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Os Sertões, de Euclides da Cunha, explica o Brasil

Afinal, por que ler um livro tão difícil e tão palavroso quanto Os Sertões?

Poucos anos depois da Proclamação da República, o Exército Brasileiro mobilizou quase todas as suas forças para enfrentar, e destruir, uma pequena aldeia rebelada no sertão da Bahia, Canudos. Entre os correspondentes de guerra enviados para cobrir a batalha, estava Euclides da Cunha, de O Estado de São Paulo, que pouco depois publicou um livro sobre a experiência, chamado Os Sertões.

Um livro que explica o Brasil.

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A importância tautológica de Os Sertões

Afinal, por que ler um livro tão difícil e tão palavroso quanto Os Sertões?

A única resposta é tão frustrante quanto tautológica:

Os Sertões é importante… por ser importante.

Sua importância está em ter… uma enorme importância.

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Existe um tipo bem específico de aluno, em geral com um perfil mais conservador ou de exatas (ambos frequentemente andam juntos), que insiste sempre nos tais “fatos”, em uma tal “verdade”. Quando se matriculam em cursos de História, trazem essa expectativa de descobrir como as coisas realmente aconteceram, pensam que a História é uma busca pela verdade.

É trabalhoso, às vezes impossível, tentar fazê-los entender que a Verdade pertence à esfera da Religião. Que a História não busca necessariamente a verdade dos fatos porque, sinceramente, não se acredita mais que exista essa tal verdade e, muito menos, que ela esteja acessível aos historiadores, distantes do seu objeto tanto no espaço quanto no tempo. Hoje, a História preocupa-se mais com versões e interpretações, culturas e mentalidades.

A aclamação de Amador Bueno

(O fato concreto de Amador Bueno ter sido aclamado Rei em 1641 é relativamente desimportante. Taunay acha que aconteceu. Alencastro acha que é uma invenção autoglorificatória paulista. Muito mais importante é a aclamação, falsa ou verdadeira, ter sido tomada como verdadeira durante muitos séculos, a ponto de ter se tornado parte do mito fundador de São Paulo.)

O fato acontecer ou não é um mero acidente histórico que não nos diz necessariamente nada. O fato de sucessivas gerações terem acreditado que era possível que a aclamação acontecesse e, mais ainda, incorporado-a à sua identidade e ao seu folclore, nos diz muito sobre quem eram essas pessoas e quais eram suas prioridades.

Pois então. Para uma leitura de Os Sertões, os fatos históricos sobre Canudos pouco importam.

Para quem quer saber a História da Guerra de Canudos, existem livros muitos melhores que Os Sertões.

(Recomendo O Sertão Prometido: O Massacre de Canudos, de Robert M. Levine.)

Euclides, na verdade, só chegou no teatro de operações nas últimas semanas do conflito e viu muito pouco com seus próprios olhos: quase tudo, em Os Sertões, é de segunda mão.

Para quem quer uma narrativa mais humana e emocionante da Guerra de Canudos, também existem livros melhores do que Os Sertões.

(Recomendo A Guerra do Fim do Mundo, um dos últimos livros grandes de Vargas Llosa, antes de ele entrar em seu triste declínio atual. Esse romance talvez tenha sido o principal responsável por eu cursar História.)

Então, se não lemos Os Sertões pra saber os fatos históricos e nem pra acompanhar a narrativa humana, por que então lemos Os Sertões? Por que o livro é importante?

Os Sertões não é importante por causa da Guerra de Canudos.

Tivemos muitas outras “guerras” como Canudos, muitas outras comunidades interioranas, isoladas e religiosas (atávicas, como diria Euclides) foram exterminadas pelas autoridades constituídas. Contestado é apenas um outro exemplo entre muitos.

Os Sertões não é importante por ter sido escrito por Euclides da Cunha, correspondente de guerra e testemunha ocular. Ele não foi testemunha tão ocular assim, aliás. Todo conflito como Canudos também teve um ou mais escritores que lhes servissem de testemunhas e, em geral, um livro obscuro sobre um massacre obscuro gerou tão pouco interesse quanto o próprio massacre.

Diante do manuscrito de Os Sertões – um livro longuíssimo, em português difícil e empolado, sobre um conflito ocorrido no meio do nada, escrito por autor iniciante e desconhecido – quem jamais imaginaria que o livro seria, quem dirá, lido e resenhado e, quando muito, um enorme sucesso?

