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Oscar Schmidt rejeitou a NBA e mostrou que o melhor caminho nem sempre é o mais fácil | Mais que um jogo #19

O maior jogador de basquete brasileiro nunca jogou na principal liga de basquete do mundo. E não se arrepende

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Quem acompanha minhas pautas aqui no PdH já deve saber o quanto gosto de acompanhar a NBA. Fora o nível do jogo praticado, que é o motivo pelo qual a liga americana de basquete é tão bem sucedida, a NBA ainda serve de exemplo de organização esportiva. Um aspecto que eu, muito particularmente, adoro observar.

Apesar de também notar alguns problemas (como o número obsceno de jogos por temporada), de modo geral, sou só elogios ao campeonato nas minhas conversas com amigos. E é por isso que contar a história, hoje, de um personagem que rejeitou a oportunidade de fazer parte de tudo isso, se tornou algo tão interessante.

Muito prazer, mão santa

Oscar Daniel Bezerra Schmidt nasceu em 16 de fevereiro de 1958 em Natal, Rio Grande do Norte. Alto, forte e extremamente talentoso, ele revelou-se um grande jogador de basquete muito cedo de maneira que você, muito provavelmente, já conhece a figura.

O que você talvez não saiba tão bem é que, ao longo da carreira, Oscar conquistou uma série de recordes, dentre os quais destaca-se:

  • Recordista mundial de pontuação no basquete: 49.737 pontos.
  • Jogador de basquete com mais participações em Olimpíadas: 5 edições.
  • Jogador com mais pontos marcados em Olimpíadas: 1.093 pontos.
  • Jogador com mais pontos marcados em Mundiais: 893 pontos.
  • Maior cestinha da história da seleção brasileira: 7.693 pontos.
  • Eleito um dos 50 maiores jogadores de basquete da história pela FIBA, em 1991.
  • Membro do Hall da Fama da FIBA, desde 2010; e
  • Membro do Hall da Fama da NBA, desde 2013. 

Os números atingidos, os recordes quebrados e as marcas alcançadas renderam a Oscar o apelido de 'Mão Santa'. E, assim como a FIBA reconheceu em 1991, não há dúvidas de que ele foi um dos maiores de todos os tempos e certamente o melhor brasileiro.

Mas, o reconhecimento de um jogador de basquete que atuava na Europa era, como hoje, muito diferente do de um atleta que atua nos Estados Unidos. No caso de Oscar, os méritos tardaram ainda mais para serem considerados, uma vez que o brasileiro disse, por pelos menos duas vezes, não à NBA.

O primeiro convite

Quando ainda jogava na Itália, em 1984, Oscar já se destacava como um dos principais jogadores do mundo (fora dos Estados Unidos) e foi então que uma franquia da NBA chamada New Jersey Nets resolveu convidá-lo para jogar lá.

Acontece que, naquela altura, os Jogos Olímpicos - e demais campeonatos filiados ao Comitê Olímpico Internacional, como os Jogos Pan-Americanos - não aceitavam jogadores profissionais de basquete, apenas "jogadores amadores" e, enquanto na Itália, Oscar ainda era considerado um atleta amador pelo COI, passar a jogar na NBA era como se profissionalizar, o que lhe impediria de defender a seleção brasileira.

A questão do amadorismo nos Jogos Olímpicos remonta sua origem e recriação na Era Moderna. Mas se hoje ela é uma questão praticamente superada, naquela época, regras como essa ainda eram fundamentais para que atletas como Oscar tomassem uma decisão de carreira dessas.

É difícil imaginar o que o brasileiro poderia ter conquistado ou deixado de conquistar se tivesse jogado nos Estados Unidos.

Para uns, ele teria melhorado sua principal fraqueza: a marcação.

Para outros, ele se destacaria por seus arremessos precisos de 3 pontos e lances-livres.

Para uns, ele seria a esperança de fazer uma franquia pequena decolar.

Para outros, ele não encontraria a bola no jogo coletivo dos americanos e viveria trocando de franquia.

Para uns, ele seria uma dos principais jogadores da liga, teria conquistado títulos e colecionado indicações às "seleções da temporada".

Para outros, ele não passaria de um jogador mediano que ainda por cima teria sido impedido de jogar torneios olímpicos e, portanto, não teria o destaque e a importância que tem hoje.

Mas se isso tudo não passa de hipóteses, o que sabemos é que:

Foi sua negativa em 1984 que permitiu que fenômenos como a conquista histórica dos Jogos Pan-Americanos de 1987 sobre a própria seleção americana acontecesse.

Foi sua negativa em 1984 que tornou-lhe um dos maiores ídolos da história do esporte nacional.

Foi sua negativa em 1984 que permitiu que a questão do amadorismo no basquetebol olímpico fosse rediscutida até ser definitivamente alterada em 1989. 

E foi então que Oscar disse não à NBA pela segunda vez, por um segundo motivo, e nos deu uma segunda lição.

O segundo convite

Se o fato de ter sido convidado pela NBA em 1984 é público e notório, Oscar revelou muito mais recentemente que, após os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992, ele teve um segundo convite pra jogar na liga de basquete norte-americana.

