Estão abertas as incrições para a última turma de 2017 do nosso curso de equilíbrio emocional para homens. São apenas 20 vagas. :)

Parto, cuidado e gestação: um homem pode ser doula? | Homens Possíveis #4

Rodrigo Dias cuida dos partos, das gestantes, das famílias e mostra que um homem também pode ser doulo

Doula é o nome dado à pessoa responsável por providenciar apoio físico, de informações e emocional às gestantes durante a gravidez, o parto e após o nascimento das crianças.

A origem da palavra vem da Grécia, significa “serva”, e, pela relação intrínseca a maternidade, quase sempre é interpretada como um campo exclusivo para as mulheres.

Mas e quando um homem decide ser doulo?

Nascido na periferia de São Paulo, Rodrigo Dias era da turma do teatro e da música na adolescência. Chegou a tocar na noite de São Paulo e, após superar a crença de que um curso superior não era algo possível para pessoas da realidade social em que foi criado, estudou psicologia como bolsista pelo Prouni.

Estudante de psicologia, entrou na doulagem ao acolher a cunhada durante o parto, sem saber que o que estava fazendo tinha nome ou era profissão. Interessado pela área do cuidado, da cura, se formou doulo e passou a atuar no apoio às gestantes e suas famílias.

Hoje, Rodrigo faz parte do Mama Ekos — instituto voltado para dar acesso a práticas e conhecimento sobre cuidados humanizados a gestantes e famílias — e mora em Maués, no interior do Amazonas, onde ensina e aprende, com parteiras da região, a resgatar conhecimentos ancestrais e a colocá-los em prática em prol das famílias.

Rodrigo tem consciência que, para muitas pessoas, é um problema ter um homem como facilitador em um momento tão significativo e tão íntimo para uma mulher quanto um parto. Ao mesmo tempo, acredita que ser um homem que atua como doulo pode ajudar outros homens — pais inclusive — a entender como é possível acolher, cuidar, contribuir e participar durante a gestação.

Rodrigo e doulandas

Quando você entrou em contato com uma doula ou ficou sabendo sobre o papel que elas exercem pela primeira vez? Você se interessou prontamente ou foi um caminho construído lentamente?

Rodrigo: Eu tive um caminho interessante! Vivi a doulagem sem saber que o que estava fazendo tinha um nome e era uma profissão. Minha cunhada estava grávida, meu irmão teve que viajar no período do parto e eu pedi a ela para acompanhar o nascimento. Ela topou e eu fui! Lá, vendo toda a intensidade do momento, procurei ajudar de várias formas tentando deixá-la o mais confortável possível. Fiz massagens, abracei, beijei, encorajei, segurei a mão…  

As enfermeiras diziam: “que pai prestativo”, e minha cunhada dizia que eu era tio, não pai. Vi que eu auxiliei como pude e que esse auxílio fez diferença pra minha cunhada. Depois, também estive presente no puerpério, já que morávamos juntos [n.e.: puerpério é o período em que a mulher se recompõe da gestação de forma emocional, hormonal e física]. A partir daí, comecei a pensar em trabalhar com gestantes após a conclusão do curso de Psicologia, mas ainda não sabia da existência da doulagem em si.

Aí uma amiga minha, Daniela Evelise, uma atriz e terapeuta sensacional, se tornou doula e começou a fazer rodas de gestantes. Fui admitido nas rodas, aprendi muito e despertou o interesse de estudar a doulagem. Porém, essa formação ainda é algo pouco acessível a pessoas com baixo poder aquisitivo. Tive então que postergar essa vontade.

Como se deu o seu processo de formação como doulo?

Rodrigo: Apesar de hoje saber que existem movimentos que tentam democratizar esse saber, oferecendo formações mais baratas, gratuitas ou até com outras formas de trocas que não somente financeira, eu me formei numa instituição típica, num bairro de nobre de São Paulo e com alto custo.