O que importa não é Canudos em si – pois houve muitos Canudos.

O que importa não é um livro ter sido escrito sobre Canudos – pois há muitos livros importantes e desprezados.

O que importa é o fato de um livro ter feito tanto sucesso – apesar de ter tudo para ser um dos maiores fracassos editoriais da história.

Canudos, Euclides, um livro chamado “Os Sertões”, são acidentes históricos que podem ou não ter significado maior. Mas o enorme sucesso do livro Os Sertões, escrito por Euclides da Cunha, sobre a Campanha de Canudos, foi um fenômeno nacional que nos diz muito sobre essas milhares e milhares de pessoas, em todo o Brasil, que compraram, leram e resenharam esse livro, passaram adiante ou pegaram emprestado, se reconheceram ou se enojaram, amaram ou odiaram.

Era um livro que estava se comunicando fortemente, intimamente com muitos dos anseios, medos, contradições daquela sociedade. Por quê? Que sociedade era essa que consumia tão avidamente um livro sobre civilização e barbárie, raça e meio ambiente?

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Teoria dos grandes livros

Grandes livros são aqueles que têm grandes erros, falhas enormes, fraturas expostas.

A grandeza literária nasce da tensão entre as intenções e as realizações do autor: é como se um livro, para ser realmente grande, tivesse que possuir seu próprio contradiscurso, a semente da sua destruição, o seu contra-argumento perfeito.

O poema épico Os Lusíadas (1572) foi escrito por Luiz de Camões para cantar as glórias do projeto imperialista português no além-mar. Entretanto, no meio do poema, um velho aparece no Restelo, o bairro onde as naus estavam embarcando em sua aventura heroica, e faz um apaixonado discurso contra aquela aventura: as melhores vidas do reino estavam se perdendo no mar, por pura ganância, e, enquanto isso, os camponeses passavam fome por não haver quem lavrar a terra.

Sem o Velho do Restelo, Os Lusíadas seria apenas mais um poema épico chauvinista e conservador, nos moldes medíocres de uma Eneida. Mas a breve fala do Velho do Restelo desmonta todo o edifício por dentro: é a chaga exposta que o texto não pôde ou não quis esconder.

(José Saramago colocou o Velho do Restelo em Cabo Canaveral, conversando com os astronautas que subiam para a Lua.)

A grandeza de Os Lusíadas está justamente na coragem, ou na temeridade, de dar voz ao Velho do Restelo. A Ilíada tem essa coragem, a Eneida não. No Brasil, O Uraguai tem, A Confederação dos Tamoios, não.

Talvez seja essa a diferença entre a grande literatura e as outras.

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A contradição interna de Euclides da Cunha

Euclides chegou à Bahia para contar aos seus leitores paulistas a história das hordas bárbaras que ameaçavam a sagrada República. Se tivesse conseguido contar essa história como pretendeu, hoje ele não seria nem nota de pé de página na História da Literatura.

Em um estilo conturbado onde “frases ondulatórias” e “generalizações insustentáveis se emontoam de cambulhada”*, Euclides desenrola grosseiras desleituras de seus mestres cientificistas europeus, parafraseando toscamente suas (hoje obsoletas e ultrapassadas) teorias sobre raça, clima e civilização.

Entretanto, já na linha seguinte, seu olhar humano de cronista e sua enorme empatia de escritor registram e narram, com maestria, episódios humanos que (apesar de anedóticos) destroem completamente e desprovam na raiz todas aqueles eugenismos que ele entendeu tão mal.

(Em seus dois livros sobre Euclides**, Luiz Costa Lima busca os autores europeus citados por ele e comprova que, em grande parte dos casos, Euclides de fato não entendeu nada do que leu e cita tudo errado.)

Ler Os Sertões é acompanhar, ao vivo, uma verdadeira batalha de titãs:

De um lado, um militar positivista e patriótico, narrando a épica batalha através da qual o glorioso (e civilizado!) exército nacional derrotou uma horda de fanáticos primitivos e involuídos que ameaçava a própria essência do país.

Do outro lado, um escritor, um cronista e um jornalista, mestre contador de histórias, arguto observador, dotado de enorme empatia, desmentindo todas as teorias do positivista ao mostrar homens e mulheres de fibra e de coragem, de força física e de inteligência, vivendo momentos dramáticos de intensa humanidade enquanto defendiam seu líder, sua religião, suas casas, seus entes queridos… sua civilização, enfim.