Foi então que, sem o impedimento de jogar pela seleção, já tendo conquistado marcas histórias na carreira, consolidado como ídolo nacional e já integrante do Hall da Fama da FIBA, Oscar, então aos 34 anos, teve que dizer não por um segundo motivo.

Competitivo ao extremo, ele prezou pela sua imagem e pela sua carreira optando por não jogar a NBA já que não se via mais em condições de atuar em alto nível.

A despeito de todos os atrativos do melhor campeonato do mundo e do sonho de colocar uma cereja em cima do bolo, tendo disputado e talvez até conquistado títulos na liga americana, Oscar reconheceu suas limitações, não forçou uma situação e parece não ter se arrependido disso:

"Depois de Barcelona, me chamaram. E eu respondi: não vou não. Não vou porque vou acabar fazendo vexame e não quero fazer vexame em lugar nenhum. Eu quero ir lá e jogar bem. Se eu não puder fazer isso, então melhor não ir. Acabei não indo por escolha minha e não me arrependo do que fiz"

Oscar Schmidt 

O reconhecimento final

Depois de ter atuado por mais muitos anos, se aposentado em 2003, tentado uma carreira política, se envolvido na administração do basquete nacional, tido filhos, empilhado prêmios e até superado um câncer, Oscar vai, na semana de seu 59º aniversário, ser protagonista pela primeira vez de uma partida da NBA.

Isso porque, a liga de basquete americana promove todos os anos, bem no meio da temporada, um evento especial chamado All Star Weekend. No evento que conta com desafio de enterradas, competição de arremessos de três pontos, uma partida entre as seleções dos times do leste contra os times do oeste americano, também existe uma partida chamada de Jogo das Celebridades.

Nesse ano, Oscar será a grande estrela e receberá uma série de homenagens que já começaram a surgir.

Não será como ver o grande atleta brasileiro em ação na principal liga do mundo, mas poderemos ver, pela primeira, e talvez última, vez na vida, Oscar numa quadra de basquete americana, recebendo os aplausos e os parabéns que alguém como ele merece.

Link Youtube

Oscar, o segundo da esquerda pra direita, jogou de 1974 a 1982 no Brasil, onde chegou a conquistar o título mundial de clubes pelo clube Sírio antes de se mudar pra Europa.
Na Europa, atuou nas ligas italianas e espanholas pelas quais estabeleceu alguns recordes como: mais pontos por um campeonato italiano (1.760 em 40 jogos), mais vezes cestinha na Itália (8 vezes), maior média de pontos no campeonato italiano (34,6 ao longo dos 11 anos) e estrangeiro que mais pontos fez na história do campeonato italiano (13.957).
Na seleção brasileira, Oscar também estabeleceu muitos recordes e teve atuações memoráveis com destaque para a partida final dos Jogos Pan-Americanos de 1987, no qual liderou a seleção brasileira na vitória sobre os EUA, nos EUA, marcando 35 dos seus 46 pontos no segundo tempo do jogo. Na foto, ele está no canto inferior esquerdo com a rede da cesta pendurada no pescoço.
Depois de anos na Europa e tendo rejeitado proposta da NBA, Oscar volta a atuar no Brasil até se aposentar em 2003, não sem antes anotar ainda alguns números impressionantes como na partida que anotou 57 pontos jogando pelo Flamengo, até hoje a segunda maior marca da competição.
Quando ainda jogava profissionalmente no Brasil, Oscar tentou eleger-se senador por São Paulo, nas eleições de 1998. Ele era candidato pelo Partido Progressista Brasileiro (PTB), atual Partido Progressista (PP) e perdeu as eleições para Eduardo Suplicy (PT). Mais tarde revelou que sua intenção era ser presidente do Brasil, mas que durante a campanha viu muita coisa com a qual não concordava e desistiu da ideia. Na foto, ele está à esquerda abraçado com Paulo Maluf.
Em 2011, Oscar foi diagnosticado com câncer no cérebro e já teve que passar por duas cirurgias para retirar tumores. Apesar de saber que a doença não tem cura e ouvir dos médicos que teria no máximo cerca de mais 10 anos de vida, Oscar enfrenta a doença com bom humor.
Em 2013, Oscar finalmente é reconhecido apropriadamente pela NBA e entra para o Hall da Fama do Basquete nos Estados Unidos. Na ocasião, ainda debilitado por conta de cirurgia recente, Oscar fez um discurso emocionante repassando vários momentos de sua carreira.
Nessa semana, Oscar recebeu uma homenagem do Brooklyn Nets, franquia que tentou contratá-lo em 1984 ainda quando se chamava New Jersey Nets, antes da partida da equipe em Nova Iorque, já como parte da semana de homenagens da NBA a ele.

A partida das celebridades na qual Oscar atuará e será homenageado acontece na sexta-feira, 17 de fevereiro, e será transmitida para o Brasil pela ESPN, a partir das 22h.

***

Mais que um jogo é uma coluna de autoria de Breno França publicada quinzenalmente às terças-feiras que usa acontecimentos esportivos para propor reflexões sobre aspectos de nossas vidas.


publicado em 15 de Fevereiro de 2017, 00:10
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Breno França

Novo editor do PapodeHomem, é (quase) formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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