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Os pequenos atos de grandeza é que fazem toda a diferença no esporte | Mais que um jogo #2

O título do pequenino Leicester City na Premiere League nos prova que o futebol ainda não é só dinheiro

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Se você faz parte da parcela da população que torce por um time e acompanha futebol, você deve ter uma história mais ou menos parecida com a minha.

Provavelmente alguém na sua família já gostava de futebol antes de você e você foi levado ao estádio por este indivíduo tão logo sua mãe cansou de dizer que aquilo era uma inconsequência.

Na primeira vez no estádio, ainda sem entender muito bem o que significavam aquelas bandeiras, aquela gente gritando e aquela galera correndo de um lado pro outro, você viu que isso era bom.

Na semana seguinte você pediu pra ir de novo e o seu tutor, todo todo, ficou muito orgulhoso de você. Logo estava você lá aprendendo a cantar o hino. Vestido com o uniforme completo. Fazendo festa de aniversário temática. E ganhando todos os tipos de bugigangas do clube em questão no natal (algo que até chateou um pouco você, porque você queria mesmo era um videogame).

Mas essa crise passou, afinal de contas era Natal, e alguns anos também até que você começou a trocar o site da Turma da Mônica pelos portais de esporte. Se bobear, você até se arriscou a começar um blog. Na escola, a professora repreendia você e os seus porque só se falava de futebol durante a aula.

Em alguns meses, sua mãe já tinha desistido de tentar pegar o controle remoto na quarta-feira a noite. E no domingo. E na quinta-feira de vez em quando. E no sábado também. De repente, a coitada passou a se questionar quando foi que você começou a gostar de assistir jogos da segunda divisão do campeonato grego de madrugada.

Na cabeça da sua mãe (também pode ser seu pai, sua avó, sua namorada, qualquer pessoa que conviva com você), ela sempre se perguntava: por que diabos esse cara curte esses jogos? Nem o time dele é.

Quando você passou a gostar de um esporte verdadeiramente – e aqui eu uso o exemplo do futebol, mas pode ser qualquer esporte – você passa a ter mais do que um time do coração. Você passa a gostar do jogo. E quando você gosta do jogo e não apenas do time, mesmo uma partida da segunda divisão grega pode apresentar aquela sensação que tanto buscamos.

Aquela sensação de prazer, de orgulho, de pertencimento, de sair na rua estufando o peito com a camisa de uma agremiação com a qual você se identifica com os valores. Isso é impagável. E podemos ter perdido essa sensação em tantas outras áreas de nossa vida, mas pra quem busca isso, o esporte continua sendo o melhor investimento.

O sucesso desse investimento está diretamente atrelado a nossa capacidade de saber curtir o espetáculo. Mas ao contrário do que imaginamos, o verdadeiro show só é apreciado plenamente quando nossos times não estão envolvidos.

Quando é o nosso que está em campo, a emoção aflora e a razão se perde. A nossa capacidade de reconhecer os méritos do time adversário cai vertiginosamente e nossa ótica fica necessariamente influenciada pela nossa paixão.

Quando o nosso clube não está em campo (ou um adversário pelo qual você cultive uma antipatia perene), a gente se permite curtir o jogo. Você analisa o juiz, observa o treinador, conta quantas vezes o atacante pegou na bola. Quando assistimos a um jogo aleatório é que descobrimos se realmente gostamos do time ou se gostamos mesmo é do esporte.

Mas engana-se quem pensa que assistir a um jogo desses significa não tomar partido. Quase nunca um espectador se mantém a partida toda sem se afeiçoar mais por um dos lados. E nesse exato momento é que uma certa mágica acontece: a gente sempre escolhe o mais fraco.

Psicólogos poderão explicar porque fazemos isso. Talvez seja um instinto inato de proteger os mais fracos. Ou talvez seja uma demanda maior ou menor de cada pessoa de ver uma história de superação. Talvez seja uma projeção do que nós gostaríamos que acontecesse com nós mesmos. Ou talvez seja só o prazer de ver os poderosos derrotados. Ainda que o único crime cometido pelo poderoso seja, talvez, ter se destacado pelo próprio talento.

E o prazer, aquela sensação que eu te relatei ali em cima, fica maior quando essa vitória vem. Quando você se sente parte da conquista do pequeno sobre o grande, do indefeso contra o poderoso, do pobre contra o rico. Ainda que nós saibamos que a nossa torcida não fez diferença nenhuma no resultado da final da Copa da África, nós gostamos de pensar que sim. Que participamos, ajudamos ou pelo menos testemunhamos um grande momento.

Queremos fazer parte disso e somos apaixonados por boas histórias. Queremos sentir, estar próximos, participar. E tão logo percebemos que algo diferente pode estar acontecendo por ali, corremos pra ver. Tomar partido. Avisar os outros.

