra ele: "Filho, tá tudo bem?". Claro que ele, um bebê, não respondeu. Eu lembro de começar a chorar muito eu pensei: a nossa relação vai ser construída com honestidade, com sinceridade sempre e eu preciso te contar uma coisa: eu não sei ser pai.

Eu li muito, eu estudei muito, pesquisei muito, mas eu não sei ser pai porque nada que eu li era sobre você, meu filho, e sobre mim, no sentido de que nós somos pessoas que estamos nos conhecendo. Quando você chegou pra gente, filho, eu renasci.

Eu hoje sou uma pessoa nova e eu também estou me conhecendo. Eu, Bruno Pai, sou um novo homem e não tive um exemplo de pai então eu não sei ser pai. E eu não sei ser seu pai. Você me aceita como pai? E você me ensina a ser seu pai nessa jornada? 

Ele ele sorriu e eu chorei tanto, mas tanto, porque eu entendi aquilo como um sim. 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Eu acho que a gente nasce pai todo dia, mas isso foi um grande marco pra mim porque foi um dia que eu fui muito honesto com ele.  Mas eu acredito que a agente nasce pai todo dia porque este é um processo de renovação constante, de cada etapa, cada fase. Cada salto de desenvolvimento dele demanda um salto de desenvolvimento da gente. Cada dia nossa coragem é testada, nossa paciência é testada, nossa capacidade de aguentar cansaço é testada, os nossos limites são todos testadas e o nosso amor, nossa capacidade de amar.

E eu acho que ser pai é isso, é estar aberto a sentir tudo, todos os sentimentos, o tempo inteiro e se permitir continuar se expandindo nessa jornada incrível que é a paternidade.


publicado em 08 de Agosto de 2020, 07:18
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Bruno Vilas Boas

Criador do @Paternidade_divertida, 36 anos, pai do Sol.


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