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Os diferentes autores de Os Sertões

Na crítica literária bíblica, as inconsistências internas do Pentateuco (como são chamados os cinco primeiros livros do Velho Testamento) deram origem a uma hipótese muito popular chamada Teoria Documental, que defende ele ter sido, na verdade, escrito por quatro autores principais – chamados de J, E, D e P – cujos livros foram depois costurados e editados até chegarmos à versão atual.

(Muitos críticos têm seus favoritos: Harold Bloom, por exemplo, considera J um dos grandes autores de todos os tempos e publicou separadamente os trechos atribuídos a esse autor. Já Moacyr Scliar escreveu uma versão romanceada da vida de J, teorizando que fosse mulher.)

Será que um crítico literário do século XXXI não consideraria Os Sertões inconsistente demais para ter sido escrito por um autor só?

Não teríamos, quiçá, uma divisão entre P, o autor positivista, e C, o autor cronista?

Ambos os autores, P e C, apesar de travados em duelo de morte, parecem nunca se encontrar.

Logo depois de o cronista narrar mais um episódio de sublime humanidade dos canudenses, o positivista retoma suas teses sobre o atavismo primitivo do sertanejo como se nada tivesse acontecido, como se nem tivesse tomado conhecimento da anedota imediatamente anterior.

Além de escreverem livros diferentes, ambos autores parecem nem mesmo ler o livro um do outro: não percebem que se contradizem.

Sabe quando a gente vê filme de terror e fica querendo avisar o personagem?

“Não, aí não, o psicopata está no armário!”

Leio Os Sertões e também fico querendo avisar:

“Olha, o narrador da página 456 está discordando de tudo o que você está falando aqui na página 512!”

Algumas vezes, eles quase se confundem.

O Positivista, por exemplo, descreve os sertanejos com metáforas animalescas, culpando uma miscigenação funesta por seus defeitos congênitos, por seu raciocínio primitivo, por seu bárbaro atavismo. Ao mesmo tempo, ao descrever as façanhas heroicas de que eram capazes, parece sinceramente, distraidamente admirá-los.

Estaria o Cronista infectando o Positivista?

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Nós quem, Euclides?

Entre inúmeras afirmações da quase inviabilidade étnica do Brasil graças à miscigenação perversa que produzia indivíduos deformados e corrompidos, surgem afirmações como essa (considerada por Costa Lima o limite da contradição euclidiana***):

“Depois da nossa vitória, inevitável e próxima, resta-nos o dever de incorporar à civilização estes rudes patrícios que – digamos com segurança – constituem o cerne da nossa nacionalidade.” (grifo meu)

Um truque de crítica literária pra vocês: fiquem de sobreaviso sempre que se depararem com uma frase na primeira pessoa do plural. (Nas palavras imortais de Tonto: “Nós quem, cara-pálida?!”)

Quando um autor começa a falar de “nós”, não pode haver pergunta mais importante e relevante do que:

“Nós quem?”

A resposta nunca é óbvia e é sempre instrutiva.

Nós quem, Euclides? Nós, os homens que se chamam Euclides? Nós, os brasileiros letrados do litoral? Nós, os falantes de português? Nós, os humanos? Nós, os destros? Nós quem? Quem está sendo incluído nesse “nós”?

Mais importante, quem está sendo EXcluído?

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Euclides (na verdade, ambos os Euclides!) passa o livro inteiro especificamente excluindo os sertanejos de seu “nós”. Não sabemos quem está com Euclides, quem faz parte do seu “nós”, mas os sertanejos com certeza não. Eles são sempre “eles”, o outro, o bárbaro, o inimigo.

Mas também são, contraditoriamente, …o cerne da nossa nacionalidade!

Sim ou não, certos ou errados, dentro ou fora, nunca sabemos: a tensão interna do livro nunca relaxa.

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O atavismo de Euclides da Cunha

Atavismo é uma palavra-chave para entender Os Sertões.

Segundo o Dicionário Houaiss:

Atavismo. 1871. substantivo masculino.
1. Rubrica: biologia. reaparição em um descendente de caracteres de um ascendente remoto e que permaneceram latentes por várias gerações.
2. Derivação: sentido figurado. hereditariedade biológica de características psicológicas, intelectuais, comportamentais. Ex.: a arte de cozinhar lhe chegara por a.
3. Derivação: sentido figurado. retorno a um estilo, uso, ponto de vista, enfoque etc. Ex.: um a. literário.