Apesar de caro, ter acesso a um mundo de conhecimentos novos sobre a maternidade foi muito gostoso. Foi muito bom estudar algo que eu tinha vivido de forma intuitiva primeiramente. Hoje, estando em contato com as parteiras tradicionais — muitas analfabetas, mas com uma experiência e saberes riquíssimos na parteria — acredito que muito do que chamamos habilidades são dons com os quais nascemos, mas que podem ser muito enriquecidos com o estudo. Acho que nas áreas humanas, do cuidado e da cura, a formação é constante. Me sinto em formação até hoje e sempre.

Nesse início, qual era a sua percepção sobre a atuação de um homem como doulo?

Rodrigo: Então, eu segui algo que me soou como um chamado, pelo fato de que eu me sentia muito bem atendendo. E sentia que contribuía bastante com as mulheres e casais que atendia. Por vezes me sentia inseguro e até não pertencente, não autorizado/admitido nesse mundo. O que fazia sentido pra mim foram os atendimentos e como as pessoas se sentiam. Isso me fez continuar, pois eu sentia que fazia bem a elas. Então achei natural atuar como doula também. Independente do gênero, havia acolhimento, cuidado, procura, indicação do meu serviço a outras pessoas. Então considerei que devia seguir.

E como era a percepção de outras doulas sobre o seu interesse em exercer esse papel?

Rodrigo: Sobre a percepção de outras doulas, isso é bem dividido! Muitas pessoas me apoiaram, acharam interessante um homem atuando como doula, outras pessoas não. Ainda há muita gente para quem a entrada de um homem numa área feminina como a doulagem e maternidade é uma afronta inadmissível, uma ofensa mesmo! Pensei muito sobre isso, sobre esse posicionamento, tentando levar em consideração todo o passado e (infelizmente) presente na lama suja que é o machismo.

Li como as mulheres foram retiradas de vários ambientes, sempre subjugada pelos homens e pela cultura patriarcal. Então parte de mim, entende essa resistência, mas outra parte de mim se recusa a aceitar um mundo em que o aparelho biológico determine o que devo fazer ou não da minha vida. Penso que esse pensamento determinista a partir do aparelho biológico com o qual cada um veio ao mundo foi o responsável pelas atrocidades cometida pelo patriarcado às mulheres e aos seus direitos.

(...) Conversando com pessoas sobre o assunto, com amigas feministas, recebi alguns toques, sobre o cuidado com o lugar de fala, já que só por ter nascido homem isso já me deixa em um lugar de privilégios em detrimento de uma mulher. Mas o que percebo é uma satanização de quem tem privilégios seja qual for, quando penso que o que deve ser analisado, antes dos privilégios é o que tem sido feito desse privilégio. Uma pessoa com mais poder aquisitivo não se torna má ou opressora só por ter mais dinheiro. Tem muita gente com dinheiro que luta e utiliza esse recurso em prol de projetos sociais, em prol de uma distribuição mais igualitária e para a diminuição desses privilégios na sociedade!

Por isso penso que cada caso deve ser analisado particularmente e cuidadosamente, antes de julgamentos a partir do gênero. (...) A luta contra o preconceito deve ser diária. A começar pelos nossos, pra quebrarmos nossos paradigmas e cristalizações. Depois a gente muda o mundo exterior, primeiro é o mundo interno.

Com isso, assumo que escorreguei e escorrego com alguma fala, postura ou ato, onde os valores aprendidos e preconceituosos em mim falaram mais alto. Mas me vejo como um aprendiz, e tento ao máximo estar aberto a ouvir críticas sobre essas falhas e corrigi-las. Mas creio que, com respeito, mulheres e homens devem estar onde quiserem estar. Onde se sentem bem e façam a diferença!

Como foi a sua primeira experiência atuando como doulo? Me conte um pouco sobre como foi o processo de começar a se entender nesse novo papel?

Rodrigo: Minha primeira experiência foi com minha cunhada, porém não foi uma experiência profissional, eu não me via assim como doula. Depois comecei a fazer parte de um projeto chamado Mama Ekos que foi idealizado por uma amiga, Patricia Martins, que estava iniciando ações de doulagem, rodas de gestantes, doulagem voluntária e vivências para mulheres da periferia, com o intento de deixar acessível esse saber tão elitizado, tão distante da maior parte da população.

