Como ir além do "tudo bem" num bate papo? Como falar sobre emoções com seus amigos sem parecer estranho? Ensinamos nessa animação de 2 minutos, vem ver. ;-)

Os Santos | Conversamos com autores da tira sobre desigualdade entre patrões e empregados

Triscila Oliveira e Leandro Assis contam sobre a origem da história, as censuras que enfrentaram e os planos de continuidade.

Talvez você já tenha visto essa tirinha circulando pelas redes sociais. Mas se não viu, aqui vai uma ótima dica de quadrinhos online para o seu isolamento.

Em uma comparação de rotinas matinais, o quadrinho deixa evidente questões de raça, classe e as opressões entre empregadas domésticas e patroas de classe média alta. 

A relação entre a família das empregadas e a família das patroas é o fio que conduz a história do quadrinho "Os Santos". As tiras são de autoria da Triscila Oliveira e  do Leandro Assis.

Leandro além de quadrinista é roteirista e foi ele quem começou a tira no Instagram. Antes d'Os Santos, Leandro fazia tiras irônicas e cômicas sobre política, então, para reafirmar que esta nova história não tinha nada de cômica, apelidou-a de "uma tira de ódio".

Quando a história ganhou maior repercussão, Leandro e Triscila  — que é cyberativista, gerencia redes sociais e já trabalhou como faxineira  — se encontraram nos comentários do Instagram e firmaram a parceria de coautoria.

Conversamos com os dois autores para saber mais sobre essa tira tão realista. 

Triscila tem 34 anos e mora no Rio de Janeiro. Leandro aos 47, tem um filha de 7 e vive em Portugal. Os dois criam as histórias a base de troca de mensagens a distância.

Como começou o quadrinho?

Leandro conta que vem da zona sul do Rio e que, em alguma medida, conhece a realidade da classe média alta do Rio de Janeiro. Mas ele não queria falar apenar desse grupo, queria mostrar a relação entre a classe alta e os empregados de classes mais baixas.

Leandro: "Já ali nas primeira tiras dava deu pra ver que a relação era a parte mais rica para explorar e que a família das doméstica era interessante de aprofundar." 

Triscila conta que viveu na pele o outro lado da história:

Triscila: "Meu primeiro emprego foi de faxineira quando eu tinha 12 anos, para ajudar em casa. Eu segui quase que uma norma da família: minha mãe foi faxineira, minhas tias e primas foram e algumas ainda são.

Na idade em que as pessoas escolhem cursos na faculdade eu precisava trabalhar. Essa é a realidade de milhões, infelizmente no Brasil

Hoje eu sou assistente de mídias sociais. Eu sou paga para administrar duas redes, estou me profissionalizando na área".

Conversando sobre paternidade, Leandro, que é pai da Alice de 7 anos, também contou para gente que ser pai influenciou o caminho das suas histórias: 

Leandro: "Eu sempre quis fazer histórias que denunciassem o que eu via de errado, de ruim no mundo. Mas quando ela [Alice] nasceu isso ficou mais forte, essa necessidade.  Mudar de roteiro para quadrinho teve esse movimento também." 

Juntando as duas pontas da realidade

Triscila: "Eu tenho um perfil de ativismo que vai completar 5 anos  —@Afemme1  — e ali eu sempre abordei textos de gênero, classe e raça, política.

Quando eu vi a tirinha da Manteiga eu comecei a acompanhar e ai eu deixei um comentário na postagem e foi a partir desse comentário que o Leandro observou meu trabalho no @Afemme1 e me propôs co-autoria para abordar com mais propriedade a história das irmãs, dar mais estrutura a história em coisas que ele, a partir do local de fala dele como um homem branco e de classe média, não saberia o que é nem como é. 

Leandro conta que criam a distância contando com o whatsapp como ponto de encontro.

Leandro: "Um tem uma ideia e manda a ideia pro outro e a gente começa a desenvolver por Whatsapp até ver que aquilo ideia já tem nove quadros que contam ela. Eu até brinco com a Triscila que a gente percebe que a tira está pronta quando a gente tem ódio." 

 O quadrinista explica que o "ódio" não é o objetivo do quadrinho, mas um alerta, de que não é mais uma tira de humor.

Contando a história que se conhece de perto

Perguntamos a Triscila qual era a sua experiência pessoal com as histórias contadas no quadrinho:

Triscila: "Tem histórias minhas ali e tem histórias da minha mãe ali. Tem coisas que simplesmente batendo papo com o Leandro a gente vai agregando às histórias. Vai ter ainda uma história pessoal minha que vai ser contada, mas é uma coisa muito comum que não é apenas minha de Triscila. 

A gente não precisa ir muito longe para encontrar essas histórias, porque elas são muito atuais. Muita gente consegue traçar um paralelo muito claro com o filme Histórias Cruzadas porque ele é dos anos 1950, nos Estados Unidos, mas que qualquer brasileiro que conhece essa realidade consegue ver no dia a dia, então isso é muito atual."

Como você vê as falas de afetividade e intimidade de patrões com seus empregados e funcionários?