Assim como Euclides passa todo o livro denunciando o atavismo de Antonio Conselheiro e de Canudos (que seriam a erupção contemporânea de barbarismos passados latentes na raça mestiça), ele também não poupa as turbas da Rua do Ouvidor, igualmente bárbaras:

Começaram a quebrar e inutilizar tudo quanto encontraram, ... ficando outros [objetos] em montes de destroços na mesma rua do Ouvidor. … A rua do Ouvidor valia por um desvio das caatingas. A correria do sertão entrava arrebatadamente pela civilização adentro. ... O mal era maior. Não se confinara num recanto da Bahia. Alastrara-se. Rompia nas capitais do litoral. O homem do sertão, encourado e bruto, tinha parceiros porventura mais perigosos. …[P]ouco nos avantajávamos aos rudes patrícios retardatários. Estes, ao menos, eram lógicos. Insulado no espaço e no tempo, o jagunço, um anacronismo étnico, só podia fazer o que fez — bater. ...
Aquele afloramento originalíssimo do passado, patenteando todas as falhas da nossa evolução, era um belo ensejo para estudarmo-las, corrigirmo-las ou anularmo-las. Não entendemos a lição eloqüente. Na primeira cidade da República, os patriotas satisfizeram-se com o auto-de-fé de alguns jornais adversos, e o governo começou a agir. [Os Sertões, “Quarta Expedição”, I – A Rua do Ouvidor e as Caatingas]

Para Euclides, se o mestiço do interior era primitivo, desengonçado e incapaz de civilização, o mestiço do litoral não ficava muito atrás. Em diversos aspectos, era provavelmente ainda pior:

Fora do litoral, em que se refletia a decadência da metrópole e todos os vícios de uma nacionalidade em decomposição insanável, aqueles sertanistas, avantajando-se às terras extremas de Pernambuco ao Amazonas, semelhavam uma outra raça, no arrojo temerário e resistência aos reveses. [Os Sertões, “O Homem”, I – … E sua Reflexão na História]
Ao invés da inversão extravagante que se observa nas cidades do litoral, onde funções altamente complexas se impõem a órgãos mal constituídos, comprimindo-os e atrofiando-os antes do pleno desenvolvimento — nos sertões a integridade orgânica do mestiço desponta inteiriça e robusta, imune de estranhas mesclas, capaz de evolver, diferenciando-se, acomodando-se a novos e mais altos destinos. porque é a sólida base física do desenvolvimento moral ulterior. [Os Sertões, “O Homem”, II – Uma Raça Forte]

Apesar de escrever o livro praticamente para denunciar o bárbaro atavismo de Conselheiro e dos canudenses, Euclides tem suficiente autocrítica para estender sua denúncia também aos mestiços do litoral – grupo no qual ele teoricamente se incluía.

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Em 1909, sete anos após o imenso sucesso de Os Sertões, Euclides invadiu armado a casa do amante de sua esposa, disposto a matar ou morrer. Dilermando, além de pai biológico de dois filhos de Euclides, também era um dos melhores atiradores do exército: mesmo surpreendido, abateu Euclides a tiros. Em legítima defesa, decidiu o júri.

Poucos anos depois, em 1916, mesma tragédia: o filho de Euclides (um dos poucos NÃO gerados por Dilermando!) atirou nele pelas costas em pleno cartório – mas atirava tão mal que Dilermando conseguiu reagir e matá-lo, sendo novamente inocentado.

Uma recente biografia de Euclides, publicada postumamente por Roberto Ventura, teoriza que o personagem de Antonio Conselheiro em Os Sertões, cuja criação literária seria bem distante de sua figura histórica, representaria na verdade

“uma projeção psicanalítica das maiores obsessões de Euclides: o temor da irracionalidade, da sexualidade, do caos e da loucura.”