E foi exatamente essa sensação multiplicada umas 40 vezes que os torcedores do Leicester City puderam sentir nessa temporada.

O pequeno milagre inglês

O Leicester City é um time inglês com pouco mais de 130 anos de história. Criado na cidade de mesmo nome, o Leicester alternou participações entre a primeira, a segunda e a terceira divisão do futebol nacional. Ao lado do Manchester City, os Foxes são recordistas de títulos (7) e acessos (11) da 'segundona' para a elite, o que, devemos admitir, não é lá um rótulo que nós desejamos para os nossos times.

Até esse ano, o time só havia terminado a Premier League três vezes entre os quatro primeiros colocados. E isso aconteceu pela última vez lá em 1963. Nesse ano, o Brasil era recém bi mundial e Pelé ainda estava no auge como jogador.

Para ser menos criterioso, a última vez que o Leicester foi líder do campeonato era 2000 e estávamos na oitava rodada. Desde então, o time acabou rebaixado em 2004 e lá se foram 10 anos longe da elite do futebol inglês, com direito a uma passagem pela terceira divisão em 2008/2009. 

Na temporada passada, a equipe brigou para não ser rebaixada até a penúltima partida. Depois de ficar na lanterna durante 18 rodadas (quase um turno inteiro) o time foi valente, ganhou 7 de 9 partidas e garantiu a permanência com uma de antecedência.

Mas até aí, nada de muito empolgante. Quer dizer, é claro que os torcedores do clube ficaram radiantes, mas nem mesmo o mais otimista deles poderia esperar por uma temporada tão brilhante na sequência.

Foi então que o homem mais rico da Tailândia, um bilionário com fortuna de US$ 2,9 bilhões, dono do clube desde 2010 e que atende pelo nome de Vichai Srivaddhanaprabha (seja lá como se pronuncia isso), resolveu contratar um novo técnico para comandar seus jogadores e foi buscar no italiano ex-comandante da seleção grega Claudio Ranieri o seu homem de confiança.

Mais uma vez, nenhuma grande novidade. O italiano chegou ao clube sem muita comoção e ainda viu um torcedor ilustre da equipe, o ex-jogador Lineker, chamar a contratação de "sem inspiração".

Algumas semanas depois, o mesmo ex-jogador foi responsável por um diálogo interessante de se destacar agora que os fatos estão consumados. Com duas vitórias nas duas primeiras rodadas desta temporada, Lineker disse em meio a risadas, durante uma transmissão da BBC:

"O objetivo continua sendo escapar do rebaixamento? Não é chegar à Champions League ou à Liga Europa?" - Gary Lineker

A despretensão de Ranieri àquela altura só lhe permitiu responder, também em meio aos risos, o seguinte:

"Obrigado, Gary, mas não é possível." - Claudio Ranieri

E a partir daí, o torcedor do Leicester viveu um sonho. A piada foi ficando sem graça. E o título se tornou realidade na última segunda-feira com o empate do Tottenham diante do Chelsea, fora de casa. O único que ainda podia alcançar o pequeno clube inglês, sete pontos a frente.

Na 13ª rodada, depois de já ter superado alguns recordes, o Leicester alcançou pela primeira vez a liderança do campeonato. Algo que não acontecia, como você já sabe, desde 2000. A partir daí, o coro dos Foxes foi aumentando e por mais que muitos já considerassem aquilo um feito e tanto, muitos outros desdenhavam do mais novo cavalo paraguaio do futebol mais rico do mundo. Explica-se.

O Leicester tem apenas a 17ª folha salarial dentro os 20 clubes da Premier League. Os 48,2 milhões de libras que o time gasta com salários por ano é apenas um quarto do que o (pen)último campeão, Chelsea, gastava.

Disputar de igual para igual com clubes como o próprio Chelsea, Manchester United, Manchester City, Liverpool e Arsenal não parecia ser algo possível. Quando comparamos outras cifras, a diferença fica mais abissal ainda, a título de informação:

  • O Manchester City tem um elenco avaliado em 514,5 milhões de euros; o Leicester, 100.
  • O Chelsea ganhou 99 milhões de libras com direitos de transmissão no ano passado, em que foi campeão; o Leicester, 71.
  • O Manchester United ganha 53 milhões de libras por ano com patrocínio na camisa; o Leicester 1.

Quando contextualizado, o feito do Leicester no campeonato mais rico do mundo fica ainda mais impressionante. Mas se debruçar em cima de números numa conquista tão humana como essa é quase uma heresia.

O título do Leicester é o título do atacante Jamie Vardy, de 29 anos.