Triscila: "Isso é uma variável tão grande, porque ao mesmo tempo que eu tive patrões horríveis, minha mãe teve patrões maravilhosos. Então depende muito, não existe uma fórmula para definir: pessoas assim vão ser mais empáticas, vão te tratar com mais humanidade…” Não tem. É uma loteria. 

Infelizmente a gente ainda está passando por um período, por um Brasil pós abolição em quem muita gente ainda tem um pensamento escravocrata. As pessoas ainda tratam o prestador de serviço seja ele qual for  — doméstica, garçom, gari  — como se ele fosse propriedade dela."

Perguntamos também se o Leandro se identifica como aquele filho da classe mais alta que cria consciência de classe:

Leandro: "Um pouco. Me identifico com essas pessoas que dizem isso “na nossa família a gente viveu isso, foi assim…”, e também quando eu vejo amigos de colégio que pensam muito diferente.

Mesmo na minha família vem mudando o pensamento. Ainda tem pessoas da família que são mais conservadoras, mas tem uma coisa estrutural que já vem sendo debatida há muito tempo e muita gente luta para alertar a questão de racismo estrutural e da questão da desigualdade social, que não adianta, é preciso resolver, tem que dar mais oportunidade." 

A repercussão foi surpreendente?

Leandro: "Foi um surpresa absoluta. A tira anterior já tinha um movimento que eu achava bem legal e eu achava que iria seguir por essa linha. A tira n. 3 foi a primeira que a Midia Ninja compartilhou e viralizou. A partir dai a mídia ninja continuou compartilhando e foi uma loucura. A cada tira, 30 mil seguidores."

Para Triscila, não só a repercussão surpreendeu como o convite também

Triscila: "Nunca tinha feito nada disso. Eu tenho o sonho de estudar roteiro e meio que 2020 trouxe isso para mim de uma forma completamente inusitada. Porque é o que eu estou aprendendo: estou fazendo roteiro, estruturando e a gente conta histórias juntos. "

O Coronavírus vai afetar a história?

​Leandro e Triscila contam que a continuação da história foi afetada pela pandemia:

Triscila: "Com essas notícias de que empregadas domésticas estão sendo infectadas por patrões, muita gente está cobrando a gente de falar sobre isso, porque sabe que é real.

No entanto, os dois autores não querem levar a pandemia para dentro do universo d'Os Santos.

Leandro: "Tem um problema, se a gente entrar no coronavírus a gente vai ficar refém do coronavírus, de como vão ser os acontecimentos reais: e se a quarentena tiver que ficar mais grave? Vai chegar um ponto em que a Edilsa vai ter que se demitir para não ficar de quarentena com eles? Ou eles vão ficar doente e ela vai ficar trabalhando para eles.

A solução foi pausar a história por hora, e começar outra série para abordar especificamente a realidade do isolamento social:

 

Qual a melhor parte de fazer quadrinhos no Instagram?

Leandro: "A melhor parte é a conversa que dá para ter com as pessoas através das publicações. Em 30 segundos já tem gente falando alguma coisa, conversei com muita gente, conheci muito gente. Isso é muito legal, é emocionante.

As pessoas que vem contar que as histórias delas são idênticas as da família das empregadas. Ou pessoas que são da família dos patrões contam que estão mudando as maneiras de pensar, que estão vendo coisas que faziam e que estão tentando deixar de fazer."

Triscila: "Como um todo a melhor parte de estar trabalhando na internet é o alcance, a reação do público, como alguns quadrinhos viralizaram e como impactaram as pessoas.

Muita gente está se identificando e está levando para outros familiares que não tem acesso"

E a pior?

Triscila: "O alcance é muito bom mas a gente só está falando com ¼ da população brasileira. Mas a maior parte deste país não está na internet, não está dando like todos os dias nas nossas postagens, quem tem acesso todo dia, em velocidade rápida, não é o público de quem a gente fala.

Então as pessoas que eu realmente gostaria de atingir eu sei que eu não atinjo, nem com Os Santos nem com o @Afemme1. A minha frustração como cyberativista é essa."

Leandro: "A pior parte é aguentar. Aguentar os racistas. E tem vários tipos. Tem as pessoas que não percebem os racismos e tem as pessoas que são absolutamente racistas preconceituosas e vem ali para bater boca. Hoje mesmo uma tira foi censurada. Normalmente é alguém que denuncia."

Vocês sofrem com censura no Instagram?

Algumas tiras d'Os Santos já foram tiradas do ar pela plataforma e os autores contaram o que pensam sobre isso:

Leandro: "A tira falava sobre um casal de mulheres lésbicas que sofre homofobia. Eles denunciam como discurso de ódio, quando na verdade a própria tira é uma denúncia.

"Da tira anterior, que tem cenas violentas, eu entendo que o desenho podia para algumas pessoas ser agressivo, ser muito forte e ai eu não questiono tanto. 

Eu entendo o lado do Instagram, até certo ponto. Eu entendo que tem coisas que são muito difíceis de avaliar e pela segurança do ambiente deles eles precisam ser moralista aparentemente ou precisam agir de uma certa forma. Agora quando tem uma tira de denúncia e que não tem realmente uma violência, ai não dá.