De certo modo, Euclides encarna sua própria crítica ao atavismo da turba ensandecida da Rua do Ouvidor:

"A força portentosa da hereditariedade, aqui, como em toda a parte e em todos os tempos, arrasta para os meios mais adiantados — enluvados e encobertos de tênue verniz de cultura — trogloditas completos. Se o curso normal da civilização em geral os contém, e os domina, e os manieta, e os inutiliza, e a pouco e pouco os destrói, recalcando-os na penumbra de uma existência inútil, de onde os arranca, às vezes, a curiosidade dos sociólogos extravagantes, ou as pesquisas da psiquiatria, sempre que um abalo profundo lhes afrouxa em torno a coesão das leis eles surgem e invadem escandalosamente a História." [Os Sertões, “Quarta Expedição”, I – A Rua do Ouvidor e as Caatingas]

Parágrafos como o acima também poderiam descrever um intelectual tímido e civilizado, franzino e baixinho, que quando se descobre um corno criando os filhos do amante de sua esposa, ao invés de utilizar os muitos recursos legais e pacíficos então disponíveis, resolve lavar sua honra com sangue, comportando-se como um bárbaro primitivo possuído por ódios primordiais atávicos e sem se importar em quem mais seria ferido.

Além de causar sua própria morte e a de seu filho, anos depois, Euclides também alveja o irmão de Dilermando, jogador profissional de futebol no Botafogo, e que comete suicídio depois de ter que abandonar o esporte graças aos ferimentos que sofreu. O atavismo de Euclides, assim como o de Conselheiro, também deixa um rastro de sangue atrás de si.

Talvez, o momento em que irrompe na casa de Dilermando e já sai atirando, sem nem se importar em acertar um inocente, seja o momento em que finalmente Euclides abraça seu lado atávico e selvagem, e aceita que o Brasil, tão mestiço e desequilibrado, sempre a mercê dos seus piores instintos, simplesmente é imune à civilização.

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Os Sertões explica o Brasil

Os Sertões explica o Brasil em tudo o que diz e em tudo o que omite. Explica o Brasil em toda sua exuberância e esquizofrenia, em todo seu racismo e inconstância.

Um intelectual contemporâneo, morando em Botafogo/Perdizes, concursado pela USP/UFRJ, eleitor do PT mas com uma empregada que lava suas cuecas e folga dois domingos por mês, defensor de um Estado forte mas se endividando pra manter os filhos em escola particular, poderia perfeitamente ter escrito uma versão contemporânea de Os Sertões para denunciar o massacre do Carandiru ou a última favela carioca invadida pelo BOPE.

Para todos os fins e efeitos, Tropa de Elite é uma adaptação cinematográfica muito mais fiel de Os Sertões do que Guerra de Canudos, de Sergio Rezende.

O racismo latente dos direitistas do eixo Morumbi-Leblon (“tem é que desinsetizar essas favelas!”) é só odioso, mas o racismo involuntário que escapa pelas frestas do mais compadecido discurso esquerdista é constrangedor.

Um Os Sertões do século XXI (talvez “As Favelas” ou “As Periferias”) seria marcado pela mesma ambivalência, teria um autor sociólogo ou antropólogo também dividido entre aquela pulsão classe-média por paz social e segurança para sua família e, por outro lado, uma convicção ideológica de que a única solução é mudar tudo.

Sua compaixão e empatia pelos favelados conviveria, na mesma página, sem a consciência da contradição, com uma profunda certeza de que “eles” não são como nós e com a terrível premissa, nunca articulada, de que a vida de um “deles” jamais valeria tanto quanto – homessa! – a vida do meu filhinho, que estudou no Santo Inácio/Santa Cruz e vai cursar universidade pública.

A cada vez que um brasileiro se orgulha dos feitos do Pelé (“coisa nossa!”) mas se pergunta porque “eles” têm que vir logo à “nossa” praia!, a contradição constitutiva de Euclides se perpetua.

Os Sertões é um clássico porque sua contradição interna ainda é a mesma que a nossa – “nossa” de todos os brasileiros, aliás. Sua fratura exposta é a mesma que ainda nos incomoda. Como todo clássico, Os Sertões vive e pulsa e respira porque ainda fala diretamente a nós.

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* Clóvis Moura, Introdução ao Pensamento de Euclides da Cunha. Rio: CivBras, 1964. p.87

** Costa Lima. Euclides da Cunha: Contrastes e Confrontos do Brasil. RJ: Contraponto, 2000. // Terra Ignota. A Construção de Os Sertões. RJ: CivBras, 1997

*** Costa Lima, 2000, 19.

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publicado em 11 de Agosto de 2015, 14:25
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Alex Castro

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