“Olha a sobra! Kanu é perigoso. Entrou, bateu… Acabou… Terminoooouu. Termina o jogo”.
Por mais que tenha narrado duas vitórias brasileiras em Copas do Mundo, Galvão Bueno é sempre maior nas derrotas.
“Quem é que sobe?” (Zidane, 1998) ou “a bola tocada, virou passeio!”
(7 x 1 da Alemanha em 2014).
São mais que memes. São estratagemas da vida brasileira de ponta-cabeça. Acabou é acabou mesmo. Terminou é terminou mesmo. E que passeio é uma cacetada de 7×1. Mas vive aqui, neste Brasil 3 x 4 Nigéria, nas semifinais da Olimpíada de Atlanta, em 1996, o começo de tudo.
Nwankwo Christian Nwosu Kanu é o responsável por uma verve até então pouco explorada no coração brasileiro: o torcedor destruído pelos fatos, pelos gols, pelo choro das crianças sem saber se rasgam ou queimam a camisa excessivamente cara que ganharam dos pais.
Naquela partida em que Kanu surgiu para o mundo, o Brasil tinha em campo Rivaldo, Bebeto, Roberto Carlos, Ronaldo e Dida. Tinha Juninho, tinha Aldair.
Ninguém nos contou que o mundo não era feito só de Brasil.
Perder só era admissível quando fosse para a Argentina. Aí o Galvão ficava puto, falava (e ainda fala) uma porção de bobagem xenófoba e tudo bem. Vida que segue. Bola pra frente. Alguém acharia um pênalti não dado que era impossível de ver e a mentira se reproduziria.
Tenho a impressão que Kanu foi, sem querer, um bastião da realidade. Com os dois gols – o de empate aos 44′ do segundo tempo e, a punhalada final, já na prorrogação -, ele disse com as pernas:”Daqui em diante o Brasil não é mais imbatível. Lidem com isso”.
Ganha um doce qual foi a justificativa dada para a derrota do estádio de Athens. “Estávamos na frente na semifinal contra a Nigéria, por 3 a 1. Faltando dez minutos para o final do jogo, sofremos um apagão. E acabamos perdendo por 4 a 3”.

Sim, um “apagão”. Sempre um azarão. Mas a Nigéria era a atual campeão do mundo na categoria sub-17. Não tinha zebra nenhuma ali.
A fala aí de cima é de Ronaldo, o Fenômeno. Seria a mesma de Parreira e de Felipão em 2014. É a mesma da imprensa que se nega a roer o osso da derrota. Kanu quis avisar – 20 anos atrás – a realidade que vinha. E a gente ficou chupando o dedo pensando no apagão.
Naquele tempo, vencer o Brasil parava o mundo. Girava o planeta num fluxo rápido demais para a internet que engatinhava.

O atacante grandalhão logo foi alçado a esperança mundial. Com o ouro olímpico no peito, Kanu do charmoso Ajax (Holanda) para a Inter de Milão (Itália). Diagnosticado com sérios problemas de coração, faria poucos jogos e apenas um gol.
Mas o Arsenal sempre aposta. O Arsenal é a mãe dos desaventurados do futebol. E lá foi Kanu. Em Londres, com o Gunners, renasceu: 44 gols em 196 jogos.
Kanu, algo como um reserva de luxo de Henry, ganha a Copa da Inglaterra em 2002, uma Copa da Inglaterra em 2003 e o título da Premier League em 2004. É liberado ao final do contrato sem custos ao West Bromwich.
A paixão moraria com o Arsenal para sempre: em 2008, o nigeriano é votado como o décimo terceiro no “Gunners’ Greatest 50 Players”.
Ao Guardian, Kanu escreveu:
“Eu volto para a Nigéria agora e ainda vejo a molecada jogando futebol nas ruas, exatamente como eu fazia. A diferença é que agora as pessoas sabem ver que os jogadores nigerianos chegaram lá e, hoje em dia, todo mundo quer jogar futebol.
As crianças veem o que o futebol pode fazer por elas: ‘Eu quero fazer o que o Kanu fez'”.
Crianças nigerianas, sei que parece loucura, mas é preciso dizer. O simpático e cuidadoso jogador de futebol que é ídolo nacional destruiu a noção de invencibilidade para uma geração inteira de brasileiros.
E isso era mais do que necessário.

Kanu deveria ser ídolo brasileiro. Com direito a altar e festa todo 27 de julho.
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