Outra que foi censurada é uma tira até muito emocionante, de um garoto que ouve o avô sendo racista e depois vai e falar pra empregada que gosta dela. Mas como o avô narra uma história que ele ouviu de um padre que era racista, as pessoas dizem que veem nessa tira uma história de ódio à religião e denunciam. Uma loucura. Primeiro porque é uma história real e, segundo, que ele tá contando um caso, nem é uma crítica à igreja." 

Triscila: "Depois de ter conseguido sobreviver 2018 e todos os ataques que todos os perfis sofreram no período pré campanha eleitoral, isso não me surpreende. 

A gente vê que a gente está passando por um momento de tanto ódio, de tanta raiva, que é necessário muito muito tato em tudo que a gente produz para estar na internet."

Como 'Os Santos' pode contribuir para uma conscientização sobre equidade?

Leandro fala que quis separar Os Santos das suas tiras de crítica ao presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores:

Leandro: "Eu to tentando descolar os Santos da história do Bolsonaro por um motivo: eu não quero afastar quem votou no Bolsonaro e pode ler essa tira.

Eu não quero. Eu quero que eles também leiam. Muitos até já vem falar 'não concordo com muita coisa que você diz, com seu posicionamento político, mas suas tiras são interessantes' e tudo mais". 

Sobre o potencial da tira de gerar conscientização ou transformação:

Leandro: "Eu digo que eu não tenho essa ambição de querer mudar. Eu sou bastante pessimista. Quando eu comecei a fazer eu pensava “Ah algumas pessoas são caso perdido, não vão mesmo ler ou se leem não vão concordar ou aceitar". Mas sei lá, os filhos deles, leem e podem se salvar um pouco, pensar diferente, mudar a cabeça de alguma forma…”

Triscila: "Além da conscientização, eu gostaria mesmo que as pessoas repensassem seus preconceitos, porque todos temos preconceitos, todos. Até mesmo quem sofre preconceito tem preconceitos, porque estamos todos na mesma sociedade que é baseada em opressões. Então ai acontece uma coisa irônica que é como as pessoas, acompanhando Os Santos, ignoram minha cooautoria. 

Elas querem ouvir falar sobre de preconceito, mas não de quem sofre. Observando a reação do público nos comentários, eu noto que 90% das pessoas parabenizam o Leandro pela história, pela genialidade, mas continuam ignorando a minha presença ali. Há uma hipocrisia muito grande quando se pauta racismo e é isso que eu gostaria de mudar.

Eu me sinto meio Babu [Santana] sabe? Ele tem uma carreira imensa, fez não sei quantas novelas e filmes e todo mundo está conhecendo ele só agora por causa do BBB. Depois de 10 mil postagens no @Afemme1 de tanta produção de conteúdo, só agora as pessoas estão me vendo. "

Quais são os planos para o futuro da história?

Triscila: "A história dos santos ela vai acabar e eu espero que todo mundo goste do final. 

Leandro: "As pessoas dizem que não veem a hora da família da Edilsa reagir a tudo que ela sofre. O que eu posso dizer é que eles vão sofrer mais, e que apesar da tira sem bem realista, a gente quer sim ter uma virada, é só isso que eu posso dizer.

A gente tem a ideia de fazer um livro quando a série acabar."

Triscila: "A gente está pensando também na criação de uma outra história, uma outra ideia, uma outra abordagem ainda dentro das causas sociais." 

Podem falar um pouco sobre inspirações e projetos futuros?

Leandro contou um pouco sobre outros quadrinistas que o inspiraram

Leandro:Tem muita gente, Will Eisner e Marcelo Quintanilha. Para mim essa série só foi possível fazer porque eu lembrei de um quadrinho que eu gostava muito chamado Wilson. É um livro que conta uma história longa, e cada página é como se fosse se e também uma tira e também não era de humor. Então eu queria contar uma história assim."

E a Triscila também contou para a gente sobre outros formatos de projetos que gostaria de tocar: 

Triscila: "Eu tenho tantos projetos mas não tenho condições de produzí-los sozinha. Eu gostaria de outros formatos para chegar nessas pessoas que não estão ali com a gente todos os dias no Instagram. Eu imagino ações, projeto, associações com coletivos já existentes, alguma coisa que chegasse a essas pessoas de uma forma acessível a elas.

A gente tem que atentar muito a nossa dialética porque o mais importante de tudo é se fazer entender, então eu não ligo se eu falar 'probrema' pra fazer as pessoas me entenderem. De que adianta um português super rebuscado, se a pessoa com que você está falando não está te entendendo? A pessoa que age dessa forma só quer se amostrar. Ela não quer repassar conhecimento."


publicado em 09 de Abril de 2020, 11:05
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Gabriella Feola

Editora do Papo de Homem e autora do livro "Amulherar-se" . Atualmente também sou mestranda da ECA USP, pesquisando a comunicação da sexualidade nas redes e curso segunda graduação, em psicologia.


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