Pelo Mama Ekos, tive contato com mulheres e casais. Fui muito bem recebido como profissional, o fato de eu ser homem não foi um impeditivo. Fui considerado, antes, como uma ponte. Uma referência a outros homens, país, ou companheiros. Assim, fui tendo contato com gestantes, casais, famílias e fui junto com a equipe Mama Ekos pensando estratégias de chegar nos hospitais, UBS, escolas e como difundir esse conhecimento. Esse apoio de outros profissionais e confiança em meu trabalho foi algo essencial para essa construção, para essa trajetória tão polêmica que escolhi ou fui escolhido para trilhar.

Agora, sobre minha primeira experiência foi num parto foi muito intensa! Passei umas 32 horas acordado no hospital com a doulanda. Foi um trabalho longo e difícil pra ela. Não foi muito diferente da experiência com minha cunhada e fiz basicamente as mesmas coisas, com a diferença que estava mais consciente do que poderia acontecer e mais seguro, já que tinha estudado o assunto. Minha prática estava mais madura e confiante. No entanto, o parto teve que ser cesariana e isso me deixou muito frustrado no início, pois a cesárea é um procedimento invasivo, não muito bem visto dentro do contexto do parto natural, movimento do qual sou militante.

Depois, tendo recebido acolhimento de familiares e colegas, entendi na prática o que tinha lido na teoria. O fato de que na maternidade e no parto não há meios de controlar todas as situações, e que alguns procedimentos, por mais invasivos que sejam, podem salvar vidas. Aceitei minhas limitações profissionais, emocionais… Essa experiência foi intensa e difícil mas repleta de aprendizados sobre a doulagem, meus limites e sobre minha paixão pela maternidade.

Quais são as diferenças que você percebe entre uma mulher doula e um homem doulo? Se existem conexões que você não consegue acessar, por outro lado, existem coisas que as masculinidades trazem de benéfico para a sua atuação?

Rodrigo: Creio que saber mesmo como uma mulher se sente na maternidade é algo que será sempre uma fantasia, algo que imagino como deve ser… Mas não acho que isso me impeça de desempenhar um bom trabalho doulando, acolhendo.

“Penso que ser homem e ser doula pode ser um tipo de referência para pais e companheiros(as) que muitas vezes têm dificuldade de acessar um aspecto mais sensível e, assim, estar mais próximo e acolher melhor a gestante”.

Também vejo como positivo que outros homens se interessem pela maternidade e que, entendendo as sutilezas e demandas da gestante, não se alheiem do nascimento de um novo membro da família, como vemos muito por aí com homens que se afastam de tudo o que é “coisa de mulher”. Penso que o mundo será menos cindido se as pessoas transitarem por onde elas quiserem, sem categorias tão estanques.

Estar próximo da gestação e nascimento de uma criança faz toda a diferença pra relação que essa família terá futuramente. Por isso acho que ser um homem que quebra esses paradigmas pode despertar outros homens a também acessarem seu lado cuidador, sensível e a saírem da prisão de rótulos que nos é imposta pela cultura.

O papel da doula homem pode ser uma forma de reaproximação do homem no processo de maternidade. Fala-se muito do quanto o homem não está presente, o quanto que o pai se alheia e deixa para a mulher um peso que na verdade deve ser do casal. No entanto, os homens que se aproximam dessa realidade por afinidade, são excluídos! Creio que o homem deve sim se envolver com a maternidade, e isso talvez dê outros rumos à como ele trata as mulheres. Exclusão só gera preconceito, e esse tempo pede outras posturas, menos combativas, mais cooperativas.

Como as parturientes que você atende (e suas famílias) lidam com o fato de você ser homem?

Rodrigo: O conforto da mulher é algo essencial no trabalho de doulagem. Por isso, sempre pergunto pra todos os envolvidos na gestação, companheiros (as), outros familiares e etc. se se sentem bem de serem acompanhados por um homem.