Eleito o melhor jogador da temporada, superando craques consagrados como Agüero, Rooney e Falcão Garcia. Depois de abrir o campeonato estabelecendo um recorde de 11 partidas consecutivas marcando pelo menos um gol, Vardy se manteve em alto nível até o final e ajudou o Leicester na conquista do título. De quebra, o jogador que até os 23 anos jogava na 8ª divisão da Inglaterra e conciliava os gols com o trabalho em uma fábrica de fibras de carbono, chegou pela primeira vez a seleção.

O título do Leicester é o título do treinador Claudio Ranieri, de 64 anos.

O contestado treinador italiano tem muitas façanhas nessa temporada para citarmos. Mas a despeito do seu sistema tático muito bem definido, de seu sistema de defesa sólido, de seu contra-ataque de manual ensinado aos jogadores, o maior mérito de Ranieri foi ser humano. Afinal de contas, nada disso teria sido possível se os jogadores não tivessem se entregado e se doado em cada uma das partidas do campeonato inglês. Ranieri ganhou o vestiário com estratégias como oferecer uma pizza para os jogadores se o time não tomasse gol e terminou o ano cantarolando na entrevista coletiva pós-vaga na Champions League, chorando no gramado depois de uma vitória dramática fora de casa e almoçando com sua mãe durante a conquista inédita.

O título do Leicester é o título do torcedor Tony Skeffington, de 51 anos.

Mesmo sem nunca ter pisado na Inglaterra, o ex-policial australiano, morador de Adelaide, no sul do país, era torcedor fanático do Leicester City desde a adolescência, quando um amigo lhe presenteou com cards dos jogadores do clube. Ao longo dos anos, Tony acompanhou a saga do seu time e chegou a nomear seu gato com o nome do clube, mas descobriu que estava com câncer em março do ano passado. Seu médico lhe deu mais quatro semanas de vida, mas Tony viveu pra ver não só arrancada heroica do time contra o rebaixamento na temporada passada como boa parte da campanha histórica desse ano.

Sua história ganhou as manchetes da Inglaterra e sua família afirma que a campanha do time não só deu gás na luta pela vida que Tony travou nos últimos meses, como deu dinheiro. Depois de apostar 20 dólares australianos no título do clube de coração, Tony viu a quantia aumentar e só resgatou o dinheiro quando já acumulava mais de R$ 95 mil.

As quatro semanas viraram catorze meses e a história do torcedor ilustre virou exemplo. O clube lhe presenteou com uma flâmula autografada pelo elenco, agora, campeão da temporada inglesa. E sua mulher, após a morte, declarou:

“Ele sentou com os três filhos para assistirem juntos ao jogo do Leicester. Ele pulou para cima e para baixo quando Vardy marcou o gol. Tony não estava mais conseguindo andar, o que nos chocou ao vê-lo levantar. Ele não pôde dizer muito, mas sua última voz foi usada assistindo ao jogo do Leicester, vestindo um cachecol do clube. Ele usou todas as suas energias na última partida. Ele estava falando com seus filhos e sua filha sobre a arbitragem e a partida. A partir de então, não se sentiu bem, até seu falecimento. Ele viveu e respirou o Leicester. Torcerá por eles lá de cima agora.” - Donna Skeffington

Com certeza, o pequeno clube inglês perdeu um de seus maiores torcedores, mas ganhou centenas de milhares de fãs espalhados pelo mundo que agora, após o título consumado, voltam suas esperanças para a participação inédita da equipe na Champions League.

Quem duvidar pode se arrepender.

* * *

A 'Mais que um Jogo' é uma série nova do PdH que depende da sua colaboração. Nossa intenção é reunir boas histórias que permeiam ou se aproximam do esporte, mas que o extrapolam e oferecem doses de esperança e lições de superação para todos nós. Foram anos batendo cabeça para encontrar um fórmula perfeita. Meses fazendo tentativas e testes do que rodava melhor. Semanas matutando o que finalmente poderíamos fazer. E uma única noite para decidir que agora é a hora. Chegamos a conclusão que nesse caso, assim como em quase todos os outros, ou a gente coloca as coisas pra funcionar mesmo sem ter certeza de que vai dar certo ou simplesmente as coisas nunca acontecem.

Porém, para funcionar bem, mais do que nunca estamos interessados em ouvir o que vocês têm a dizer. O que vocês têm de diferente para nos contar. Precisamos disso. E eu como caseiro e curandeiro desse nosso novo filhote, estarei mais atento do que nunca às críticas e sugestões que vierem.

Por isso cada caixa de comentários dessa série é também uma caixa de sugestões e o meu email breno@papodehomem.com.br está mais aberto do que nunca para recebê-los.


publicado em 03 de Maio de 2016, 21:53
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Breno França

Novo editor do PapodeHomem, é (quase) formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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