Sempre tive muito mais facilidade de lidar, conhecer e conversar com mulheres do que com homens. Cresci cercado de mulheres, avós, tias, mãe. Acho que isso me fez ficar mais à vontade convivendo com mulheres, e pra mim isso é natural. Os feedbacks que recebi foram todos positivos até o momento, em se tratando das pessoas que atendi. Uma doulanda que se tornou minha amiga pessoal disse que receber esse acompanhamento na segunda gestação a fez a conectar com a maternidade de uma forma mais profunda e mágica do que aconteceu com seu primeiro filho. Isso foi muito legal de ouvir, pois fortaleceu minha confiança profissional. Pra mim é uma honra essa aceitação e reconhecimento.

Esse mesmo casal estava com dificuldades, pois o companheiro, apesar de querer presenciar o parto, estava com medo da experiência! Trabalhei com ele, o preparando para acolher e para suportar os impactos do momento do nascimento, e ele corajosamente viveu um dos momentos mais felizes de sua vida — segundo me relatou depois. Apoiou e acompanhou a mulher, que também se entregou ao processo e construiu na gestação a confiança de que ele poderia auxiliar. Foi lindo!

 

Rodrigo, Mitze, Mayra, Ítalo e Patricia, criadora do Mama Ekos, na Amazônia

Com o Mama Ekos, você facilita e compartilha saberes de mulheres e gestantes (inclusive, está no Amazonas agora com esse fim). O que você aprende ao entrar constantemente em contato com o feminino?

Rodrigo: Aprendo principalmente a ser menos rígido, mais tolerante, amoroso, respeitador e a grande lição de respeitar os tempos. O tempo do plantio, da colheita, das vacas magras e gordas, o tempo de aprendizado dos outros, o meu tempo de aprendizado…

Aqui no Amazonas com as parteiras tradicionais aprendo a respeitar os diversos saberes, mesmo aqueles que não têm explicação racional. Aprendo que o aprender tem muitas fontes, o mundo é repleto de escolas e a ciência é uma delas. Aprendo que a dor e as feridas podem ser tratadas carinhosamente e coletivamente. Aprendo acima de tudo a ser mais humano. Aprendo que o amor é a finalidade da jornada e a energia mais poderosa que vi até agora!

Quais mudanças e reflexões exercer esse papel de doulo trouxeram para a maneira como você enxerga e vive sua masculinidade?

Rodrigo: Penso que todo esse mergulho do qual ainda não voltei e nem sei se um dia quererei voltar, serviu para que eu me libertasse de muitas prisões que aprendi a me enfiar! A aceitar o que sou, masculino e feminino, íntegro, total e livre!

(...) Quando perguntamos às parteiras tradicionais onde aprenderam o muito que sabem elas falam que é dom de Deus. Estou aprendendo a me importar menos com essas questões de rótulos, imposições e interdições! Enquanto houver pessoas que buscam e se beneficiam dos meus dons, os porei à disposição delas! Sendo doula, doulo, um terapeuta da maternidade, um psicólogo que atende gestantes, o que seja!

Acho que foi em Romeu e Julieta que li algo sobre o perfume e beleza da rosa existir independente do nome que se dá a ela. Me preocupo com a essência, o restante é superficial.  

Mecenas: Natura Homem

Natura Homem acredita que existem tantas maneiras de exercer as masculinidades quanto o número de homens que existem no mundo. Por isso, apoia a série Homens Possíveis e o evento de final de ano do Papo de Homem que, com o mesmo nome, busca dialogar sobre as várias facetas do masculino.

É importante trazer exemplos de homens que têm feito trabalhos benéficos e que transformam os contextos no quais estão inseridos.

Seja homem? Seja você. Por inteiro.

Natura Homem celebra todas as maneiras de ser homem.

Mecenas mobileMecenas desktop

publicado em 13 de Outubro de 2017, 00:09
Ismael veredas corte jpeg

Ismael dos Anjos

Ismael dos Anjos é mineiro, jornalista e fotógrafo. Acredita que uma boa história, não importa o formato escolhido, tem o poder de fomentar diálogos, humanizar, provocar empatia, educar, inspirar e fazer das pessoas protagonistas de suas próprias narrativas. Siga-o no Instagram.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura